Pecado original

Pecado original

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O poder que não resolve

Os Estados Unidos e a Nova Ordem em Formação

A reflexão sobre a hegemonia americana ganha hoje uma nitidez quase desconfortável quando cruzada com a atual confrontação com o Irão. Aquilo que no plano teórico se apresentava como transição — da “hiperpotência” para uma primazia relativa — revela-se agora, no terreno, como uma evidência estratégica difícil de contornar.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos construíram um poder sem paralelo, combinando geografia,  economia, inovação e supremacia militar. Esse poder continua intacto no essencial. Nenhuma potência rivaliza com a sua capacidade de projeção global, nem com o seu domínio dos mares, nem com a sua liderança tecnológica. E, no entanto, é precisamente esse poder que a atual crise expõe nos seus limites mais profundos.

A confrontação com o Irão mostra, de forma nua e crua, que a superioridade militar deixou de ser sinónimo de controlo estratégico. Tal como já se evidenciara na Guerra do Vietname, e mais recentemente na Guerra do Iraque e na Guerra do Afeganistão, os Estados Unidos podem dominar o campo de batalha convencional, mas não conseguem impor um desfecho político estável. O Irão, consciente dessa assimetria, evita o confronto direto e aposta numa guerra difusa — mísseis, drones, milícias e pressão indireta — transformando a fraqueza relativa em instrumento de resistência.

O Estreito de Ormuz surge aqui como símbolo maior desta nova realidade: um ponto geográfico estreito, vulnerável, onde uma potência regional consegue condicionar o fluxo vital da economia global. A hegemonia naval americana garante a abertura dos mares, mas não elimina a capacidade de perturbação. O controlo não é absoluto; é, no máximo, contestado.

É neste contexto que o paradoxo do poder americano se torna mais evidente: nunca foi tão grande, e nunca foi tão insuficiente. A guerra moderna — assimétrica, híbrida, prolongada — esvazia a lógica clássica da vitória. Já não se trata de derrotar um exército inimigo, mas de gerir um ecossistema de conflitos difusos, onde o tempo favorece quem resiste e não necessariamente quem domina.

Ao mesmo tempo, a dimensão interna não pode ser dissociada desta equação. A polarização política, visível no Ataque ao Capitólio dos Estados Unidos de 2021, fragiliza a consistência estratégica. Um país dividido hesita, oscila e, por vezes, recua. A tentação do isolacionismo — do "America First" ao risco de um "America Only" — limita a capacidade de sustentar compromissos prolongados e reforça a perceção externa de incerteza.

E, no entanto, importa evitar o erro inverso: o de anunciar prematuramente o fim da hegemonia. Apesar da ascensão de potências como a China, nenhuma reúne ainda a combinação de atributos que sustenta o poder americano. O mundo não é verdadeiramente multipolar no sentido clássico; é antes um sistema em transição, onde a primazia americana persiste, mas é cada vez mais desafiada.

A guerra com o Irão, integrada nesta leitura, não anuncia o colapso dos Estados Unidos — mas revela a transformação da sua hegemonia. De uma hegemonia incontestada para uma hegemonia disputada; de uma capacidade de imposição para uma necessidade de gestão; de um poder absoluto para um poder condicionado.

A conclusão torna-se, assim, mais densa e mais inquietante: o mundo continua dependente dos Estados Unidos, mas já não pode ser organizado apenas por ele. A hegemonia permanece — mas já não resolve. E quando o poder não resolve, abre-se um espaço perigoso onde a desordem, mais do que a ordem, tende a prosperar.

Francisco Vaz

16 de Abril de 2026


Sem comentários:

Enviar um comentário