Pecado original

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Casa de dinamite

Entre o clique e a consciência

A história de Casa de Dinamite, novo filme da Netflix, começa numa manhã aparentemente banal em Fort Greely, no Alasca. A rotina técnica e controlada de uma base antimísseis é abruptamente interrompida pela deteção de um míssil balístico intercontinental de origem desconhecida, dirigido a Chicago. A partir desse instante, o tempo deixa de ser um dado neutro e transforma-se num adversário implacável: restam apenas dezoito minutos para decidir. Dezoito minutos que concentram, de forma quase insuportável, o peso do destino de milhões de pessoas — e talvez da própria humanidade.

Este cenário extremo expõe uma verdade frequentemente obscurecida pelo fascínio tecnológico: por mais sofisticados que sejam os sistemas de defesa, os algoritmos e os programas informáticos, as decisões últimas continuam a ser tomadas por pessoas. Máquinas calculam, simulam e sugerem; mas não assumem responsabilidade moral. Não carregam o peso da culpa, nem o drama da irreversibilidade. A decisão de responder, de retaliar ou de conter não é um gesto técnico, mas um ato humano, radicalmente humano, porque implica juízo, consciência e risco.

O realizador revela, assim, a fragilidade da arquitetura que sustenta a segurança global. O que parece sólido — protocolos, cadeias de comando, sistemas automáticos — depende, no limite, da lucidez e da integridade de indivíduos concretos colocados sob pressão extrema. Um erro de interpretação, um excesso de zelo, ou uma obediência cega podem desencadear uma cadeia de acontecimentos sem retorno. O mais inquietante é perceber quão débil é a linha que separa a contenção do caos, a prudência da catástrofe.

A proximidade do fim da humanidade não se manifesta apenas na existência de armas nucleares, mas na compressão do tempo da decisão. Dezoito minutos não são apenas um dado narrativo, são o símbolo de um mundo em que a capacidade de

destruição ultrapassou largamente a nossa capacidade de reflexão. Nunca foi tão grande o desfasamento entre o poder que detemos e a sabedoria necessária para o exercer. O perigo não reside apenas na tecnologia, mas na tentação de delegar nela aquilo que não pode ser delegado: a responsabilidade moral pelo destino humano.

A Casa de Dinamite funciona, assim, como um espelho perturbador da nossa condição histórica. Vivemos num tempo em que o fim não precisa de ser desejado nem planeado. Basta apenas que uma decisão errada seja tomada, ou que uma decisão correta não seja tomada a tempo. O apocalipse moderno não chega com estrondo épico, mas com um clique, uma ordem verbal, um protocolo executado sem reflexão.

Em última análise, o filme recorda-nos que, enquanto houver seres humanos a tomar decisões, ainda existe a possibilidade de escolha — e, portanto, de esperança.

Mas lembra-nos também que essa esperança é frágil, precária e exige vigilância constante. O futuro da humanidade pode, assim, depender, a qualquer momento, não de um programa informático infalível, mas da coragem de alguém que, em poucos minutos, ousa escolher a vida quando tudo parece empurrar para a destruição.


Francisco Vaz

24/01/2026

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