Pecado original

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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Messiaen e Lavelle

duas respostas à mesma inquietação

Há épocas em que a filosofia e a arte parecem nascer da mesma ferida. O século XX foi uma delas.

Louis Lavelle e Olivier Messiaen pertencem a mundos aparentemente distintos. Um pensa através do conceito; o outro pensa — porque também há pensamento na música — através do som. Um procura compreender o ser; o outro procura torná-lo audível. Mas ambos atravessaram um século em que a barbárie atingiu uma dimensão que parecia tornar impossível continuar a falar de Deus, do Bem ou mesmo da dignidade do homem sem enfrentar primeiro uma pergunta terrível: como pode o mal existir num mundo criado por um Deus bom?

Talvez ambos tenham escutado, cada um à sua maneira, a antiga interrogação de Job.

Job não compreende. E, sobretudo, não recebe uma explicação proporcional ao sofrimento que suporta. Quando Deus finalmente lhe responde, não lhe apresenta uma teoria do mal. Mostra-lhe a Criação. Fala-lhe da terra, do mar, das estrelas, dos animais, da ordem misteriosa de um universo infinitamente maior do que a experiência individual do sofrimento.

É uma resposta desconcertante.

Mas talvez seja precisamente aí que Lavelle e Messiaen se aproximam.

O mal não tem a última palavra sobre o ser

Lavelle conheceu diretamente a violência do seu tempo. Prisioneiro durante a Primeira Guerra Mundial, desenvolveu uma filosofia que recusava transformar o mal numa substância equivalente ao bem. O ser precede o mal. O mal não é fundamento; é possibilidade ligada à liberdade.

Esta distinção é decisiva.

Se Deus criou o ser e o ser é originariamente participação no Bem, então a existência do mal não demonstra necessariamente uma deficiência da Criação. Obriga antes a perguntar pelo uso que o homem faz da liberdade que recebeu.

É aqui que a ontologia se torna ética.

O homem não é simplesmente uma criatura colocada passivamente dentro de um universo acabado. Participa no ser através dos seus atos. Cada decisão é, de certo modo, uma resposta à existência que lhe foi dada.

A liberdade deixa então de significar apenas «poder escolher». Torna-se responsabilidade pelo mundo que ajudamos continuamente a fazer existir.

Messiaen chegou a uma resposta surpreendentemente próxima, embora por outro caminho.

Em 1940 foi capturado pelo exército alemão e enviado para o Stalag VIII-A. Ali, no interior de uma Europa que parecia ter transformado a técnica, a organização e a racionalidade em instrumentos de destruição, compôs o Quatuor pour la fin du Temps.

O gesto possui uma extraordinária força filosófica.

Messiaen não respondeu à barbárie compondo uma música sobre a barbárie.

Respondeu falando da eternidade.

Enquanto à sua volta o homem construía campos, fronteiras, prisões e máquinas de guerra, Messiaen procurava musicalmente aquilo que nenhuma dessas realidades podia aprisionar: o tempo transfigurado pela eternidade.

Não era fuga do mundo.

Era uma recusa em conceder ao mal a dignidade ontológica de última realidade.

Job diante do século XX

É aqui que Job regressa.

A pergunta habitual é: onde estava Deus?

Mas talvez Lavelle e Messiaen nos obriguem a acrescentar outra pergunta, mais incómoda:

onde estava o homem?

Esta deslocação não absolve Deus através de uma fórmula fácil. Muito menos diminui o escândalo do sofrimento inocente. Introduz, porém, a responsabilidade humana no centro da questão.

Grande parte da barbárie do século XX não aconteceu porque Deus tivesse criado mal o mundo. Aconteceu através de decisões humanas: ideologias transformadas em absolutos, Estados que reduziram pessoas a categorias, burocracias que tornaram a morte administrativa, técnicas colocadas ao serviço da destruição e homens que aceitaram obedecer quando deveriam ter recusado.

É neste ponto que a ontologia se torna política.

Porque nenhuma política é verdadeiramente neutra relativamente à ideia que possui do homem.

Quando o homem deixa de ser entendido como pessoa e passa a ser apenas raça, classe, número, inimigo, produtor, consumidor ou instrumento do Estado, a violência deixou já de ser um acidente político. Tornou-se consequência de uma determinada antropologia.

Antes dos campos houve ideias.

Antes das câmaras de gás houve palavras.

Antes da eliminação física houve a redução ontológica do outro.

Por isso, a questão política fundamental talvez seja anterior à própria política:

o que é o homem?

Uma antropologia da responsabilidade

Lavelle responderia que o homem é um ser que participa no Ser através da liberdade.

Messiaen acrescentaria talvez, através da sua música, que o homem é também um ser aberto ao que o ultrapassa.

Estas duas afirmações convergem.

O homem não é Deus. Mas também não é apenas matéria organizada, vontade de poder ou produto das circunstâncias históricas. É um ser capaz de transcender o instante, julgar os próprios atos e responder por eles.

Daí nasce a ética.

O mal torna-se possível precisamente porque existe liberdade. Mas é também pela liberdade que o homem pode interromper o mal.

Entre a ordem recebida e a ordem executada existe uma consciência.

Entre a ideologia e o crime existe uma decisão.

Entre o poder e a vítima existe sempre, algures, a possibilidade de alguém dizer não.

Talvez seja esta uma das grandes lições antropológicas do século XX.

A dignidade humana não reside apenas naquilo que o homem é, mas também na sua capacidade de responder pelo que faz.

Duas formas de resistência

Lavelle e Messiaen recusaram, assim, duas tentações simétricas.

A primeira seria concluir que, perante Auschwitz, as guerras e os totalitarismos, Deus não existe ou abandonou definitivamente a história.

A segunda seria transformar Deus numa explicação cómoda que retirasse ao homem a responsabilidade pelo mal.

Nenhum dos dois caminhos lhes bastava.

Lavelle respondeu aprofundando a participação no Ser.

Messiaen respondeu procurando musicalmente a eternidade.

Um escreveu filosofia.

O outro escreveu música.

Mas ambos parecem dizer:

o mal existe, mas não é o Ser.

Esta afirmação é simultaneamente ontológica, ética e política.

Ontológica, porque o mal não constitui o fundamento último da realidade.

Ética, porque obriga o homem a escolher entre participar no bem ou introduzir a negação no mundo.

Política, porque nenhuma instituição, Estado ou ideologia pode reivindicar para si a totalidade do ser humano.

E é também profundamente antropológica: o homem é suficientemente livre para destruir, mas também suficientemente livre para resistir à destruição.

A resposta de Deus

Talvez seja então possível voltar uma última vez ao Livro de Job.

Quando Job exige uma explicação, Deus mostra-lhe o universo.

Talvez não esteja a evitar a pergunta.

Talvez esteja a mudar-lhe a escala.

Olha.

O mundo é maior do que o teu sofrimento.

O ser é maior do que o mal.

A Criação não termina naquilo que os homens fizeram dela.

Lavelle procurou dizer isto filosoficamente.

Messiaen procurou fazê-lo ouvir.

E talvez seja por isso que, no meio de um campo de prisioneiros, pôde nascer uma música sobre o fim do tempo.

Não porque Messiaen ignorasse a história, mas porque se recusava a acreditar que a história fosse tudo.

A transcendência deixa então de ser evasão. Torna-se resistência.

Resistir ao mal significa recusar-lhe a última palavra.

E essa talvez seja a inquietação comum a Lavelle e Messiaen: se Deus criou tudo bom, então a pergunta decisiva não é apenas por que razão Deus permite o mal, mas o que fazemos nós, seres livres, com o bem que nos foi confiado.

Job pergunta a Deus.

Lavelle responde com o Ser.

Messiaen responde com a eternidade.

E ambos devolvem finalmente a pergunta ao homem.

Francisco Vaz

24 de setembro de 2026

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