Pecado original

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domingo, 19 de abril de 2026

Saber não chega

A urgência da sabedoria

Vivemos numa época em que o conhecimento se democratizou. Nunca foi tão fácil aceder a informação, aprender técnicas, acumular dados. Mas essa abundância levanta uma questão incómoda: saber mais significa, de facto, compreender melhor? Ou estamos apenas mais informados, sem sermos mais sábios?

A distinção é decisiva. O conhecimento pertence ao domínio do comum: adquire-se, transmite-se, acumula-se. Já a sabedoria é mais rara. Não se possui como um objeto — manifesta-se na forma como se vive e decide. Não basta saber; é preciso saber o que fazer com aquilo que se sabe.

Esta ideia não é nova. Na Paideia, Platão mostra que a verdadeira sabedoria não está necessariamente nos eruditos, mas pode habitar num homem comum que vive segundo princípios. A sabedoria, mais do que um acumular de ideias, é uma forma de conduzir a vida com equilíbrio e justiça.

A literatura clássica oferece uma imagem ainda mais clara. Em Homero, Ulisses enfrenta o canto irresistível das sereias. Não foge nem se entrega. Escolhe um caminho mais exigente: prepara-se para ouvir sem sucumbir. Manda tapar os ouvidos dos marinheiros e faz-se amarrar ao mastro do navio. A lição é simples e atual: a liberdade não está em fazer tudo, mas em saber impor limites a si próprio.

Num tempo dominado pela tecnologia, esta distinção torna-se urgente. As máquinas acumulam e processam conhecimento como nunca. Mas não decidem com base no sentido. Falta-lhes aquilo que orienta a ação humana: o critério, a prudência, a noção de bem.

O risco, hoje, não é a ignorância. É a dissociação entre conhecimento e sabedoria. Um mundo que sabe muito, mas não sabe para quê, torna-se mais eficiente — mas também mais vulnerável.

No essencial, a diferença mantém-se: o conhecimento diz-nos o que é possível; a sabedoria diz-nos o que vale a pena.

Francisco Vaz

19 de Abril de 2026


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