uma fratura ontológica, ética e política
Entre todas as ações humanas, poucas revelam uma rutura tão profunda da ordem moral quanto o abandono. Não apenas porque provoca sofrimento físico ou psicológico, mas porque atinge algo muito mais radical: as próprias condições que tornam possível a existência humana. O abandono constitui uma negação prática da responsabilidade pelo outro e, por isso, fere simultaneamente as dimensões ontológica, ética e política da vida em comum.
A reflexão contemporânea tende a interpretar o abandono quase exclusivamente através da linguagem da psicologia ou da sociologia. Fala-se de trauma, de perturbações emocionais, de contextos familiares desestruturados, de exclusão social ou de pobreza. Todas estas abordagens são importantes e indispensáveis. Contudo, permanecem insuficientes quando ignoram uma questão mais funda: o que significa abandonar outro ser humano?
A ontologia, entendida como reflexão sobre o ser enquanto ser, permite formular essa pergunta de forma radical. O ser humano não existe como realidade autossuficiente. Desde o primeiro instante da vida depende inteiramente de alguém que o acolha, cuide e proteja. O cuidado não constitui um acrescento posterior à existência; é uma das suas condições constitutivas. Um recém-nascido abandonado não sofre apenas: pode literalmente deixar de existir. O abandono atinge, assim, a própria possibilidade do ser.
É precisamente desta condição ontológica que nasce a exigência ética. Se a existência humana depende do cuidado, então cuidar não pode ser reduzido a um sentimento ou a uma preferência afetiva. É um dever. A ética começa no reconhecimento da vulnerabilidade do outro e na responsabilidade que essa vulnerabilidade suscita. Quando aqueles cuja missão é proteger — os pais, a família ou qualquer responsável — abandonam uma criança em situação de perigo, não estamos apenas perante uma falha emocional ou jurídica. Estamos perante uma rutura da ordem moral.
Existe, porém, uma terceira dimensão frequentemente esquecida: a política. Não a política entendida como disputa partidária, mas no sentido clássico que Aristóteles lhe atribuiu. A polis nasce porque seres humanos capazes de agir moralmente reconhecem deveres recíprocos e organizam a convivência em função do bem comum. A confiança é o seu primeiro fundamento. Quando uma comunidade deixa de considerar intolerável o abandono dos mais frágeis, começa a corroer silenciosamente as bases da sua própria existência política. O problema deixa então de ser apenas individual: torna-se civilizacional.
O recente caso dos dois irmãos abandonados pela mãe e pelo padrasto em circunstâncias de extrema perigosidade recordou-nos precisamente essa tripla fratura. Grande parte do debate público procurou explicações psicológicas ou sociológicas — necessárias, sem dúvida —, mas quase nada se ouviu sobre as implicações ontológicas, éticas e políticas de um gesto desta natureza. E, no entanto, é precisamente aí que reside a sua gravidade mais profunda.
Porque cuidar nunca é apenas uma escolha privada. É uma exigência inscrita na própria condição humana.
Curiosamente, esta verdade permanece particularmente evidente nos contextos em que a civilização parece suspender-se: a guerra. Em praticamente todas as unidades militares existe uma regra não escrita, mas absoluta: não abandonar um camarada ferido. Trata-se de uma obrigação que ultrapassa qualquer cálculo estratégico. É uma questão de honra, de fidelidade e de humanidade.
Os exemplos abundam durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente entre os United States Marine Corps. Nos combates do Pacífico, inúmeros Marines arriscaram — e muitos perderam — a própria vida para resgatar companheiros sob intenso fogo inimigo. Fizeram-no não porque isso aumentasse necessariamente a eficácia operacional, mas porque abandonar um camarada representaria uma degradação moral incompatível com a identidade da própria unidade. A coesão militar assentava, antes de mais, na certeza de que ninguém seria deixado para trás.
É profundamente revelador que, mesmo no cenário extremo da guerra, o homem reconheça esta obrigação elementar, enquanto em sociedades pacificadas ela parece, por vezes, diluir-se entre relativismos morais ou explicações exclusivamente psicológicas.
Reconhecer esta realidade não significa desvalorizar a psicologia, a psiquiatria ou as ciências sociais. Significa apenas recordar que existe uma camada mais profunda da experiência humana. O abandono não é apenas um trauma. É uma negação das condições fundamentais que tornam possível a existência, a responsabilidade moral e a própria vida em comunidade.
Os filósofos clássicos compreenderam-no muito antes da linguagem moderna da psicologia. Platão mostra-nos que toda a desordem exterior nasce de uma desordem interior da alma. Quando o homem perde a capacidade de reconhecer o bem, acaba por inverter a ordem natural das coisas: proteger deixa de ser prioridade, cuidar deixa de ser dever e o outro deixa de ser um fim para se transformar num obstáculo.
A alegoria da caverna não é apenas uma reflexão sobre o conhecimento; é igualmente uma meditação sobre a alienação moral e política. Quem vive afastado da verdade deixa também de ver corretamente o outro. E quando essa cegueira se instala, o abandono torna-se possível.
Talvez seja precisamente essa a sua ferida mais profunda. O abandonado não sofre apenas pela fome, pelo medo ou pela solidão. Sofre porque experimenta, de forma radical, o não reconhecimento. Descobre demasiado cedo que aqueles que deveriam garantir a sua existência deixaram de o considerar digno de cuidado.
É por isso que o abandono figura entre as ações mais desumanas que um ser humano pode cometer. Porque rompe simultaneamente a possibilidade do ser, destrói a obrigação ética do cuidado e enfraquece o vínculo político que sustenta qualquer comunidade.
Uma civilização pode sobreviver à pobreza, à guerra ou às crises institucionais. O que dificilmente sobreviverá é à perda da consciência de que cuidar do outro — sobretudo do mais vulnerável — não constitui uma opção sentimental nem um gesto de mera benevolência. É o fundamento ontológico da existência humana, o primeiro dever da ética e a condição indispensável de toda a comunidade política digna desse nome.
Francisco Vaz
21 de julho de 2021
Sem comentários:
Enviar um comentário