Pecado original

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

União de almas

União de almas, essência do amor conjugal

Seguramente não existe entre todas as aspirações humanas uma mais nobre e primordial que o amor; seguramente toda a nossa peregrinação terrena pode resumir-se ao desejo de amar e ser amados. Mas o que é exatamente o amor? De um modo geral, todos concordamos que o amor deve ser a base do casamento e da família. Mas não só. O amor é o topos das relações humanas. Aliás, falar de relações humanas não deixa de ser um pleonasmo, pois o humano só se diz nas relações. Não há humanidade sem relação. Ser humano é, portanto, ser em relação com outro ser. Ora de entre todas as relações que podem existir entre os seres humanos, o amor é o máximo de nobreza que o ser humano pode atingir na sua relação com os seus semelhantes.

Platão, definia miticamente as condições ontológicas do amor entre seres como um retorno a uma unidade ontológica anterior a cada um dos indivíduos, apenas possível quando cada metade do ser único original reencontra a sua co-metade essencial, a sua “cara-metade”, como diz o povo na sua profunda sabedoria. Como tal,não se trata de uma relação de duas vontades justapostas, em que agora cedo eu e logo cedes tu, mas de uma relação entre duas co-metades essenciais, como bem viu Platão, em que a vida já não é vivida a dois, mas vivida a um, pois nasce de uma sintonia espiritual com alguém a quem elegemos de entre muitos.

De facto, uma relação conjugal verdadeira une duas pessoas de maneira única. Ambas passam a fazer parte da identidade uma da outra. A mulher faz parte da identidade pessoal do marido, bem como ele da identidade pessoal da mulher, de modo que precisam um do outro para se sentirem verdadeiramente completos.

Quando o casamento não se funda nesta realidade, corre o sério risco de se desagregar e de não se realizar plenamente. Contudo, existem várias interpretações e nem todos dizemos o mesmo quando falamos de amor. Na verdade, para alguns, o amor resume-se aos sentidos, ou quando muito aos sentimentos. Não tenho dúvidas que o amor marca os sentidos e se traduz em sentimentos, no entanto, considero que é uma realidade muito mais abrangente e que deve marcar a totalidade da existência.

Quando se confunde amor com paixão, usamos o objeto da paixão como instrumento de mero bem próprio, a que se acrescenta o prazer que tal relação parasita propicia. Pelo contrário, o amor quer o bem próprio da pessoa amada, trabalhando nesse sentido e apenas nesse sentido, independentemente dos bens de retorno. Na paixão a relação é necessária, isto é, não livre, sem escolha possível. No amor a relação não prende, não é necessária, e é totalmente gratuita. Enquanto a paixão é efémera, o amor verdadeiro não acabaria nunca, não fôssemos seres marcados pela finitude temporal. Por isso, amor que é amor, não pode ter como horizonte, algo menos que a própria vida inteira.

Aprendemos que, na nossa cultura, síntese harmónica do encontro entre o pensamento filosófico grego e a bi-milenar tradição cristã, o homem vive para entender, produzir, fruir e transcender. É neste ultimo patamar, ao transcender o nível do meramente biológico e do meramente natural, procurando atribuir significados e simbolizando o mundo e a sua existência, que o ser humano verdadeiramente se realiza. O casamento, união entre um homem e uma mulher, é a estrutura que melhor realiza esta vocação humana para a transcendência, experiência que constitui o modo de ser especificamente humano.

Por fim, esta relação gera uma nova realidade que se concretiza na existência de um “nós”, que ao tornar-se forte se pode concretizar ainda mais, gerando a existência de um novo ser que, não sendo o pai ou mãe, não pode existir sem o pai e sem a mãe. Falo, como já se percebeu, dos filhos. Em certo sentido os filhos são o “nós” dos pais. É assim, que o grande mistério do amor conjugal se consubstancia na existência dos filhos. Neles o amor do pai e da mãe é verdadeiramente inseparável, pois é com essa união profunda que se tece a sua vida.

Em suma, o amor conjugal representa uma das expressões mais sublimes da natureza humana, transcendendo o mero desejo e a paixão efêmera. Ele não só unifica duas identidades numa harmonia singular, mas também cria um “nós” que se perpetua através dos filhos, símbolo máximo dessa união. O amor verdadeiro é aquele que busca o bem do outro de forma gratuita, sem restrições ou condições, enquanto nos permite transcender o nível biológico e natural, atingindo um sentido mais profundo da existência. O casamento, visto sob essa luz, torna-se não apenas um contrato social, mas uma vocação para a transcendência e a realização plena da humanidade. Assim, ao nos entregarmos ao amor na sua mais pura essência, cultivamos um legado de união, completude e continuidade, que se reflete na perpetuação da vida e dos princípios que a sustentam. Esse é o verdadeiro mistério e a beleza do amor conjugal, uma dança eterna entre dois seres que, juntos, criam algo maior do que eles próprios.


Francisco Vaz

24/01/2026

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