Pecado original

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A ficção

 linguagem simbólica para inventar a realidade

O ser humano vive entre aquilo que encontra e aquilo que imagina. Habita um mundo de coisas, mas também de significados: reconhece uma casa como abrigo, um rosto como promessa, uma ausência como perda. A realidade humana começa a ganhar espessura quando a experiência encontra uma forma simbólica que a torna compreensível e partilhável.

O pensamento de José María Merino ajuda-nos a perceber essa dimensão constitutiva da ficção. No seu ensaio sobre realidade e ficção, os mitos e os contos aparecem como formas originárias de organizar o conhecimento de nós próprios e do mundo. A narrativa participa, assim, na formação da consciência humana: permite dar figura ao medo, interrogar a morte e reconhecer um destino na sucessão dos acontecimentos. (ull.es⁠)

À luz desta perspetiva, inventar a realidade significa criar possibilidades de a compreender e de a habitar. Uma personagem nunca existiu e, contudo, pode revelar-nos um conflito que ainda não sabíamos nomear. Um acontecimento imaginário pode tornar visível uma verdade da experiência. A ficção aproxima-nos dessa região em que os factos, por si só, deixam perguntas em aberto.

Podemos pensar a humanidade através de quatro grandes modos de expressão simbólica: a ficção, a música, a pintura e a aritmética. A imaginação atravessa todos eles; na ficção, encontra a forma particular de criar personagens, acontecimentos e mundos possíveis. Esta aproximação constitui uma proposta de leitura, sem pretender estabelecer uma classificação universal ou atribuí-la a Merino.

A música organiza o som e o silêncio, dando uma forma sensível ao tempo. Uma melodia pode fazer-nos experimentar a espera, a inquietação ou a reconciliação sem precisar de as nomear. A pintura transforma a visão: pela cor, pela composição e pela luz, ensina-nos a descobrir relações que o olhar quotidiano deixava escapar. A aritmética exprime quantidades e relações, permitindo reconhecer uma ordem que ultrapassa cada objeto concreto. A ficção organiza possibilidades da existência: põe em relação desejos, decisões e consequências.

Em todas estas linguagens, o símbolo permite ir além da presença imediata das coisas. Mas cada uma tem os seus critérios. A liberdade de inventar uma personagem não dispensa a coerência narrativa, tal como a imaginação matemática não dispensa a demonstração. Criar exige dar forma; e dar forma exige aceitar limites.

É também por isso que a ficção tem uma força ética. Ao acompanhar uma personagem, somos convidados a deslocar o centro da nossa atenção. Entramos numa vida diferente da nossa, sentimos a pressão das suas circunstâncias e descobrimos motivos que um julgamento apressado ignoraria. Compreender esses motivos mantém aberta a questão da responsabilidade: torna-a mais exigente.

No romance histórico, esta experiência adquire uma profundidade particular. O conhecimento documental estabelece o horizonte dos acontecimentos; a imaginação procura dar corpo à experiência de quem os viveu. Entre ambos nasce a possibilidade de sentir o passado como um presente incerto, povoado por pessoas que desconheciam o desfecho da sua própria história.

A ficção pede, porém, uma vigilância. A capacidade de inventar também pode alimentar a manipulação, o preconceito e as narrativas que fecham o mundo numa única explicação. A literatura conserva a sua fecundidade quando permite interrogar as histórias que contamos, incluindo aquelas em que assentamos a nossa identidade.

Inventar a realidade é, então, participar na construção do seu sentido. Pela ficção, ensaiamos vidas, reconhecemos feridas e antecipamos escolhas. Descobrimos que o mundo vivido contém possibilidades ainda sem nome — e que algumas começam a existir para nós quando alguém encontra palavras para as contar.

Francisco Vaz

30 de setembro de 2026


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