Pecado original

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Pascal: quando o homem foge de si próprio

Do divertissement do século XVII ao ruído permanente do nosso tempo

Há pensadores que pertencem ao seu tempo e outros que parecem tornar-se mais atuais à medida que o tempo passa. Blaise Pascal pertence seguramente aos segundos. Matemático, físico, inventor, filósofo e pensador cristão, morreu em 1662, com apenas trinta e nove anos, deixando inacabada aquela que pretendia ser a sua grande obra de reflexão sobre o ser humano e sobre Deus. Os fragmentos desse projeto chegaram até nós sob o título de Pensamentos e constituem uma das mais penetrantes interrogações alguma vez feitas acerca da condição humana.

Pascal parte de um paradoxo: o ser humano é simultaneamente grande e miserável.

É miserável porque é frágil. Basta uma doença, um acidente ou simplesmente o decorrer inexorável do tempo para revelar a precariedade da nossa existência. Perante a imensidão do universo, o homem parece quase nada. Mas há qualquer coisa extraordinária neste quase nada: o homem sabe que é frágil.

Daí a célebre imagem pascaliana do homem como «caniço pensante». O universo não precisa de se armar para o destruir. Uma gota de água pode bastar. Contudo, mesmo esmagado pelo universo, o homem conserva uma superioridade: sabe que morre; o universo nada sabe daquilo que faz.

A grandeza humana começa, assim, na consciência.

O homem é aquele estranho ser que não apenas existe, mas sabe que existe; que não apenas sofre, mas sabe que sofre; que não apenas morre, mas sabe antecipadamente que morrerá. E precisamente porque sabe tudo isto interroga-se acerca do sentido da sua existência.

É aqui que Pascal introduz uma das suas ideias mais perturbadoras: o divertissement.

Traduzimos normalmente a palavra por «divertimento», mas o seu significado é muito mais profundo. Não se trata simplesmente do lazer ou da diversão. Trata-se de tudo aquilo que utilizamos para nos desviarmos de nós próprios.

Trabalhamos, competimos, acumulamos, discutimos, procuramos reconhecimento, perseguimos honras, poder, dinheiro e prestígio. Enchemos os nossos dias de atividades e preocupações. E Pascal pergunta: porquê?

Talvez porque o silêncio seja difícil de suportar.

É nesse contexto que surge uma das suas observações mais célebres: «Toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saberem permanecer em repouso num quarto.»

A frase foi escrita no século XVII. Poderia ter sido escrita hoje.

Nunca tivemos tantos instrumentos para evitar permanecer sozinhos connosco próprios. O telemóvel acompanha-nos permanentemente. As redes sociais ocupam cada intervalo. As notícias sucedem-se sem descanso. Música, televisão, vídeos, mensagens e notificações preenchem os momentos que antigamente pertenciam ao silêncio.

Criámos talvez a mais poderosa civilização do divertissement que alguma vez existiu.

Não porque nos divertimos demasiado, mas porque quase já não permitimos que exista silêncio suficiente para nos encontrarmos a nós próprios.

E talvez seja precisamente isso que tememos.

Porque, quando o ruído cessa, aparecem inevitavelmente as perguntas que nenhuma tecnologia conseguiu eliminar: Quem sou? Que fiz da minha vida? Quem amo verdadeiramente? Quem me ama? Que permanece depois de tudo aquilo que acumulei? Que significa envelhecer? Que significa morrer?

Pascal percebeu que o problema fundamental do homem não consiste apenas em desconhecer as respostas. Consiste frequentemente em não querer ouvir as perguntas.

Por isso procuramos constantemente alguma coisa que nos ocupe.

Mas há aqui outro paradoxo. Quanto mais procuramos fora de nós aquilo que possa preencher-nos, mais descobrimos que nenhum objeto finito consegue fazê-lo definitivamente. Conseguimos aquilo que desejávamos e pouco depois desejamos outra coisa. Alcançamos determinada posição e imediatamente procuramos outra. Obtemos reconhecimento e necessitamos de novo reconhecimento.

O desejo parece sempre maior do que aquilo que o satisfaz.

É neste ponto que Pascal se aproxima profundamente de Santo Agostinho. A inquietação humana talvez não seja apenas uma imperfeição psicológica. Talvez revele alguma coisa acerca da própria estrutura do ser humano: somos seres abertos a uma realidade que nenhum objeto finito consegue esgotar.

É também neste contexto que deve compreender-se outra conhecida afirmação pascaliana: «O coração tem razões que a razão desconhece.»

Pascal não está a atacar a razão. Seria absurdo atribuir semelhante propósito a um dos maiores matemáticos do seu tempo. Está antes a reconhecer os seus limites. Nem tudo aquilo que é real pode ser demonstrado geometricamente.

Não demonstramos matematicamente que alguém nos ama.

Não demonstramos através de uma equação a fidelidade de um amigo.

Não reduzimos a uma fórmula a beleza de uma obra musical, o sofrimento de quem perdeu alguém ou a esperança daquele que continua a amar quando já nada parece justificá-lo.

Há dimensões da realidade humana que se conhecem de outro modo.

É nesse sentido que o «coração» pascaliano não significa sentimentalismo. Significa uma forma de inteligência capaz de reconhecer aquilo que a razão demonstrativa, por si só, não alcança.

Talvez possamos então compreender uma das mais extraordinárias afirmações de Pascal:

«O homem ultrapassa infinitamente o homem.»

O ser humano nunca coincide inteiramente com aquilo que atualmente é. Não se reduz ao corpo, à profissão, ao património, ao estatuto social, ao êxito ou ao fracasso. Há nele uma abertura permanente para além de si próprio.

Pelo pensamento.

Pela criação.

Pela relação.

Pelo amor.

E, para Pascal, finalmente, por Deus.

A grandeza do homem não consiste, portanto, em negar a sua fragilidade. Pelo contrário: começa precisamente quando a reconhece.

A consciência da miséria sem a consciência da grandeza pode conduzir ao desespero. Mas a consciência da grandeza sem a consciência da miséria conduz facilmente à soberba. Entre ambas encontra-se o homem real: extraordinariamente capaz e extraordinariamente vulnerável.

Talvez seja por isso que Pascal continua a inquietar-nos quase quatro séculos depois.

Vivemos numa civilização que nos oferece possibilidades de distração que ele jamais poderia ter imaginado. Podemos atravessar um dia inteiro sem experimentar verdadeiramente um minuto de silêncio. Podemos estar permanentemente ligados ao mundo e, paradoxalmente, cada vez mais afastados de nós próprios.

Pascal obriga-nos então a formular uma pergunta desconfortável:

quando procuramos incessantemente alguma coisa que nos distraia, de que estamos realmente a fugir?

Talvez a resposta seja a mais simples e a mais difícil de aceitar.

Estamos muitas vezes a fugir de nós próprios.

E talvez o primeiro gesto verdadeiramente humano consista precisamente no contrário: parar, silenciar o ruído e ter coragem para permanecer diante de nós mesmos.

Porque pode ser nesse silêncio que finalmente descobrimos que o homem é simultaneamente muito menos e infinitamente mais do que imaginava.


Francisco Vaz

10 de agosto de 2026

Nota

Blaise Pascal (1623–1662) não chegou a concluir a obra de apologética cristã que preparava nos últimos anos da sua vida. Após a sua morte, os manuscritos e fragmentos que deixou foram reunidos e publicados, em 1670, sob o título Pensées de M. Pascal sur la religion et sur quelques autres sujets. As diferentes edições modernas apresentam variações na ordenação e numeração dos fragmentos, razão pela qual as referências às passagens dos Pensamentos podem diferir consoante a edição utilizada.

As reflexões sobre o divertissement, a condição humana, o «caniço pensante» e as «razões do coração» pertencem ao núcleo mais característico do pensamento pascaliano: a tentativa de compreender o ser humano na tensão entre miséria e grandeza, finitude e infinito, razão e fé.


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