Viver com a guerra na Ukrânia e as suas consequências
“… a world turned upside down — a dark, fretful, more dangerous place where treaties and laws are no longer respected, alliances are broken, trust is fungible, principles are negotiable and morality is a dirty word. It’s an ugly, disordered world of raw power, brute force, selfish arrogance, dodgy deals and brazen lies. It’s been coming for a while.”
— Geoffrey Till, Living with the Ukraine War and Its Consequences, Proceedings, fevereiro de 2026.
É difícil encontrar descrição mais perturbadora do mundo em que progressivamente vamos entrando. Geoffrey Till não fala apenas da guerra na Ucrânia. Fala de algo talvez mais inquietante: da transformação do mundo que essa guerra simultaneamente revela e acelera. Um mundo «virado do avesso», onde aquilo que julgávamos constituir limites relativamente sólidos da convivência internacional começa a perder consistência.
A guerra é terrível enquanto acontecimento. Mas há algo talvez ainda mais perigoso do que a própria guerra: habituarmo-nos a ela.
Ao princípio, uma cidade bombardeada provoca indignação. Depois, torna-se notícia. Mais tarde, apenas mais uma notícia entre tantas outras. O mesmo acontece com os mortos, os mutilados, os deslocados, os prisioneiros, as infraestruturas destruídas. Os números aumentam precisamente quando a nossa capacidade de nos impressionarmos com eles diminui.
É assim que a violência começa a tornar-se normal.
E quando a violência se normaliza, também se altera silenciosamente a linguagem moral que utilizamos para compreender o mundo. Aquilo que ontem consideraríamos intolerável passa hoje a ser explicado como necessidade estratégica; aquilo que ontem constituiria violação manifesta de princípios passa a ser relativizado pelas circunstâncias; aquilo que antes exigia condenação começa a ser avaliado segundo a conveniência de quem o pratica.
É talvez esta a parte mais inquietante da reflexão de Geoffrey Till. O problema já não consiste apenas em saber quem vencerá uma determinada guerra ou quais serão as fronteiras quando as armas finalmente se calarem. Consiste em perguntar que mundo existirá quando isso acontecer.
Porque os tratados só existem verdadeiramente enquanto alguém acreditar que devem ser cumpridos. As alianças só têm valor enquanto a palavra dada possuir significado. O direito internacional só constitui um limite enquanto os Estados aceitarem que nem tudo aquilo que têm poder para fazer lhes é permitido fazer. E a confiança, uma vez destruída, dificilmente se recompõe através da simples assinatura de novos documentos.
Há, por isso, uma dimensão profundamente ética em qualquer ordem política. Nenhuma comunidade — nacional ou internacional — consegue sobreviver apenas através da força. Pode impor-se pela força durante algum tempo, mas não consegue construir exclusivamente sobre ela uma ordem humana digna desse nome.
Quando Till escreve que os princípios se tornam negociáveis e que a moralidade passa a ser uma palavra incómoda, toca precisamente no centro do problema. Porque, se tudo for negociável, também o bem e o mal acabam por depender da relação momentânea de forças. E nesse momento regressamos a uma conceção primitiva da política: é justo aquilo que o mais forte consegue impor.
Platão já conhecia extraordinariamente bem esta tentação. No primeiro livro da República, Trasímaco afirma que a justiça não é senão a conveniência do mais forte. Toda a construção filosófica que se segue pode ser lida, em grande medida, como uma longa resposta de Sócrates a esta terrível possibilidade.
Mais de dois milénios depois, continuamos perante a mesma escolha.
Ou existe algo que limita o poder porque é justo, ou o poder acabará por determinar aquilo a que chamamos justiça.
A guerra da Ucrânia deve, por isso, ser pensada também para além da Ucrânia. Não apenas pelas consequências estratégicas que terá para a Rússia, para a Europa, para os Estados Unidos ou para a arquitetura internacional, mas porque está a decorrer diante dos nossos olhos uma perigosa aprendizagem coletiva: estamos novamente a aprender a viver com a guerra.
E talvez seja esse o verdadeiro aviso de Geoffrey Till.
As guerras não transformam apenas fronteiras. Transformam lentamente os critérios através dos quais julgamos o aceitável e o inaceitável. Quanto mais duram, maior é o risco de aquilo que começou por nos horrorizar acabar por nos parecer inevitável.
É assim que um mundo se vira do avesso.
Não necessariamente num único dia, nem através de uma decisão solene, mas pouco a pouco: um tratado desrespeitado, uma mentira tolerada, uma atrocidade relativizada, um princípio sacrificado à conveniência, uma violência justificada porque «não havia alternativa».
Até ao momento em que descobrimos que continuamos a utilizar palavras como paz, direito, justiça e verdade, mas já não estamos inteiramente certos do que significam.
E talvez o primeiro dever de quem se recusa a aceitar esse mundo seja precisamente este: não permitir que a guerra se torne normal.
Francisco Vaz
9 de agosto de 2026
Nota de referência
Geoffrey Till, “Living with the Ukraine War and Its Consequences”, Proceedings, U.S. Naval Institute, Vol. 152/2/1,476, fevereiro de 2026.
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