Islão, literalismo e modernidade: um debate necessário
No Ocidente, discutir criticamente o Islão continua a ser um exercício desconfortável. Entre o receio de alimentar preconceitos e a tentação de relativizar tudo em nome da tolerância, o debate público acaba muitas vezes por evitar a questão central: a tensão entre textos religiosos antigos, leituras literalistas e os princípios e valores das sociedades modernas.
O Islão distingue-se por possuir um vasto corpo de fontes — Alcorão, Sunna e literatura jurídica — que regulam não apenas a vida espiritual, mas também comportamentos sociais, jurídicos e políticos. A vida e as ações de Maomé foram extensivamente registadas e transformadas em modelo normativo. Essa riqueza documental é historicamente relevante, mas torna-se problemática quando é lida de forma literal e aplicada fora do contexto em que surgiu.
Importa fazer uma distinção essencial: a maioria dos muçulmanos vive a religião de forma ritual, espiritual e cultural, sem qualquer ambição de impor um modelo político ou jurídico religioso. O problema não é o Islão enquanto fé, mas o islamismo político — a tentativa de transformar uma religião numa ideologia totalizante, que subordina a sociedade, a lei e os direitos individuais a uma interpretação rígida dos textos sagrados.
Negar que certas leituras desses textos legitimam desigualdades de género, hierarquias religiosas ou rejeição do pluralismo não ajuda o debate. Quando essas leituras são elevadas a programa político, aproximam-se de formas clássicas de totalitarismo: uma verdade única, imune à crítica, que não admite dissidência.
Historicamente, o Islão nasceu num contexto tribal do século VII. Pretender reproduzir esse modelo no século XXI ignora mais de mil anos de História. Nenhuma religião — cristianismo, judaísmo ou islão — sobreviveu no mundo moderno sem processos de adaptação, crítica interna e separação entre fé e lei civil.
Também é essencial distinguir religião de civilização. A civilização islâmica produziu ciência, filosofia, arte e pensamento jurídico de enorme valor. Reduzir a identidade islâmica a uma aplicação rígida da sharia é negar essa herança plural — precisamente o que fazem os movimentos salafistas.
O futuro do Islão nas sociedades democráticas não passa pela negação nem pelasacralização absoluta, mas pela sua integração num espaço onde a lei comum, a razão crítica e os direitos fundamentais prevalecem. Enquanto houver quem procure reconstruir literalmente a comunidade política de Maomé como modelo obrigatório, a violência continuará a ser uma possibilidade real.
Evitar este debate não é tolerância; é abdicação intelectual. Enfrentá-lo com rigor, distinções claras e respeito pelas pessoas é a única forma de impedir que o espaço público seja dominado pelos extremos.
Francisco Vaz
12/01/20226
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