Guerra e Bem-comum
A guerra, em qualquer das suas formas e manifestações, constitui sempre uma violência radical contra a condição humana. Cada ato de guerra rouba a outro ser humano possibilidades que lhe são inalienavelmente próprias: a possibilidade de viver, de escolher, de amar, de errar, de se reconciliar, de dar sentido à sua própria existência.
São possibilidades que nunca deveriam ser roubadas, porque pertencem à essência mesma do humano e porque a sua perda não conhece remissão possível. O que a guerra destrói não pode ser restituído nem compensado - a vida e a dignidade perdidas não admitem reparação.
Neste sentido, a guerra não é apenas um conflito entre forças ou interesses, mas uma negação ontológica do outro enquanto pessoa. Ao reduzir o ser humano a alvo, dano colateral ou inimigo, a guerra suspende a ética e transforma a relação em pura instrumentalização. O outro deixa de ser um fim em si mesmo para se tornar meio, obstáculo ou estatística. Assim, a guerra não apenas mata corpos, mas fere irremediavelmente o tecido simbólico e moral que sustenta a vida em comum.
O caráter absoluto desta negação torna cada ato de guerra intrinsecamente desumano, independentemente das justificações históricas, políticas ou estratégicas que se invoquem. Mesmo quando apresentada como necessária, defensiva ou inevitável, a guerra permanece um fracasso humano, pois nasce sempre da incapacidade de reconhecer no outro alguém portador de dignidade inviolável. Não há guerra justa no plano das vítimas concretas; há apenas perdas irreversíveis que se acumulam sobre perdas anteriores.
Por isso, o ato absolutamente antitético ao ato de guerra é o ato de bem-comum. Enquanto a guerra apropria, destrói e exclui, o bem-comum funda, preserva e inclui. Ele não se orienta pelo interesse particular nem pela lógica da força, mas pela busca das condições que tornam possível a realização de todos. O bem-comum reconhece que a minha humanidade está ligada à humanidade do outro e que ninguém se salva sozinho, nem contra os outros.
Agir em função do bem-comum é, assim, um gesto profundamente político e profundamente ético. É afirmar que a vida do outro não é negociável, que as suas possibilidades são tão sagradas quanto as minhas, e que nenhuma causa justifica a sua aniquilação. Onde a guerra fecha o horizonte, o bem-comum abre futuro; onde a guerra impõe silêncio, o bem-comum restitui a palavra: onde a guerra gera morte, o bem-comum cria condições para a vida.
Em última análise, falar da guerra é falar dos limites do humano, e falar do bem-comum é falar da sua mais alta possibilidade. Entre um e outro joga-se o destino da nossa civilização. Enquanto houver guerra, haverá uma dívida impagável para com aqueles a quem foram roubadas as possibilidades de ser. Mas sempre que um gesto de bem-comum se afirma, mesmo frágil e imperfeito, a humanidade reencontra, ainda que por instantes, a sua vocação mais profunda: cuidar da vida em vez de a destruir.
Francisco Vaz
24/01/2026
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