Pecado original

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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Bioética X - Transplantação e identidade humana

Introdução
A transplantação pode ser vista como um caso particular da procura de substituição de funções próprias do corpo humano através da aplicação de estruturas alternativas, neste caso, de tipo biológico e especificamente humano, seja na auto-transplantação seja na hetero-transplantação.
Deste ponto de vista, um transplante é redutível a uma “prótese” biológica especificamente humana (ou, no caso de transplantação a partir de fontes biológicas não-humanas, humanamente adaptável).
No caso da utilização de estruturas retiradas da própria pessoa a transplantar, não é simplesmente possível suscitar qualquer questão acerca da identidade humana em jogo: todo o material biológico é próprio, pelo que se mantém totalmente a identidade quer no seu sentido individual-pessoal, quer no sentido específico.
Mas, nos casos em que o material biológico é de proveniência terceira (como também nos eventuais casos de intervenções de tipo «biónico» ou aparentados possíveis), o questionamento possível é evidente e imediato e tem de ser respondido.
É patente que o bem maior conseguido por uma transplantação, que não origine qualquer forma de dano quer no próprio transplantado quer em qualquer terceiro, é, assim, inquestionável, desde que os resultados esperados coincidam com isso que fora proposto como finalidade, tendo em consideração que ninguém irá racionalmente propor algo que não implique, quando realizado, um maior bem possível racionalmente esperável para a pessoa em causa.
Se a questão da identidade se põe – ainda que de forma meramente especulativa – com maior acuidade apenas nos casos de eventual transplantação de cabeça-resto do corpo, dada a crença relativa ao papel identificador do encéfalo, no entanto, quer a nível físico-biológico quer a nível do sentido identitário próprio de cada pessoa, a questão pode surgir relativamente a outras formas de transplantação e, surgindo, há que poder ser respondida de uma forma racional.
Do ponto de vista bio-ético, do lado do transplantável, não há qualquer outra questão possível. Do lado da origem do material a transplantar, se houver o respeito pelos critérios técnicos relativos à salvaguarda do direito à vida de eventuais fornecedores[1] terceiros – os critérios, aqui, têm de ser apenas técnicos, pois todos os outros são perigosamente manipuláveis, por causa da sua subjectividade inerente –, também não há qualquer questão bio-ética pertinente.


A identidade biológica
A identidade biológica não pode ser confundida, ao nível do indivíduo, qualquer seja, mormente o indivíduo humano, com a sua definição hereditária própria: a identidade de cada indivíduo biológico – também da pessoa humana, enquanto indivíduo biológico – integra a sua realidade biológica como um todo, que inclui todas as relações que possibilita e que sobre ela se alicerçam com todas as outras realidades que a acompanham, a saber, os diferentes meios propriamente transbiológicos em que se integra, como, por exemplo, a comunidade política na sua vertente não biológica, a movimentação histórica geral, mas também o meio ambiente físico, biológico trans-humano.
Tudo isto, num sistema relacional que assume proporções literalmente imensas, constitui a realidade própria de cada entidade biológica humana; cada um dos seus elementos é inalienável; é da relação dinâmica e cinética constante entre todos eles que ressalta a identidade própria de cada entidade sob o ponto de vista biológico.
Esta não é apartável de isso com que se relaciona e a sua consideração isolada é errónea, fazendo que todo o pensamento que sobre tal erro se construa e todo o movimento de intervenção que o acompanhe sejam, por tal, pervertidos do fim a que se deveriam destinar: o alvo pertinente é simplesmente outro, a tal realidade entitária global individual, que, assim, se falha.
Deste modo, o sentido do que constitui esta identidade biológica é fundamental do ponto de vista bioético, pois depende de uma atitude metodológica que não é mágica ou automática, antes se deve a uma qualquer tomada de decisão, que é sempre eticamente relevante e eticamente fundada (mesmo que a argumentação em que se apoia o não seja).
O modo como se decide encarar isso que é a identidade biológica de algo é eticamente o passo mais relevante que pode haver, pois apenas a partir dele e sobre ele se pode avançar.
Este momento é claramente mais relevante, por exemplo, no caso da definição da identidade biológica de um habitante uterino, mas é significativamente importante em termos da transplantação como momento em que se define se, perante uma determinável e determinada identidade biológica, se avança ou não para uma transplantação.
Estas considerações parecem demasiado afastadas do concreto da realidade e, assim, dispensáveis, mas não o são: percebemos a sua importância quando tudo deixa de correr ética e politicamente bem – isto é, no sentido estrito do bem-comum – e surgem movimentos estranhos, que põem precisamente em causa o sentido do bem-comum e da pertinência da pertença de certos indivíduos humanos ou classes de indivíduos humanos, isto é, de certas formas identitárias biológicas e biologicamente fundáveis, a esse mesmo bem-comum.
Lembremo-nos apenas da relação, a este respeito, de um membro do Ku Klux Klan com um negro, ou de um membro das SS com um judeu. Transplantar tais “entidades”? A resposta seria óbvia.
Mais não necessita de ser dito.

A identidade propriamente humana
Muito do que diz respeito à identidade propriamente humana da pessoa humana ficou já estabelecido no ponto anterior, no que à sua parte propriamente biológica diz respeito, na relação com tudo o que com tal realidade co-existe.
É precisamente no âmbito desta co-existência que o fundamental da definição identitária da pessoa humana se encontra. Se bem que a parte propriamente biológica da pessoa humana seja indispensável para a sua definição identitária – não só não é possível uma identidade humana sem a assunção da sua parte biológica como não é possível a realidade da pessoa humana sem esta mesma parte –, esta não é redutível àquela.
Para além de considerações de tipo estritamente não filosófico, que aqui não são pertinentes, é evidente a necessidade de consideração de tudo o que diz respeito ao desenvolvimento propriamente histórico da mesma pessoa humana. Neste desenvolvimento, o que há de mais importante, como propriamente humano, não é a dimensão biológica, sem mais, mas o que essa dimensão permite, como sua base existencial, que se desenvolva, a partir dela.
O que importa verdadeiramente é a história ou a narrativa semântica desse ser como propriamente pessoa, de que faz parte a dimensão biológica como dimensão ontológica própria e irredutível, mas que não é exclusiva e à qual não se podem reduzir todas as outras.
O que interessa é o sentido que coincide com o que é a sua identidade própria e que coincide com o que é a sua realidade como entidade propriamente humana.
Desta entidade, que é identidade narrativa, lógica, semântica, faz parte a dimensão biológica, com tudo o que esta comporta. Mas não como um fim em si mesmo, antes como um meio de construção dessa mesma entidade e identidade semântica.
Note-se que não há, aqui, qualquer forma de dualismo ou outra partitiva semelhante, antes a necessária assunção de uma unidade dinâmica e cinética, integrada e aberta à novidade, de tudo o que constitui a mesma realidade própria de um determinado ente humano.
Assim, e como é evidente, a integralidade corporal própria é algo que necessariamente tem de integrar uma tal identidade. Não confundir com uma qualquer forma de “normalidade” padrão, estereotípica, em que todos tenham de possuir as mesmas características biológicas. No modo como entendemos esta questão, a «integralidade» a que nos referimos pode ser vista segundo um modelo assim tipificado, mas pode também assumir o tesouro individual próprio de cada pessoa, por exemplo, o modo diferente como nasceu: sem membro tal ou membros tais, com deformidade outra tal, etc.
Quer isto dizer que, desta identidade, deve poder fazer parte todo o tesouro biológico (em seu sentido onto-positivo, isto é, não patológico ou teratológico) com que se nasceu ou com que se espera poder vir a ser complementado, quando não se possui uma constituição biológica padronizada como «normal» e se quer racionalmente poder passar a ter.
É aqui que a transplantologia e a transplantação se tornam pertinentes, como forma de auxílio ao bom cumprimento desta identidade propriamente humana, que passa pela boa realidade biológica, mas nela não se esgota (é por esta razão que faz sentido que se encare a transplantação como um direito, sempre que justificada, e não como um dever ou uma necessidade, salvo casos que tal manifestamente impliquem).
Respeitados os parâmetros acima expostos, não haverá sequer qualquer forma de questão bioética possível.
Assim, e no que à definição e respeito da identidade humana concerne, a transplantação não levanta qualquer problema bioético, a não ser quando se desrespeita a racionalidade que deve informar todos os processos possíveis.
Como princípio universal atinente à boa conduta em tais casos, deve ser aplicado aquele que dispõe que, em qualquer caso em que a identidade humana seja posta em causa, deve haver abstinência de procedimento de transplantação.
No limite, e retirado o exemplo do âmbito narrativo dos mitos modernos, a identidade humana pode ser afectada ao modo da produção monstruosa de uma realização frankensteineana, que pode ser vista como um conjunto disjunto e de impossível identidade própria de transplantes, mas sem sujeito transplantável.
No limite, é o ser humano que se arrisca a desaparecer como tal, se não for respeitada a sua identidade própria específica e individual-pessoal.

A transplantação como questão ética
Como é possível perceber, após a leitura dos pontos anteriores, a transplantação só suscitará questões éticas se não se respeitarem os preceitos relativos quer ao bem próprio do sujeito transplantável quer de eventuais terceiros, nomeada e especialmente os chamados «dadores», mais precisamente fornecedores de material a transplantar. Os preceitos relevam do necessário cuidado com o bem do sujeito transplantável e de outros sujeitos (todos os que estejam abrangidos).
Quanto ao sujeito transplantável, tendo em conta todos os preceitos gerais a ter em consideração em termos de intervenção em âmbito sanitário, o que importa fundamentalmente é a salvaguarda da sua identidade própria, sem o que se anula o que é propriamente humano num ser humano.
Quanto aos fornecedores de material biológico transplantável, estão em causa os mesmíssimos preceitos, sendo de relevar a necessidade de nunca se prejudicar tais sujeitos, sobretudo no que diz respeito quer ao absoluto da sua vida quer à sua mesma identidade própria.
No fundo, como, aliás, em todo o âmbito reflexivo e interventivo da bioética, cumpridos os preceitos relativos ao necessário bem-comum, que inclui sempre e necessariamente o bem próprio de todos os seres humanos interessados, não há ocasião para qualquer problema ético. Estes surgem porque não é tido em consideração exclusiva o bem-comum, mas, muitas vezes, outras formas de bens, que não respeitam o bem-comum, bem de todos.

Fevereiro de 2018
Américo Pereira



[1] Usamos o termo «fornecedor» e não o termo habitual «dador», porque este último está errado sempre que não se trata de um movimento voluntário, tópico e topicamente expresso por parte de quem, assim sim, «dá» o bem a transplantar. Mesmo uma expressão genérica vaga ou, pior, uma não expressão de oposição ao fornecimento do bem transplantável, não pode ser vista como uma «dádiva», sob pena de ruína completa do que é o sentido próprio dos termos, significando estes equivocamente “qualquer coisa”, mais ou menos a capricho, mais ou menos racionalmente, o que quer dizer imediatamente que não significam coisa alguma, pois não se lhes pode atribuir um significado próprio inequívoco e, sem este, não é possível haver qualquer forma de designação de, propriamente, realidade.

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