Pecado original

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domingo, 25 de fevereiro de 2018

A guerra, origem e essência antropológica e ética

Habitualmente, define-se a guerra como algo não apenas de não-político, mas, na transcendentalidade do político, como algo que diz respeito a grandes massas humanas: povos, nações, estados, países.
Aparentemente, salvo o especial relevo de certos heróis combatentes, como, por exemplo, um Alexandre Magno ou um Nuno Álvares Pereira, a guerra ignora o indivíduo humano, a pessoa singular, cuja acção própria como que se perde no seio de uma acção conjunta de grandes números de seres humanos.
Estas características supostamente evidentes não são algo de moderno, como certas reflexões sobre as grandes guerras do século vinte podem fazer parecer, mas encontram-se presentes nos relatos historiográficos que até nós chegaram. O carácter humano maciço em termos de números envolvidos, bem como o carácter institucional das guerras é verificável já em textos tão antigos quanto os relativos à cultura egípcia, por exemplo, nas suas relações com povos vizinhos; o mesmo de diga da própria Bíblia.
É esta a ideia comum que se tem da guerra.
Ora, nada mais errado quanto ao que constitui a essência da guerra, que, se bem que possa envolver grandes massas de seres humanos, não tem necessariamente de o fazer. E não tem de o fazer porque a sua causa não diz respeito às grandes massas humanas, mas ao modo como cada ser humano, cada pessoa, age na relação com o outro humano, com a outra pessoa, com as outras pessoas.
Encontramos, num texto fundador da tradição ocidental, os fundamentos para se compreender melhor o que a guerra é quanto à sua real origem, que é antropológica e ética, mas que se realiza apenas na forma política, isto, é da inter-relação entre os seres humanos. Perceberemos que a guerra entendida no sentido comum não passa de um subconjunto do que é a guerra como realidade humana.
Trata-se do Livro do Génesis, o seu «Capítulo 4», dedicado à relação entre Caim e Abel, os primeiros filhos do primeiro casal, que simboliza a totalidade da realidade humana de sempre.
Aquando da oferta das primeiras primícias a Deus, este preferiu as que Abel apresentou às ofertadas por Caim. Independentemente das razões quer de Deus para preferir os dons de Abel sobre os de Caim quer de Caim para ficar furioso com Deus, que não interessam senão para eventual uso justificativo do que é, em si e por si, injustificável, o que fica é o acto de Caim, que, para se vingar de Deus, matou Abel.
Em termos bíblicos, este é o primeiro acto de guerra da humanidade: é nele e por meio dele que, pela primeira vez, um ser humano atenta contra a vida de um outro ser humano e concretiza tal atentado na forma da morte desse contra o qual atentou.
É este o modelo padrão definitivo do que é o acto de guerra.
Note-se que, hoje, sabemos o que o humano escrevente do Génesis não poderia saber: que o modelo que transmitiu para a narrativa genesíaca configura não o paradigma de acto de guerra para o seu povo, mas para toda a humanidade,
Assim, o paradigma de acto de guerra que encontramos em Génesis 4, não é um modelo ocidental de consideração do que é a essência da guerra, mas um modelo universal, pois é semelhantemente aplicável a todas as culturas e civilizações, precisamente como modelo supremo do que é o acto de incivilização por excelência, o acto de guerra.
Acto de incivilização porquê? Porque a sua transcendentalização, isto é, a sua universalização e necessitação imediatamente aniquilariam a humanidade.
Adianta-se já que o paradigma que, único, pode contrariar esta possível transcendentalização do acto de guerra é precisamente o chamado «mandamento de Cristo» de amor necessário e universal.
Percebemos com muito mais profundidade o que a guerra é através do contraste com isso que é a sua contraditoriedade em acto, o amor. O amor é o acto de bem para com esse a quem se ama, assim lhe permitindo que seja: o amor é criador de possibilidade de vida.
A guerra é o acto que visa a aniquilação de esse a quem se dirige.
Não há terceira forma de acto, pelo que a humanidade vive sempre entre o acto de amor e o acto de guerra, entre actos de amor e actos de guerra; entre actos que promovem o seu ser e bem e actos que procuram aniquilar, de formas várias, o seu bem, o seu ser.
A que se assiste na brevíssima cena narrativa em que Caim mata Abel?
Temos duas figuras singulares, não dois povos, nações, estados ou outras entidades colectivas quaisquer. Abel é morto porque o irmão Caim decide matá-lo e leva essa decisão à prática. Tecnicamente, diz-se que Caim quis matar Abel. É um acto de Caim que se consubstancia na vontade realizante – e só há vontade quando é realizante, caso contrário, estamos no âmbito do desejo, sempre, por si só, ineficaz – de matar o irmão Abel.
Ora, estando no domínio humano da prática enquanto possibilidade e realidade de decisão própria, sempre autónoma enquanto própria – por isto, as eventuais razões que se invoquem não interessam, a pessoa pode sempre decidir contra elas –, estamos no domínio próprio da ética.
A guerra tem, assim, a sua causa nisso que constitui a dimensão propriamente ética da pessoa humana: a guerra é fundamentalmente uma questão ética. Mas como se trata do âmbito ético humano, é, também, uma questão antropológica.
A guerra é, assim, uma acção que tem como origem única o âmbito antropológico e ético.
Tal é fácil de constatar: se não cometermos a insensatez de estender antropicamente o que é próprio e exclusivo dos seres humanos quer projectando-o sobre entidades que se consideram «superiores» quer sobre entidades que se consideram «inferiores», percebemos que a guerra é acção exclusiva da humanidade.
Os deuses não fazem guerra: são os seres humanos que projectam sobre entidades supostamente divinas tais actos; os bichos também não fazem guerra, sofrem é projecções semelhantes, adaptadas, de humana origem.
No versículo 9 do «Capítulo 4», pergunta Deus a Caim pelo irmão, ao que o visado pela pergunta de Deus responde, por sua vez, perguntando a Deus, se ele, Caim, é o guardião do irmão Abel.
Esta passagem não serve apenas como coroamento literário da cena narrada. Aponta precisamente para a antítese do que é o acto de guerra que acabou de ser cometido. Mais interessante se torna por não ser Deus a dizer o fundamental, mas o próprio Caim. Este sabe bem que, em vez de cuidar do irmão, isto é, em vez de o amar, pois o cuidado implica sempre um acto de bem em favor do outro, que coincide exactamente com o que é a definição do acto de amor, o matou.
Repare-se que, na mesmíssima situação contextual, Caim poderia não ter decido matar Abel, até porque a fúria em que estava não se dirigia contra Abel, mas contra Deus. Caim não era suficientemente estúpido para querer matar Deus, algo que sabia ser impossível, tendo optado por ofender Deus matando o seu irmão Abel.
Neste primeiro acto de guerra surge também o primeiro acto de utilização do semelhante humano como arma contra terceiros. Surge a primeira relativização do ser humano a uma coisa na forma de uma arma. Na guerra, a morte é a principal forma de arma contra o inimigo. Ora, a morte de alguém pode ser usada como arma contra um terceiro. Torna-se alguém em inimigo funcional, a fim de matar um outro alvo humano, o inimigo final.
Encontramos, aqui, o termo fundamental: «inimigo». Não há algo como «inimigos naturais», pese embora a estulta expressão surja frequentemente. O inimigo é sempre o ser humano que eu elejo como esse que matarei. Pode ser ao longo de muito tempo, pode ser no imediato do que é o campo de batalha.
Também disto é paradigma o texto do Génesis em apreço: antes de Caim se irar contra Deus, não havia algo como «um campo de batalha»; este surge apenas quando Caim decide matar Abel e passa ao acto. Note-se que a consequência cosmológica é imediata, decretando Deus (versículos 10-12) que a terra, transformada por Caim em campo de batalha, manchada definitivamente pelo sangue do inocente morto pelo primeiro acto de guerra, deixe de dar frutos senão como produto de uma indefinida batalha tipificada pelo duro trabalho da lavoura, que necessita simbolicamente da ferida feita pelos vários tipos de «arados» no seio da terra.
Neste acto de guerra e com este acto de guerra, começa simbolicamente a batalha da humanidade pela sua possibilidade de vida: o primeiro acto de guerra tipifica definitivamente o que vai ser a vida laboriosa da humanidade, num esforço de produção de bens, tantas vezes transformado nessa outra forma de guerra que é a escravatura, forma máxima de todas as formas de alienação do fruto do trabalho relativamente a quem por ele e para ele laborou.
A vida da humanidade fica reduzida a uma comum guerra. O acto de amor vai ser a excepção, pois o paradigma fixado é esse em que o sustento se dá na forma de um arrancar bens a uma terra manchada pelo sangue do inocente.
No entanto, ao ler-se o texto bíblico, não apenas o do Génesis, mas a sua totalidade veterotestamentária, podemos notar que, sendo o ambiente comum sempre marcado pela violência tipificada pelo acto de Caim sobre Abel, no entanto, são os actos de amor que mantêm a humanidade sendo. Exemplos breves: em Sodoma e Gomorra, são os poucos que amam que se salvam: o mais é aniquilado; com Noé e o dilúvio, é o seu esforçado acto de amor que salva os que se salvam; na cena da possível divisão do bebé em disputa perante Salomão, é o amor da Mãe que salva o infante.
Quando se censura o clima de maldade e de violência que constitui grande parte do pano de fundo narrativo do Antigo Testamento e também do Novo, esquece-se que tal é simplesmente fiel à decorrência necessária do acto de Caim, que não deve ser tomado ligeiramente, mas que revela a responsabilidade total do ser humano pelo bem da criação, pois, ao contrário do que a pergunta cínica que Caim faz a Deus indicia, todo o ser humano é guardião do seu irmão, só assim sendo possível haver humanidade: o destino que Sodoma e Gomorra para si determinaram é disso clara prova, simbólica, mas que encerra a grande verdade, segundo a qual, quando não há pessoas que guardem o bem de seus irmãos, não há cidade. O folclore incandescente das chuvas de fogo e enxofre serve apenas para manifestar a importância ética, política e antropológica da acção humana, aos eventuais leitores mais distraídos.
A noção fundamental em causa no acto de guerra é a «violência». O acto de Caim sobre Abel é um acto de violência, pois usa de uma força totalmente desnecessária. Todo o acto da sua morte é desnecessário. Nada o justifica em si. No entanto, tudo o pode justificar, se se desconsiderar o papel de Abel, reduzindo-o, por exemplo, a um instrumento de vingança, como foi o caso.
O acto de guerra é sempre um acto de violência, pois usa de uma força absolutamente desnecessária. Todo o acto que use de uma força desnecessária, seja qual for tal acto, é um acto de violência e, porque a violência, porque é desnecessária, atenta sempre sem razão contra o bem de alguém, é um acto de guerra.
Podemos, agora, ter uma leitura fundamentalmente diferente das relações comuns entre as pessoas: em qualquer relação política – cuja origem é sempre ética –, todo o abuso de força, todo o mau uso da força, para além da necessária – que começa por ter de se saber se a acção, como no caso de Caim, é ela mesma necessária como um todo –, seja por excesso seja por defeito, configura imediatamente violência e é um acto de guerra.
Compreende-se, deste modo, como o modo comum de viver da humanidade é um modo de estado universal de guerra – aliás, incomodamente perceptível para quem não vive da guerra –, em que, pelo menos aparentemente, todos abusam de força para com todos, todos são violentos, todos funcionam segundo um modo de guerra.
Na prática antropológica, ética e política histórica da humanidade, têm, pois, razão, os que dizem que a humanidade vive não apenas «num», mas «um» estado permanente de guerra.
Todavia, é muito mais profundo este estado de guerra do que algo que existe apenas entre povos, culturas, civilizações e outras realidades que não passam de abstracções: é cada um dos componentes humanos pessoais de tais abstracções, que as concretizam prática e pragmaticamente, que existe realmente e que vive em «estado de guerra» permanente.
Tais componentes activos fazem-no, dito de forma tecnicamente mais correcta, praticam-no, são-no, sempre que, em vez de promover o bem do outro, em vez de ser seu «guardião», como Caim deveria ter sido de Abel, amando-o, é seu depredador de bem, aniquilando-o, num só gesto, como Caim a Abel, ou aos poucos, como a generalidade da humanidade à generalidade da humanidade, ser humano a ser humano.
Relembramos que a humanidade vive e apenas vive, sem alternativa, entre os extremos éticos, políticos e antropológicos, do acto de amor e do acto de guerra. Cumpre a cada ser humano, sempre, independentemente de quaisquer contextos, escolher se quer situar-se junto do extremo do acto de guerra ou do extremo do amor.
Como diz Platão bem perto do fim da sus República, a culpa não é «do deus», mas de quem escolhe.

Lisboa, Novembro de 2017

Américo Pereira

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