Causa próxima, causa remota e causa justa: uma leitura ética e política da invasão Russa da Ucrânia
A invasão russa da Ucrânia exige uma análise que ultrapasse tanto a descrição factual como a explicação meramente estratégica. Para tal, é decisivo clarificar previamente o significado de ética e política, pois a confusão entre estes domínios compromete qualquer juízo sério sobre causas, responsabilidades e legitimidade.
Entendida na sua aceção clássica, a ética remete para o êthos: o modo de ser, o caráter e a interioridade de onde brotam os atos humanos. A ética é, assim, o domínio originário da ação humana, inseparável da ontologia do ser humano enquanto agente racional e livre. Não se trata de um código externo de normas, mas da realidade interior a partir da qual o agir se torna possível. Uma ética desligada desta fundamentação ontológica não possui substância real.
A política nasce quando essa ação, originada na interioridade ética, transcende o indivíduo e entra em relação com outra entidade igualmente ética. A política é, portanto, o domínio do encontro entre éticas distintas, o espaço relacional onde ações humanas se cruzam, colidem ou cooperam. Toda a relação, enquanto relação, é essencial e substancialmente política. Neste sentido rigoroso, a política não é um campo separado da ética, mas a sua projeção relacional necessária.
É neste enquadramento que a distinção entre causa próxima, causa remota e causa justa adquire pleno significado.
A causa próxima da guerra na Ucrânia é clara: a decisão consciente da liderança russa de ordenar a invasão militar de um Estado soberano. Trata-se de um ato humano concreto, oriundo de uma interioridade ética específica e traduzido numa ação política efetiva. Sem essa decisão, nenhuma circunstância histórica teria produzido a guerra naquele momento. A causa próxima é, assim, simultaneamente ética na sua origem e política no seu efeito.
A causa remota corresponde ao conjunto de condições antecedentes que moldam o contexto da ação: heranças históricas, rearranjos geopolíticos, perceções de ameaça, disputas identitárias e estruturas institucionais. Estas causas não são irrelevantes, mas a sua função é limitada. Elas configuram o campo do possível, sugerem fins, orientam expectativas — aproximando-se do papel de causas formais ou finais —, mas não determinam a ação. Nenhuma causa remota é causa eficiente. A transformação da possibilidade em ato exige sempre uma decisão humana concreta.
A tendência moderna para explicar conflitos quase exclusivamente por “causas profundas” ou “estruturais” acaba por obscurecer este ponto decisivo: não são as estruturas que agem, mas os homens. Atribuir a guerra a abstrações impessoais é dissolver a responsabilidade ética na linguagem do inevitável. Tal operação é intelectualmente sedutora, mas filosoficamente falaciosa.
A causa justa situa-se no mesmo domínio ético de onde provém a causa próxima, mas introduz um critério adicional: o da retidão moral da ação. Uma ação pode ter causas próximas e remotas perfeitamente inteligíveis e, ainda assim, ser eticamente injustificável. A causa justa não nasce da eficácia política nem da coerência estratégica, mas da conformidade da decisão com a razão moral, com a proporcionalidade dos meios e com o respeito pela dignidade humana.
As justificações apresentadas pela Federação Russa — autodefesa preventiva, proteção de populações ou correção de alegadas injustiças históricas — falham neste ponto essencial. Mesmo admitindo a existência de causas remotas relevantes, a decisão de recorrer à violência armada em larga escala, violando a soberania de outro Estado e infligindo sofrimento massivo a populações civis, não encontra fundamento ético legítimo.
Em síntese, a distinção entre causa próxima, causa remota e causa justa só é plenamente compreensível quando se reconhece que toda a ação política tem origem ética. A política é o espaço relacional das ações humanas; a ética é a sua fonte ontológica.
Explicar um conflito é um exercício político necessário; justificá-lo é um juízo ético exigente. Confundir estes planos — ou reduzir a ética a um produto das circunstâncias políticas — conduz à normalização da violência e à erosão da responsabilidade humana.
A guerra, longe de ser um destino imposto pelas estruturas, é sempre o resultado de uma escolha. Escolha humana, o mesmo é dizer, ética.
Francisco Vaz
13 de Janeiro de 2026