Começamos com uma citação em língua francesa,
propositadamente, para relembrar que há mais no mundo do que Inglês mal falado.
Diz Lavelle, na sua obra La conscience de
soi (C. S., p. XVIII): «La
conscience de soi me découvre l’intimité d’une solitude, mais où l’univers peut
être reçu. C’est la solitude d’une naissance, mais qui est celle de l’univers.»[1]
Profundo
conhecedor de Descartes, Lavelle percebe que é no absoluto do acto de presença
da inteligência a si própria, neste acto, absolutamente único, em que me
encontro, que tudo, em infinita possibilidade se dá, se pode dar. O mais é
significativamente nada, pois de isso não pode haver, nunca pode haver
referência alguma.
Não estamos
perante a imprópria questão da relação entre imanência absoluta e
transcendência absoluta, assim absolutamente inconciliáveis – a repetição do
termo «absoluto» é propositada –, mas no preciso seio de isso que é
transcendentalmente, logicamente e ontologicamente, anterior a tal relação.
Descartes bem o sabia, ou nunca teria começado a sua falsa investigação: falsa
não por causa do conteúdo, mas porque a forma real não foi a que nos é narrada,
mas, antes, a de uma intuição prévia a que, depois, o filósofo deu a aparência
de um percurso heurístico. Descartes sempre soube não onde queria chegar, mas onde já tinha chegado.
E isso a que
tinha intuitivamente chegado – lembremos que «intuição» quer dizer
«conhecimento directo e imediato de algo» – é o que encontramos na citação de
Lavelle, com que começámos, designado como «nascimento». O sentido do termo
francês «connaissance» como «co-nascimento» não se baseia num trocadilho, antes
reflecte a profundíssima intuição segundo a qual, dito metaforicamente, cada
vez que abrimos os olhos, nascemos, em absoluto, para o universo do sentido e
«com-nosco» nasce este mesmo universo, que não é apenas um universo de acto em
realização, mas é, sobretudo, um espantoso tesouro de possibilidades,
virtualmente infinitas, precisamente enquanto este acto durar, enquanto, na
bela ainda que terrível expressão, «não fecharmos os olhos».
Não é poesia,
melhor ou pior, que aqui está em causa, mas o próprio sentido da humanidade, constitutivo
do que é mais profundamente próprio da humanidade, de cada um de nós, como
aquilo que verdadeiramente é, verdadeiramente somos: um acto de inteligência,
de sentido, de «logos», etc.
É mesmo entre
o absoluto da luz e o absoluto da sua ausência que se situa a nossa
possibilidade própria, não como coisas, mas como entidades «lógicas», como
muito bem percebeu Aristóteles, quando nos e se designou como «possuidores» ou
«portadores» do «logos».
Pode, assim,
Lavelle dizer, de modo esclarecedor:
«A
dificuldade nasce sempre deste pensamento segundo o qual há em nós um eu que é
distinto da própria consciência que dele temos. Mas, antes de mais, antes de
ter dele tomado consciência, nada há que eu possa dizer que me pertença nem,
por maioria de razão, que eu o seja. E esta mesma consciência não reside na luz
com que ilumino uma outra coisa para além dela, mas num acto que assumo e por
meio do qual produzo esta luz sem a qual nada seria meu. A consciência de si é
distinta de si, se se imaginar que o eu é como um objecto que me é oferecido
desde fora, e idêntica a si, se é a operação interior por meio da qual faço de
mim próprio o que sou. […] A consciência de si ultrapassa, pois, singularmente
a distinção que estabelecemos quase sempre entre o conhecimento e a acção. Não
há diferença para o eu entre conhecer-se e fazer-se. Na consciência de si, é o
mistério da vida que se me descobre em plena luz, mas sem perder coisa alguma
do seu carácter misterioso, pois é esta
mesma luz que é, de facto, o maior mistério. Ela é o ponto em que não cesso
de me descobrir e de me criar ao mesmo tempo, mas onde a descoberta e a criação
de si se confundem, para ela, com a descoberta e a criação do mundo.»[2]
O acto que nos constitui, a nós e ao
mundo connosco, ao mundo e a nós com ele, ao mundo no acto que sou, como
sentido deste mesmo acto, sentido de tal modo integrado que não posso abdicar de
qualquer dos pólos, pois, se elimino o mundo, elimino-me com ele, se me
elimino, comigo elimino o mundo, pode ser designado como o acto do ser, dado
que, sem este acto, nada tem ou pode ter sentido.
Deixemos, por
ora, as aproximações mais metafóricas. Numa linguagem técnica mais própria de
ciências nascidas precisamente do esforço cartesiano de compreensão do acto de
inteligência, podemos afirmar que, sem o acto de inteligência que põe a
semântica objectiva, em sentido cartesiano, de isso que é o conteúdo de
pensamento de cada acto – não há
outro modo de o dizer – de pensamento,
não há ou pode haver qualquer referência a qualquer entidade, seja ela qual
for.
Não há sequer
direito aos chamados «pressupostos» lógicos, sejam eles de tipo kantiano ou de outro
tipo qualquer, pois, mesmo estes mais não são do que realidades objectivas de
pensamento, isto é, a sua invocação imediatamente nos lança em viciosa
circularidade lógica. Como Descartes bem percebeu, nada há que possa ter humana
referência alguma que não tenha de logicamente estar contido no acto de
pensamento como sua realidade objectiva, mesmo que seja algo como a mágica
«tábua rasa» de David Hume ou a não menos mágica arquitectónica de Immanuel
Kant, mágicas porque, pretensamente anteriores a um plano por meio do qual
foram pensadas, são postas de forma absoluta, isto é, mágicas porque, mesmo sendo
impossíveis, diz-se que funcionam…
A misteriosa
luz a que Lavelle se refere resolve – melhor, não resolve, também não resolve –,
mas ajuda a intuir o problema da anterioridade lógica necessária como suporte
ao acto de pensar: de novo, metaforicamente, isso que é a condição absoluta de
possibilidade do acto de pensamento é dito como uma misteriosa luz.
Mas a
expressão não é tão nefelibática como se possa pensar, numa abordagem
apressada. O termo «luz» está na vez do termo «logos», do termo «sentido» ou,
preferencialmente, da expressão «possibilidade de sentido», dado que a luz é
isso que permite ver, que possibilita a visão. Ora, se a este sentido juntarmos
isso para que o termo «mistério» remete, podemos perceber qual o alcance da
imagem.
Só há e só
pode haver um único mistério: isso
que ficará sempre por inteligir na sua totalidade na relação com uma
inteligência finita em acto, mesmo que esta seja infinita em potência, isto é,
infinita, digamos assim, linearmente. Esta impossibilidade só pode dever-se a
uma razão: que isso que recebe o nome de «mistério» seja infinito em acto. Não
é possível qualquer outra razão – o que Descartes bem percebeu quando assinala
esta mesma ideia, sob outra designação, como uma das realidades objectivas do
acto de pensar.
Assim, isso
para que Lavelle nos está a chamar a atenção é para o único pressuposto – bem
cartesiano – que faz sentido para que possa haver pensamento, qualquer seja: um
acto infinito que sirva de suporte metafísico – temos mesmo de usar o termo –
para que possa haver isso, isto, precisamente, que designamos como pensamento.
Para que
possa haver um acto qualquer de pensamento, por mais infinitesimal que se possa
pensar, há que haver um ambiente lógico qualquer, logicamente prévio, que o
suporte. Esta anterioridade lógica é ontologicamente independente do acto de
pensar. Em termos kantianos, é isto o que permite a «coisa-em-si» como
referência-limite e o plano transcendental que dela necessita para poder ser
como algo com um possível referente necessário, em absoluto real, ou seja, não
ter como correlato necessário o nada. Mas tal não depende do acto de pensar.
Não é, sequer, pensável, quer dizer, não é apenas incognoscível como a
«coisa-em-si», mas é impensável.
O que isso
seja, para além do que foi dito, isso não é passível de ser sabido, pois qualquer
acto, e tem de ser sempre um acto de pensamento, não há outro modo, que o
queira saber, não pode ir além do que é e o que é acontece sempre num nível que
transcende ou é transcendido pelo suporte lógico necessário.
Numa
linguagem tipicamente metafísica, dir-se-á que apenas esse mesmo acto-suporte
pode saber de si próprio, à imagem da versão aristotélica do divino como
acto-puro infinitamente auto-contemplativo. Em linguagem epistemológica,
diremos que não é possível ao estrato actual do pensamento auto-transcender-se
ou que o acto de pensamento, tal como o conhecemos ou alguma vez poderemos
conhecer, é, como tal, absolutamente imanente.
E é.
Então,
estamos condenados a algo como um inevitável idealismo de tipo atomista?
Não.
O pensamento
é comunitário, mas não na forma a que estamos habituados a pensar «comunidade»,
isto é, como uma forma de agregação exterior ou que se limita a aproximar ou
juntar simples e isoladas exterioridades ou as exterioridades de entidades cuja
interioridade, porque o acto de pensar é imanente, é necessariamente
inacessível.
Sem entrar na
especulação monadológica leibniziana, tão interessante quanto incompreendida,
vejamos como Lavelle perspectiva a solução. Nas suas palavras:
«A
consciência de si ensina-nos a nada possuir, de modo a tornarmo-nos presentes a
tudo o que é e a tudo o que pode ser. É necessário que se reduza a um acto de
atenção pura, que mais não é, no fundo de nós próprios, do que uma espécie de
participação consentida neste acto eterno e sempre recomeçado, que é o próprio
acto da criação.»[3]
O que torna
impossível a transcendência relativamente ao acto de inteligência, de
pensamento, é que este é sempre um acto
criador, isto é, um acto que perenemente introduz o absoluto da novidade, melhor, pois o que ficou dito está errado,
que coincide com um absoluto de novidade
em cada seu abstractamente considerável instante. É esta absoluta
coincidência, absoluta, infinitesimal, que corresponde ao sentido agostiniano
do presente – de que Descartes bem sabia, pois copiou descaradamente o sentido
original da matriz da sua reflexão de Agostinho[4]
–, que constitui o acto do pensar, da consciência, no sentido em que Lavelle a
põe.
Este absoluto
de novidade acontece apenas em e por meio de cada acto de inteligência e varia
de acto para acto, isto é, varia em sentido linear no acto de inteligência
contínuo e contíguo que nos constitui enquanto ser vígil, varia também entre
cada uma destas continuidades. Em termos comuns, isso que somos enquanto acto
de inteligência varia sempre, pois, em cada abstractamente considerável
instante, cada acto que lhe corresponde, para poder ser, tem de ser diferente
do que o precedeu e do que lhe suceda, por isso é novo, absolutamente novo no
acto que é, sob pena de, faltando este absoluto de novidade, se cair no nada.
Isso que se
considera ser o nosso acto próprio, que, irreflectidamente, temos como algo de
garantido, hipostaticamente garantido, nada mais é, perspectivado a partir de
si próprio, isto é, da sua absoluta imanência, do que um contínuo de
inteligência, de acto de inteligência, quando e apenas quando há este acto, mas
sempre que há este acto. Quando não há, não há coisa alguma, absolutamente.
Deste ponto
de vista, nada mais há e nada mais pode ser referenciado senão a partir deste
absoluto. Descartes tem razão, Santo Agostinho também. Ambos sabem, e Lavelle
acompanha-os, que é neste absoluto
presente do acto de inteligência que tudo é como sentido e como possibilidade
de sentido.
Quando a
medievalidade dizia que transcendentalmente o ser é o correlato necessário da
inteligência, não estava apenas a coroar com uma notável fórmula o cerne da
intuição metafísica platónica, estava a sintetizar a intuição e a reflexão
agostiniana, que percebera, no meio da maior angústia, que todo o ser mais não é
do que esta abertura, virtualmente infinita, para uma possibilidade ontológica,
que, para o poder ser, isto é, na sua fragilidade e aparente possível
inconstância, necessita de um infinito em acto que permita que tal abertura seja
uma real abertura para algo, já que para o nada não pode ser.
O absoluto,
para estes pensadores, como para Pascal, embora este queira disfarçar,
revela-se imediatamente como o mais frágil, mas como o mais potente,
precisamente pela lógica implicação necessária que tal absoluta fragilidade
impõe: a da realidade de algo que a justifique contra o nada.
O sentido de
um total e virtualmente infinito dom como
isso que se dá como acto de inteligência impõe-se. Se há um acto finito de
inteligência, em que até mesmo esta se pode descobrir como um eu, como um acto
de inteligência que se saboreia em cada instante, é porque há algo que se lhe
dá. A não ser assim, ou o nada absoluto, o que não se verifica, ou tal acto
finito teria de ser infinito, o que também não se verifica. Eis a súmula breve
de toda a meditação agostiniana e cartesiana sobre o tema.
Sendo assim,
o acto de inteligência, realidade base de tudo o que eu sou ou posso ser, desde
que algo surja neste acto como um eu (há actos de inteligência sem sujeito, por
exemplo, os que se passam nos calculadores computacionais, aos milhões de
milhão por segundo…), é fundamentalmente um acto de atenção, como muito bem
Lavelle percebeu. Neste sentido, quanto maior e melhor é a atenção do acto que
sou na forma de inteligência, tanto maior é o meu ser, pois o meu ser, em sua
mais profunda e lata abrangência ontológica, repetimos, nada mais é do que a
totalidade desta atenta vigilância.
Assim sendo,
toda a inteligência, sendo matricialmente fundada num dom, é um acto de
necessária relação, um acto de comunidade,
intrínseca comunidade.
O sentido
comum que se atribui a comunidade parte do pressuposto segundo o qual primeiro há coisas individuais que, depois, se congregam de algum modo,
formando uma comunidade. Mas como, porquê e, sobretudo, para quê congregar-se?
Estamos
perante o equívoco irresolúvel do atomismo antigo, que supunha átomos,
necessariamente perfeitos e eternos, que se reuniam devido a um movimento,
também eterno, exterior a cada um deles. O resultado imediato é ter uma eterna
mesa de bilhar com bolinhas a infinitamente bater umas nas outras e a desviar-se
umas das outras de forma finitamente aleatória e finitamente caótica em acto,
em cada abstracto instante considerável. Na altura, encontrou-se um remendo
relacional constituído por uma espécie de ganchos que permitiam que, aquando
dos choques, alguns átomos se enganchassem nos outros, assim surgindo isso que
parece ser a ordem do mundo.[5]
Indivíduos
perfeitos em si mesmos (absolutamente perfeitos), por serem perfeitos, não
podem relacionar-se porque nem sequer podem existir no plural, uma vez que a
perfeição implica necessariamente a infinitude e esta exclui a alteridade: só
pode haver um infinito merecedor do nome, ou seja, numa linguagem sugestiva,
infinitamente infinito. Neste sentido, a Trindade cristã é o Deus perfeito,
absolutamente perfeito, não como congregação exterior de três pessoas, mas como
o acto de amor que institui a comunidade, que é a perfeição das três pessoas.[6]
A
individualidade real – finita, portanto – pressupõe a relação, pois, apenas por
meio desta, isto é, apenas supondo logicamente uma necessária relacionabilidade
infinita, pode haver a necessária relação que põe cada indivíduo como fruto
total dessa mesma relação, macro-relação que o constitui como dom e
possibilidade de dom, recebido e a dar, expraiada por infinitas possíveis
relações. São estas, em sua comunidade integrada, que constituem o tecido do
real, de isso a que se chama o ser. Um exemplo de tentativa de dar conta lógica
e racional deste imbricado de infinitas relações que constituem e suportam o
ser é a Monadologia, de Leibniz.
Deste modo,
tem Lavelle razão quando diz:
«A consciência é semelhante à aranha
colocada no centro de uma teia, que a põe em contacto, por meio de fios muito
sensíveis, com todos os pontos da periferia. O conhecimento é esta teia, que
procuramos estender sobre a totalidade do tempo, para a tecer. Do mesmo modo, o
conhecimento, que nos reúne ao Todo, dá-nos a alegria de participar da sua
perfeição: a infinitude é dele inseparável e nada há que, de direito, lhe possa
escapar. É mesmo impossível ter consciência de si, se se procurar apreender o
seu ser isoladamente: conhecer-se é inscrever-se no Todo, é multiplicar com ele
as relações que nos revelam todas as nossas potências.».[7]
A comunidade,
segundo Lavelle, começa por ser uma comunidade metafísica, transcendental, isto
é, que não apenas acompanha a possibilidade ontológica de cada e de todos os
possíveis e reais entes – sentido antigo de transcendentalidade –, mas que
também é necessário e universal e anterior a qualquer forma de realidade mundana,
isto é, a qualquer forma de possível experiência – sentido kantiano de
transcendental.
O modo
superior, máximo, que esta comunidade pode atingir é o acto de amor, pois, cada
um deles põe de forma transcendental, por ínfimo que seja, a possibilidade de
ser de um ente, e, assim, universalmente. Neste sentido, o mundo, quer o mundo
superior do ser pleno quer o mundo em que vamos sendo em busca do ser pleno são
um comunitário acto de amor. É o acto de atenção, de inteligência, de
consciência que permite, pondo o
mundo como acto de sentido, e, no mundo, cada um de seus activamente integrados
componentes, mormente as pessoas, o
universal direito a ser, como dom comunitário, num, agora, sim, mundo –
isto é, não imundo acto de negação de possibilidade do outro –, constituído
metafísica e transcendentalmente pelo acto de doação da possibilidade de
sentido de e para o outro. Este dom é acto de amor, não coisa passional, mas
coisa activa, verdadeiramente criadora.
Nas suas
palavras:
«Pois a consciência do que sou é a
consciência do que posso ser, de uma potência incessantemente em acção e que
nunca consegue esgotar-se. A consciência permite-me dispor desta potência no
milagre do instante. Não há, aqui, conhecimento de uma coisa dada, mas apenas
lucidez no exercício de uma actividade cujo jogo nunca pode ser suspenso. Não
é, pois, como a visão de uma paisagem que se ofereça desde fora ao olhar, mas
como uma paisagem que nasça do próprio acto do olhar. A consciência de si é uma
reflexão que, em vez de supor o objecto ao qual se aplica, o engendra,
aplicando-se-lhe.».[8]
Há, assim, uma dupla
forma de a comunidade ser, segundo Lavelle: primeiro, como suposto lógico
transcendental relacional para que o finito possa ser dado em sua realidade;
depois, como relação em acto entre os finitos, formando a imensa teia de
relações que mantém o mundo sendo, mas sempre na relação transcendental com a
primeira, sempre necessária forma. Deste modo, para todos os entes dotados de
qualquer forma de inteligência, mormente os seres humanos, aplica-se o que a
seguinte afirmação deixa bem claro:
«[…] aí, onde cessa a consciência de si, vivo numa
contínua ausência. Mais exactamente, não vivo, absolutamente.».[9]
Especulativamente,
Lavelle é um filósofo da comunidade. No concreto carnal da existência, Lavelle
soube fazer jus a esta mesma preocupação, entregando-se ao serviço da sua
comunidade, mesmo em tempos abissais como os da duas Grandes Guerras, tendo, na
Primeira, ainda jovem, ido como voluntário para a frente de batalha, onde
passou grandes tribulações, tendo sido feito prisioneiro pelos Alemães e
submetido a cativeiro durante mais de dois anos.[10]
Nesta situação, no campo, organizou cursos para os camaradas, mostrando, bem
socraticamente, que, mesmo para quem não acredita que a matéria da lama das
trincheiras resume toda a essência do universo, há que cuidar dos que nela
vivem, mesmo que, para tal, tenha de deixar intempestivamente transformar a sua
própria carne em mais um pedaço de lama. Mas não o espírito.
Este é o mote para a
acção de que o mundo de hoje necessita: uma entrega generosa ao bem-comum, à
comunidade como acto de amor, acto de possibilitação do ser do outro, de todos
os outros, sem excepção, recíproca e universalmente.
Tal é o papel que a
Filosofia deveria assumir, se houvesse filósofos prontos a seguir o caminho de
Sócrates e de Lavelle, não reduzidos a meros funcionários assustados pelas
comissões de censura várias que, melhor do que o Lager, controlam a nossa forma
de pensar e de ser.
Américo Pereira
Maio de 2015
[1]
LAVELLE Louis, La conscience de soi, Paris, Bernard
Grasset, Éditeur, 1933 i + 312 pp.: «A consciência de si revela-me a intimidade
de uma solidão, mas onde o universo pode ser recebido. É a solidão de um nascimento,
mas que é o do universo.», trad. nossa.
[2]
C. S., pp. XIV-XV:
«La difficulté naît toujours de cette pensée qu’il y a en nous un moi qui
est distinct de la conscience même
que nous en avons. Mais tout d’abord, avant que j’en aie pris conscience, il
n’y a rien dont je puisse dire ni qu’il m’appartienne, ni, à plus forte raison,
que je le sois. Et cette conscience elle-même ne réside pas dans la lumière par
laquelle j’éclaire une autre chose qu’elle, mais dans un acte que j’assume et
par lequel je produis cette lumière sans laquelle nulle chose ne serait mienne.
La conscience de soi est distincte de soi, si on imagine que le soi est comme
un objet qui m’est offert du dehors, et identique à soi, s’il est l’opération
intérieure par laquelle je me fais moi-même ce que je suis. […] La conscience
de soi dépasse donc singulièrement la distinction que nous établissons presque
toujours entre la connaissance et l’action. Il n’y a pas de différence pour le
moi entre se connaître et se faire. Dans la conscience de soi, c’est le mystère
de la vie qui se découvre à moi en pleine lumière, mais sans rien perdre de son
caractère mystérieux, car c’est cette lumière même qui est en fait le plus
grand mystère. Elle est le point où je ne cesse de me découvrir e de me
créer à la fois, mais où la découverte et la création de soi se confondent pour
elle avec la découverte et la création du monde.»
[3]
C. S., p. XXI :
«La conscience de soi nous apprend à ne rien posséder afin de devenir présent à
tout ce qui est et à tout ce qui peut être. Il faut qu’elle se réduise à un
acte d’attention pure qui n’est, au fond de nous-même, qu’une sorte de
participation consentie à cet acte éternel et toujours recommencé, qui est
l’acte même de la création.»[3]
[4] Ver, por
exemplo, AGOSTINHO, A cidade de Deus,
«Livro 11», Capítulo XXVI.
[5] Esta pseudo-solução
anedótica não pode ser comparada com o que são as formas de valência dos átomos
na sua moderna concepção, pois esta última é da ordem do físico e a solução
antiga é da ordem do “metafísico”.
[6] A este
propósito, diga-se que para Platão, para o Platão do Banquete, mas também para o Platão da Politeia, é a comunidade que faz o ser humano completo, isto é, realmente
um ser humano. Veja-se, no Banquete,
quer a comunidade necessária entre Penia e Poros, no discurso de Sócrates, quer
a comunidade necessária entre as semi-esferas, únicas verdadeiramente humanas,
criadas por Zeus, no discurso de Aristófanes. Na República, o ser humano perfeito é-o e apenas o é na comunidade
transcendentalmente anterior que é a Polis, a Politeia.
[7] C. S., p. 287: «La conscience est semblable à l’araignée placée au
centre d’une toile qui la met en contact par des fils très sensibles avec tous
les points de la périphérie. La connaissance est cette toile que nous cherchons
à étendre sur la totalité du temps pour la tisser. Aussi la connaissance, qui
nous réunit au Tout, nous donne-t-elle la joie de participer à sa
perfection : l’infinité en est inséparable et il n’y a rien qui, en droit,
puisse lui échapper. Il est même impossible d’avoir conscience de soi si l’on
cherche à saisir son être isolément : se connaître, c’est s’inscrire dans
le Tout, c’est multiplier avec lui des relations qui nous révèlent toutes nos
puissances.».
[8]
C. S., p. XX :
«Car la conscience de ce que je suis, c’est la conscience de ce que je puis
être, d’une puissance sans cesse en action et qui ne réussit jamais à
s’épuiser. De cette puissance, la conscience me permet de disposer dans le
miracle de l’instant. Il n’y a pas ici connaissance d’une chose donnée, mais
seulement lucidité dans l’exercice d’une activité dont le jeu ne peut jamais
être suspendu. Elle n’est donc pas comme la vision d’un paysage qui s’offrirait
du dehors au regard, mais comme un paysage qui naîtrait de l’acte même du
regard. La conscience de soi est une réflexion qui, au lieu de supposer l’objet
auquel elle s’applique, l’engendre en s’y appliquant.». É o sentido que
constitui o ser e, nele, o mundo: «[…] a consciência que temos de nós
próprios envolve a consciência que temos do mundo. Reduzido a si próprio, o eu
não apreenderia senão o vazio: ora, este vazio é o mundo que o vem preencher.
Reduzido a si próprio, o mundo seria um espectáculo puro cujo sentido nos
escaparia: este sentido é a consciência de si que lho dá.» («[…] la conscience que nous avons de nous-même
enveloppe la conscience que nous avons du monde. Réduit à lui-même, le moi
n’appréhenderait que le vide : or ce vide, c’est le monde qui vient le
remplir. Réduit à lui-même, le monde serait un spectacle pur dont le sens nous
échapperait : ce sens, c’est la conscience de soi qui le lui donne.»,
C. S., pp. IX-X).
[10]
Formalmente, de 11 de Março de 1916 até ao dia do Armistício, 11 de Novembro de
1918.
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