A profundidade onto-ético-política de Gustave Flaubert
Há obras literárias cuja importância ultrapassa em muito a história que contam. Madame Bovary pertence a esse reduzido número de livros que, sob a aparência de um romance sobre o adultério, encerram uma reflexão profunda acerca da natureza humana, da liberdade, da verdade e da própria organização da sociedade.
À primeira vista, a narrativa parece simples. Emma Bovary, jovem educada em convento e alimentada pelos romances sentimentais da época, casa com Charles Bovary, um médico de província, esperando encontrar uma existência apaixonante. Rapidamente descobre, porém, a monotonia do quotidiano. Procura então no amor, no luxo, nas viagens sonhadas, nos objetos de prestígio e nas relações extraconjugais aquilo que acredita ser a verdadeira felicidade. Nada a satisfaz. As dívidas acumulam-se, as ilusões sucedem-se e a tragédia torna-se inevitável.
Mas reduzir Madame Bovary a um romance moral seria não compreender a verdadeira genialidade de Flaubert.
O problema de Emma não começa na infidelidade. Começa muito antes.
A raiz da sua tragédia não é ética; é ontológica.
Emma deixa de viver no mundo para passar a viver nas imagens do mundo. A realidade concreta torna-se insuficiente porque foi substituída por uma realidade imaginada. Alimentada pelos romances sentimentais, cria uma expectativa impossível: um amor sempre absoluto, uma felicidade permanente, uma existência sem banalidade, um quotidiano continuamente extraordinário.
A imaginação, que deveria ajudar o ser humano a compreender melhor a realidade, transforma-se no seu substituto.
É precisamente aqui que reside a extraordinária profundidade filosófica de Flaubert.
A existência humana é necessariamente limitada. Todo o amor conhece o hábito; toda a alegria convive com o sofrimento; toda a vida inclui rotina, esforço e imperfeição. Emma, porém, recusa essa estrutura fundamental da condição humana. Não aceita os limites do real. Exige da existência aquilo que ela nunca poderá oferecer.
A sua revolta não é apenas psicológica; é uma recusa do próprio ser.
Quando o homem deixa de aceitar a realidade, perde inevitavelmente a capacidade de reconhecer a verdade.
É então que começa a degradação ética.
A mentira deixa de parecer um mal para se tornar um instrumento de sobrevivência. O adultério transforma-se numa promessa de plenitude. O crédito converte-se numa forma artificial de sustentar um estilo de vida impossível. Cada escolha errada procura apenas preservar a ilusão anterior.
A corrupção moral aparece, assim, não como causa, mas como consequência de uma fratura mais profunda: a perda da relação verdadeira com a realidade.
Flaubert compreende algo que muitos filósofos apenas mais tarde desenvolveriam: toda a ética depende da forma como o homem se relaciona com o ser. Quem vive instalado na fantasia acabará inevitavelmente por deformar também a sua ação.
Mas Madame Bovary não é apenas uma reflexão sobre o indivíduo.
É igualmente uma crítica política e civilizacional de enorme alcance.
A pequena burguesia francesa que Flaubert descreve vive dominada pela aparência. O prestígio social, o consumo, a respeitabilidade e a ascensão económica tornam-se critérios fundamentais da existência. Quase todas as personagens procuram parecer aquilo que não são.
O farmacêutico Homais representa a vaidade do falso progresso e do racionalismo convencido de que tudo domina. O comerciante Lheureux transforma o crédito num mecanismo subtil de escravização, alimentando desejos que sabe impossíveis de satisfazer. A própria sociedade recompensa mais a aparência do sucesso do que a verdade da vida.
Flaubert descreve, com mais de século e meio de antecedência, uma civilização onde o consumo começa a substituir o sentido da existência.
É impossível não reconhecer nesta descrição muitos traços da sociedade contemporânea.
Hoje, a publicidade continua a fabricar desejos ilimitados. As redes sociais permitem construir identidades cuidadosamente editadas. O sucesso mede-se frequentemente pela imagem projetada e não pela realidade vivida. Multiplicam-se experiências, objetos e relações na esperança de preencher um vazio que permanece intacto.
Emma Bovary talvez tenha sido a primeira grande personagem da modernidade precisamente porque sofre da doença característica do homem moderno: confundir desejo com verdade.
A sua tragédia continua, por isso, extraordinariamente atual.
Não é apenas a história de uma mulher infeliz no século XIX.
É a história de qualquer homem ou mulher que substitui o real pela representação, o ser pela aparência e a verdade pela fantasia.
É precisamente aqui que a obra adquire a sua verdadeira dimensão onto-ético-política.
Ontológica, porque interroga a relação entre o homem e a realidade.
Ética, porque mostra que toda a corrupção moral nasce da perda dessa relação.
Política, porque denuncia uma sociedade que transforma o desejo ilimitado no motor da vida coletiva e faz do consumo uma promessa de salvação.
Flaubert não propõe soluções nem escreve tratados filosóficos. Limita-se a mostrar, com a serenidade do grande romancista, como uma existência construída sobre ilusões acaba inevitavelmente por colapsar.
A verdadeira liberdade não consiste em satisfazer todos os desejos. Consiste em aprender a habitar plenamente a realidade. Porque não é normalmente o mundo que nos desilude; são as ilusões que fabricámos acerca dele.
Talvez seja esta a razão pela qual Madame Bovary permanece uma das maiores obras da literatura universal. Não porque narre um caso de adultério, mas porque revela que toda a crise ética começa por ser uma crise ontológica e que toda a sociedade que educa os seus membros para desejar infinitamente mais do que a realidade pode oferecer acabará inevitavelmente por produzir frustração, mentira e vazio.
No fim, talvez Flaubert tenha compreendido melhor do que ninguém que Emma Bovary não era apenas uma mulher do seu tempo. Era uma possibilidade permanente inscrita na própria condição humana. Sempre que o homem troca a realidade pela fantasia, o ser pela aparência e a verdade pelo desejo, Emma renasce. Não é apenas uma personagem do século XIX; é uma tentação de todos os tempos.
É por isso que a célebre afirmação do autor continua a surpreender pela sua profundidade: «Madame Bovary, c'est moi.» Não porque Flaubert se identificasse com as escolhas morais da sua protagonista, mas porque reconhecia nela uma fragilidade universal. A sua grandeza literária reside precisamente nessa honestidade: a de saber que o combate entre a verdade e a ilusão não se trava apenas na vida de Emma, mas no íntimo de cada ser humano. Afinal, como o próprio Flaubert nos lembra, Madame Bovary somos, em maior ou menor medida, todos nós.
Francisco Vaz
7 de agosto de 2026
Fantástica análise, Francisco, e fantástico paralelismo!
ResponderEliminarCristina