Pecado original

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Pandora Explica Tudo

 E a Culpa Continua a Ser Minha

Quando a mulher nos recomenda, com firmeza olímpica, que vamos “para o raio que nos parta”, talvez o mais prudente seja não responder à letra, mas respirar fundo e lembrar um velho mito grego. Não por erudição defensiva, mas porque, segundo os antigos, esta cena doméstica começou muito antes de qualquer discussão conjugal. Começou no Olimpo, quando Prometeu decidiu favorecer a humanidade e irritar solenemente Zeus.

Até à intervenção de Prometeu, os homens viviam como formigas em cavernas: olhavam sem ver, ouviam sem escutar, não sabiam construir, plantar, cozinhar. Foi o titã quem lhes entregou o fogo e as técnicas, inaugurando a civilização. De súbito, os humanos tornaram-se algo intermédio entre os animais e os deuses: frágeis, mas engenhosos; mortais, mas criativos. Zeus, porém, não aprecia ser enganado. Esconde o fogo; Prometeu rouba-o. Esconde o trigo; os homens passam a trabalhar arduamente para obter pão. A guerra de astúcias continua. E quando Zeus sente que ainda não humilhou suficientemente o adversário, solta uma gargalhada e anuncia o terceiro ato.

Convoca então uma espécie de gabinete criativo divino: Hefesto, o artesão coxo e genial; Atena, mestra das artes e dos tecidos; Afrodite, especialista em sedução; Hermes, perito em palavras doces e truques rápidos. A ordem é clara: fabricar uma parthénos, uma jovem mulher pronta para o casamento. Não uma deusa para o Olimpo, mas um “presente” destinado exclusivamente aos mortais.

Hefesto molda argila com água e cria uma figura de feições graciosas. Atena veste-a com um manto luminoso e coloca-lhe um véu que desce de um diadema trabalhado com todos os animais do mundo — pássaros, peixes, feras. Afrodite insufla-lhe charme irresistível, aquela kháris que deslumbra e desarma. Hermes acrescenta-lhe voz humana, astúcia e a capacidade subtil de dizer meias-verdades com um sorriso inteiro. O resultado é descrito como uma maravilha de se ver: deslumbrante o suficiente para suspender o juízo crítico de qualquer mortal.

Nasce assim Pandora, luminosa como Afrodite, mas com uma sombra herdada da Noite. Encanta e inquieta. Atrai e desorganiza. E, sobretudo, introduz no mundo humano uma novidade decisiva: a ambivalência permanente.

Prometeu percebe imediatamente o perigo. O seu nome significa “aquele que prevê”. Avisa o irmão, Epimeteu — “aquele que percebe tarde demais” — para que não aceite qualquer presente dos deuses. Epimeteu promete que não cairá na armadilha. Mas diante da beleza radiante da recém-chegada, a prudência evapora-se. A história humana, sugerem os gregos com ironia cruel, começa nesse instante de deslumbramento.

Os relatos mais antigos, como os atribuídos a Hesíodo, não poupam caricaturas. Pandora e a descendência feminina são descritas como portadoras de um apetite insaciável — alimentar, material, até sexual. Enquanto os homens suam nos campos para arrancar trigo à terra, as mulheres, dizem eles, guardam o interior da casa e consomem a colheita. A comparação com a colmeia é mordaz: de um lado, abelhas operárias; do outro, zangões que desfrutam do mel. A sedução seria, nessa leitura enviesada, uma estratégia para garantir acesso ao celeiro.

Mas o mito não se esgota na sátira. A mesma figura que devora recursos é também a única capaz de gerar filhos. O ventre que consome é o ventre que cria. A mulher é descrita como fogo: aquece, ilumina, mas também queima e desgasta. Se Prometeu roubou o fogo do céu, Zeus introduziu um fogo dentro das casas. A metáfora é clara e desconfortável: o casamento civiliza, distingue os homens dos animais, institui laços duradouros — e ao mesmo tempo inaugura um campo permanente de tensões.

É aqui que o mito revela a sua inteligência. Pandora não é apenas punição; é condição humana. Representa a contradição essencial da nossa existência: somos seres que planeiam e preveem, mas falham; que desejam estabilidade, mas se deixam seduzir pelo brilho; que trabalham para acumular e, ao mesmo tempo, precisam gastar, amar, gerar. Oscilamos entre a prudência prometeica e a distração epimeteica.

Permitam-me, porém, uma confissão pessoal. Ao cabo de mais de quarenta anos de casamento, continuo sem saber exatamente onde fica esse misterioso destino para onde sou eventualmente enviado. O tal “raio que te parta” permanece geograficamente indeterminado. Não consta nos mapas, não surge no GPS, não aparece nas aplicações meteorológicas. O que me leva, por vezes, a duvidar da minha própria sanidade mental: estarei eu a falhar uma coordenada essencial? Será um território mítico, reservado a maridos distraídos? Ou uma dimensão paralela onde Zeus continua a rir?

Deixo, por isso, um conselho aos mais jovens — potenciais noivos, futuros maridos, companheiros cheios de esperança: antes de dar o nó, descubram onde fica o “raio que te parta”. Façam essa diligência pré-nupcial com o mesmo afinco com que escolhem o local da lua de mel. Informem-se, estudem o terreno, preparem um mapa. Porque, no momento exato em que forem diplomaticamente convidados a visitá-lo, pode muito bem revelar-se um lugar mais acolhedor do que o “lar doce lar” em ebulição.

No fundo, talvez seja esse o último requinte da vingança de Zeus: não apenas enviar Pandora, mas deixar-nos eternamente à procura de um lugar que nunca encontramos — enquanto regressamos sempre, disciplinados e ligeiramente chamuscados, ao fogo doméstico que nos aquece e nos consome.


Francisco Vaz

23 de Fevereiro de 2026

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