Pecado original

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domingo, 26 de julho de 2026

Um coração sábio: a primeira condição do bom governo

Leitura teológica, ética e política de 1 Reis 3, 11-12 (XVII Domingo do Tempo Comum)

«Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti.»

Entre todas as passagens da Sagrada Escritura dedicadas ao exercício do poder, poucas possuem tanta profundidade quanto o diálogo entre Deus e Salomão. O jovem rei poderia ter pedido aquilo que quase todos os homens desejam quando alcançam uma posição de autoridade: mais poder, mais riqueza, mais segurança ou a derrota dos seus adversários. Não o fez. Pediu algo incomparavelmente mais difícil: um coração capaz de discernir o bem do mal para governar o povo com justiça.

Esta escolha revela uma verdade decisiva: o maior problema da política nunca foi a falta de poder, mas a falta de sabedoria.

A dimensão teológica

Na perspetiva bíblica, a sabedoria não é simplesmente inteligência nem acumulação de conhecimentos. É um dom divino que permite contemplar a realidade à luz da verdade.

O texto é particularmente significativo porque Deus não elogia Salomão por desejar governar. Elogia-o porque compreendeu que ninguém é capaz de governar bem apenas com as próprias forças.

O coração bíblico representa o centro da pessoa: inteligência, vontade, consciência e liberdade.

Quando Deus promete um «coração sábio», está a prometer uma transformação interior. O verdadeiro governante não muda primeiro as leis; deixa primeiro que Deus transforme o seu próprio coração.

É por isso que, na tradição cristã, toda a autoridade é entendida como serviço.

Cristo levará esta ideia até às últimas consequências:

«Quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos.»

A autoridade nasce do serviço e não da dominação.

A dimensão ética

A passagem oferece também uma profunda reflexão sobre a ética.

Os três pedidos recusados por Salomão continuam a ser, três mil anos depois, as grandes tentações do poder.

A longa vida representa a tentação da conservação do poder.

A riqueza representa a instrumentalização do cargo para benefício próprio.

A morte dos inimigos representa a política construída sobre o ressentimento e a vingança.

Salomão rejeita tudo isso.

Pede apenas a capacidade de fazer justiça.

É uma inversão completa da lógica habitual.

Hoje fala-se frequentemente de competência técnica, liderança, comunicação política, marketing eleitoral ou gestão estratégica.

Tudo isso pode ser útil.

Mas a Escritura recorda que nenhuma dessas capacidades substitui uma consciência reta.

A inteligência sem virtude pode tornar-se extraordinariamente perigosa.

A técnica indica como fazer.

A sabedoria pergunta primeiro se deve ser feito.

A dimensão política

Esta leitura possui uma atualidade impressionante.

Vivemos numa época em que frequentemente se identifica boa governação com eficiência económica, crescimento estatístico ou domínio tecnológico.

Tudo isso é importante.

Mas não basta.

Um Estado pode tornar-se mais rico e simultaneamente menos justo.

Pode tornar-se mais eficiente e perder a sua alma.

A tradição clássica — de Aristóteles a São Tomás de Aquino — ensinou sempre que o fim da política não é apenas garantir ordem ou prosperidade, mas promover o bem comum.

Ora, o bem comum exige governantes capazes de discernimento moral.

A primeira qualidade de um estadista não é a popularidade.

Também não é o carisma.

Muito menos a capacidade de vencer eleições.

É possuir um coração suficientemente livre para colocar a justiça acima do interesse pessoal.

Sem esta liberdade interior, a política degrada-se facilmente em mera luta pelo poder.

Quando isso acontece, os adversários deixam de ser pessoas e passam a ser obstáculos; os cidadãos transformam-se em eleitores; e a verdade torna-se apenas um instrumento de comunicação.

Uma lição para todos

Seria, contudo, um erro pensar que este texto se dirige apenas aos governantes.

Cada pessoa exerce diariamente alguma forma de autoridade: na família, na educação, na empresa, na investigação, na Igreja ou na sociedade civil.

Todos somos chamados, em maior ou menor medida, a decidir sobre a vida dos outros.

Também nós podemos pedir riqueza, reconhecimento ou sucesso.

Ou podemos pedir aquilo que Salomão pediu: um coração capaz de reconhecer a verdade e praticar a justiça.

No fundo, esta passagem coloca diante de cada homem uma escolha permanente.

A questão decisiva da vida não é quanto poder possuímos.

É o que fazemos com ele.

Conclusão

Num tempo em que tantas sociedades parecem confiar exclusivamente na técnica, nos algoritmos ou nas estatísticas, a liturgia recorda uma verdade antiga que permanece nova: nenhuma civilização se sustenta sem homens e mulheres de coração sábio.

A justiça não nasce automaticamente das leis.

As leis nascem da consciência daqueles que as fazem.

E a consciência, por sua vez, só permanece reta quando permanece aberta à verdade.

Talvez seja esta a oração mais urgente do nosso tempo.

Não pedir mais riqueza.

Não pedir mais poder.

Não pedir a derrota dos nossos adversários.

Mas pedir, como Salomão, um coração suficientemente sábio para reconhecer o bem, suficientemente humilde para o procurar e suficientemente corajoso para o praticar.

Francisco Vaz

26 de julho de 2026

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