Pecado original

Pecado original

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Islão, literalismo e modernidade


Islão, literalismo e modernidade: um debate necessário

No Ocidente, discutir criticamente o Islão continua a ser um exercício desconfortável. Entre o receio de alimentar preconceitos e a tentação de relativizar tudo em nome da tolerância, o debate público acaba muitas vezes por evitar a questão central: a tensão entre textos religiosos antigos, leituras literalistas e os princípios e valores das sociedades modernas.

O Islão distingue-se por possuir um vasto corpo de fontes — Alcorão, Sunna e literatura jurídica — que regulam não apenas a vida espiritual, mas também comportamentos sociais, jurídicos e políticos. A vida e as ações de Maomé foram extensivamente registadas e transformadas em modelo normativo. Essa riqueza documental é historicamente relevante, mas torna-se problemática quando é lida de forma literal e aplicada fora do contexto em que surgiu.

Importa fazer uma distinção essencial: a maioria dos muçulmanos vive a religião de forma ritual, espiritual e cultural, sem qualquer ambição de impor um modelo político ou jurídico religioso. O problema não é o Islão enquanto fé, mas o islamismo político — a tentativa de transformar uma religião numa ideologia totalizante, que subordina a sociedade, a lei e os direitos individuais a uma interpretação rígida dos textos sagrados.

Negar que certas leituras desses textos legitimam desigualdades de género, hierarquias religiosas ou rejeição do pluralismo não ajuda o debate. Quando essas leituras são elevadas a programa político, aproximam-se de formas clássicas de totalitarismo: uma verdade única, imune à crítica, que não admite dissidência.

Historicamente, o Islão nasceu num contexto tribal do século VII. Pretender reproduzir esse modelo no século XXI ignora mais de mil anos de História. Nenhuma religião — cristianismo, judaísmo ou islão — sobreviveu no mundo moderno sem processos de adaptação, crítica interna e separação entre fé e lei civil.

Também é essencial distinguir religião de civilização. A civilização islâmica produziu ciência, filosofia, arte e pensamento jurídico de enorme valor. Reduzir a identidade islâmica a uma aplicação rígida da sharia é negar essa herança plural — precisamente o que fazem os movimentos salafistas.

O futuro do Islão nas sociedades democráticas não passa pela negação nem pelasa cralização absoluta, mas pela sua integração num espaço onde a lei comum, a razão crítica e os direitos fundamentais prevalecem. Enquanto houver quem procure reconstruir literalmente a comunidade política de Maomé como modelo obrigatório, a violência continuará a ser uma possibilidade real.

Evitar este debate não é tolerância; é abdicação intelectual. Enfrentá-lo com rigor, distinções claras e respeito pelas pessoas é a única forma de impedir que o espaço público seja dominado pelos extremos.


Francisco Vaz

12/01/2026

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Natal, Misericórdia de Deus

Da Angústia à Esperança

A misericórdia divina pode ser compreendida como o lugar onde a infinitude de Deus encontra a finitude humana. Em Deus, a infinitude não é mera possibilidade, mas plenitude absoluta: Ele é ato puro, sem carência ou frustração. No mistério do Natal, essa infinitude em ato não permanece distante, mas inclina-se livremente sobre o finito. A misericórdia revela-se, então, como o transbordar do ser divino, que não reage às limitações humanas, mas as assume para comunicar sentido, perdão e possibilidade de recomeço.

O ser humano, por sua vez, vive numa condição marcada pela infinitude em potência. É capaz de desejar o absoluto, o bem pleno e a verdade total, mas age sempre de modo finito, histórico e frágil. Celebrar o Natal em 2025, num mundo marcado por incertezas, angústias e pela sensação de possibilidades infinitas acompanhadas de ações cada vez mais frágeis, é reconhecer que essa tensão não é nova, nem insolúvel. Dessa distância entre o que o homem sonha e o que efetivamente realiza nasce a angústia, sinal de que o ser humano é maior do que aquilo que consegue ser por si mesmo.

É precisamente nesse intervalo que a misericórdia divina se manifesta. O Natal recorda que Deus não elimina a finitude humana nem a substitui por uma perfeição artificial; Ele entra nela. A misericórdia não dispensa a responsabilidade do agir humano, mas impede que a limitação se transforme em desespero. Ao acolher o homem mesmo quando a sua ação não corresponde à amplitude do seu desejo, Deus reconcilia-o com a própria condição e devolve-lhe esperança.

Assim, no Natal, a misericórdia divina não suprime a tensão constitutiva do homem, mas transforma-a em caminho. A finitude deixa de ser condenação e torna-se espaço de encontro, onde o infinito não é conquistado, mas recebido como dom. A angústia humana, longe de ser sinal de fracasso, revela-se como abertura ao transcendente — uma abertura que encontra repouso no mistério celebrado no Natal: o infinito fez-se finito para que o finito pudesse participar do infinito.


Feliz Natal!


Francisco Vaz

25 de Dezembro de 2025

Do Imperium Romano ao "Império Trump"

Do Imperium Romano ao “Império Trump”: continuidades e rupturas no exercício do poder

Comparar o imperium romano com aquilo que muitos analistas chamam, de forma metafórica, de “império de Donald Trump” pode parecer, à primeira vista, um exercício anacrónico. No entanto, quando observamos os modos de operação do poder, surgem paralelos reveladores — não tanto na forma institucional, mas na lógica moral, jurídica e geoestratégica que sustenta a dominação.

1. Virtude pública versus moral instrumental

O Império Romano construiu parte da sua legitimidade sobre um discurso moral relativamente coerente para a época: virtus, honor, disciplina e pietas eram valores exaltados como fundamentos da ordem imperial. Embora muitas vezes violados na prática, esses princípios funcionavam como horizonte ético comum, servindo para justificar conquistas, punir excessos e integrar elites locais.

Já o “império Trump” — entendido aqui como um projeto de poder personalista, nacionalista e mediático — opera segundo uma moral instrumental e situacional. A ética deixa de ser um valor estruturante e passa a ser uma ferramenta retórica: o que é “bom” ou “justo” depende do alinhamento com os interesses imediatos do líder ou do grupo político. O discurso moral é frequentemente substituído pela lógica do sucesso, da força e da lealdade pessoal, ecoando mais o final decadente da República Romana do que o seu período clássico.

Enquanto Roma buscava projetar uma imagem de civilização superior, Trump enfatiza a ideia de vitória, mesmo que à custa de normas éticas tradicionais, alianças históricas ou consensos democráticos.

2. Direito como estrutura vs. direito como obstáculo

O direito romano foi uma das maiores contribuições do Império à história ocidental. Mesmo sendo frequentemente desigual e elitista, o sistema jurídico romano funcionava como instrumento de coesão, previsibilidade e administração imperial. A lei não era apenas um mecanismo de repressão, mas uma linguagem comum que permitia governar vastos territórios.

No caso do “império Trump”, observa-se uma relação ambígua — e por vezes hostil — com o direito. As instituições legais são frequentemente tratadas como entraves ao poder, e não como sua base de legitimidade. Tribunais, imprensa, organismos internacionais e regras eleitorais são desacreditados quando não produzem resultados favoráveis.

Aqui surge um contraste fundamental:

  • Roma expandia o direito para consolidar o império;

  • Trump tenta flexibilizar, contornar ou deslegitimar

    o direito para preservar o poder.

Esse modus operandi aproxima-se mais de uma lógica pré- imperial, baseada no chefe carismático, do que de um império institucionalizado.

3. Expansão integradora vs. transacionalismo agressivo

Do ponto de vista geoestratégico, Roma praticava uma expansão militar acompanhada de integração económica. Estradas, impostos, comércio e cidadania eram instrumentos para transformar territórios conquistados em partes funcionais do império. A guerra era meio; a estabilidade, o fim.

O “império Trump”, por sua vez, adota uma abordagem transacional e de soma zero. Alianças não são vistas como investimentos estratégicos de longo prazo, mas como contratos renegociáveis. A economia torna-se arma geopolítica direta: tarifas, sanções e chantagem substituem a diplomacia clássica.

Enquanto Roma procurava garantir rotas comerciais e estabilidade regional, Trump privilegia ganhos económicos imediatos, mesmo que isso gere instabilidade sistémica. A lógica imperial romana era expansiva e integradora; a lógica trumpista é defensiva, competitiva e fragmentadora.

Conclusão

O imperium romano, apesar da violência e da desigualdade, era sustentado por uma visão relativamente coerente de ordem, direito e civilização. O “império de Donald Trump”, em contraste, representa uma forma contemporânea de poder imperial desinstitucionalizado, altamente personalista e orientado por interesses imediatos.

Se Roma caiu quando deixou de acreditar nas suas próprias instituições, a grande questão que se coloca hoje é se as democracias modernas conseguem resistir a um modus operandi que, embora poderoso no curto prazo, mina silenciosamente os fundamentos éticos, legais e estratégicos que sustentam qualquer sociedade humana digna e duradoura.

Francisco Vaz

5 de Janeiro de 2026

Eros e Psique - 5 Janeiro 2026


Psique recebendo o primeiro beijo de Cupido, 1798


Francois Pascal Simon Gerard


Eros e Psique


Desceu da noite o deus alado,

Em sonho e névoa, em doce ardor;

Trazia o lume encantado

Do primeiro e último amor.


Psique dormia em véu de lua,

Sem ver o rosto que a beijou;

Mas cada toque, alma nua,

Dizia: “É teu quem te amou.”


Afrodite, em ciúme aceso,

Fez do amor pena e provação;

Mas onde há dor, há o desejo

De ser eterno o coração.


Por mares, ventos e colinas,

Psique buscou seu ser divino;

Nas flores viu as mãos divinas,

Nos astros, o seu destino.


E quando o céu enfim sorriu,

Selando o sonho e a paixão,

O amor — que tudo destruiu —

Fez-se luz, alma e perdão.


Francisco Vaz

5 de Dezembro de 2025 

5 Janeiro 2026 - Nova Esperança



Nova Esperança ou o Desejo de Ser
(Dedicado à Samary)


I

Do sal e do vento regresso, cansado,

Meu nome no tempo o mar apagou,

Mas trago nos olhos o fado calado

De quem tudo perdeu e tudo encontrou.


II

A guerra é memória, o lar é promessa,

Da chama do amor que arde em mim,

Penélope espera, fiel à pressa

Do tempo que volta, do novo jardim.


III

No porto adormece a antiga epopeia,

No chão renasce o primeiro luar,

Quem volta não é quem partiu na areia,

Mas quem aprendeu o que é regressar.


IV

O mundo girou — e eu, renascido,

Com a alma lavada do sal da razão,

Agora é no abraço que vejo o sentido,

E em ti começa a nova canção.


V

A vida é viagem, o tempo é criança,

Que dorme nos braços de quem souber crer.

Do fim faz-se início, do pranto esperança

Da esperança se ergue o desejo de ser.



Francisco Vaz


Portela, 8 de Novembro de 2025

Um pouco de esperança no inferno de fogo

As Enfermeiras Pára-Quedistas Portuguesas1

Américo Pereira

Começa-se com uma citação que enquadra tudo o que se segue, da autoria de alguém que foi militar profissional, mas que é mais conhecido como chefe político, Winston Churchill. Reza assim: 

«NA GUERRA: DETERMINAÇÃO; NA DERROTA: REBELDIA; NA VITÓRIA: MAGNANIMIDADE; NA PAZ: BOA-VONTADE».2

Esta comunicação, que se redobra em homenagem a um grupo de Mulheres, estrategicamente esquecido depois de ter sido usado e descartado, prossegue com a citação de palavras de um Homem pelo qual tenho grande admiração e a quem Portugal muito deve, Salgueiro Maia, retiradas das suas memórias no teatro de operações da Guiné Bissau.

Tais palavras, na sua dureza e crueza, remetem-nos imediatamente para a guerra, guerra que quem a faz sabe bem que não tem leis e não tem outras regras efectivas para lá de essa que determina matar o inimigo antes que ele nos mate, e dessa outra que consiste em, sempre, proteger os camaradas. Daqui, deriva a brutalidade da guerra, a sua impiedade: se não for impiedosa, não é guerra, é uma anedota inconsequente, mas, ainda assim, assassina.

Relata Maia:

«Mando pedir de imediato uma evacuação heli; digo ao enfermeiro para lhe dar as injecções da ordem contra a infecção. O soro, etc. / O helicóptero demora quase quarenta e cinco minutos a chegar. O homem está calmo. Para o socorrer, utilizamos os restos das próprias calças para fazer garrotes à perna e ao braço, para além de, com outras tiras, segurar pensos a tapar ferimentos menores. O homem está totalmente nu, com a camisa do camuflado a fazer de tala para o braço. O esperado heli chega. Traz dentro uma enfermeira para-quedista bonita e loira. Quando vê o homem, diz-me que não leva o ferido assim despido. Dá-me vontade de lhe enfiar um par de estalos. Domino-me e digo ao enfermeiro que está de camisola interior para se despir e tapar o ferido. Por fim, o heli levanta, o homem salva-se. No dia a seguir, a enfermeira, ao aproximar-se de um Nord-Atlas, distrai-se, não vê que uma hélice do avião está em movimento e é feita em pedaços.».3

Esta é a terrível realidade da guerra, sem diplomacias, sem tempo, sem meios adequados, sem contemplações, sempre entre a brutalidade feroz de uma vida em processo de morte, iminente ou eminente, nossa ou do inimigo.

É para e neste ambiente, sem cinzentas ambiguidades, ambiente de absoluto de vida e de absoluto de morte, de juízos impiedosos, de minúcias imediatamente definidoras e definitivas, que se ofereceram e em que trabalharam as Enfermeiras Pára-Quedistas Portuguesas.

Sobre a morte da Enfermeira Paraquedista Maria Celeste Ferreira da Costa, morta em serviço no dia 10 de Fevereiro de 1973, em Biassalanca, Guiné-Bissau, há outros dizeres, por exemplo, o da Camarada Manuela Flores França, do Segundo Curso (falecida em 27 de Dezembro de 2011, primeira a saltar em queda livre), publicado na obra de Susana Torrão, Anjos na guerra. A aventura das enfermeiras paraquedistas portuguesas, Alfragide, Oficina do Livro, 2011, p. 101:

«Outro acontecimento que acabou por marcar todo o corpo de enfermeiras paraquedistas foi a morte da enfermeira Celeste Ferreira Costa, apanhada pela hélice de um avião, em Biassalanca, na Guiné. [palavras da Enfermeira Manuela Flores França:] “Sobretudo para duas colegas que estavam lá na altura foi uma coisa horrível. Marcou-nos horrivelmente [faltam-lhe as palavras (inciso da autora)]. A maneira como foi... Andámos meses a pensar, naquilo. De cada vez que subia para o avião – e eu sempre tive o cabelo muito curtinho – pensava na Celeste.” A enfermeira tinha sido apanhada pelo cabelo. [De novo, citação de Manuela Flores França] “Ela tinha o cabelo muito grande. Nós tínhamos recomendações para trazer o cabelo preso sempre que subíamos para o avião, mas os pilotos também não deviam pôr o avião a funcionar enquanto a enfermeira não estivesse lá dentro. Existiam regulamentos, as pessoas é que, com a pressa, não os cumpriam. Aconteceu. [...]”».

O caso da Enfermeira Pára-Quedista Celeste Costa é paradigmático, positiva e negativamente. Sobre a sua negatividade, já se ponderou, e basta. Sobre a sua positividade, que se pode afirmar?

De facto, nada com mais autoridade do que o louvor que lhe foi concedido, parcialmente transcrito por Susana Torrão, na obra já citada (pp. 132-133), de que salientamos, como resumo e ápice: 

«De trato afável, carácter íntegro, possuindo um alto sentido do dever e da lealdade, a furriel graduada enfermeira Ferreira da Costa foi para todos e em particular para os elementos do serviço de Saúde da Força Aérea, um exemplo a seguir e motivo de prestígio para as Forças Armadas.».

Celeste, Enfermeira Pára-Quedista, «bonita e loira», mas também com «alto grau de sentido do dever e da lealdade», deu a sua vida pelo país que escolheu servir, em frente de guerra, longe do conforto metropolitano, largamente ignorada. Tinha 27 anos. Foi promovida à dignidade de Sargento, que merecera em vida, a título póstumo.

Ora, se se escolhe Celeste Costa como símbolo, não é por ela ser «bonita e loira», mas por personificar a grandeza destas poucas dezenas de Mulheres, mais ou menos bonitas por fora, mas de imensa beleza interior, a beleza que deve possuir todo o militar digno do nome: integridade, lealdade, sentido do dever, mas também dos limites da razoabilidade, coragem, inteligência – profunda e célere –, persistência, dureza no combate, contra inimigos, de que a morte é o mais poderoso, misericórdia, quando o inimigo está já objectivamente reduzido.

De certo ponto de vista, que é fundamental, o pessoal de saúde militar incarna – quando actua como deve – o que é um verdadeiro militar.

As guerras só terminam quando, de um modo ou de outro, se consegue atingir um estado de paz, por mínimo que seja, como pura ausência de actos de guerra, ainda que por exaustão dos inimigos. Sem tal, a guerra continua.

Ora, o militar, mesmo o profissional, talvez sobretudo o profissional, vive para a paz, tendo de, para tal, aprender a vencer qualquer guerra com a maior eficácia possível, com a maior brevidade possível, o que o torna em algo muito mais eficiente do que o vulgar «guerreiro», escravo da guerra.

Saindo do nacional provincianismo, não é, assim, de admirar que um Pára-Quedista, como o já célebre Major Richard Winters, de invejável currículo de batalha, fosse um militar amante da paz, desejoso de acabar o serviço o mais depressa e bem possível, o que o tornou num espantoso instrumento de guerra.

Serve este exemplo para mostrar que as Enfermeiras Pára-Quedistas Portuguesas, não sendo guerreiras, foram, no entanto, talvez por isso mesmo, grandes militares, no seu âmbito próprio de acção.

Tal grandeza merece ser reconhecida de modo claro, sem reducionismos, sem revisionismos, sem preconceitos de qualquer etiologia.

A sua grandeza, sobretudo as das primeiríssimas, as chamadas «Seis Marias», começou, precisamente, enfrentando, mesmo lutando contra, todo um conjunto de ambientes preconceitos relativos à postulada, mas improvada, inabilidade das mulheres para o desempenho de certas tarefas, mormente, as de índole militar.

Este tipo de preconceito é de tal modo irracional que esquece que, por exemplo, é muito mais fácil e rápido treinar alguém, mesmo uma criança de seis, sete, oito anos – menino ou menina – no bom uso de uma arma de fogo, por exemplo, uma ‘amigável’ AK47, do que nos modos, ainda que mais básicos, do socorrismo militar, sobretudo em ambiente de guerra.

Por que é que uma mulher comum não consegue aprender a usar bem uma «Kalash» ou a ser socorrista ou enfermeira ou médica militar em teatro de guerra, mesmo em frente de guerra?

Pois, foi contra tal social imbecilidade que estas primeiras seis Senhoras – sim, estas são Senhoras; mulheres que são Senhoras por mérito próprio – tiveram de começar por lutar. Ao passo que, para o comum mancebo em idade de ser chamado para a guerra, basta existir, sem ter de se voluntariar – e quantos preferiram ser refractários, por razões suas que aqui se não julgam –, estas jovens Mulheres tiveram de se voluntariar, dado que nenhuma Polícia Militar as foi buscar a casa; tiveram de mostrar que eram capazes de desempenhos variados que as não envergonhassem perante o que os homens faziam; tiveram de ser a excepção, a fim de reclamar para si a normalidade.

Para coragem e determinação, não é mau começo. Afinal de contas, coragem é coragem e é-se cobarde tanto sob o fogo das armas quanto sob o fogo da estupidez social. Ontem como hoje.

É interessante notar que, numa obra intitulada Guerra colonial, da autoria de Aniceto Afonso e de Carlos de Matos Gomes (Lisboa, Diário de Notícias, s. d.), com a extensão de 632 pp., na parte especialmente dedicada aos «Pára-quedistas», surgem, sobre estas suas Camaradas de armas, apenas estas ‘bastantes’ linhas, p. 179:

«Em 1956, a primeira mulher pára-quedista portuguesa, Isabel Rilvas Mathias,4 lançou a ideia de formar um corpo de enfermeiras pára-quedistas e este alvitre conduziu à criação de um curso e, posteriormente, de um corpo dessa especialidade, as primeiras mulheres integradas como militares nas Forças Armadas Portuguesas. Estas enfermeiras dependiam dos comandos das unidades de pára-quedistas em que estavam integradas e realizaram inúmeras acções de apoio a evacuações de feridos nos teatros de operações e em situações de combate. / De 1961 a 1974,

foram “brevetradas” 48 [sic] enfermeiras, tendo uma delas morrido na Guiné, ao embarcar para uma missão de evacuação, e outra sido ferida por um projéctil, em Moçambique.».

Este brevíssimo trecho, acompanhado por uma fotografia em que se podem ver duas destas enfermeiras, tem a vantagem de reconhecer os inúmeros serviços prestados a militares feridos em zonas de combate; tem, ainda, o mérito de trazer à colação os símbolos da Enfermeira morta e da Enfermeira ferida com gravidade, no lado oposto de África, a muitos milhares de quilómetros de distância, apenas nove dias depois, com um disparo que lhe atingiu a cabeça, alojando-se o projéctil no crânio; removido este, a Enfermeira Cristina Silva esteve 434 dias de baixa. Esta Senhora, quando estivera na Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné, durante 14 meses, efectuou «mais de duas centenas de evacuações de feridos e doentes»,5 nas palavras do louvor atribuído pelo então Comandante de tal Zona Aérea.

Quando se visita o mural com os cerca de dez mil nomes de militares portugueses mortos nesta guerra, junto ao Tejo, de que partiram os fundadores do que viria a ser o falhado império pelo qual todos morreram, não se pode deixar de perguntar quantos mais nomes aí estariam se estas Senhoras Enfermeiras Pára-Quedistas não tivessem existido ou não tivessem desempenhado bem o seu labor. Quantas linhas se dedicam, em historiografias várias, a medíocre gente que faz fraca a forte outra. Pouquíssimas linhas são dedicadas a estas fortes femininas gentes. Assim se faz ou desfaz um país, insistindo em preferir a mediocridade à grandeza.

Para que não se contribua para o regime de anonimato a que o que há de pior em Portugal costuma votar quem melhor serviu o País, apresentam- se, simbolicamente, os nomes das primeiras seis Enfermeiras Pára- Quedistas, todas lusitanamente chamadas Maria: Maria Ivone, Maria Arminda, Maria Nazaré, Maria de Lourdes, Maria do Céu, Maria Zulmira. Todavia, todas as quarenta e duas que serviram merecem os seus nomes em bronze gravados; e postos em lugar de honra.

Uma honra colectivamente merecida, todavia, através dos pessoalíssimos trabalhos desempenhados pelas jovens raparigas que se disponibilizaram a servir, não no abstracto das grandes declarações, mas no concreto do horror da acção, não essa coisa teórica que é o Estado, ou essa coisa inconcreta que é o povo, não essa coisa mítica que é a Nação, mas essas humanas coisas bem concretamente reais que são os Homens de carne, cuja carne é furada, despedaçada, queimada, volatilizada, tais são alguns dos efeitos da guerra, da real, a de «blood, toil, sweat, and tears», na famosa expressão do Tenente-Coronel Winston Spencer Churchill, em funções de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha.

A guerra nunca mente. Os seus promotores e os seus beneficiários, esses, sim.

A saga das Enfermeiras Pára-Quedistas – bonitas e loiras, ou não – todas, na expressão de José Freire Antunes, «heroínas silenciosas»,6 começou na sequência de um nobre desejo de uma jovem senhora, Isabel Bandeira de Melo (Rilvas), que se apressou a transformar tal desejo em vontade, movendo homens poderosos, a fim de ser possível haver em Portugal um corpo de Enfermeiras Pára-Quedistas, ela que já era brevetada e que ambicionava ser enfermeira, o que não veio a suceder.

Tais homens a mover incluíram o então Tenente-Coronel Kaúlza de Arriaga e, segundo as palavras da própria Isabel Bandeira, também Salazar:

«O futuro veio a provar que as minhas conversas com o Subsecretário de Estado, Tenente-Coronel Kaúlza de Arriaga não tinham sido inúteis... a “semente” –, a ideia da criação de enfermeiras paraquedistas – fora lançada, e ficara a “germinar” na sua cabeça. Ele não a esqueceu e, quando se começou a recear o irromper de conflitos nas nossas Províncias Ultramarinas, apresentou-a ao Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Oliveira Salazar. Este concordou com a formação do primeiro grupo de mulheres a entrar nas fileiras militares, como enfermeiras!».7

Esta estranha modernidade do chefe de governo abriu as portas não apenas ao acesso de mulheres às Forças Armadas, como militares, como, também, criou a possibilidade de existência de um Serviço de alta nobreza e alto risco, que teve como consequência, para lá do efectivo salvamento ou auxílio ao salvamento de muitas vidas de militares de tais Forças Armadas, como, se bem que estranhamente obscurecido, este, o facto indesmentível de mostrar que as mulheres, mesmo loiras e bonitas, podiam mostrar-se, em situações-limite, capazes de enfrentar perigos análogos aos dos demais militares, desarmadas, agindo profissionalmente debaixo de fogo, em situações em que o metal que voa no ar não sabe distinguir entre o masculino corpo do macho e o feminino corpo da fêmea da espécie humana.

As balas e os estilhaços são do mais democrático que há, e, em termos de género, não são preconceituosos: mutilam e matam tudo o que podem, sem discriminação.

Obtida a autorização ao mais alto nível, havia que pôr ‘a máquina em movimento’. Onde ir buscar recrutas? Em termos militares estritos, como é evidente, o local mais evidente para tal busca é uma escola conventual para meninas enfermeiras. Assim, foi. Nas palavras de Isabel Bandeira:

«E assim se formou o primeiro grupo de enfermeiras paraquedistas equiparadas a militares. Outras se lhes seguiriam... Deu-me particular satisfação o facto de cinco das enfermeiras deste primeiro grupo serem da minha escola, a Escola de Enfermagem Franciscanas Missionárias de Maria, e de serem todas minhas conhecidas, algumas mesmo particularmente amigas. Apenas uma delas era de outra escola, da Escola de S. Vicente de Paulo [...]».8

Encontradas as recrutas, havia que, nas palavras da Enfermeira-Pára Ivone (Maria Ivone Quintino Reis), recruta das Franciscanas Missionárias de Maria, «trocar: a touca branca de enfermeira pela boina verde. A bata branca de enfermeira pelo fato camuflado. Os delicados sapatos brancos de enfermeira por grossas e pesadas botas pretas. A ambulância pelo helicóptero ou o pequeno avião. O hospital, pelo vasto teatro operacional da guerra em Angola, Moçambique e Guiné.».9

Boina. Recruta. Tancos. Brevet. «E serei eu capaz de saltar?»,10 é a questão que a coordenadora da obra, Nós, enfermeiras paraquedistas, Rosa Serra, relembra, relembrando (ibidem) também o «arrepio das convenções sociais então existentes quanto à posição da mulher na sociedade» (ibidem).

Claramente a posição destas Mulheres era bem de pé, numa vertical simbólica entre a terra ensanguentada e o céu por onde o auxílio poderia chegar.

Ainda as palavras da mesma coordenadora:

«Depois de selecionadas pelas freiras da sua escola de enfermagem, foram convidadas pela Força Aérea Portuguesa a entrar[em] no recém-criado quadro de Enfermeiras Paraquedistas. As que aceitaram, fizeram provas de admissão físicas e psicotécnicas, em 26 de Maio de 1961, tendo ficado apuradas onze enfermeiras, que começaram o curso de paraquedismo em 6 de Junho do mesmo ano. / Viriam a terminar este curso apenas seis delas que, pelo facto de todas se chamarem Maria, passaram a ser denominadas de “As Seis Marias”».11

Cinco das recrutas não terminaram com aproveitamento o curso, o que é significativo. Deste modo, em 8 de Agosto de 1961, foram “brevetadas” e receberam a «boina verde» as primeiras mulheres equiparadas a militares de Portugal.

Em breve, trabalho adequado não iria faltar.

Nas palavras da Capitão Ivone Reis, a quem, em 2014, Adriano Moreira recorda especialmente como sua «oficial às ordens quando tive responsabilidades no então ultramar»12:

«Enquanto se faziam as fardas, houve uma operação na serra da Canda e pensaram: “Vão duas enfermeiras, para se fazer o teste da sensibilidade dos soldados, para ver como é que eles reagem às mulheres.” Eu e a Maria Arminda fomos para Angola, não sabíamos bem para quê, para um teste de integração no meio operacional. Fomos para Angola no dia 22 de Agosto e no dia seguinte participámos no lançamento de para-quedistas numa zona de combate. [...] Não pudemos saltar, estivemos dentro dos aviões enquanto eles saltavam, e fazíamos o apoio sanitário porque levávamos todo o nosso equipamento. [...] / Houve depois a visita do ministro do Ultramar, Adriano Moreira, e nomearam-me para ir na comitiva, como forma de motivar raparigas enfermeiras a tornarem-se para-quedistas.».13

Também na Ásia se levantavam monções de mudança política, com a morte de velhos impérios e o nascimento de outros, as chamadas possessões portuguesas na Índia foram reclamadas pelo Estado da Índia, o que implicou senão uma «guerra», em sentido comum, pelo menos movimentações inabituais, incluindo também das recentíssimas Enfermeiras Pára-Quedistas portuguesas.

De novo, as palavras autorizadas de Maria Ivone Reis:

«Quando cheguei da visita do ministro do Ultramar surgiu a questão da Índia e fomos quatro [dois terços da força] para Carachi, em 13 de Dezembro, para dar apoio às famílias que eram repatriadas da Índia, porque os militares ficaram em campos de concentração. Estávamos as quatro em Carachi quando Goa foi invadida, no dia 18 de Dezembro.».14

A guerra é muitas vezes determinada em gabinetes e salões, longe da sua real substância de «blood, toil, sweat, and tears», longe do cheiro não ‘a morte’, que é apenas uma metáfora, mas do cheiro dos mortos. Quem realmente faz a guerra vive no meio da maior imundície de que a humanidade é capaz. Foi neste ambiente de substantiva vida com cheiro a mortos, que viveram e trabalharam as Enfermeiras Pára-Quedistas, «iguais a eles. Uns companheiros», como afirma a Enfermeira-Pára Giselda Antunes Pessoa.15

Para que não haja uma imagem romântica das jornadas destas Militares, seguem-se alguns exemplos do que é a guerra, essa que desconhece ‘estados de direito’, direitos dos estados, direitos humanos, humanidade, sem mais, e que é apenas não-totalmente-desumana por causa de actos de humanidade, contraditórios aos actos de guerra a que se opõem, actos que são a parte humanamente positiva dos exemplos que se seguem, terríveis, de tal modo que cabem no que a Enfermeira-Pára Maria de Lourdes (Cobra) afirma como indizível; cita-se:

«É inenarrável o que comigo aconteceu naquele período da minha vida. Muitos daqueles acontecimentos ainda hoje povoam a minha memória, pois são inesquecíveis. Alguns, por muito dolorosos, nunca os narrei a ninguém, e ficarão para sempre comigo, até por respeito por aqueles que foram suas vítimas.».16

Então, do que foi possível partilhar por algumas destas Militares acerca do horrível, começa-se pelo testemunho da Enfermeira-Pára Eugénia do Espírito Santo Sousa:

«De outra vez evacuei um furriel branco e um militar negro. Pela primeira vez na minha vida, tive que utilizar a mesma agulha porque os dois tinham ficado sem pernas. Vinham deitados no helicóptero, um no andar de cima e o outro por baixo. Enquanto o branco suspirava, o negro puxava-me pelo camuflado. Com a mesma seringa e a mesma agulha, dei-lhes injecções alternadamente, tentando ser justa com os dois. Senti-me muito ligada ao furriel porque ele não se queixava. Depois, na minha hora livre, fui vê-lo ao hospital e sofri imenso porque o furriel tinha morrido na operação.».17

A Enfermeira-Pára Maria de Lourdes Gomes afirma que: «Nunca me tinha ocorrido que pudesse haver tanta destruição humana, tanta dor, tanta infelicidade!»,18 e sobre tal destruição testemunha:

«Fui fazer uma evacuação à zona operacional, e já tinha combinado com um médico do hospital de Mueda, que nunca tinha feito nenhuma evacuação, que ele iria comigo para ver como era uma evacuação sanitária. Chegados à pista subimos ambos para o helicóptero e rumámos ao local do pedido, em plena mata. Aterrámos, e logo chegou junto a nós um militar que me entregou um saco preto que ambos arrumámos a um canto do helicóptero de forma a não ocupar muito espaço. O militar ficou a olhar para mim. E eu, como não via aproximar-se nenhum ferido perguntei: “E então o ferido não vem?” O soldado apontou para o saco, ao mesmo tempo que disse, “É só esse!...”. De repente fez-se luz na minha mente!... Nunca me tinha acontecido entregarem-me um corpo desfeito dentro de um saco... / Descolámos, e à medida que o helicóptero tomava altura e se afastava do local, eu vomitava, não conseguindo controlar a emoção que tomou conta de mim. Não me lembro da reação do médico, mas admito que ficou sem vontade de se voluntariar a fazer alguma evacuação mais.».19

Este testemunho, extremo, mostra bem a massa de que a guerra é feita, transcendente a toda e qualquer tentativa de embelezamento, de moralização, de sublimação, de metamorfose de absoluto mal em bem qualquer. Estes homens e estas mulheres, como todos os que, militares – não guerreiros, estes alimentam-se desta massa –, que em semelhantes situações se encontraram, incarnaram, literalmente ficaram com o sentido de tais eventos embutido em sua carne, na carnal memória, que a angústia do absoluto do mal presenciado sempre produz.

O único bem, de que adiante se falará, vivido nestes actos, corresponde ao absoluto do bem feito ou do bem partilhado, por exemplo, como camaradagem, algo que apenas os militares – os soldados vários – podem saber o que é, pelo sabor que em tal hauriram: é o sentido de se pertencer ao que Shakespeare designa como «band of brothers», que não são irmãos «de sangue», mas irmãos «por sangue».

A Enfermeira-Pára Maria do Céu Pedro Esteves, na obra coordenada por Rosa Serra, afirma:

«As minhas recordações dessa época são muito positivas, não podem ser melhores. [...] não deixava de haver sempre uns “amargos de boca”, por vezes mesmo muito amargos. [...] Foi um viver sempre de alma cheia, acompanhado da consciência do Dever cumprido. E, ainda, completado por um sentimento, como sendo o melhor tipo de vida que Deus teve a bondade de me dar.».20

Estas parecem ser afirmações de uma bela e frágil alma. Vejamos, então, a fragilidade e a beleza de tal ‘alma’, em acção (Freire p. 675):

«Depois fui para o Norte de Moçambique, para Nampula, onde tive uma vida difícil porque só lá estava uma colega que se veio embora e eu fiquei sozinha. O primeiro morto que tive a bordo de um avião foi uma coisa horrível. A esse chegámos a dar uma injecção intracardíaca. Comigo só estava um rapaz anestesista, mas era novinho, não tinha prática. Eram mais de trinta homens queimados: uma mina anticarro mandou pelos ares um camião, que levava gasolina, e toda aquela gente ficou numa miséria. Era um avião com 37 feridos.».21

Se todas as regras ou assim supostas são óptimas para ser quebradas quando a dura realidade assim o exige, que ambiente e local melhor para o fazer do que a guerra, não a dos gabinetes presidenciais, não a dos comentadores de ar-condicionado, não a dos juristas que nunca lá estiveram, mas a dos homens e mulheres que, por exemplo, são regados com gasolina ou fósforo branco?

Da mesma Enfermeira-Pára – que não é a única que revela ter desobedecido a NEPs ou outros acrónimos – podemos ler o seguinte relato:

«Não podíamos fazer evacuações nocturnas no terreno porque não se via nada. Mas um dia, já o Sol se estava a pôr no horizonte, o comandante disse que precisava de dois pilotos voluntários para ir buscar feridos muito graves. Houve dois pilotos que se ofereceram, eu estava de alerta e por isso tinha que ir. Não se via nada. Levávamos todos auscultadores e só ouvíamos dizer:

“Corta naquela árvore, corta naquela.” Quando lá chegámos, havia uma clareira no meio de uma mata que eles fizeram à pressa para podermos aterrar. Pousámos, não sei como. Nem sei como é que consegui recolher quatro homens em estado gravíssimo, que não podiam ir em maca porque senão morriam logo. Quando foi para levantar foi o mesmo espectáculo, não se via nada: “Agora para a direita, agora para a esquerda.” A verdade é que os homens salvaram-se. Se lá tivessem ficado tinham morrido.».22

Gráfico, fácil de entender, incluindo a parte em que se consegue mesmo trabalhar depressa e bem sob condições terríveis e sem ar-condicionado. Num grande pormenor, a Enfermeira-Pára Maria do Céu está errada: os homens, de facto, ‘não se salvaram’ – os homens foram salvos pela grandeza do Comandante que comandou segundo não a lógica do manual, mas segundo a lógica da guerra, lógica que, neste caso, resultou mais humana; os homens foram salvos pela grandeza dos pilotos que se voluntariaram para seguir a voz do Comandante e fazer aquilo que qualquer soldado deve fazer, isto é, se humanamente possível, salvar o camarada, o irmão, nunca o deixando para trás (sei que isto diz muito a muitos militares); os homens foram salvos pela grandeza da Enfermeira-Pára que assumiu o seu dever de guerra e de humanidade; os homens foram salvos, também, pela grandeza dos actos apropriados dos camaradas junto de quem estavam e que tudo fizeram para os ajudar.

Isto é a guerra – terrível –, mas, no seu seio de madrasta, isto também é a camaradagem, forma especial de amizade, a mais nobre, aquela que, como diz Platão, leva o amante a dar a vida pelo amado, coisa bela que os camaradas sempre são: irmãos amantes até à morte. Assim também estas Mulheres de camuflado.

Não se quer promover este lote de 46 Mulheres, Senhoras, a santas ou a entidades perfeitas: ninguém o é, pelo menos ao modo divino. Todavia, na sua humana imperfeição, comum a todos os seres humanos, surgem actos como o que, de seguida se narra, da mesma Enfermeira-Pára:

«De outra vez, o helicóptero desceu e eu fiquei na orla da mata, não podia sair do helicóptero. Eles entraram pelo mato dentro e o cabo nunca mais aparecia. Decidi então entrar pelo mato e lá os encontrei. Estavam a demorar porque um alferes tinha pisado uma mina, tinha ficado sem a perna e estavam-lhe a fazer um penso compressivo, para que não perdesse sangue. Quando me viram disseram: “A senhora aqui?! A senhora é doida!” Era realmente proibido sair, aquilo estava tudo armadilhado, só não pisei uma mina porque não calhou. Mas devo dizer que nunca senti medo.».23

Medo: o sentimento que os tiranos promovem, a fim de nem sequer terem de combater aqueles a quem querem escravizar. É bom não o ter ou, pelo menos, saber como o controlar, a fim de eliminar com a maior brevidade possível tais tiranos. É aqui que tudo se joga, perceba-se tal ou não.

Para que não se pense que a vida em guerra destas frágeis Senhoras foi apenas um mar de humano sofrimento e miséria, transcrevemos, ainda da mesma Enfermeira-Pára, um caso de sucesso incruento:

«[...] Mas salvei um bebé, uma vez. Entrou um casal dentro do posto de socorros de Bissalanca, aos gritos, com uma criança nos braços. Eu vi aquilo, saquei-lhes a criança dos braços, e levei- a para dentro. A criança vinha em morte aparente. Mandei uma das nossas colegas preparar uma injecção de Solu-Dacortina, enquanto eu lhe fazia respiração boca a boca e massagem cardíaca, sem desistir. Como a criança era de cor, elas não lhe conseguiam apanhar a veia, ainda por cima porque as veias já estavam colapsadas. Mas ao fim de quinze minutos, o bebé já expelia o ar. Continuei e, passado um bocado, a criança começou a rir. Consegui apanhar-lhe uma veia ao pé da sobrancelha, dei-lhe a injecção de Solu-Dacortina e pus-lhe o soro a correr. Entretanto, chegou um dos médicos que me disse: “Maria do Céu, foi uma vitória que teve aqui. Pode ter a certeza que ressuscitou esta criança. Como prémio, vai na ambulância levá-la ao hospital civil, para entrega-la aos pais.” Foi para mim uma felicidade, uma recompensa.».24

Deveras.

Já vai longo este monólogo. Antes do toque de recolher, e evitando o provincianismo lusitano, permitam-me voltar a Churchill:

«Ah, terrível guerra, espantosa mistura de glória e de imundície, de coisas miseráveis e sublimes, se os modernos líderes te conhecessem mais de perto os homens simples dificilmente te voltariam a ver» (palavras inicialmente publicadas no periódico Morning Post).25

Antes do silêncio – que seria bom ser de paz – que tais palavras merecem, outras palavras de um outro oficial estado-unidense, uma jovem Tenente Enfermeira, em acção no teatro de guerra do Vietnam, Linda Van Devanter, em dia de Natal, de 1969 (tradução nossa):

«Na manhã de Natal, saí de serviço e abri, sozinha, todas as minhas encomendas. Senti tanto a vossa falta, embalei-me, chorando, até dormir. Estou a começar a chorar de novo. É ridículo. Parece que, ultimamente, passo o tempo todo a chorar. Odeio este sítio. Estou, agora, no sétimo mês de morte, destruição, e miséria. Estou cansada de ir dormir a ouvir foguetes, morteiros e artilharia, que dispamos e que disparam sobre nós. Estou enojada com ter de enfrentar, todos os dias, um novo monte de crianças desfeitas em pedaços. São apenas miúdos – dezoito, dezanove anos de idade! Mete nojo! Toda uma vida diante deles – cortada. Estou enojada de morte com isto. Tenho de sair daqui. [... um pouco mais à frente] Acabo de ouvir mais um ‘héli’ chegar. É melhor eu ir. Precisam de mim na sala de operações.».26

Este trecho manifesta bem a imbecilidade da guerra, que o mesmo não é dizer a não necessidade de Forças Armadas, desde que estas sejam constituídas por militares cujo serviço consiste em evitar guerras, simplesmente porque essa é a sua missão.

As quarenta e duas Pára-Quedistas Enfermeiras Portuguesas, que são o motivo que aqui nos reúne, incluem-se no grupo dos «simples» seres humanos, Mulheres, que, no meio e do meio de «coisas miseráveis» e de «imundície» – assim a guerra – se ergueram, e ergueram esses a quem ajudaram, ao sublime de quem põe o único real bem que se é, a sua própria vida, ao serviço de semelhante bem alheio.

Nada mais elevado em termos humanos se pode exigir, pois nada de mais humano existe.

A tais Mulheres, como a todos os que deram a sua vida pelo bem dos seus camaradas e, ultimamente, do seu País, devemos um perene apresentar de armas e um eterno toque de despertar, pois, para todos eles, não há toque de finados que se adeque.

Américo Pereira

Novembro 2025

Notas:

1 Estavam presentes as Enfermeiras Paraquedistas Antonieta Antunes Ribeiro, Giselda Antunes Pessoa e Maria de Lourdes Lobão.
2 Tradução nossa, do original, em língua inglesa, CHURCHILL Winston S., The Second World War, 6 vols., Boston, Houghton Mifflin Company, 1985, palavras que surgem como «Moral of the work», em todos os seis volumes, logo a seguir ao frontispício e página técnica.

3 MAIA Fernando Salgueiro, Capitão de Abril. Histórias da guerra do ultramar e do 25 de Abril.

Depoimentos, Lisboa, Editorial Notícias, 1994, p. 47.

4 Falecida a 14 de Setembro de 2025, com noventa anos.
5 Cfr., Susana Torrão, op. cit., p. 134.
6 ANTUNES José Freire, A guerra de África. 1961-1974. Volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 663.
7 SERRA Rosa (coord.), Nós, Enfermeiras Paraquedistas, Porto, Fronteira do Caos Editores, Lda., 2014, p. 25.
8 Ibidem.
9 Ibidem, p. 385. 10 Ibidem, p. 48. 11 Ibidem, p. 50.
12 Ibidem, p. 15.
13 ANTUNES José Freire, A guerra de África. 1961-1974. Volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 664.
14 Ibidem.
15 Ibidem, p. 684.
16 SERRA Rosa (coord.), Nós, Enfermeiras Paraquedistas, Porto, Fronteira do Caos Editores, Lda., 2014, p. 407.
17 ANTUNES José Freire, A guerra de África. 1961-1974. Volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 681.
18 SERRA Rosa (coord.), Nós, Enfermeiras Paraquedistas, Porto, Fronteira do Caos Editores, Lda., 2014, p. 425.
19 Ibidem, p. 247.
20 SERRA Rosa (coord.), Nós, Enfermeiras Paraquedistas, Porto, Fronteira do Caos Editores, Lda., 2014, p. 395.
21 ANTUNES José Freire, A guerra de África. 1961-1974. Volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 675.
22 Ibidem.
23 Ibidem, pp. 675-676.
24 Ibidem, p. 676.
25 SANDYS Celia, Winston Churchill pela sua neta Celia Sandys, trad. por Victor Antunes, Lisboa, Alêtheia Editores, 2006, p. 27; reza do seguinte modo o original em língua inglesa: «.................», in . SANDYS Celia, Winston Churchill..............
26 VAN DEVANTER Linda (with Christopher Morgan), Home before morning. The story of an Army Nurse in Vietnam, New York, Toronto, Beaufort Books, 1983, pp. 174-175.
3 MAIA Fernando Salgueiro, Capitão de Abril. Histórias da guerra do ultramar e do 25 de Abril. Depoimentos, Lisboa, Editorial Notícias, 1994, p. 47.