Do Imperium Romano ao “Império Trump”: continuidades e rupturas no exercício do poder
Comparar o imperium romano com aquilo que muitos analistas chamam, de forma metafórica, de “império de Donald Trump” pode parecer, à primeira vista, um exercício anacrónico. No entanto, quando observamos os modos de operação do poder, surgem paralelos reveladores — não tanto na forma institucional, mas na lógica moral, jurídica e geoestratégica que sustenta a dominação.
1. Virtude pública versus moral instrumental
O Império Romano construiu parte da sua legitimidade sobre um discurso moral relativamente coerente para a época: virtus, honor, disciplina e pietas eram valores exaltados como fundamentos da ordem imperial. Embora muitas vezes violados na prática, esses princípios funcionavam como horizonte ético comum, servindo para justificar conquistas, punir excessos e integrar elites locais.
Já o “império Trump” — entendido aqui como um projeto de poder personalista, nacionalista e mediático — opera segundo uma moral instrumental e situacional. A ética deixa de ser um valor estruturante e passa a ser uma ferramenta retórica: o que é “bom” ou “justo” depende do alinhamento com os interesses imediatos do líder ou do grupo político. O discurso moral é frequentemente substituído pela lógica do sucesso, da força e da lealdade pessoal, ecoando mais o final decadente da República Romana do que o seu período clássico.
Enquanto Roma buscava projetar uma imagem de civilização superior, Trump enfatiza a ideia de vitória, mesmo que à custa de normas éticas tradicionais, alianças históricas ou consensos democráticos.
2. Direito como estrutura vs. direito como obstáculo
O direito romano foi uma das maiores contribuições do Império à história ocidental. Mesmo sendo frequentemente desigual e elitista, o sistema jurídico romano funcionava como instrumento de coesão, previsibilidade e administração imperial. A lei não era apenas um mecanismo de repressão, mas uma linguagem comum que permitia governar vastos territórios.
No caso do “império Trump”, observa-se uma relação ambígua — e por vezes hostil — com o direito. As instituições legais são frequentemente tratadas como entraves ao poder, e não como sua base de legitimidade. Tribunais, imprensa, organismos internacionais e regras eleitorais são desacreditados quando não produzem resultados favoráveis.
Aqui surge um contraste fundamental:
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Roma expandia o direito para consolidar o império;
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Trump tenta flexibilizar, contornar ou deslegitimar
o direito para preservar o poder.
Esse modus operandi aproxima-se mais de uma lógica pré- imperial, baseada no chefe carismático, do que de um império institucionalizado.
3. Expansão integradora vs. transacionalismo agressivo
Do ponto de vista geoestratégico, Roma praticava uma expansão militar acompanhada de integração económica. Estradas, impostos, comércio e cidadania eram instrumentos para transformar territórios conquistados em partes funcionais do império. A guerra era meio; a estabilidade, o fim.
O “império Trump”, por sua vez, adota uma abordagem transacional e de soma zero. Alianças não são vistas como investimentos estratégicos de longo prazo, mas como contratos renegociáveis. A economia torna-se arma geopolítica direta: tarifas, sanções e chantagem substituem a diplomacia clássica.
Enquanto Roma procurava garantir rotas comerciais e estabilidade regional, Trump privilegia ganhos económicos imediatos, mesmo que isso gere instabilidade sistémica. A lógica imperial romana era expansiva e integradora; a lógica trumpista é defensiva, competitiva e fragmentadora.
Conclusão
O imperium romano, apesar da violência e da desigualdade, era sustentado por uma visão relativamente coerente de ordem, direito e civilização. O “império de Donald Trump”, em contraste, representa uma forma contemporânea de poder imperial desinstitucionalizado, altamente personalista e orientado por interesses imediatos.
Se Roma caiu quando deixou de acreditar nas suas próprias instituições, a grande questão que se coloca hoje é se as democracias modernas conseguem resistir a um modus operandi que, embora poderoso no curto prazo, mina silenciosamente os fundamentos éticos, legais e estratégicos que sustentam qualquer sociedade humana digna e duradoura.
Francisco Vaz
5 de Janeiro de 2026
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