Pecado original

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Território, história e poder

Território, história e poder: o Lebensraum de Hitler e a invasão da

Ucrânia por Putin


Ao longo da história, projetos de expansão territorial têm sido frequentemente justificados por narrativas que misturam segurança, identidade e destino histórico. A comparação entre a doutrina do Lebensraum (“espaço vital”), central na ideologia da Alemanha nazi, e a invasão da Ucrânia pela Rússia sob Vladimir Putin revela paralelos inquietantes na forma como o poder político constrói argumentos para legitimar a agressão, embora existam diferenças significativas nos contextos ideológicos e históricos.


O Lebensraum foi um conceito fundamental do pensamento de Adolf Hitler, exposto de forma explícita em Mein Kampf. Partia da ideia de que o povo alemão necessitava de mais espaço territorial para sobreviver e prosperar. Esse espaço deveria ser conquistado sobretudo a leste, em territórios habitados por povos eslavos, considerados racialmente inferiores pela ideologia nazi. Assim, o expansionismo alemão não era apenas estratégico ou económico, mas profundamente racial e genocida. A guerra de conquista no Leste europeu visava não só anexar território, mas também destruir Estados, eliminar elites locais e reconfigurar demograficamente a região.


A invasão da Ucrânia pela Rússia, iniciada em 2022, não se apoia numa doutrina racial explícita, mas recorre a uma lógica histórica e civilizacional que cumpre função semelhante. Vladimir Putin tem reiteradamente negado a plena legitimidade da Ucrânia como Estado soberano, descrevendo-a como uma criação artificial ou como parte integrante do “mundo russo” (russkiy mir). Tal como no discurso nazi, a existência política do outro é relativizada ou negada, abrindo caminho à violência como instrumento de “correção histórica”.

Em ambos os casos, a expansão é apresentada como defensiva. Hitler afirmava que a Alemanha estava cercada e ameaçada, necessitando de espaço para garantir a sua sobrevivência. Putin, por sua vez, justifica a invasão com a expansão da NATO, a alegada ameaça ao povo russo-falante e a necessidade de proteger a segurança nacional russa. Esta inversão discursiva — o agressor como vítima — é um elemento comum a projetos imperialistas, permitindo mobilizar apoio interno e confundir a perceção externa.


Outro paralelo reside no uso seletivo da história. Hitler invocava um passado mítico germânico e uma leitura distorcida da história europeia para legitimar a expansão para Leste. Putin recorre a episódios do Império Russo e da União Soviética, bem como à herança da Rus de Kiev, para sustentar a ideia de uma unidade histórica entre Rússia e Ucrânia. Em ambos os casos, a história deixa de ser campo de interpretação crítica e torna-se instrumento político.


As diferenças, contudo, são relevantes e não devem ser ignoradas. O Lebensraum fazia parte de uma ideologia totalitária coerente, com objetivos globais e um programa explícito de extermínio. A política de Putin é mais pragmática e oportunista, combinando autoritarismo, nacionalismo e interesses geopolíticos, sem um projeto ideológico sistemático comparável ao nazismo. Além disso, a ordem internacional contemporânea — apesar das suas fragilidades — impõe custos económicos, diplomáticos e militares que não existiam nos anos 1930.


Ainda assim, a comparação é útil como alerta histórico. Tanto o Lebensraum como a invasão da Ucrânia mostram como a negação da soberania alheia, a instrumentalização da história e o culto da força podem conduzir a guerras devastadoras. A experiência do século XX demonstra que concessões a esse tipo de lógica raramente conduzem à estabilidade, mas sim à escalada do conflito.


Em suma, embora Hitler e Putin pertençam a contextos distintos e não sejam figuras equivalentes em termos ideológicos, os mecanismos de legitimação da expansão territorial que empregam revelam padrões recorrentes do exercício do poder. Estudar essas semelhanças não é um exercício de retórica, mas uma forma de compreender como a história, quando mal usada, pode tornar-se arma — e como a sua repetição continua a ter custos humanos profundos.


Francisco Vaz

21/01/2026

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