Pecado original

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domingo, 9 de agosto de 2026

A coragem ao serviço do amor

Quando ter coragem não significa vencer, mas permanecer fiel ao bem

«Coragem é a força da paixão posta ao serviço do ato de amor.» 

Esta afirmação de Américo Pereira encerra uma compreensão particularmente profunda da coragem, porque a retira do domínio exclusivo do heroísmo, da força física ou da capacidade de enfrentar o perigo e a coloca no lugar onde verdadeiramente adquire valor: ao serviço do bem.

A paixão é força. Move-nos, inquieta-nos, faz-nos desejar, temer, sofrer e esperar. Sem paixão, talvez poucas coisas verdadeiramente grandes fossem realizadas. Mas a paixão, por si só, não é boa nem má. A mesma intensidade que leva alguém a arriscar a vida para salvar outra pessoa pode alimentar o ódio, a vingança ou a destruição.

Também a coragem, considerada isoladamente, não é necessariamente uma virtude. Um homem pode ser extraordinariamente corajoso e profundamente injusto. A História conheceu homens destemidos ao serviço das mais nobres causas e outros igualmente destemidos ao serviço das mais terríveis.

A questão essencial é, portanto: coragem para quê?

É aqui que a formulação de Américo Pereira ganha toda a sua força. A coragem torna-se verdadeiramente humana quando coloca a energia da paixão ao serviço do amor.

E amar é muito mais do que gostar. Gostar pertence sobretudo ao sentimento; amar pertence ao ato. Amar é querer o bem do outro e agir, tanto quanto nos seja possível, para que esse bem aconteça. É por isso que o amor possui uma dimensão profundamente ontológica: quem ama acrescenta bem ao ser. Protege possibilidades, permite que algo ou alguém floresça, impede que um bem seja destruído.

Neste sentido, amar é também criar.

E é precisamente porque amar implica agir que o amor necessita tantas vezes da coragem. É relativamente fácil querer o bem quando nada nos custa. Muito mais difícil é continuar a querê-lo quando exige renúncia, sacrifício, sofrimento ou risco.

A coragem começa verdadeiramente quando o bem passa a ter um preço.

Por isso, coragem não é ausência de medo. Só pode ser verdadeiramente corajoso quem poderia ter medo e, apesar dele, escolhe agir. Uma mãe que entra num edifício em chamas para salvar um filho não deixou de sentir medo. O soldado que regressa debaixo de fogo para socorrer um camarada sabe que pode morrer. Aquele que denuncia uma injustiça sabendo que sofrerá consequências conhece perfeitamente o risco que corre.

Em todos estes casos há algo que se considera maior do que o próprio medo.

Talvez por isso, para um cristão, uma das mais extraordinárias manifestações de coragem não aconteça num campo de batalha, mas no silêncio do Getsémani.

Cristo sabe aquilo que o espera. E tem medo.

«Pai, se é possível, afasta de mim esse cálice.»

Esta angústia não diminui Cristo. Pelo contrário, revela a profundidade da sua humanidade. Se não existisse medo, não seria necessária coragem. Se não existisse possibilidade de recuar, dificilmente poderíamos falar de escolha.

Mas o cálice é aceite.

Não porque o sofrimento seja bom. Não porque a dor possua valor em si mesma. Muito menos porque Deus possa desejar a crueldade. O cálice é aceite porque existe um bem que Cristo não quer abandonar.

Cristo não procura o sofrimento para poder amar. Ama apesar do sofrimento. E aquilo que acontece depois permite compreender a diferença.

Os homens que o crucificam exercem violência. Cristo não a devolve.

Humilham-no. Não responde com ódio.

Condenam-no. Não os condena.

Tiram-lhe progressivamente tudo: liberdade, dignidade, integridade física e finalmente a própria vida. Mas existe uma coisa que não conseguem retirar-lhe: a liberdade de continuar a querer o bem.

«Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.»

Talvez seja esta uma das formas mais elevadas de coragem.

Não a coragem daquele que consegue destruir o inimigo, mas a coragem daquele que se recusa a deixar que o inimigo determine aquilo em que ele próprio se transforma.

O outro pode fazer-me mal. Pode humilhar-me, perseguir-me, retirar-me bens e até ameaçar a minha existência. Mas permanece uma última liberdade: não permitir que o mal recebido determine o bem que ainda sou capaz de realizar.

É aqui que coragem, liberdade e amor se encontram.

E esta realidade ultrapassa largamente o âmbito religioso. A coragem de que fala Américo Pereira encontra-se todos os dias em gestos aparentemente insignificantes: dizer a verdade quando seria mais conveniente mentir; defender alguém quando todos permanecem em silêncio; assumir um erro quando seria fácil escondê-lo; perdoar quando a vingança parece mais satisfatória; permanecer junto de quem sofre quando seria mais cómodo afastarmo-nos; defender o bem comum quando o interesse pessoal aconselharia o contrário.

Há também pessoas que passam uma vida inteira a cuidar de outras sem que ninguém conheça os seus nomes. Pessoas que permanecem quando seria muito mais fácil partir. Pessoas que suportam enormes dificuldades simplesmente para que alguém possa continuar a viver com dignidade.

Talvez exista nestas vidas discretas tanta ou mais coragem do que em muitos dos feitos heroicos celebrados pela História.

Porque a grandeza da coragem não se mede apenas pelo tamanho do perigo enfrentado. Mede-se sobretudo pelo bem que levou alguém a enfrentá-lo.

A paixão fornece a força. A coragem dá-lhe direção. O amor dá-lhe sentido.

Sem amor, a paixão pode transformar-se em violência e a coragem em temeridade. Mas quando a coragem se coloca verdadeiramente ao serviço do amor acontece algo extraordinário: alguém aceita que o bem do outro seja também responsabilidade sua.

Talvez seja essa uma das maiores possibilidades do ser humano: usar a força que possui não para dominar, mas para servir; não para destruir, mas para criar; não apenas para preservar a própria existência, mas para que outro possa ser.

A coragem deixa então de ser simplesmente a capacidade de não recuar perante o perigo.

Passa a ser algo muito maior:

a força necessária para não abandonar o bem quando amar começa a custar.


Francisco Vaz

9 de agoso de 2026

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