Narrativa de sentido
A reflexão sobre a origem do universo, exige que se compreenda o mito não como ficção ilusória, mas como forma própria de conhecimento. O mito é uma narrativa fundadora, estruturada por arquétipos e imagens simbólicas, que visa exprimir aquilo que não pode ser plenamente captado pelo discurso conceptual ou científico. Ele situa-se no “tempo das origens”, esse horizonte que escapa à experiência empírica e ao controlo humano.
No caso cristão, o relato da criação presente no livro do Génesis (Gn 1–11) constitui um mito de origem no sentido mais pleno: não pretende competir com a cosmologia científica, mas oferecer uma interpretação totalizante da realidade. A expressão inaugural — “No princípio” — não indica apenas um ponto cronológico inicial; designa o fundamento ontológico de tudo o que existe. O universo não surge do acaso cego, mas de um acto criador livre e intencional de Deus.
1. O mito como intuição unitária da totalidade
Segundo o texto, o mito é fruto de uma intuição profunda, não redutível nem à imaginação pura nem ao raciocínio dedutivo. O mitógrafo apreende numa visão unitária a totalidade do real e exprime-a por meio de imagens articuladas numa narrativa coerente. Assim, no mito cristão da criação, elementos como a luz, o caos primordial, o jardim, a árvore, o homem e a mulher, a serpente, não são fragmentos isolados; constituem uma rede relacional que só adquire sentido na totalidade do relato.
A criação em sete dias, por exemplo, não é uma cronologia científica, mas uma estrutura simbólica que revela ordem, distinção e harmonia. O caos é vencido pela palavra divina; a luz separa-se das trevas; as águas são delimitadas; a terra torna-se fértil. O universo aparece como cosmos — isto é, como ordem significativa.
2. Criação como relação e dependência radical
O mito cristão afirma que o mundo tem origem na palavra criadora de Deus. Isso significa que o ser do universo é relacional: não é absoluto em si mesmo, mas recebido. A criatura não se funda a si própria; é chamada à existência.
Esta dimensão relacional manifesta-se de modo particular no ser humano, criado “à imagem e semelhança” de Deus. A humanidade é apresentada como sexuada, comunitária e responsável. A diferença homem-mulher, a vocação ao cuidado da terra, a liberdade capaz de obedecer ou transgredir — tudo isso aparece como estrutura constitutiva da existência.
O mito, portanto, não explica apenas “como” o universo começou, mas “o que significa” existir. Ele interpreta a finitude, a mortalidade, o trabalho, o sofrimento e a esperança como dimensões que remontam ao tempo primordial.
3. O carácter etiológico e existencial do mito
Os mitos de origem são relatos etiológicos: explicam o presente remetendo-o ao princípio. No caso de Gn 2–3, o drama da transgressão ilumina a experiência universal da ambiguidade humana: desejo de plenitude e simultânea ruptura; aspiração ao bem e experiência do mal.
A árvore da vida, a árvore do conhecimento, a serpente e a nudez não são simples imagens isoladas; são nós simbólicos que condensam questões fundamentais: liberdade, limite, responsabilidade, vulnerabilidade. O sentido não reside numa frase particular, mas na totalidade narrativa que comunica uma visão integrada da condição humana.
4. O mito cristão e a verdade
Importa sublinhar que o mito, no seu sentido originário (como já em Homero ou em Platão), não significava necessariamente falsidade. Era discurso portador de verdade. O mito cristão da criação afirma uma verdade religiosa: o universo tem fundamento no amor criador de Deus; o ser humano é querido e chamado à comunhão; o mal não é originário, mas resultado de uma liberdade ferida.
A verdade do mito não é experimental, mas existencial e simbólica. Ele não substitui a ciência; responde a outra ordem de questões — aquelas que dizem respeito ao sentido último.
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