O limite extremo da ontologia do bem
Perguntar se Deus ama Hitler pode parecer uma provocação. Não é. É talvez uma das perguntas mais difíceis que podem ser colocadas ao cristianismo e, mais profundamente, a qualquer pensamento que sustente que o ser, enquanto ser, é um bem.
É fácil afirmar que Deus ama Francisco de Assis. É fácil acreditar no amor divino quando pensamos naquele que alimenta os pobres, cuida dos doentes ou entrega a vida pelos outros. A dificuldade começa quando colocamos diante desse mesmo amor alguém que fez da sua liberdade instrumento de destruição.
Deus ama Hitler?
Se respondermos que não, teremos de admitir que existe pelo menos um ser humano situado fora do alcance do amor de Deus. Se respondermos simplesmente que sim, sem qualquer distinção, corremos o risco de fazer parecer que amar significa ser indiferente ao mal.
A questão obriga-nos, por isso, a distinguir duas realidades fundamentais: o ser e o ato; a pessoa e aquilo que a pessoa livremente faz de si própria.
Hitler foi responsável por um regime que desencadeou uma guerra devastadora e organizou a perseguição e o assassínio sistemático de milhões de seres humanos. O Holocausto permanece como uma das manifestações mais terríveis da capacidade humana para transformar pessoas em objetos e organizar metodicamente a sua destruição.
Não há aqui qualquer «centelha de bem» a procurar nos seus crimes. O mal não precisa de ser atenuado para que possamos afirmar o bem. Pelo contrário: só compreendemos verdadeiramente a monstruosidade do mal quando percebemos a grandeza do bem que ele destrói.
É precisamente aqui que a ontologia do bem se torna decisiva.
Na tradição cristã, particularmente em Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, o mal não possui existência própria equivalente à do bem. Não é uma substância criada que se oporia simetricamente ao bem. É privatio boni: privação, corrupção ou perversão de um bem que deveria existir.
Daqui decorre uma afirmação fundamental:
o mal precisa do bem para existir; o bem não precisa do mal.
Só podemos destruir porque existe alguma coisa para destruir. Só podemos odiar porque existe alguém que pode ser odiado. Só podemos mentir porque existe verdade que pode ser negada. Só podemos assassinar porque existe vida que pode ser eliminada.
O mal é, neste sentido, parasitário do bem.
E daqui nasce uma consequência particularmente perturbadora. Se Hitler existiu, então, enquanto existente, havia nele um bem ontológico anterior a qualquer consideração moral acerca dos seus atos: o próprio facto de ser.
Isto não significa procurar bondade moral escondida nos seus crimes. Significa algo muito diferente: nenhum ser humano consegue transformar-se ontologicamente em mal absoluto, porque, se todo o bem desaparecesse dele, desapareceria também o próprio ser sobre o qual o mal poderia atuar.
O mal absoluto não é um ser absolutamente mau.
É o nada.
Talvez devamos, por isso, ter algum cuidado com a expressão «centelha de bem». Não precisamos de descobrir boas ações em Hitler para sustentar que Deus poderia amá-lo. Basta reconhecer algo muito mais elementar e radical: Hitler era um ser humano.
É precisamente aqui que o cristianismo se torna extraordinariamente exigente.
Cristo não disse para amarmos os nossos inimigos desde que eles ainda conservassem qualidades suficientes para merecer o nosso amor. Disse simplesmente:
«Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem.»(Mt 5,44)
Se esta afirmação é universal, não podemos introduzir silenciosamente uma exceção: todos, menos Hitler.
Porque, nesse momento, o amor já não seria universal. Seria condicionado.
E talvez possamos formular a questão de modo ainda mais radical:
se Deus só amasse os bons, Deus não amaria seres; amaria qualidades.
Mas amar o ser não significa aprovar aquilo que o ser faz.
Ao amar Hitler não significa que Deus ame Auschwitz. Não significa relativizar o Holocausto, diminuir a responsabilidade dos seus autores ou colocar vítimas e carrascos no mesmo plano moral.
Pelo contrário.
É precisamente porque cada pessoa possui um valor ontológico irredutível que Auschwitz constitui um mal tão radical. Aqueles milhões de seres humanos não eram números, categorias raciais, unidades de trabalho ou obstáculos políticos. Eram seres humanos únicos e irrepetíveis.
O crime começa precisamente quando alguém deixa de reconhecer isso.
Hitler não criou o ser das suas vítimas. Por isso, não tinha qualquer direito sobre esse ser. Quando uma vontade humana se arroga o poder de decidir que determinados seres humanos não merecem existir, atinge-se uma das formas mais profundas do mal: a tentativa de negar ao outro o bem ontológico que não fomos nós que lhe concedemos.
Aqui, a ontologia transforma-se imediatamente em ética.
Se todo o ser é bem enquanto ser, encontrar outro ser humano significa encontrar alguém cujo valor é anterior à minha vontade. Eu não lhe concedo dignidade. Reconheço-a. E, precisamente porque não fui eu que lha concedi, também não posso legitimamente retirar-lha.
É isto que os totalitarismos procuram destruir: a ideia de que existe na pessoa um valor anterior ao Estado, à raça, à classe, à ideologia e ao poder.
E é aqui que Hitler se torna, paradoxalmente, o caso extremo para testar a universalidade do próprio princípio.
Porque também ele possuía aquilo que tentou negar aos outros.
Também ele não criou o seu próprio ser. Também ele recebeu a existência. Também ele foi livre. E foi precisamente essa liberdade que tornou possível o mal que praticou.
Surge então outra distinção fundamental: amor não é absolvição.
Amar não significa declarar inocente. Perdoar não significa afirmar que nada aconteceu. Misericórdia não significa indiferença perante a justiça. Se assim fosse, o próprio amor pelas vítimas tornar-se-ia impossível.
O verdadeiro amor exige que chamemos ao mal pelo seu nome, precisamente porque o mal destrói aquilo que merece ser amado.
Podemos, portanto, dizer a alguém: o que fizeste é monstruoso. És responsável pelo que fizeste. Deves responder pelos teus atos.
Mas existe uma afirmação perante a qual devemos hesitar profundamente:
não deverias existir.
Porque, nesse instante, começamos perigosamente a aproximar-nos da mesma lógica ontológica que esteve na origem dos grandes sistemas de extermínio: dividir a humanidade entre aqueles cuja existência merece ser preservada e aqueles cuja existência pode ser eliminada.
É então que a pergunta inicial regressa com toda a sua força.
Deus ama Hitler?
Se Deus é verdadeiramente amor, talvez a resposta tenha de ser sim.
Mas é um sim terrível e exigente.
Deus ama Hitler não por causa do que Hitler fez, mas apesar daquilo que Hitler fez. Ama o ser que criou; não o mal que esse ser livremente introduziu no mundo.
Podemos levar a questão ainda mais longe. Se, no último instante da sua existência, Hitler tivesse verdadeiramente reconhecido todo o mal praticado e pedido perdão — hipótese que não nos compete afirmar que tenha ocorrido — poderia Deus recusar-lhe misericórdia apenas porque nós consideraríamos os seus crimes imperdoáveis?
É aqui que a razão humana quase recua.
Porque uma misericórdia assim não retiraria uma única lágrima às vítimas. Não ressuscitaria uma única criança assassinada. Não apagaria Auschwitz. Não transformaria o mal em bem nem eliminaria a justiça.
Significaria apenas que o mal nunca consegue obrigar Deus a deixar de ser Deus.
Talvez seja este o ponto decisivo.
O triunfo definitivo do mal não aconteceria apenas quando um homem pratica o mal. Aconteceria também se esse mal conseguisse destruir nos outros a capacidade de reconhecer a dignidade do ser humano.
O assassino pode destruir uma vida. Mas não deve conseguir destruir em nós o princípio segundo o qual toda a vida humana possui valor.
Caso contrário, o mal teria alcançado uma segunda vitória.
A afirmação de que existe bem em tudo o que existe não é, portanto, ingenuidade moral. É uma afirmação ontológica radical. Não significa que tudo seja moralmente bom. Significa que tudo aquilo que verdadeiramente é possui, no próprio ato de ser, um bem que o mal pode ferir, deformar ou procurar destruir, mas que não consegue transformar em mal ontológico absoluto.
Talvez seja aqui que a filosofia encontra o Evangelho.
«Amai os vossos inimigos» deixa então de ser apenas uma recomendação moral extraordinariamente difícil. Torna-se também uma afirmação acerca do próprio ser.
Amar o inimigo significa recusar permitir que o mal praticado por alguém tenha poder suficiente para nos convencer de que esse alguém deixou de pertencer à humanidade.
É por isso que a pergunta «Deus ama Hitler?» é tão perturbadora.
Porque, no fundo, a pergunta não é sobre Hitler.
É sobre Deus.
E, finalmente, é sobre nós.
Até onde estamos dispostos a levar a afirmação de que todo o ser humano, simplesmente porque é, possui uma dignidade que nem o pior dos seus atos consegue transformar em nada?
Talvez seja precisamente aí, no limite em que a razão quase recua perante aquilo que é obrigada a afirmar, que começa o verdadeiro significado do amor universal.
Francisco Vaz
10 de agosto de 2026
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