porque The Everlasting Man continua a ser um dos livros mais importantes do século XX
Há livros que envelhecem porque respondem às perguntas do seu tempo. E há livros que permanecem vivos porque formulam as perguntas que nunca deixam de ser atuais.
The Everlasting Man, publicado por G. K. Chesterton em 1925, pertence claramente à segunda categoria. Passado um século, continua a ser uma das obras mais notáveis sobre a identidade do homem, o sentido da história e a originalidade do cristianismo. Talvez seja, afinal, o livro mais importante de Chesterton.
É uma afirmação ousada. Muitos preferirão Orthodoxy, pela sua dimensão autobiográfica, ou The Man Who Was Thursday, pela genialidade literária. Mas é em The Everlasting Man que o pensamento de Chesterton atinge a sua expressão mais madura e sistemática.
O livro nasceu como resposta à visão da história apresentada por H. G. Wells. Para Wells, a humanidade podia ser explicada como o resultado de um processo contínuo de evolução biológica e progresso material. Chesterton não contesta a ciência nem a evolução enquanto descrição dos processos naturais. O que recusa é a ideia de que isso baste para explicar o homem.
E coloca uma pergunta desarmantemente simples:
Se o homem é apenas um animal, porque é tão extraordinariamente diferente de todos os outros?
A resposta desenvolve-se ao longo de uma reflexão brilhante sobre aquilo que torna o ser humano verdadeiramente singular. O homem não é apenas um animal mais inteligente. É o único que pinta antes de saber escrever, que enterra os seus mortos, que cria símbolos, que compõe música, que procura a beleza e que interroga o infinito.
Chesterton observa que todos os animais vivem na natureza. Só o homem é capaz de se colocar diante dela e contemplá-la. É simultaneamente parte do mundo e observador do próprio mundo.
É precisamente essa capacidade de transcendência que nenhuma explicação puramente biológica consegue esgotar.
Na segunda parte da obra, Chesterton dirige o olhar para a história das religiões. Faz-lo com um respeito notável pelas grandes tradições espirituais da humanidade, reconhecendo nelas autênticas intuições sobre Deus e sobre o destino humano.
Mas identifica no cristianismo uma diferença radical.
Enquanto todas as religiões exprimem, de algum modo, a procura do homem por Deus, o cristianismo anuncia algo inesperado: é Deus quem procura o homem.
A Encarnação não aparece como mais um mito religioso nem como uma simples doutrina moral. Surge como um acontecimento que altera a própria compreensão da história.
Para Chesterton, Cristo não é apenas um mestre entre outros. É a resposta à própria pergunta sobre o homem.
É aqui que reside a extraordinária atualidade do livro.
Vivemos numa época fascinada pela inteligência artificial, pela neurociência, pela genética e pela biologia evolutiva. Cada uma destas disciplinas ajuda-nos a compreender melhor o funcionamento do ser humano. Nenhuma, porém, consegue responder à pergunta decisiva: o que significa ser pessoa?
Continuamos a produzir arte. Continuamos a apaixonar-nos pela beleza. Continuamos a sofrer diante da injustiça. Continuamos a perguntar pelo bem, pela verdade e pelo sentido da existência.
Essas perguntas permanecem abertas porque pertencem à própria estrutura da condição humana.
Chesterton compreendeu isto com uma lucidez impressionante. O homem não é apenas um problema científico. É, antes de tudo, um mistério.
Talvez seja essa a razão por que The Everlasting Man exerceu uma influência tão profunda sobre tantos leitores. C. S. Lewis reconheceu que a leitura deste livro constituiu um momento decisivo no caminho que o conduziu da descrença ao cristianismo. Muitos outros encontraram nele não um conjunto de argumentos fechados, mas uma nova forma de olhar para a realidade.
É essa, afinal, a marca dos grandes livros.
Não obrigam ninguém a acreditar. Obrigam-nos apenas a pensar.
Cem anos depois da sua publicação, The Everlasting Man continua a desafiar as certezas fáceis do materialismo e do relativismo contemporâneos. Recorda-nos que o homem não pode ser reduzido ao que produz, ao que possui ou ao que a ciência consegue medir. Há nele uma abertura ao infinito que nenhuma estatística consegue quantificar e nenhum algoritmo consegue reproduzir.
Chesterton não oferece uma teoria sobre o homem. Convida-nos antes a contemplá-lo. E, ao fazê-lo, sugere que a verdadeira resposta à pergunta «Quem é o homem?» talvez só possa ser encontrada naquele que deu título ao livro: o Homem Eterno.
Num tempo em que se fala incessantemente do futuro da humanidade, talvez valha a pena regressar a um livro que continua a recordar-nos algo mais importante: antes de decidir para onde vamos, precisamos de voltar a compreender quem somos.
Francisco Vaz
20 de julho de 2026
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