Quando o poder convoca o sagrado
A evocação de uma eventual “reza” de Pete Hegseth no Pentágono, lida como sinal de uma aproximação entre poder político e linguagem religiosa, desperta ecos históricos que importa tratar com rigor — e, sobretudo, com prudência. A história oferece exemplos extremos de confronto entre o poder secular e a autoridade espiritual, mas também ensina que a analogia, quando forçada, obscurece mais do que esclarece.
No início do século XIV, Filipe IV de França entrou em choque direto com o papado, num conflito que culminaria no episódio de Anagni e na progressiva submissão da Igreja à coroa francesa. Aqui, o que estava em causa era uma disputa estrutural: quem detém a supremacia última — o trono ou o altar? O rei não procurava apenas condicionar o Papa; pretendia integrar a autoridade espiritual na lógica do poder político.
Séculos mais tarde, o plano atribuído a Adolf Hitler de sequestrar ou mesmo eliminar Pio XII representa um salto qualitativo: já não se trata de dominar a Igreja, mas de a neutralizar fisicamente enquanto foco de resistência moral. A própria reação de Pio XII — ponderando renunciar para evitar que o cargo fosse instrumentalizado — revela a consciência de que o papado, enquanto instituição, podia tornar-se alvo direto de violência política.
Colocar a atual administração americana no mesmo plano destes episódios históricos exige cautela. A instrumentalização simbólica da religião por parte do poder político não é nova — e não é exclusiva de um regime ou de uma época. No entanto, há uma diferença essencial entre o uso retórico ou cultural da religião e a tentativa de subjugação ou eliminação da autoridade espiritual. Confundir estes níveis é correr o risco de banalizar o passado e de inflacionar o presente.
Ainda assim, a questão de fundo permanece pertinente. Sempre que o poder político recorre à linguagem religiosa — seja para legitimação, mobilização ou identidade — reabre-se uma tensão antiga: a da autonomia do espiritual face ao temporal. A história de Filipe IV mostra como essa tensão pode degenerar em conflito institucional; o caso extremo associado a Hitler revela até onde pode ir quando o poder se absolutiza.
O nosso tempo situa-se, felizmente, noutro horizonte. Mas isso não elimina o problema; apenas o desloca. O risco contemporâneo não é tanto o de um confronto direto, mas o de uma fusão subtil, onde o religioso é absorvido como instrumento simbólico do político. E é precisamente aí que a lição histórica se torna mais exigente: não para alimentar paralelismos fáceis, mas para recordar que a independência das esferas — política e espiritual — é uma conquista frágil, que requer vigilância constante.
A história não se repete nos mesmos termos. Mas recorda, com insistência, que quando o poder deixa de reconhecer limites, tende a procurá-los — e, por vezes, a destruí-los.
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