Pecado original

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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Império sem Fronteiras

a expansão como destino

Há uma característica que parece atravessar, com diferenças profundas de época, cultura e circunstância, grande parte das construções imperiais da história: o império dificilmente sabe onde deve acabar.

Um reino pode conceber a fronteira como limite. Um Estado pode reconhecer outro Estado como seu igual. O império, pelo contrário, tende a olhar para a fronteira como algo provisório. Para lá dela existe território ainda não submetido, população ainda não integrada, riqueza ainda não controlada, ameaça ainda não neutralizada ou mundo ainda não ordenado segundo a sua própria visão.

É esta talvez uma das características mais profundas da lógica imperial: a expansão contém em si a possibilidade — e frequentemente a tentação — de uma expansão ilimitada.

O imperador não deseja simplesmente ser imperador. A própria lógica do poder impele-o a desejar ser imperador de um espaço maior. E, atingido esse espaço, surge outro horizonte. O sonho último é tornar-se senhor do mundo conhecido — e, se fosse possível, do universo e arredores.

Há ainda uma dimensão quase dinástica desta pulsão. O imperador deseja deixar ao sucessor um império maior do que aquele que recebeu. Conservar parece pouco; aumentar significa glória. O território converte-se, assim, numa medida visível da grandeza do soberano.

A história oferece-nos sucessivamente esta imagem.

O Império Assírio construiu uma das primeiras grandes máquinas imperiais da Antiguidade, fazendo da conquista, da submissão e da demonstração do poder instrumentos permanentes da sua sobrevivência. Mas os assírios acabariam também por descobrir uma das grandes contradições do imperialismo: quanto maior é o território conquistado, maior é o esforço necessário para o conservar.

O Império Persa Aqueménida, sobretudo com Ciro, Dario e Xerxes, atingiu uma escala extraordinária. A sua expansão encontrou, porém, no mundo grego uma fronteira que não era apenas geográfica. Maratona, Termópilas, Salamina e Plateias representam também o encontro entre diferentes formas de compreender a organização política e o poder.

Pouco depois, Alexandre da Macedónia inverteria o movimento. Já não eram os persas a avançar sobre o mundo grego; era um exército greco-macedónio que atravessava a Ásia, derrotava o Império Persa e continuava para Oriente. Alexandre chegou à Índia. E teria continuado. Foram os seus próprios soldados, exaustos, que recusaram prosseguir.

O episódio é quase uma parábola do fenómeno imperial: o conquistador ainda vê horizonte quando os homens que o acompanham já veem apenas cansaço.

Roma elevou esta dinâmica a uma dimensão civilizacional. O Império Romano não se limitava a conquistar: integrava, administrava, construía estradas e cidades, difundia instituições e direito e concedia progressivamente cidadania. Mas nem por isso desapareceu a pulsão expansionista. César atravessou o Reno e chegou à Britânia; Augusto procurou consolidar e ampliar o domínio romano; Trajano levou o Império à sua máxima extensão territorial.

Cada fronteira alcançada colocava imediatamente a questão da fronteira seguinte.

Surge aqui um paradoxo fundamental da história imperial: o império conquista para obter segurança, mas cada conquista cria uma nova fronteira que necessita de ser defendida. A expansão destinada a eliminar uma ameaça acaba por colocar o poder imperial perante novas ameaças.

Este paradoxo tornar-se-ia particularmente evidente no Império Russo. A partir do núcleo moscovita, a Rússia expandiu-se durante séculos em várias direções: para o Báltico, para o Mar Negro, para o Cáucaso, através da Sibéria até ao Pacífico e para a Ásia Central. A profundidade territorial tornou-se simultaneamente instrumento de poder e procura de segurança.

Mas onde termina a fronteira necessária à segurança?

Quanto mais longe se encontra a fronteira, mais território existe para defender; mas cada território incorporado parece justificar a necessidade de controlar aquele que se encontra imediatamente para além dele. Cria-se, assim, uma lógica potencialmente interminável: conquistar para estar seguro e descobrir, depois da conquista, que é necessário conquistar novamente para proteger aquilo que acabou de ser conquistado.

Muitos séculos antes, mas segundo uma lógica naturalmente diferente, o Império Otomano desenvolvera também um impressionante movimento de expansão. Da Anatólia aos Balcãs, de Constantinopla ao Mediterrâneo oriental, do Egipto ao Norte de África, a expansão otomana adquiriu enorme dimensão política, militar e religiosa. Constantinopla caiu em 1453, Belgrado em 1521, Rodes em 1522. Viena foi cercada em 1529. O Mediterrâneo tornou-se um dos grandes espaços da disputa imperial.

É neste contexto que Malta, em 1565, e Lepanto, em 1571, ganham um significado que ultrapassa o simples episódio militar. A questão que então se colocava não era apenas quem possuiria uma ilha ou quem venceria uma batalha naval. Tratava-se também de saber até onde poderia avançar uma determinada construção imperial e onde encontraria resistência suficiente para transformar a expansão em fronteira.

Também o Império Português, embora profundamente diferente na dimensão territorial e na estrutura, participou desta dinâmica. Ceuta, a costa africana, o Índico, Goa, Malaca, Ormuz, Macau e o Brasil revelam um movimento contínuo de procura de novas posições, novas rotas e novos espaços de influência. A chegada ao Índico não encerrou a expansão marítima portuguesa; abriu-lhe novos horizontes.

Diu, em 1509, deve igualmente ser compreendida neste quadro. Ali chocavam interesses portugueses, mamelucos, guzerates e outros poderes do Índico, num mundo muito mais complexo do que uma simples oposição binária entre dois impérios. Mas estava em causa algo essencial: quem poderia estruturar e controlar as redes marítimas de poder e comércio do oceano Índico.

Depois vieram outros.

O Império Espanhol atravessou o Atlântico e o Pacífico e construiu uma monarquia de dimensão verdadeiramente global. O Império Britânico alcançou uma extensão sem precedentes, sustentado pela supremacia naval, pelo comércio, pelas finanças e por uma extraordinária rede de bases e comunicações. O Império Francês, em diferentes fases, projetou-se sobre vastíssimos territórios de África, Ásia e outras regiões do mundo.

Também a história da China conheceu sucessivas dinastias imperiais que expandiram, contraíram e reconstruíram os seus espaços de domínio. A representação tradicional do imperador como Filho do Céu e de uma ordem política concebida a partir de um centro civilizacional introduz uma dimensão particularmente importante nesta reflexão: o império não é apenas território. É também cosmovisão.

E talvez seja aqui que se encontre a questão fundamental.

Os impérios não se expandem apenas porque desejam mais terras. Expandem-se porque transportam consigo uma determinada interpretação do mundo.

Roma leva Roma consigo.

O mundo islâmico imperial transporta determinadas conceções religiosas, jurídicas e políticas da comunidade. Portugal e Espanha levam consigo o cristianismo, mas também interesses comerciais e dinásticos. A Grã-Bretanha associa comércio, poder naval, instituições e uma determinada ideia de civilização. Napoleão transporta simultaneamente exércitos franceses e princípios nascidos da Revolução.

O império tende, portanto, a apresentar a expansão não simplesmente como interesse próprio, mas como ordenação legítima do espaço humano.

É precisamente no século XX que esta característica adquire uma dimensão nova e terrível.

A Revolução de 1917 derrubou o Império Russo, mas não eliminou inteiramente a realidade geopolítica construída ao longo dos séculos. A União Soviética herdou grande parte desse espaço e acrescentou-lhe algo qualitativamente diferente: uma cosmovisão revolucionária universalista.

O comunismo soviético não pretendia apenas administrar os territórios que controlava. Interpretava a própria história como processo destinado à superação da sociedade burguesa e capitalista e à construção de uma sociedade comunista.

Neste sentido, a revolução não possuía uma fronteira necessariamente definitiva.

A humanidade inteira constituía o seu horizonte.

E aqui acontece algo extraordinariamente importante para compreender os totalitarismos modernos: o território deixa de ser o único objeto da conquista; o próprio homem passa a ser objeto de transformação.

Surge a ambição do “homem novo”.

Já não basta controlar território, fábricas, campos, escolas, universidades, exércitos ou meios de comunicação. É necessário modificar a maneira como o homem pensa, trabalha, educa os filhos, interpreta a história e compreende o seu lugar no mundo.

A política transforma-se numa espécie de antropologia imposta pelo poder.

A pergunta deixa de ser apenas:

Quem deve governar?

E passa a ser:

Que tipo de ser humano deve existir?

É precisamente neste ponto que o fenómeno totalitário ultrapassa o imperialismo tradicional.

Também o nacional-socialismo alemão possuía uma cosmovisão totalizante. O projeto hitleriano de Lebensraum não constituía apenas uma procura de território para a Alemanha. Assentava numa antropologia racial que hierarquizava seres humanos, determinava quem deveria dominar, quem deveria servir e, no extremo criminoso dessa lógica, quem não deveria sequer existir.

O império já não pretende simplesmente governar diferentes povos.

Pretende selecionar a humanidade.

A Itália fascista procurou igualmente construir um “homem novo”, embora segundo parâmetros diferentes: disciplinado, militarizado, subordinado à comunidade nacional e ao Estado, educado para a ação e para o sacrifício. A evocação permanente da Roma imperial não constituía apenas nostalgia histórica. Mussolini procurava apresentar o fascismo como regeneração de uma civilização e criação de uma nova Itália imperial.

Também o Império Japonês, sobretudo na sua fase expansionista das décadas de 1930 e 1940, deve integrar esta reflexão.

A expansão pela Manchúria, China, Sudeste Asiático e Pacífico foi acompanhada pela formulação de uma ordem regional apresentada através da Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. O discurso de libertação da Ásia relativamente aos impérios coloniais ocidentais conviveu, porém, com a realidade da hegemonia japonesa, da ocupação militar e, em muitos territórios, de extrema violência.

Também aqui existia uma cosmovisão.

O imperador, o Estado, a disciplina, o sacrifício individual e uma determinada conceção da missão histórica do Japão integravam uma ordem na qual o indivíduo era chamado a subordinar-se radicalmente a uma realidade coletiva superior.

Encontramos, portanto, no século XX uma transformação qualitativa do velho fenómeno imperial:

o império antigo queria conquistar o mundo; o império totalitário pretende conquistar também a consciência do homem.

Esta distinção é essencial.

Seria historicamente errado colocar Assíria, Pérsia, Roma, Portugal, o Império Otomano, a Grã-Bretanha, a União Soviética, a Alemanha nazi ou o Japão imperial numa mesma categoria moral ou política. São realidades separadas por séculos, instituições, religiões, culturas, formas de governo e conceções radicalmente diferentes da pessoa humana.

Mas podemos interrogá-las a partir de uma questão comum:

o que acontece quando uma determinada cosmovisão adquire poder suficiente para se considerar autorizada a ordenar todo o espaço humano?

É aqui que a história imperial se transforma numa questão filosófica.

Todo o império necessita de uma justificação de si próprio.

Não se conquista apenas porque se deseja conquistar. É necessário explicar — aos conquistadores e frequentemente aos conquistados — por que razão a expansão é legítima.

Uns invocaram a vontade dos deuses. Outros, a civilização. Outros, a verdadeira religião. Outros, o comércio e o progresso. Outros, a raça. Outros, a classe social. Outros, a libertação dos povos.

Mudam as palavras. Permanece uma tentação: transformar uma visão particular do bem numa autorização para exercer poder ilimitado sobre os outros.

Por isso, talvez seja insuficiente estudar os impérios apenas através das batalhas, fronteiras, exércitos, armadas, tratados e rotas comerciais.

Antes de tudo isso existe uma determinada antropologia:

Que é o homem?

Existe uma determinada filosofia política:

Quem tem legitimidade para governar quem?

Existe uma determinada ética:

Que meios podem legitimamente ser utilizados para realizar aquilo que se considera ser o bem?

E existe frequentemente uma teologia, uma metafísica, uma religião política ou uma filosofia da História:

Qual é o sentido último da humanidade e para onde deve ela caminhar?

É por isso que Assíria, Pérsia, o mundo greco-macedónio, Roma, o Império Otomano, Portugal, Espanha, Rússia, Grã-Bretanha, França, China, Japão, Alemanha nazi e União Soviética devem ser estudados também através das respetivas cosmovisões.

A economia explica muito. A necessidade de matérias-primas explica muito. O comércio explica muito. A geografia explica muito. A estratégia e a procura de segurança explicam muito.

Mas nenhuma delas, isoladamente, explica tudo.

Porque por detrás das armadas, dos exércitos, dos mercadores e das fronteiras encontra-se sempre o ser humano e uma determinada conceção daquilo que o ser humano é — ou daquilo que alguém decidiu que ele deveria ser.

É aqui que regressamos ao problema inicial.

O império dificilmente sabe onde parar.

Se posso conquistar, por que não conquistar? Se posso governar cem cidades, por que não cento e uma? Se alcancei este rio, por que não atravessá-lo? Se domino este mar, por que não controlar o seguinte?

Mas aquilo que cresce necessita de ser administrado. Aquilo que é conquistado necessita de ser defendido. Aquilo que é submetido pode revoltar-se. Os exércitos precisam de homens; os homens, de alimentos; as armadas, de bases; as bases, de abastecimento; e tudo necessita de recursos.

A expansão contém, portanto, a semente da sobre-extensão imperial.

Chega um momento em que mais território já não significa mais poder.

Pode significar precisamente o contrário.

O centro afasta-se das periferias. As comunicações alongam-se. Os custos aumentam. Os adversários multiplicam-se. A identidade imperial fragmenta-se. Aquilo que anteriormente constituía força transforma-se progressivamente em vulnerabilidade.

Talvez por isso a fronteira mais difícil de estabelecer para qualquer império nunca tenha sido a fronteira geográfica.

É uma fronteira interior.

É o momento em que o poder consegue reconhecer que poder fazer não significa dever fazer.

Nesse sentido, a história dos impérios é também uma história ética da humanidade. Todos eles, apesar das enormes diferenças que impedem qualquer equivalência simplista, permitem formular uma pergunta comum:

existe no poder humano capacidade para se autolimitar?

E há ainda uma diferença decisiva.

O imperador tradicional sonhava deixar ao sucessor um território maior do que aquele que recebera.

O totalitarismo vai mais longe.

Sonha deixar-lhe um homem diferente daquele que encontrou.

O primeiro pretende ultrapassar a fronteira geográfica.

O segundo pretende ultrapassar a própria fronteira da consciência.

Talvez seja esta a forma mais radical da tentação imperial: já não possuir apenas o território onde o homem vive, mas determinar aquilo que o homem deve pensar, aquilo em que deve acreditar e, finalmente, aquilo que o homem deve ser.

Porque conquistar o mundo pode exigir poder.

Conquistar o homem exige destruir a sua liberdade.

E saber onde parar exige aquilo que ao poder tantas vezes faltou ao longo da História: sabedoria.

Francisco Vaz

11 de agosto de 2026

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