Pasolini e a política contemporânea
Há comparações que, à primeira vista, parecem excessivas — até desproporcionadas. Evocar Salò o le 120 giornate di Sodoma para pensar a política contemporânea pode parecer uma dessas. No entanto, como sugere Riccardo Cristiano, não se trata de um paralelismo literal, mas de uma chave interpretativa: uma alegoria sobre a natureza do poder quando este deixa de reconhecer limites.
O filme de Pier Paolo Pasolini não é apenas um retrato do horror fascista. É, sobretudo, uma meditação radical sobre a degeneração do poder absoluto. Os quatro protagonistas — representações dos poderes político, religioso, judicial e económico — encarnam uma estrutura totalizante que reduz o humano a objeto. Essa redução, como notaram intelectuais como Alberto Moravia ou Bernardo Bertolucci, não se limita ao fascismo histórico: antecipa a sociedade de consumo, onde tudo pode ser apropriado, transformado, consumido.
É precisamente aqui que a reflexão ganha atualidade. O problema central não é o excesso de violência visível — que escandaliza — mas a lógica invisível que a sustenta: a ideia de que o poder pode ser ilimitado. Uma ideia que, no plano teológico, pertence apenas a Deus, mas que, no plano político, se torna profundamente perigosa.
Quando Donald Trump afirma que não precisa de leis internacionais e que o único limite ao seu poder é a sua própria moralidade, não estamos perante uma simples provocação retórica. Estamos diante de uma conceção de poder que se auto-funda, que não reconhece instâncias externas de regulação — nem jurídicas, nem morais. É o poder que se legitima a si próprio.
Ora, esta autolegitimação exige algo mais do que força: exige simbolismo. Daí a recorrente sacralização da figura política — a representação messiânica, a identificação com Cristo ou com uma autoridade transcendente. Não se trata apenas de propaganda; trata-se da tentativa de preencher o vazio deixado pela ausência de limites. Se não há lei acima de mim, então devo tornar-me, simbolicamente, essa lei.
Mas o problema do limite não começa na política internacional. Ele manifesta-se no quotidiano: nas políticas económicas, nas decisões sobre migração, na forma como se concebe a relação com o outro. O limite é, antes de mais, uma categoria ontológica. Sem limite não há ser humano.
É neste ponto que a reflexão de Charles Péguy se torna decisiva: “A revolução social será moral, ou não existirá de todo.” Não basta reformar estruturas; é necessário transformar consciências. Sem essa transformação interior, o poder — mesmo quando revestido de legalidade — tende a expandir-se até ao ponto de se tornar absoluto.
A guerra, neste contexto, surge como catalisador. Ela revela aquilo que estava latente: a disposição para ultrapassar limites em nome de objetivos estratégicos ou interesses nacionais. E, paradoxalmente, quanto mais o poder se expande, mais necessita de eliminar ou silenciar as vozes que o limitam.
É aqui que entra a dimensão espiritual. Quando uma autoridade moral — como o Papa — se ergue e diz “não”, introduz um limite que não pode ser facilmente instrumentalizado. A crítica ou o ataque a essa voz não são apenas divergências políticas; são sintomas de um conflito mais profundo entre duas conceções de poder: uma que aceita o limite e outra que o rejeita.
Como observa Massimo Borghesi, estamos perante uma forma de messianismo político, onde Deus é reinterpretado como legitimação da força. E, como sublinha Antonio Spadaro, quando o poder político ataca uma voz moral, é porque não consegue contê-la.
A frase do Papa Francisco — “quem constrói muros e não pontes não é cristão” — sintetiza este conflito. O muro é a expressão do poder que se fecha sobre si mesmo, que se protege e se afirma pela exclusão. A ponte, pelo contrário, pressupõe reconhecimento do outro e, portanto, aceitação de um limite.
No fundo, a atualidade de Pasolini reside precisamente aqui: na perceção de que o maior perigo não é a violência em si, mas a ideia de que ela pode ser exercida sem limites. Quando o poder deixa de reconhecer qualquer instância que o transcenda, entra-se numa lógica em que tudo se torna possível — e, por isso mesmo, tudo se torna vulnerável.
A questão decisiva, então, não é apenas política, mas civilizacional: estamos ainda dispostos a aceitar que o poder tem limites? Ou caminhamos para uma ordem onde o único limite é a vontade de quem tem a força?
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