Pecado original

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quinta-feira, 16 de abril de 2026

O César de Fogo

 EUA, Irão e o Estreito de Ormuz

Há momentos na história em que o poder se revela não como ordem, mas como combustão. O que emerge do confronto entre os Estados Unidos e o Irão — tal como descrito neste debate do Proceedings — é precisamente isso: um poder incendiário, um César de fogo, que tudo toca mas nada resolve definitivamente.

A cifra impressiona: 13 mil alvos atingidos. A aritmética da guerra moderna tornou-se abstrata, quase metafísica. Não são apenas alvos — são manifestações de uma crença profunda na capacidade técnica de dominar a realidade. Contudo, como já se entrevia nas campanhas aéreas dos Balcãs ou do Afeganistão, o poder de destruição não se traduz automaticamente em poder político. O adversário permanece. O regime resiste. A vontade não se dissolve sob o fogo.

Aqui reside o paradoxo central: o César contemporâneo não conquista — incendeia. E ao incendiar, revela o limite do seu próprio domínio.

O Estreito de Ormuz surge, neste contexto, como símbolo e campo de prova. Não é apenas um corredor marítimo; é uma encruzilhada ontológica entre Cosmos e Caos. A distinção entre passagem inocente e passagem em trânsito não é meramente jurídica — é civilizacional. A primeira admite a suspensão, a exceção, a vontade soberana que se impõe. A segunda afirma um princípio universal: certos espaços pertencem à humanidade e não ao arbítrio de um Estado.

Quando o Irão tenta transformar Ormuz num “posto de portagem” — esse “Tehran toll booth” — não está apenas a procurar vantagem tática ou económica. Está a desafiar a própria ideia de ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. E, como bem se sublinha no debate, o perigo maior não é local, mas precedencial: o que acontece em Ormuz ecoará no Estreito de Taiwan ou no Mar do Sul da China.

O César de fogo, porém, enfrenta um dilema trágico. Para reabrir Ormuz, não basta destruir — é necessário controlar, limpar, garantir. As minas navais, silenciosas e persistentes, são o antídoto perfeito contra a arrogância tecnológica. Um míssil pode ser lançado e interrompido; uma mina, uma vez colocada, permanece como memória física do conflito. Obriga à lentidão, à prudência, à vulnerabilidade. É a guerra a regressar ao tempo humano, contra a ilusão da velocidade absoluta.

Mais ainda: a própria estratégia revela um impasse moral. Quando os alvos militares se esgotam, surgem os “alvos de duplo uso” — pontes, centrais elétricas, infraestruturas civis. Aqui, o César aproxima-se perigosamente da hybris: ao tentar forçar a vitória, arrisca destruir as condições da paz. E, paradoxalmente, como sugerido no debate, o sofrimento infligido à população pode reforçar o poder do regime adversário, em vez de o enfraquecer.

Neste ponto, a reflexão ganha uma dimensão mais profunda: a guerra contemporânea expõe a fragilidade da ideia moderna de soberania absoluta. O Irão não pode fechar Ormuz sem se prejudicar; os Estados Unidos não podem abri-lo sem custos desproporcionados. Ambos estão presos numa teia de interdependência que limita o exercício pleno do poder.

É aqui que o “César de fogo” revela a sua natureza trágica. Ele possui meios quase ilimitados de destruição, mas encontra-se limitado na construção. Pode interromper o mundo, mas não o reorganizar à sua vontade.

Por fim, permanece a questão essencial: o que fazer quando já não há mais alvos, mas o conflito persiste? A resposta não é militar — nunca foi. A técnica atinge o seu limite onde começa a política, e a política, por sua vez, só se sustenta se enraizada numa ordem partilhada.

Ormuz, portanto, não é apenas um estreito. É um teste à própria ideia de comunidade internacional. Se prevalecer a lógica da portagem, da exceção e da força, entramos num mundo fragmentado, onde cada passagem depende do arbítrio do mais forte. Se, pelo contrário, se reafirmar o princípio da liberdade de navegação, então talvez ainda reste algo da ordem construída no século XX.

O César de fogo pode iluminar — mas também pode cegar. A questão é saber se, no meio das chamas, ainda somos capazes de ver.

Francisco Vaz

16 de Abril de 2026

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