Pecado original

Pecado original

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma metáfora tauromáquica:

o peão de brega

A arena não é apenas um lugar de confronto. É um espaço de revelação.

Nela, cada interveniente manifesta não só a sua força ou a sua habilidade, mas também o modo como se relaciona com a realidade, com o outro e consigo próprio. A tauromaquia, para além do espetáculo, pode assim ser lida como uma pequena representação da condição humana.

Entre todas as figuras da lide, uma das mais discretas é também uma das mais necessárias: o peão de brega.

O público concentra o olhar no cavaleiro. É ele o protagonista, aquele de quem se espera a coragem, a elegância e a precisão do gesto. Mas a sua mestria só pode revelar-se plenamente quando alguém preparou, com paciência, inteligência e dedicação, o terreno favorável à faena.

Esse trabalho pertence ao peão de brega.

Ele observa o touro, interpreta-lhe os movimentos, reconhece-lhe os vícios, as hesitações e as tendências. Não age precipitadamente. Espera, chama, desvia, aproxima e conduz. A sua função não consiste em vencer o animal, nem em ocupar o lugar do cavaleiro, mas em criar as condições para que a lide possa acontecer segundo a sua verdade.

É um trabalho de serviço.

É também um trabalho de mediação.

O peão de brega não procura a glória do centro. Procura conduzir o touro para o centro, onde o protagonista poderá mostrar a sua arte. A sua grandeza reside precisamente em tornar possível a ação de outro sem reclamar para si o aplauso.

Há aqui uma primeira lição ética: nem toda a ação verdadeiramente importante é visível. Muitas vezes, aquilo que sustenta o bem permanece oculto, paciente e silencioso.

O problema surge quando o touro se refugia nas tábuas.

Ali, junto ao limite da arena, sente-se aparentemente protegido. O espaço é mais estreito, a retaguarda parece segura e a proximidade da trincheira oferece-lhe a ilusão de dominar a situação. Mas essa segurança é ambígua. O touro acantonado nas tábuas torna-se mais difícil, desconfiado e imprevisível. Não aceita facilmente ser chamado ao espaço aberto da lide. Espera, observa e investe por vezes quando menos se espera.

Em vez de agir a partir da liberdade do centro, reage a partir do medo do limite.

Também entre os homens existem tábuas.

Podem ser uma profissão, um estatuto, uma competência técnica ou um domínio particular do conhecimento. Há quem se refugie na linguagem jurídica, por exemplo, não para procurar a justiça, mas para transformar a lei numa fortificação. O conhecimento, que deveria servir a verdade e o bem comum, torna-se então um território defensivo, a partir do qual se vigia, se suspeita e se ataca.

O problema nunca está no direito, na técnica ou na inteligência.

Está no uso que deles se faz.

Quando um saber particular é convertido numa trincheira, a pessoa começa a confundir o domínio de uma parcela da realidade com o domínio da realidade inteira. Julga-se segura porque conhece procedimentos, normas e argumentos. No entanto, essa segurança pode esconder uma profunda incapacidade para compreender o outro e para se deixar interpelar pelo real.

A inteligência perde então a sua vocação contemplativa.

Deixa de perguntar: «O que é verdadeiro?»

Passa a perguntar apenas: «Como posso demonstrar que tenho razão?»

A partir desse momento, o pensamento já não se abre à realidade. Procura obrigar a realidade a confirmar uma conclusão previamente estabelecida.

É aqui que se manifesta a paralaxe cognitiva.

O problema não consiste simplesmente em cometer um erro. Todos erramos. A paralaxe começa quando existe uma separação persistente entre aquilo que a pessoa afirma e a realidade concreta da sua própria atitude. Alguém pode declarar que procura a justiça, quando procura apenas derrotar um adversário; pode invocar a razão, quando é conduzido pelo ressentimento; pode falar em prudência, quando vive dominado pela suspeita.

A inteligência continua ativa, mas deixou de servir a verdade.

Tornou-se instrumento de autodefesa.

Tudo passa então a ser interpretado a partir da hostilidade.

Uma divergência transforma-se em provocação.

Um conselho torna-se uma tentativa de domínio.

Uma aproximação converte-se em armadilha.

Uma mão estendida é recebida como se escondesse uma arma.

O outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser reduzido à figura de inimigo.

É precisamente aqui que a questão deixa de ser apenas intelectual e se torna ética e ontológica.

O ser humano não se realiza no isolamento. A pessoa é relação. Existe recebendo, respondendo, dando e acolhendo. A identidade não se constrói apenas contra os outros, mas também com os outros. Quando alguém transforma toda a diferença em ameaça, empobrece não apenas a relação, mas o próprio ser.

Recusar o encontro é recusar uma possibilidade de crescimento.

Recusar a escuta é recusar uma parte da realidade.

Recusar sistematicamente a boa vontade do outro é construir uma prisão interior e chamar-lhe liberdade.

O peão de brega representa a atitude oposta.

Ele não força o touro a ir para o centro. Procura conduzi-lo. Não o humilha. Não o combate por ódio. Não deseja feri-lo inutilmente. A sua ação é orientada para uma ordem superior da lide, na qual cada interveniente possa ocupar o seu lugar.

Do mesmo modo, aquele que procura retirar alguém das tábuas da suspeita não é necessariamente seu inimigo. Pode ser precisamente aquele que deseja evitar-lhe uma queda mais grave.

Pode querer ajudá-lo a abandonar o espaço estreito da reação para entrar no espaço amplo da compreensão.

Pode desejar que deixe de combater sombras e reconheça a realidade.

Mas para isso é necessário um ato difícil: admitir que nem toda a oposição é perseguição, nem toda a crítica é agressão, nem toda a ajuda constitui humilhação.

É necessário reconhecer que a inteligência não foi dada ao homem para fabricar inimigos, mas para discernir a verdade.

A verdade não pertence às tábuas.

As tábuas oferecem proteção, mas limitam o horizonte.

O centro da arena é mais arriscado, porque nele não existem esconderijos. Porém, só aí pode haver verdadeira relação. Só aí a força deixa de ser reação cega. Só aí a inteligência pode recuperar a sua função própria: reconhecer o real e ordenar a ação ao bem.

A verdadeira coragem não está, por isso, em atacar a partir do abrigo.

Está em abandonar o abrigo.

Está em aceitar o encontro.

Está em reconhecer que o outro pode não querer destruir-nos; pode querer apenas impedir que nos destruamos a nós próprios.

Talvez a maior tragédia não seja possuir pouca inteligência, mas usar a inteligência contra a verdade. E talvez a maior cegueira não seja deixar de ver, mas imaginar que se vê tudo a partir de um canto estreito da arena.

O peão de brega continua, apesar de tudo, a cumprir a sua missão.

Chama o touro.

Espera.

Aproxima-se.

Recua quando é necessário.

Volta a chamar.

Porque sabe que a paciência não é fraqueza e que servir o bem do outro exige, muitas vezes, suportar a incompreensão, a rudeza e até a agressividade.

Ele não pretende ser o protagonista.

Deseja apenas que a lide não termine nas tábuas.

Porque nas tábuas domina a suspeita.

No centro pode nascer a verdade.

Nas tábuas cada homem está sozinho com o seu medo.

No centro pode finalmente encontrar o outro.

E é apenas nesse encontro, humilde e desarmado, que a inteligência se reconcilia com a realidade, a liberdade com o bem e a pessoa com a sua própria humanidade.

Francisco Vaz

24 de julho de 2026

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