A Doutrina “Donroe” Deve Basear-se na Contenção, Não na Intervenção
James Holmes — Proceedings, janeiro de 2026
O autor apresenta quatro orientações para aplicar a chamada “Doutrina Donroe”, inspirada na Doutrina Monroe. Na sua conferência de imprensa na Flórida, após a operação relâmpago contra o regime de Nicolás Maduro em Caracas, o Presidente Donald Trump voltou a invocar a Doutrina Monroe como princípio duradouro da política externa dos EUA, afirmando mesmo que a sua administração tinha “superado largamente” a formulação original de 1823.
Se assim for, é necessária extrema prudência. A diplomacia norte-americana dirige-se a múltiplos públicos, internos e externos, e deve legitimar as suas ações junto do maior número possível, evitando ofender desnecessariamente aliados. Primeiro, é essencial ser preciso quanto aos objetivos e ao alcance do poder dos EUA.
As memórias do intervencionismo norte-americano entre as décadas de 1910 e 1930 permanecem vivas na América Latina, enquanto a literacia histórica nos próprios EUA é limitada. Se a administração Trump pretende fundamentar a sua política externa em princípios históricos, os decisores devem conhecer profundamente a história da Doutrina Monroe. Caso contrário, a retórica fica vazia.
A nova Estratégia de Segurança Nacional proclama um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, definido como “preeminência americana no Hemisfério Ocidental”. Este conceito é ambíguo e facilmente abusável. Theodore Roosevelt, autor do corolário de 1904, orgulhava-se precisamente de ter intervindo pouco na América Latina. O minimalismo deve orientar a ação. Operações como a derrubada de Maduro geram inevitavelmente controvérsia, e uma linguagem imprecisa amplifica reações negativas.
A Doutrina Monroe nunca significou “controlo dos Estados Unidos sobre o hemisfério”. No início do século XX, o ministro argentino Luis Drago elogiou a política tradicional dos EUA por condenar a opressão europeia sem procurar dominação regional. A Doutrina Monroe era, então, um instrumento de defesa contra a opressão externa, não uma justificação para a opressão norte-americana — e assim deveria continuar a ser. A
contenção deve ser o alicerce da Doutrina Donroe.
Segundo, a Doutrina Monroe visava impedir a apropriação territorial por potências externas. Hoje, embora China, Rússia e Irão sejam atores ativos no Caribe, não há sinais claros de que venham a adquirir território no hemisfério. Este facto distingue profundamente o contexto atual daquele do século XIX. A atenção deve centrar-se no território, não na influência difusa.
Terceiro, os EUA devem seguir um “Juramento de Hipócrates”: não causar danos. Após derrubar Maduro, não faz sentido apoiar figuras do próprio regime para governar o país durante a transição. A vontade eleitoral dos venezuelanos é conhecida e foi reafirmada em 2024, quando Edmundo González venceu de forma expressiva, apesar da repressãodo regime. Se forem necessárias novas eleições, devem ser livres e imediatas; caso
contrário, deve respeitar-se o resultado existente.
Quarto, se os EUA supervisionarem a transição venezuelana, esta deve ser curta e liderada pelos próprios venezuelanos. A Estratégia de Segurança Nacional rejeita a dominação americana no hemisfério — e essa rejeição deve ser levada a sério.
Francisco Vaz
21 de Janeiro de 2026
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