Pecado original

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Manifesto

Manifesto contra a normalização da barbárie

Nojo e raiva são reações humanas primárias diante da injustiça nua e crua. As imagens de um homem baleado, indefeso, caído no chão em Minneapolis não me provocam apenas repugnância moral. Elas confirmam uma convicção mais profunda: a de que certas formas de barbárie não ficaram definitivamente enterradas no século XX.

A barbárie não regressou. Na verdade, nunca partiu. O nazismo não foi derrotado enquanto lógica, mas apenas enquanto regime. Sobreviveu na hierarquização das vidas, na desumanização administrada, na violência justificada como necessidade. Como advertiu Hannah Arendt, o mal moderno não grita — executa procedimentos.

A série O Homem do Castelo Alto — uma distopia que imagina um mundo em que o nazismo triunfou — não descreve algo que aconteceu, mas algo que podia ter acontecido. É precisamente essa a função da distopia: revelar, por exagero ou deslocamento, as fragilidades morais, políticas e institucionais do presente. Quando eventos reais começam a ecoar esses cenários fictícios, a ficção deixa de ser apenas um exercício imaginativo e transforma-se num espelho perturbador.

A distopia não é um futuro imaginário, é o nome filosófico do presente quando a exceção se torna regra. O que chamamos segurança substituiu a dignidade, o medo tornou-se método, a força passou a ser argumento. Auschwitz, como escreveu Adorno, não pertence ao passado — é a possibilidade sempre presente de uma razão desligada da ética.

Acreditámos que o século XXI estaria imunizado pela memória da catástrofe. Enganámo-nos. As democracias não morrem apenas por golpes, mas também por habituação: quando a violência deixa de escandalizar e passa a integrar o quotidiano. Este manifesto não propõe esperança fácil. Propõe vigilância. Enquanto o nojo e a raiva persistirem, ainda há resistência. Quando desaparecerem, a distopia deixará de ser advertência — e passará a ser o nosso modo de existência.


Francisco Vaz

26/01/2026

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