Pecado original

Pecado original

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Da comunidade como o absoluto necessário ou Do frágil absoluto

Começamos com uma citação em língua francesa, propositadamente, para relembrar que há mais no mundo do que Inglês mal falado. Diz Lavelle, na sua obra La conscience de soi (C. S., p. XVIII): «La conscience de soi me découvre l’intimité d’une solitude, mais où l’univers peut être reçu. C’est la solitude d’une naissance, mais qui est celle de l’univers.»[1]
Profundo conhecedor de Descartes, Lavelle percebe que é no absoluto do acto de presença da inteligência a si própria, neste acto, absolutamente único, em que me encontro, que tudo, em infinita possibilidade se dá, se pode dar. O mais é significativamente nada, pois de isso não pode haver, nunca pode haver referência alguma.
Não estamos perante a imprópria questão da relação entre imanência absoluta e transcendência absoluta, assim absolutamente inconciliáveis – a repetição do termo «absoluto» é propositada –, mas no preciso seio de isso que é transcendentalmente, logicamente e ontologicamente, anterior a tal relação. Descartes bem o sabia, ou nunca teria começado a sua falsa investigação: falsa não por causa do conteúdo, mas porque a forma real não foi a que nos é narrada, mas, antes, a de uma intuição prévia a que, depois, o filósofo deu a aparência de um percurso heurístico. Descartes sempre soube não onde queria chegar, mas onde já tinha chegado.
E isso a que tinha intuitivamente chegado – lembremos que «intuição» quer dizer «conhecimento directo e imediato de algo» – é o que encontramos na citação de Lavelle, com que começámos, designado como «nascimento». O sentido do termo francês «connaissance» como «co-nascimento» não se baseia num trocadilho, antes reflecte a profundíssima intuição segundo a qual, dito metaforicamente, cada vez que abrimos os olhos, nascemos, em absoluto, para o universo do sentido e «com-nosco» nasce este mesmo universo, que não é apenas um universo de acto em realização, mas é, sobretudo, um espantoso tesouro de possibilidades, virtualmente infinitas, precisamente enquanto este acto durar, enquanto, na bela ainda que terrível expressão, «não fecharmos os olhos».
Não é poesia, melhor ou pior, que aqui está em causa, mas o próprio sentido da humanidade, constitutivo do que é mais profundamente próprio da humanidade, de cada um de nós, como aquilo que verdadeiramente é, verdadeiramente somos: um acto de inteligência, de sentido, de «logos», etc.
É mesmo entre o absoluto da luz e o absoluto da sua ausência que se situa a nossa possibilidade própria, não como coisas, mas como entidades «lógicas», como muito bem percebeu Aristóteles, quando nos e se designou como «possuidores» ou «portadores» do «logos».
Pode, assim, Lavelle dizer, de modo esclarecedor:

«A dificuldade nasce sempre deste pensamento segundo o qual há em nós um eu que é distinto da própria consciência que dele temos. Mas, antes de mais, antes de ter dele tomado consciência, nada há que eu possa dizer que me pertença nem, por maioria de razão, que eu o seja. E esta mesma consciência não reside na luz com que ilumino uma outra coisa para além dela, mas num acto que assumo e por meio do qual produzo esta luz sem a qual nada seria meu. A consciência de si é distinta de si, se se imaginar que o eu é como um objecto que me é oferecido desde fora, e idêntica a si, se é a operação interior por meio da qual faço de mim próprio o que sou. […] A consciência de si ultrapassa, pois, singularmente a distinção que estabelecemos quase sempre entre o conhecimento e a acção. Não há diferença para o eu entre conhecer-se e fazer-se. Na consciência de si, é o mistério da vida que se me descobre em plena luz, mas sem perder coisa alguma do seu carácter misterioso, pois é esta mesma luz que é, de facto, o maior mistério. Ela é o ponto em que não cesso de me descobrir e de me criar ao mesmo tempo, mas onde a descoberta e a criação de si se confundem, para ela, com a descoberta e a criação do mundo.»[2]

  O acto que nos constitui, a nós e ao mundo connosco, ao mundo e a nós com ele, ao mundo no acto que sou, como sentido deste mesmo acto, sentido de tal modo integrado que não posso abdicar de qualquer dos pólos, pois, se elimino o mundo, elimino-me com ele, se me elimino, comigo elimino o mundo, pode ser designado como o acto do ser, dado que, sem este acto, nada tem ou pode ter sentido.
Deixemos, por ora, as aproximações mais metafóricas. Numa linguagem técnica mais própria de ciências nascidas precisamente do esforço cartesiano de compreensão do acto de inteligência, podemos afirmar que, sem o acto de inteligência que põe a semântica objectiva, em sentido cartesiano, de isso que é o conteúdo de pensamento de cada acto – não há outro modo de o dizer – de pensamento, não há ou pode haver qualquer referência a qualquer entidade, seja ela qual for.
Não há sequer direito aos chamados «pressupostos» lógicos, sejam eles de tipo kantiano ou de outro tipo qualquer, pois, mesmo estes mais não são do que realidades objectivas de pensamento, isto é, a sua invocação imediatamente nos lança em viciosa circularidade lógica. Como Descartes bem percebeu, nada há que possa ter humana referência alguma que não tenha de logicamente estar contido no acto de pensamento como sua realidade objectiva, mesmo que seja algo como a mágica «tábua rasa» de David Hume ou a não menos mágica arquitectónica de Immanuel Kant, mágicas porque, pretensamente anteriores a um plano por meio do qual foram pensadas, são postas de forma absoluta, isto é, mágicas porque, mesmo sendo impossíveis, diz-se que funcionam…
A misteriosa luz a que Lavelle se refere resolve – melhor, não resolve, também não resolve –, mas ajuda a intuir o problema da anterioridade lógica necessária como suporte ao acto de pensar: de novo, metaforicamente, isso que é a condição absoluta de possibilidade do acto de pensamento é dito como uma misteriosa luz.
Mas a expressão não é tão nefelibática como se possa pensar, numa abordagem apressada. O termo «luz» está na vez do termo «logos», do termo «sentido» ou, preferencialmente, da expressão «possibilidade de sentido», dado que a luz é isso que permite ver, que possibilita a visão. Ora, se a este sentido juntarmos isso para que o termo «mistério» remete, podemos perceber qual o alcance da imagem.
Só há e só pode haver um único mistério: isso que ficará sempre por inteligir na sua totalidade na relação com uma inteligência finita em acto, mesmo que esta seja infinita em potência, isto é, infinita, digamos assim, linearmente. Esta impossibilidade só pode dever-se a uma razão: que isso que recebe o nome de «mistério» seja infinito em acto. Não é possível qualquer outra razão – o que Descartes bem percebeu quando assinala esta mesma ideia, sob outra designação, como uma das realidades objectivas do acto de pensar.
Assim, isso para que Lavelle nos está a chamar a atenção é para o único pressuposto – bem cartesiano – que faz sentido para que possa haver pensamento, qualquer seja: um acto infinito que sirva de suporte metafísico – temos mesmo de usar o termo – para que possa haver isso, isto, precisamente, que designamos como pensamento.
Para que possa haver um acto qualquer de pensamento, por mais infinitesimal que se possa pensar, há que haver um ambiente lógico qualquer, logicamente prévio, que o suporte. Esta anterioridade lógica é ontologicamente independente do acto de pensar. Em termos kantianos, é isto o que permite a «coisa-em-si» como referência-limite e o plano transcendental que dela necessita para poder ser como algo com um possível referente necessário, em absoluto real, ou seja, não ter como correlato necessário o nada. Mas tal não depende do acto de pensar. Não é, sequer, pensável, quer dizer, não é apenas incognoscível como a «coisa-em-si», mas é impensável.
O que isso seja, para além do que foi dito, isso não é passível de ser sabido, pois qualquer acto, e tem de ser sempre um acto de pensamento, não há outro modo, que o queira saber, não pode ir além do que é e o que é acontece sempre num nível que transcende ou é transcendido pelo suporte lógico necessário.
Numa linguagem tipicamente metafísica, dir-se-á que apenas esse mesmo acto-suporte pode saber de si próprio, à imagem da versão aristotélica do divino como acto-puro infinitamente auto-contemplativo. Em linguagem epistemológica, diremos que não é possível ao estrato actual do pensamento auto-transcender-se ou que o acto de pensamento, tal como o conhecemos ou alguma vez poderemos conhecer, é, como tal, absolutamente imanente.
E é.
Então, estamos condenados a algo como um inevitável idealismo de tipo atomista?
Não.
O pensamento é comunitário, mas não na forma a que estamos habituados a pensar «comunidade», isto é, como uma forma de agregação exterior ou que se limita a aproximar ou juntar simples e isoladas exterioridades ou as exterioridades de entidades cuja interioridade, porque o acto de pensar é imanente, é necessariamente inacessível.
Sem entrar na especulação monadológica leibniziana, tão interessante quanto incompreendida, vejamos como Lavelle perspectiva a solução. Nas suas palavras:

«A consciência de si ensina-nos a nada possuir, de modo a tornarmo-nos presentes a tudo o que é e a tudo o que pode ser. É necessário que se reduza a um acto de atenção pura, que mais não é, no fundo de nós próprios, do que uma espécie de participação consentida neste acto eterno e sempre recomeçado, que é o próprio acto da criação.»[3]

O que torna impossível a transcendência relativamente ao acto de inteligência, de pensamento, é que este é sempre um acto criador, isto é, um acto que perenemente introduz o absoluto da novidade, melhor, pois o que ficou dito está errado, que coincide com um absoluto de novidade em cada seu abstractamente considerável instante. É esta absoluta coincidência, absoluta, infinitesimal, que corresponde ao sentido agostiniano do presente – de que Descartes bem sabia, pois copiou descaradamente o sentido original da matriz da sua reflexão de Agostinho[4] –, que constitui o acto do pensar, da consciência, no sentido em que Lavelle a põe.
Este absoluto de novidade acontece apenas em e por meio de cada acto de inteligência e varia de acto para acto, isto é, varia em sentido linear no acto de inteligência contínuo e contíguo que nos constitui enquanto ser vígil, varia também entre cada uma destas continuidades. Em termos comuns, isso que somos enquanto acto de inteligência varia sempre, pois, em cada abstractamente considerável instante, cada acto que lhe corresponde, para poder ser, tem de ser diferente do que o precedeu e do que lhe suceda, por isso é novo, absolutamente novo no acto que é, sob pena de, faltando este absoluto de novidade, se cair no nada.
Isso que se considera ser o nosso acto próprio, que, irreflectidamente, temos como algo de garantido, hipostaticamente garantido, nada mais é, perspectivado a partir de si próprio, isto é, da sua absoluta imanência, do que um contínuo de inteligência, de acto de inteligência, quando e apenas quando há este acto, mas sempre que há este acto. Quando não há, não há coisa alguma, absolutamente.
Deste ponto de vista, nada mais há e nada mais pode ser referenciado senão a partir deste absoluto. Descartes tem razão, Santo Agostinho também. Ambos sabem, e Lavelle acompanha-os, que é neste absoluto presente do acto de inteligência que tudo é como sentido e como possibilidade de sentido.
Quando a medievalidade dizia que transcendentalmente o ser é o correlato necessário da inteligência, não estava apenas a coroar com uma notável fórmula o cerne da intuição metafísica platónica, estava a sintetizar a intuição e a reflexão agostiniana, que percebera, no meio da maior angústia, que todo o ser mais não é do que esta abertura, virtualmente infinita, para uma possibilidade ontológica, que, para o poder ser, isto é, na sua fragilidade e aparente possível inconstância, necessita de um infinito em acto que permita que tal abertura seja uma real abertura para algo, já que para o nada não pode ser.
O absoluto, para estes pensadores, como para Pascal, embora este queira disfarçar, revela-se imediatamente como o mais frágil, mas como o mais potente, precisamente pela lógica implicação necessária que tal absoluta fragilidade impõe: a da realidade de algo que a justifique contra o nada.
O sentido de um total e virtualmente infinito dom como isso que se dá como acto de inteligência impõe-se. Se há um acto finito de inteligência, em que até mesmo esta se pode descobrir como um eu, como um acto de inteligência que se saboreia em cada instante, é porque há algo que se lhe dá. A não ser assim, ou o nada absoluto, o que não se verifica, ou tal acto finito teria de ser infinito, o que também não se verifica. Eis a súmula breve de toda a meditação agostiniana e cartesiana sobre o tema.
Sendo assim, o acto de inteligência, realidade base de tudo o que eu sou ou posso ser, desde que algo surja neste acto como um eu (há actos de inteligência sem sujeito, por exemplo, os que se passam nos calculadores computacionais, aos milhões de milhão por segundo…), é fundamentalmente um acto de atenção, como muito bem Lavelle percebeu. Neste sentido, quanto maior e melhor é a atenção do acto que sou na forma de inteligência, tanto maior é o meu ser, pois o meu ser, em sua mais profunda e lata abrangência ontológica, repetimos, nada mais é do que a totalidade desta atenta vigilância.

Assim sendo, toda a inteligência, sendo matricialmente fundada num dom, é um acto de necessária relação, um acto de comunidade, intrínseca comunidade.

O sentido comum que se atribui a comunidade parte do pressuposto segundo o qual primeiro há coisas individuais que, depois, se congregam de algum modo, formando uma comunidade. Mas como, porquê e, sobretudo, para quê congregar-se?
Estamos perante o equívoco irresolúvel do atomismo antigo, que supunha átomos, necessariamente perfeitos e eternos, que se reuniam devido a um movimento, também eterno, exterior a cada um deles. O resultado imediato é ter uma eterna mesa de bilhar com bolinhas a infinitamente bater umas nas outras e a desviar-se umas das outras de forma finitamente aleatória e finitamente caótica em acto, em cada abstracto instante considerável. Na altura, encontrou-se um remendo relacional constituído por uma espécie de ganchos que permitiam que, aquando dos choques, alguns átomos se enganchassem nos outros, assim surgindo isso que parece ser a ordem do mundo.[5]
Indivíduos perfeitos em si mesmos (absolutamente perfeitos), por serem perfeitos, não podem relacionar-se porque nem sequer podem existir no plural, uma vez que a perfeição implica necessariamente a infinitude e esta exclui a alteridade: só pode haver um infinito merecedor do nome, ou seja, numa linguagem sugestiva, infinitamente infinito. Neste sentido, a Trindade cristã é o Deus perfeito, absolutamente perfeito, não como congregação exterior de três pessoas, mas como o acto de amor que institui a comunidade, que é a perfeição das três pessoas.[6]
A individualidade real – finita, portanto – pressupõe a relação, pois, apenas por meio desta, isto é, apenas supondo logicamente uma necessária relacionabilidade infinita, pode haver a necessária relação que põe cada indivíduo como fruto total dessa mesma relação, macro-relação que o constitui como dom e possibilidade de dom, recebido e a dar, expraiada por infinitas possíveis relações. São estas, em sua comunidade integrada, que constituem o tecido do real, de isso a que se chama o ser. Um exemplo de tentativa de dar conta lógica e racional deste imbricado de infinitas relações que constituem e suportam o ser é a Monadologia, de Leibniz.
Deste modo, tem Lavelle razão quando diz:

«A consciência é semelhante à aranha colocada no centro de uma teia, que a põe em contacto, por meio de fios muito sensíveis, com todos os pontos da periferia. O conhecimento é esta teia, que procuramos estender sobre a totalidade do tempo, para a tecer. Do mesmo modo, o conhecimento, que nos reúne ao Todo, dá-nos a alegria de participar da sua perfeição: a infinitude é dele inseparável e nada há que, de direito, lhe possa escapar. É mesmo impossível ter consciência de si, se se procurar apreender o seu ser isoladamente: conhecer-se é inscrever-se no Todo, é multiplicar com ele as relações que nos revelam todas as nossas potências.».[7]

A comunidade, segundo Lavelle, começa por ser uma comunidade metafísica, transcendental, isto é, que não apenas acompanha a possibilidade ontológica de cada e de todos os possíveis e reais entes – sentido antigo de transcendentalidade –, mas que também é necessário e universal e anterior a qualquer forma de realidade mundana, isto é, a qualquer forma de possível experiência – sentido kantiano de transcendental.
O modo superior, máximo, que esta comunidade pode atingir é o acto de amor, pois, cada um deles põe de forma transcendental, por ínfimo que seja, a possibilidade de ser de um ente, e, assim, universalmente. Neste sentido, o mundo, quer o mundo superior do ser pleno quer o mundo em que vamos sendo em busca do ser pleno são um comunitário acto de amor. É o acto de atenção, de inteligência, de consciência que permite, pondo o mundo como acto de sentido, e, no mundo, cada um de seus activamente integrados componentes, mormente as pessoas, o universal direito a ser, como dom comunitário, num, agora, sim, mundo – isto é, não imundo acto de negação de possibilidade do outro –, constituído metafísica e transcendentalmente pelo acto de doação da possibilidade de sentido de e para o outro. Este dom é acto de amor, não coisa passional, mas coisa activa, verdadeiramente criadora.
Nas suas palavras:

«Pois a consciência do que sou é a consciência do que posso ser, de uma potência incessantemente em acção e que nunca consegue esgotar-se. A consciência permite-me dispor desta potência no milagre do instante. Não há, aqui, conhecimento de uma coisa dada, mas apenas lucidez no exercício de uma actividade cujo jogo nunca pode ser suspenso. Não é, pois, como a visão de uma paisagem que se ofereça desde fora ao olhar, mas como uma paisagem que nasça do próprio acto do olhar. A consciência de si é uma reflexão que, em vez de supor o objecto ao qual se aplica, o engendra, aplicando-se-lhe.».[8]

Há, assim, uma dupla forma de a comunidade ser, segundo Lavelle: primeiro, como suposto lógico transcendental relacional para que o finito possa ser dado em sua realidade; depois, como relação em acto entre os finitos, formando a imensa teia de relações que mantém o mundo sendo, mas sempre na relação transcendental com a primeira, sempre necessária forma. Deste modo, para todos os entes dotados de qualquer forma de inteligência, mormente os seres humanos, aplica-se o que a seguinte afirmação deixa bem claro:

«[…] aí, onde cessa a consciência de si, vivo numa contínua ausência. Mais exactamente, não vivo, absolutamente.».[9]

Especulativamente, Lavelle é um filósofo da comunidade. No concreto carnal da existência, Lavelle soube fazer jus a esta mesma preocupação, entregando-se ao serviço da sua comunidade, mesmo em tempos abissais como os da duas Grandes Guerras, tendo, na Primeira, ainda jovem, ido como voluntário para a frente de batalha, onde passou grandes tribulações, tendo sido feito prisioneiro pelos Alemães e submetido a cativeiro durante mais de dois anos.[10] Nesta situação, no campo, organizou cursos para os camaradas, mostrando, bem socraticamente, que, mesmo para quem não acredita que a matéria da lama das trincheiras resume toda a essência do universo, há que cuidar dos que nela vivem, mesmo que, para tal, tenha de deixar intempestivamente transformar a sua própria carne em mais um pedaço de lama. Mas não o espírito.
Este é o mote para a acção de que o mundo de hoje necessita: uma entrega generosa ao bem-comum, à comunidade como acto de amor, acto de possibilitação do ser do outro, de todos os outros, sem excepção, recíproca e universalmente.
Tal é o papel que a Filosofia deveria assumir, se houvesse filósofos prontos a seguir o caminho de Sócrates e de Lavelle, não reduzidos a meros funcionários assustados pelas comissões de censura várias que, melhor do que o Lager, controlam a nossa forma de pensar e de ser.

Américo Pereira
Maio de 2015




[1]  LAVELLE Louis, La conscience de soi, Paris, Bernard Grasset, Éditeur, 1933 i + 312 pp.: «A consciência de si revela-me a intimidade de uma solidão, mas onde o universo pode ser recebido. É a solidão de um nascimento, mas que é o do universo.», trad. nossa.

[2] C. S., pp. XIV-XV: «La difficulté naît toujours de cette pensée qu’il y a en nous un moi qui est  distinct de la conscience même que nous en avons. Mais tout d’abord, avant que j’en aie pris conscience, il n’y a rien dont je puisse dire ni qu’il m’appartienne, ni, à plus forte raison, que je le sois. Et cette conscience elle-même ne réside pas dans la lumière par laquelle j’éclaire une autre chose qu’elle, mais dans un acte que j’assume et par lequel je produis cette lumière sans laquelle nulle chose ne serait mienne. La conscience de soi est distincte de soi, si on imagine que le soi est comme un objet qui m’est offert du dehors, et identique à soi, s’il est l’opération intérieure par laquelle je me fais moi-même ce que je suis. […] La conscience de soi dépasse donc singulièrement la distinction que nous établissons presque toujours entre la connaissance et l’action. Il n’y a pas de différence pour le moi entre se connaître et se faire. Dans la conscience de soi, c’est le mystère de la vie qui se découvre à moi en pleine lumière, mais sans rien perdre de son caractère mystérieux, car c’est cette lumière même qui est en fait le plus grand mystère. Elle est le point où je ne cesse de me découvrir e de me créer à la fois, mais où la découverte et la création de soi se confondent pour elle avec la découverte et la création du monde.»

[3] C. S., p. XXI : «La conscience de soi nous apprend à ne rien posséder afin de devenir présent à tout ce qui est et à tout ce qui peut être. Il faut qu’elle se réduise à un acte d’attention pure qui n’est, au fond de nous-même, qu’une sorte de participation consentie à cet acte éternel et toujours recommencé, qui est l’acte même de la création.»[3]
[4] Ver, por exemplo, AGOSTINHO, A cidade de Deus, «Livro 11», Capítulo XXVI.
[5] Esta pseudo-solução anedótica não pode ser comparada com o que são as formas de valência dos átomos na sua moderna concepção, pois esta última é da ordem do físico e a solução antiga é da ordem do “metafísico”.
[6] A este propósito, diga-se que para Platão, para o Platão do Banquete, mas também para o Platão da Politeia, é a comunidade que faz o ser humano completo, isto é, realmente um ser humano. Veja-se, no Banquete, quer a comunidade necessária entre Penia e Poros, no discurso de Sócrates, quer a comunidade necessária entre as semi-esferas, únicas verdadeiramente humanas, criadas por Zeus, no discurso de Aristófanes. Na República, o ser humano perfeito é-o e apenas o é na comunidade transcendentalmente anterior que é a Polis, a Politeia.
[7] C. S., p. 287: «La conscience est semblable à l’araignée placée au centre d’une toile qui la met en contact par des fils très sensibles avec tous les points de la périphérie. La connaissance est cette toile que nous cherchons à étendre sur la totalité du temps pour la tisser. Aussi la connaissance, qui nous réunit au Tout, nous donne-t-elle la joie de participer à sa perfection : l’infinité en est inséparable et il n’y a rien qui, en droit, puisse lui échapper. Il est même impossible d’avoir conscience de soi si l’on cherche à saisir son être isolément : se connaître, c’est s’inscrire dans le Tout, c’est multiplier avec lui des relations qui nous révèlent toutes nos puissances.».
[8] C. S., p. XX : «Car la conscience de ce que je suis, c’est la conscience de ce que je puis être, d’une puissance sans cesse en action et qui ne réussit jamais à s’épuiser. De cette puissance, la conscience me permet de disposer dans le miracle de l’instant. Il n’y a pas ici connaissance d’une chose donnée, mais seulement lucidité dans l’exercice d’une activité dont le jeu ne peut jamais être suspendu. Elle n’est donc pas comme la vision d’un paysage qui s’offrirait du dehors au regard, mais comme un paysage qui naîtrait de l’acte même du regard. La conscience de soi est une réflexion qui, au lieu de supposer l’objet auquel elle s’applique, l’engendre en s’y appliquant.». É o sentido que constitui o ser e, nele, o mundo: «[…] a consciência que temos de nós próprios envolve a consciência que temos do mundo. Reduzido a si próprio, o eu não apreenderia senão o vazio: ora, este vazio é o mundo que o vem preencher. Reduzido a si próprio, o mundo seria um espectáculo puro cujo sentido nos escaparia: este sentido é a consciência de si que lho dá.» («[…] la conscience que nous avons de nous-même enveloppe la conscience que nous avons du monde. Réduit à lui-même, le moi n’appréhenderait que le vide : or ce vide, c’est le monde qui vient le remplir. Réduit à lui-même, le monde serait un spectacle pur dont le sens nous échapperait : ce sens, c’est la conscience de soi qui le lui donne.», C. S., pp. IX-X).
[9] C. S., p. XIX: «[…] là où cesse la conscience de soi, je vis dans une perpétuelle absence.».
[10] Formalmente, de 11 de Março de 1916 até ao dia do Armistício, 11 de Novembro de 1918.

Misericórdia

O termo «misericórdia» é profundamente rico em significados, como se pode constatar consultando um bom dicionário. Relaciona-se com termos como «compaixão», «piedade», «clemência», «perdão», «ajuda», «auxílio», entre outros, mas, fundamentalmente, com «graça» e «caridade».
Se, em perspectivas puramente laicas sobre a misericórdia – que, sendo sobre a «misericórdia», de facto, são sempre de grande dignidade e nobreza –, a relação semântica se dá sobretudo ao nível da aproximação com «compaixão», «clemência», «perdão» e «ajuda»-«auxílio», já ao nível de uma perspectiva cristã, que tem de assumir como base fundamental comum a reflexão de nível laico, pela sua intrínseca, radical e inalienável humanidade, é sobre os termos «graça» e «caridade» que o foco relacional deve incidir.
Negativamente, a relação entre a misericórdia e a graça ocorre – e apenas – por via de uma prévia anulação da graça, isto é, de uma des-graça. É porque alguém caiu em desgraça que necessita de misericórdia. Se não tivesse caído em desgraça, não necessitaria de misericórdia. Segundo esta visão basilarmente negativa, a caridade necessariamente associada à misericórdia é – e apenas – função da desgraça em que o necessitado de misericórdia incorreu.
Deste modo, situando assim o problema, a misericórdia é fundamentalmente negativa, pois só se actualiza por causa de uma negatividade, de que depende, e de que depende em absoluto.
Para quem observe tal formulação a partir de fora do âmbito cristão, a misericórdia surge como um acto negativo, pois, ainda que tenha como fim último um bem, tendo na sua origem agencial uma necessária negatividade, de que depende, é também necessariamente negativa.
De algum modo, parece ser uma projecção – do tipo das condenadas por Xenófanes e Feuerbach – de mecanismos políticos de relação de poder, em que o poderoso, qualquer seja, distribui benesses a troco de contrapartidas; neste caso, a misericórdia seria o acto do poderoso sobre o não-poderoso com a finalidade de beneficiar este, por alguma razão, conhecida ou não. Tal é típico de uma relação de mercado, de comércio, que nega qualquer ligação verdadeiramente caritativa, isto é, de gratuidade absoluta.
Ora, como o comum – e sempre imperfeito – cristão tem obrigação de saber, pelo menos teoricamente, não há caridade sem absoluta gratuidade. A tese que contradiz esta imediatamente faz de Cristo um mero comerciante de favores, o que é simplesmente blasfemo, em termos cristãos.
Como é próprio da acção e, nela, do discurso de Cristo, a opção é muito simples e muito clara, dada disjuntivamente em termos lógicos: ou se acredita na absoluta gratuidade da caridade de Cristo ou não se é cristão.
Em termos cristãos, Cristo é, por essência e substância próprias, misericórdia. Ele é a misericórdia feita carne, a misericórdia paradigmática, e incarna a própria misericórdia do Pai ou, melhor, da Santíssima Trindade, como acto de puro amor mútuo, incondicional e oblativo: a caridade matricial.
Cristo é a misericórdia de Deus em acto de carne. E, para o cristão, não há outro e não há dúvida.
Sendo assim, tudo o que se disse sobre a misericórdia a partir de um ponto de vista inicial negativo é falso: não há negatividade alguma na misericórdia, em seu sentido cristão, porque ela é o próprio acto de Cristo.
Então, o que é a misericórdia?
É a infinita graça de Deus, a infinita caridade divina. É o acto de Deus na relação com a criação. Tal graça confunde-se com a própria criação saída prístina das mãos do criador e mantida no ser através da sua Providência, outro nome para misericórdia.
O primeiro grande acto de misericórdia é o próprio acto da criação, que estabelece a bitola da grandeza do que é a misericórdia, a graça, a caridade, e que consiste em “tirar” tudo do “nada de si próprio” (na falta de melhor expressão), isto é, em criar tudo como acto de pura e absoluta doação de possibilidade de ser, a partir da bondade de Deus (honra ao Platão da República, que nos ajudou a compreender isto, através da sua metáfora da irradiação solar).
Antes da criação, nada havia, senão a bondade de Deus. A criação, que de nada necessita senão da acção de Deus e é sempre acção sustentada na e pela acção do próprio Deus, é o dom absoluto de possibilidade a isso que, agora, é a criatura. Esta é o ser finito como um todo e em cada uma das suas partes, o mundo no seu sentido o mais lato possível. É isto que se encontra no relato inicial do Génesis: a narração do acto paradigmático de misericórdia divina.
O mundo virgem é acto da misericórdia de Deus, logo, misericórdia de Deus em acto. Bela (pura, boa), como o próprio criador por sete vezes afirma e reafirma. A misericórdia é a pura bondade de Deus em acto. E é sempre e apenas isso, em tudo o que dela participa e a manifesta. O mais é o mal.
Podemos, assim, perceber que o mal – possível como co-lateralidade necessária da possibilidade do bem – é tudo o que, em acto, atenta, precisamente, contra a misericórdia divina. O mal e o pecado são a aniquilação da misericórdia divina na forma da possibilidade de bens possíveis que se não elegem, e que consequentemente não se realizam, como muito bem viu Santo Agostinho.
Mas não é o mal que é causa ou motivo da misericórdia, pois seria causa ou motivo do próprio Deus, numa fórmula de pensamento de tal modo aberrante que ultrapassaria neste ponto o próprio maniqueísmo, que não faz do mal causa ou motivo do bem, apenas seu eterno parceiro metafísico, concorrente agónico a um inalcançável trono universal.
O que o sentido providencial da misericórdia divina implica é a continuação perene desta, na forma não apenas da manutenção comum do acto de relação de Deus com o criado, mas, nesta manutenção, de uma forma especialmente qualificada, a misericórdia, agora sim, como perdão, como auxílio. Perdão e auxílio que não são mera literal compaixão, isto é, que não ficam ao nível do vão sentimento, mas que continuam sendo acto de caridade, de absoluta graça.
O perdão anula definitivamente – ou não é perdão – o aguilhão da falta, permitindo que o faltoso possa recomeçar, como se nada se tivesse passado. E este perdão é, já, auxílio, pois, sem esta recosmicização que apenas o perdão permite, não seria possível que o necessitado de perdão pudesse salvar-se.
O perdão por excelência, em seu mais elevado acto possível e real, é Cristo na cruz, a caminho da ressurreição, renovação dupla da misericórdia divina, pelo acto do Homem que aceitou beber o cálice que não era o seu, mas que fez seu quando o bebeu; pelo Deus que, bebido o cálice, todos os cálices, faz retornar o Homem ao banquete da vida, da vida sem ocaso, vida que é, agora e sempre, no seu ápice, misericórdia, misericórdia de Deus e convite à misericórdia humana.

Américo Pereira

Caridade ou a graça de fazer o bem

Partindo de seu acto de voluntária fraqueza tem a humanidade, não apenas a cristã, de muitas formas, escolhido como seu deus o mal e como sua liturgia a maldade. Se bem que com breves análogos noutras tradições, é na revelação incoativa do Deus da chamada tradição judaico-cristã que acontece o acto de manifestação do ser, do que em absoluto é, como algo de bom. Como deveríamos saber, Deus, assim que cria cada dia, afirma a sua bondade, irradiada na sua beleza (o texto grego da tradução dos Setenta repete sete vezes, «belo», «belos»).
Deus é verdadeiramente omnipotente como bom, como criador de bem, absoluto de positividade ontológica, que de si dá em total gratuidade. Mas a sua força revela-se não em forma de violência – sempre recopiada da vingativa impotência humana e sobre o divino projectada –, mas na outorga a todos os seres de uma possibilidade própria, plena de energia, de acto como possibilidade, culminando na possibilidade própria do ser humano, que consiste em poder escolher, em absoluto, de entre o infinito de possibilidades, sempre posto ao seu dispor, qual as que quer realizar.
A grandeza da absolutamente gratuita refeição ontológica que Deus outorga ao todo do ser consiste na sua contraposição ao nada possível de cada criatura: antes do acto de criação desta, nada dela havia. A diferença entre o ser de cada criatura, por mais ínfimo que seja, e o seu ser actual é o próprio Deus na forma de seu acto criador próprio para essa criatura. O acto criador de Deus para com a sua criatura é o alimento de possibilidade de que esta recebe e receberá todo o ser. A presença continuada, como marca do criador na criatura, é isso a que se chama a Providência, que não é coisa longínqua, mas, como Agostinho percebeu tardiamente, isso que em cada criatura é ontologicamente mais interior do que qualquer outra realidade. É a fonte de tudo, de todo o possível, de toda a possibilidade de eleição de acto próprio.
No comum da natureza não-humana, esta eleição reduz-se a uma evolução mecânica, ainda que subtilmente “quântica”, das possibilidades, infinitamente integradas, de tudo o que existe (Leibniz merece renovada atenção). Mas no ser humano, há a possibilidade, que é essa que faz dele propriamente humano, de não seguir esta mecanicidade necessária e necessitante. Qualquer seja o contexto e as forças externas em jogo, o acto de cada ser humano pode sempre escolher contra tudo o que naturalmente o deveria condicionar.
A negatividade associada por Platão ao corpo e pela boa-nova cristã a uma certa forma de “carne” – a fraca – não diz respeito à pura dimensão física ou mundana do ser humano, mas à sua incapacidade de realmente se libertar dos condicionalismos naturais, mesmo quando tal natureza assume a forma interior, ética, ou exterior, política, propriamente humana, no que a humanidade tem de negativo, não enquanto simples possibilidade, mas como realização prática de tal possibilidade. É a questão do pecado que aqui surge.
Da possibilidade ontológica própria do ser humano, isto é, da estrutura que o constitui como coisa não-natural como as outras, não sujeita a uma necessária escravidão dos movimentos mecânicos da natureza (dita bruta) – essa não peca –, faz parte o poder escolher contra a possibilidade do bem. Esta capacidade é um bem. Não há que ter medo de o afirmar: poder pecar é um bem, pois, sem este poder, não há e não pode haver humanidade. O ser humano tem de poder pecar. E tem de poder pecar para que possa escolher não pecar.
O pecado não é uma necessidade e o bem também, não.
Em termos humanos, realizar o bem possível ou não realizar o bem possível é o acto próprio definidor do que é a humanidade. É o que se encontra na cena protagonizada por Adão e Eva, criados bons e como tal proclamados por Deus. Bons em seu acto incoativo, de que fazia parte necessariamente poder fazer o bem ou não. E esta é a perfeição humana como possibilidade.
Mas não basta: a perfeição humana como possibilidade existe para que tal possibilidade, perfeita em si mesma, possa ser constantemente transformada em acto de bondade. A perfeição humana tem, assim, uma faceta teleológica, como possível perfeição total de si própria, sem defecção, na realização absoluta e total de todo o melhor bem possível com que se foi dotado aquando do acto de sua criação. Assim com Adão e Eva, que, precisamente, falharam tal possibilidade. E este falhanço é o pecado.
Tal é fruto muito mais de falta de inteligência do que de qualquer problema com a vontade: a sua vontade funcionou, accionou o acto, como é de seu mister. Accionou-o num sentido indevido, mas esta falha deveu-se à má direcção imposta pela inteligência. O pecado é consequência da estupidez humana, da falta de atenção ao que é o importante. É este o único mistério humano que conhecemos – todos os outros são divinos –, este de ser capaz de desviar a atenção do que importa para o que não importa. Porquê, se é a inteligência que dirige a vontade? É o mesmo mistério que se nos depara quando a maior inteligência angélica resolve desviar a atenção de Deus para si própria.
Em Deus, em que não há distinção senão formal entre inteligência e vontade, a atenção nunca se desvia do bem que é e que cria. Por isso, Deus só pode ver o bem daquilo que é e este ver é o seu mesmo amor, por si próprio, pelo que cria. Esta unidade perfeita é o âmago do acto de amor. E é quando em nós acontece um acto de amor, em que o nosso acto acontece unificado, que nós experimentamos, em nós, o amor de Deus, como se o fossemos, num breve momento místico, em que nos tornamos um com Deus, no que é, já, o reino de Deus em nós.
É este o lugar da terrena Maria, que nunca vacilou em seu amor. Mas é também este o acto manifestado pelas narrativas sinópticas da «Unção de Betânia».
Escolhemos Mateus, 26, 8-13.
A cena antecede a traição de Judas e o que esta implica. Precisamente antes de ser entregue para a tortura e a morte, o inocente paradigma humano incarnado recebe a marca da sua condição. Mas esta condição em nada diz respeito ao sentido mundano que, por exemplo, a «realeza», com sua imagem de poder temporal ainda carrega. O que vai ser liturgicamente marcado com o selo do sagrado absoluto é aquele homem como «o bem».
Assim como o bem do início da criação manifesta esplendorosamente a presença do bem de Deus nela, imaculada, assim Cristo tem de manifestar tal esplendor, mesmo ainda antes de ser mundanamente aniquilado e mundanamente recriado. Tal custódia é constituída pelo perfume que uma pecadora – como se todos, com excepção de Maria, o não fossem também – derrama sobre o corpo de Jesus.
O texto alude a uma preparação para o túmulo. Certamente, tal acto prepara para a sepultura, mas o que o perfume faz, mais do que embalsamar o corpo, mais do que esconder o fedor da putrefacção, é espalhar o odor da santidade, assim afirmando antes da concretização da paixão e ressurreição, que, ali, naquele corpo, mora um bem que irradia bem, irradiação simbolizada pela difusão do perfume.
O perfume que a mulher derrama sobre Cristo é o análogo odorífero da palavra de Deus que proclama o bem da criatura. Ironicamente, aqui é a criatura falhada quem proclama o bem absoluto do criador, prestes a ser confundido com mais uma criatura pecadora, aos olhos sem luz dos homens, confusão que, reduplicando a ironia, vai permitir ao que assim é confundido, salvar quem o confunde e condena.
Mas sem perder o perfume da graça de um Deus de bem contra o qual nada pode atentar verdadeiramente, que transcende toda a ilusão, todo o poder mundano, toda a imundície que consiste no mal posto no mundo pelas criaturas a quem foi permitido fazer sempre o bem. Nenhuma dessa imundície o atinge fundamentalmente. O perfume da graça, mesmo trazido pelas mãos de pecadora, não tem ocaso. O perfume é já a imagem antecipada da ressurreição, pois a sua presença antecede a presença do seu portador. Para quem amava Cristo, toda a paixão tinha já o odor do perfume da ressurreição.
Mas o perfume não elimina a imundície. A graça não elimina a imundície. Resgata os imundos, mas não apaga o mal por eles feito. Este não tem ocaso e não há perfume que o elimine.
Tal pode perceber-se quando Cristo diz que haverá sempre pobres no seio da humanidade, exactamente da humanidade que, ao não escolher o melhor bem possível, cria tais pobres, que são todos aqueles a quem o bem próprio possível foi roubado pela violência do pecado, pecado que é sempre a usurpação de um bem alheio.
Deste modo, o «perfume» é a própria graça divina antitética do pecado e antitética da pobreza que o pecado cria, na versão perversa e infernal do que é o acto criador de Deus, acto de amor. O pecado é o acto em que cada um de nós definitivamente mata possibilidade de bem, para sempre irresgatável.
Mas, ao perceber o bem que Cristo era, ao liturgicamente assinalar tal bem, como que afirmando: «por mim, nunca morrerás», a mulher teve um acto para com Cristo que antecipa o acto do Pai que o ressuscita: o perfume é a manifestação de um amor que não morre, de uma vontade de querer que o outro viva para sempre e para sempre seja em bem. O perfume é o odor do Reino de Deus.
Tal amor salva, e Cristo assim o manifesta, perdoando os pecados: Lc 7, 48; ou anunciando uma imorredoira memória do acto da mulher: Mt 26, 13; Mc 14, 9.
Para o Cristão, não deve haver Páscoa que não seja perfumada pela graça salvífica e salvadora de Deus. E o odor a santidade da divina Providência deve ser buscado com todas as forças (vontade) da sua inteligência, pois, por mais dolorosa que seja a existência (Job), o perfume do amor criador de Deus, da sua indefectível bondade, permeia tudo e todos.
Américo Pereira
Julho 2015



A paz no centro do pensamento social cristão

A Igreja Católica está hoje, mais do que nunca, consciente da sua vocação de artífice da paz. Por toda a parte, com generosidade e humanidade, ela faz ouvir a sua voz sobre as questões da solidariedade, do desenvolvimento e da justiça social.
Como bem sabemos, esta vocação está no centro da mensagem universal de paz que percorre o Antigo e no Novo Testamento. A Igreja, inspirada sobretudo pelo discurso de reconciliação dos Evangelhos, tem refletido constantemente, ao longo da sua história, nas questões da paz e da concórdia, sem nunca deixar de reexaminar as suas próprias doutrinas, como por exemplo o conceito o de «guerra justa» que nasceu no contexto das violências da Idade Média.
Com a encíclica Pacem in Terris do papa João XXIII, publicada em Abril de 1963, a Igreja Católica optou por dirigir-se «a todos os homens de boa vontade» e não apenas aos crentes, para que todos se empenhassem na construção da paz, baseando-se nos princípios da verdade, da justiça, do amor e da liberdade. Deste modo a sua mensagem tornou-se mais universal e ainda hoje inspira o empenhamento social e político de muitos leigos.
Ao anunciar Cristo, a Igreja «revela o homem a si próprio», porque, em Cristo, o mistério do homem é iluminado. Por ser, instrumento de evangelização», o Pensamento Social Cristão (PSC) gera as motivações profundas para também se ocupar dos «temas» particulares nomeadamente da família e da educação, dos deveres do Estado, da vida económica, da cultura, do respeito pela vida.
Entre eles está também o tema da guerra e da paz, o que poderá levar a pensar que se trata de um tema entre muitos e, por isso, não essencial. Creio que a dúvida poderá ser superada se distinguirmos dois níveis de significado do termo «paz». Um primeiro nível, mais elementar, de paz como ausência de guerra (e, de facto, os dois termos estão associados, como se fossem um único problema, o «da guerra e da paz»); e um segundo nível, de paz como vida plenamente humana em Cristo. O PSC só secundária ou indiretamente se ocupa da paz de acordo com o primeiro significado, mas ocupa-se primária e diretamente da paz de acordo com o segundo. Não para evitar o primeiro, mas para o enfrentar sob a luz certa e do ponto de vista específico da Igreja. Portanto, o PSC «proclama a verdade sobre Cristo, sobre si mesma e sobre o homem» (Sollicitudo rei socialis, 41). Assim, ela anuncia a paz de Cristo — ou, melhor, anuncia Cristo, que é a paz. Por isso a paz não pode ser, de todo, um tema especial. Ela coincide com o próprio Cristo, coração do anúncio da Igreja.
Ora isto tem uma consequência muito importante: o PSC anuncia a paz mesmo quando não fala de paz. Mesmo quando nem sequer usa esta palavra o PSC anuncia a paz «sempre».
À medida que o magistério foi desenvolvendo a sua reflexão sobre a paz, o quadro foi-se alargando progressivamente e a paz tornou-se cada vez mais uma exigência da comunidade mundial. Contudo, simultaneamente, o tema foi também radicalmente aprofundado, de modo que a paz se revela, definitivamente, como o próprio problema do homem, que não se resolve fora da sua relação com Deus.
É a esta luz que surge, num momento e contexto muito específico, a criação do Dia Mundial da Paz, pelo papa Paulo VI, em 1967, 24 meses depois do encerramento do Concílio Vaticano II, 9 meses depois da publicação da encíclica Populorum Progressio e 7 meses depois da sua peregrinação a Fátima.

Portela, 18 de Maio de 2017

Francisco Vaz