Pecado original

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Entre a Península e o Ártico

Entre a Península e o Ártico: apetites territoriais e lógica do poder

A história política é atravessada por desejos de expansão que, embora se manifestem em épocas e geografias distintas, obedecem a lógicas recorrentes. A comparação entre o apetite de Castela sobre Portugal na Península Ibérica e o interesse manifestado por Donald Trump na aquisição da Gronelândia revela continuidades profundas na forma como potências percebem território, soberania e utilidade estratégica, ainda que

enquadradas por contextos políticos radicalmente diferentes.

Na Península Ibérica medieval e moderna, Castela via Portugal como uma anomalia geopolítica: um reino independente, culturalmente próximo, territorialmente contíguo e, em muitos momentos, militarmente mais frágil. Desde cedo, a ideia de uma Hispânia unificada — política, religiosa e dinasticamente — alimentou tentativas explícitas e implícitas de absorção portuguesa. O auge desse apetite ocorreu com a crise dinástica

de 1580, quando Filipe II de Castela anexou Portugal, inaugurando a União Ibérica (1580–1640). A justificação não foi apenas militar ou sucessória, mas estratégica: controlar o império ultramarino português, eliminar rivalidades internas e consolidar Castela como potência hegemónica europeia.

O discurso castelhano raramente se apresentava como conquista pura. Pelo contrário, era revestido de linguagem de “ordem natural”, continuidade dinástica e benefício mútuo. Portugal era visto menos como um sujeito soberano pleno e mais como uma peça que “fazia sentido” integrar num todo maior. O apetite castelhano, portanto, não era apenas territorial; era simbólico e civilizacional.

Séculos depois, o interesse de Donald Trump pela Gronelândia — território autónomo pertencente ao Reino da Dinamarca — surgiu, à primeira vista, como uma excentricidade política. No entanto, analisado com maior profundidade, esse desejo encaixa numa lógica clássica de poder. A Gronelândia possui localização estratégica no Ártico, vastos recursos naturais, potencial militar e crescente importância num contexto

de degelo polar e competição entre grandes potências. O “apetite” norte-americano não se expressou por meio de conquista, mas pela linguagem da compra, típica de uma mentalidade empresarial aplicada à geopolítica.

Tal como Castela em relação a Portugal, Trump tratou a Gronelândia menos como uma comunidade política com identidade própria e mais como um ativo estratégico subaproveitado. A soberania dinamarquesa e a autonomia groenlandesa foram, nesse discurso, secundarizadas em favor de uma lógica utilitária: se o território é valioso e outro ator pode explorá-lo melhor, então a sua transferência torna-se “racional”. A diferença crucial reside no enquadramento institucional contemporâneo, que torna tal apetite politicamente inviável, mas não intelectualmente inédito.

A comparação evidencia uma continuidade essencial: o poder tende a transformar proximidade, fragilidade percebida ou valor estratégico em justificativa para absorção. Castela e os Estados Unidos, cada um a seu tempo, operam a partir de uma posição

assimétrica, na qual o outro é visto como menor — Portugal como reino periférico; a Gronelândia como território remoto. Em ambos os casos, o discurso do apetite mascara-se de pragmatismo, inevitabilidade ou benefício comum.

Contudo, há também diferenças fundamentais. O apetite castelhano concretizou-se pela força e pela dinastia; o de Trump permaneceu no plano retórico e transacional. Além disso, Portugal respondeu com resistência prolongada e restauração da independência, enquanto a Gronelândia respondeu afirmando explicitamente a sua não disponibilidade, apoiada por normas internacionais que hoje limitam impulsos expansionistas.

Em suma, a analogia entre Castela e Trump não pretende igualar contextos, mas revelar padrões. O apetite territorial não é uma relíquia do passado; apenas muda de linguagem. Onde antes havia espadas e coroas, hoje há contratos, mercados e discursos estratégicos. A história da Península Ibérica ajuda-nos, assim, a compreender que mesmo no século XXI o desejo de expansão continua a ser uma tentação recorrente do poder.


Francisco Vaz

21/01/2026

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