O fim da guerra não significa necessariamente o princípio da paz
Há uma frase inquietante no recente artigo de Sean Wiswesser sobre o futuro da Rússia depois da guerra na Ucrânia: «Wars do not end when the guns fall silent.» As guerras não acabam quando as armas se calam. Continuam nas instituições, nas sociedades e, sobretudo, no espírito daqueles que nelas combateram.
A afirmação merece ser pensada para além do caso russo. Porque uma coisa é terminar uma guerra; outra, muito diferente, é construir a paz.
A guerra possui datas. Sabemos quando começou, podemos determinar batalhas, contar mortos, identificar vencedores e vencidos e, geralmente, assinalar o momento em que foi assinado um armistício ou uma capitulação. A paz é muito mais difícil de datar. Talvez porque a guerra seja, antes de tudo, destruição de relações e a paz exija precisamente a sua reconstrução.
Quando chegar o dia em que as armas se calarem na Ucrânia — porque esse dia chegará — permanecerão milhões de seres humanos marcados pelo que aconteceu. Permanecerão os mortos na memória dos vivos, os mutilados, as famílias destruídas, as cidades arrasadas, os deslocados, os ódios acumulados e a recordação do medo. E permanecerão também instituições que aprenderam a viver da guerra.
É sobretudo sobre a Rússia que Wiswesser chama a atenção. O seu prognóstico é sombrio. O fim das operações militares poderá não conduzir à desmilitarização da sociedade russa. Pelo contrário, poderá consolidar um Estado ainda mais dependente das forças armadas, dos serviços de segurança, da vigilância e de uma economia parcialmente organizada em função da guerra. O artigo considera pouco provável uma verdadeira responsabilização das estruturas militares e dos serviços de informações pelos graves erros cometidos desde a invasão de 2022.
Há aqui um problema político, mas existe outro ainda mais profundo.
Durante anos, uma sociedade em guerra habitua-se progressivamente à lógica do inimigo. O outro deixa de ser simplesmente outro ser humano e passa a ser alguém contra quem determinados atos se tornam admissíveis. A linguagem transforma-se, a propaganda simplifica a realidade, o adversário é desumanizado e aquilo que em tempo de paz seria considerado intolerável passa a ser justificado pela necessidade militar.
Ora, o silêncio das armas não desfaz instantaneamente esta transformação.
Uma instituição habituada durante anos à suspeita não reaprende imediatamente a confiar. Um Estado habituado à repressão em nome da segurança não abandona necessariamente os instrumentos de controlo quando desaparece a ameaça que os justificava. E uma sociedade educada para procurar inimigos externos pode acabar por necessitar deles para conservar a sua própria coesão.
É este talvez um dos maiores perigos do pós-guerra russo. Wiswesser considera provável que a militarização sobreviva à própria guerra e que os serviços de segurança adquiram ainda maior importância na manutenção da ordem interna e na continuação da confrontação com o Ocidente por outros meios.
Mas há ainda outra guerra que terá de terminar.
É a guerra dentro do homem.
Centenas de milhares de combatentes regressarão um dia às suas casas. Muitos levarão consigo ferimentos visíveis; outros transportarão feridas que ninguém poderá ver. Terão vivido durante meses ou anos num mundo em que sobreviver depende de matar antes de ser morto, em que a morte de um companheiro pode acontecer em segundos e em que comportamentos inimagináveis na vida civil se tornam parte da normalidade quotidiana.
Depois pedir-se-lhes-á que regressem a casa.
Que sejam novamente pais, filhos, maridos, trabalhadores, vizinhos. Que atravessem uma rua sem procurar uma ameaça. Que ouçam um ruído sem esperar uma explosão. Que voltem a confiar.
O soldado pode regressar do campo de batalha sem que o campo de batalha tenha regressado dele.
Wiswesser identifica precisamente a reintegração dos veteranos como um dos grandes problemas da Rússia do pós-guerra. Uma população numerosa de antigos combatentes, muitos deles traumatizados, feridos ou socialmente desenraizados, poderá tornar-se fonte adicional de violência e instabilidade, sobretudo se encontrar uma sociedade incapaz de os receber e instituições incapazes de cuidar deles.
É aqui que o problema deixa definitivamente de ser apenas russo.
Todas as guerras produzem esta realidade. Também aqueles que combateram por uma causa justa regressam marcados pelo combate. Também os vencedores choram os seus mortos. Também quem lutou para defender a liberdade necessita de reaprender a viver num mundo em que o homem que está diante de si já não é um alvo.
A paz exige, portanto, muito mais do que ausência de combate.
Exige uma transformação ética.
Se a guerra consiste na radicalização da oposição entre o «nós» e o «eles», a paz começa quando o outro recupera a sua condição de pessoa. Não significa esquecer o crime, dispensar a justiça ou colocar agressor e agredido no mesmo plano moral. A verdadeira paz não se constrói sobre a mentira. Pelo contrário: exige verdade, justiça e memória.
Mas exige também algo mais difícil: impedir que o mal sofrido se transforme em princípio organizador do futuro.
Talvez por isso algumas guerras continuem durante gerações depois de terminadas. Sobrevivem nas narrativas nacionais, nos ressentimentos transmitidos aos filhos, nos monumentos, nas fronteiras, nas instituições e na necessidade política de conservar vivo um inimigo. O passado deixa então de ser memória e transforma-se numa espécie de presente permanente.
No caso russo, esta questão assume particular importância. A memória da chamada «Grande Guerra Patriótica» permanece central na construção política e identitária promovida pelo Kremlin, sendo continuamente convocada para interpretar conflitos presentes. Wiswesser chama justamente a atenção para a utilização dessas referências históricas na narrativa oficial relativa à Ucrânia.
Uma guerra pode, assim, alimentar outra guerra através da memória.
E chegamos ao paradoxo fundamental.
É relativamente fácil determinar quando termina uma batalha. Alguém deixa de disparar. Uma posição é abandonada. Uma bandeira é arriada. Um documento é assinado.
Muito mais difícil é determinar quando começa verdadeiramente a paz.
Porque a paz não é simplesmente o contrário da guerra. Não é um espaço vazio entre dois conflitos nem o silêncio produzido pela ausência dos canhões. É uma construção humana positiva, feita de relações, confiança, justiça e reconhecimento do outro.
Quando as armas finalmente se calarem na Ucrânia, haverá certamente razões para celebrar. Cada homem que deixar de morrer será um bem absoluto que deixa de ser destruído. Cada criança que puder dormir sem ouvir explosões constituirá uma vitória da humanidade sobre a guerra.
Mas nesse mesmo dia começará uma tarefa talvez ainda mais longa.
Reconstruir casas será difícil. Reconstruir cidades exigirá anos. Reconstruir economias custará fortunas.
Reconstruir seres humanos e relações poderá levar gerações.
É por isso que o verdadeiro fim de uma guerra não acontece necessariamente quando se dispara o último tiro.
Acontece quando deixa de ser necessário encontrar um inimigo para sabermos quem somos.
Francisco Vaz
9 de agosto de 2026
Nota
Esta reflexão foi suscitada pela leitura de Sean Wiswesser, «When the Guns Fall Silent: The Bleak Future of Postwar Russia», Proceedings, U.S. Naval Institute, vol. 152/8/1, 482, agosto de 2026. O autor analisa as possíveis consequências institucionais, militares e sociais da guerra na Ucrânia para uma Rússia pós-conflito, destacando a provável permanência da militarização do Estado, o reforço dos serviços de segurança e o difícil problema da reintegração dos veteranos.
Sem comentários:
Enviar um comentário