Engenharia genética[1]
O domínio teórico e
técnico sobre a matricialidade física daquilo que se denomina «código genético»
permite, como se passa em qualquer âmbito em que se obtenha um tipo de domínio
semelhante, que se utilize a possibilidade
de jogo combinatório, que tal domínio põe ao alcance de quem o possui, de
um modo realmente irrestrito: qualquer restrição só diz
respeito a uma eventual e situada no tempo incapacidade logística ou a uma
voluntária tomada de posição ética a tal contraditória.
Assim, à semelhança do
que ocorre, por exemplo, com o domínio da linguagem computacional, sentido
lato, é possível utilizar a linguagem
genética de qualquer forma.
Esta utilização, este infinito e irrestrito jogo combinatório
possível, quando aplicado à realidade concreta da vida ao nível genético e
seus decorrentes biológicos imediatos ou mediatos, recebe o nome de «engenharia
genética».[2]
Deste modo, e para o que
aqui de fundamental nos interessa, toda a engenharia genética, como tal, é um
modo, em si mesmo, amoral de lidar com a vida na sua mais profunda radicalidade
essencial e substancial, aí onde a matriz física e biológica de toda a vida não
apenas real, mas, sobretudo, possível se situa.
O que esta forma cultural
– dado que esta engenharia genética é produto do labor humano, logo
propriamente «cultural» – permite ao ser humano é assumir, paralelamente à
mesma natureza, não apenas biológica, mas universal, um papel ontomorfogénico, que lhe permite, deste modo, não apenas modificar o natural fluxo da chamada
evolução natural, tornando-a imediatamente uma evolução não-natural (como
sucedia aquando do uso de técnicas de escolha artificial ao nível fenotípico –
por exemplo, na criação de certos tipos de gado –, por oposição às naturais),
através da rejeição de certas formas de vida realmente manifestada em favor de
outras, mas também interferir imediatamente na formação interior, biológica –
isto é, ao nível genotípico –, da própria vida não realmente manifesta através
da manipulação da sua matriz genética.
Enquanto, durante muitas
gerações, foi possível ao ser humano interferir nas séries de sucessão
biológica por meio da simples observação externa de frutos de gerações
presentes, favorecendo reprodutivamente umas em desfavor de outras, mas sem
poder alterar imediatamente isso que fazia com que fossem assim e não de outro
modo, pode agora interferir imediatamente, alterando
a mesma forma interna que determina o que biologicamente tal futuro possível
ente pode ser.
Esta possibilidade de interferência directa é infinita.
Assim como não há
qualquer limite possível assinalável para a combinatória de «uns» e «zeros» nos
códigos binários básicos da linguagem informática computacional ou de letras no
nosso comum alfabeto, assim também não há para os análogos constituintes do ADN
ou do ARN.
Repetimos e vincamos,
dada a importância da afirmação: não há
qualquer limite material assinalável para a combinatória – e
“recombinatória” – genética. A haver
um qualquer limite, este tem de ser de outra ordem, e só pode ser, humanamente,
de ordem ética.
Está, assim, aberta a porta para que se possa experimentar
toda a sorte de movimentos em termos de recomposição genética: no melhor dos cenários, resultará
um paraíso, obra dos humanamente benévolos, que podem experimentar todas as
hipóteses possíveis tendentes ao bem-comum; no pior dos casos, resultará um
inferno produzido pelos humanamente malévolos, que podem experimentar sem
qualquer freio. Se os primeiros são bem-vindos, os outros, depois de tudo o que
já aconteceu em termos de perversidade teratológica vária ao longo da história
da humanidade, especialmente nos séculos mais próximos, os segundos são
particularmente ameaçadores e indesejáveis.
E é propriamente a
teratologia – mais propriamente, a teratogonia,
a geração de monstros – que aqui está em causa. Esta teratogonia impõe-se como
perigo fundamental do uso indiscriminado da engenharia genética não apenas ao
nível estrito da genética humana, mas ao nível universalmente amplo da
genética, sem mais.
Politicamente, em termos
hodiernos, é mesmo muito mais perigosa a facilidade com que se pode trabalhar,
por exemplo, no desenvolvimento de estirpes virais (ou outras) capazes de, em
pouco tempo, eliminar toda uma espécie (nomeadamente a própria espécie humana),
pois tal trabalho pode passar mais facilmente despercebido do que um trabalho
feito imediatamente sobre uma amostra humana.
Os medos, que há algum
tempo pareciam racionalmente infundados, surgidos na comunidade humana e que
podemos tipificar na quimera frankensteineana – ainda fenotípica, isto é,
operada ao nível de uma materialidade relativamente bruta quando comparada com
aquela de nível genético –, que surgiram imageticamente retratados em muitos
filmes, que depois, passaram a tomar como modelo já a forma genética, são
hodiernamente totalmente relevantes: é mesmo possível, pelo menos, tentar
certas combinações genéticas teratológicas. Perguntamo-nos se, sendo tal
possível, até que ponto tal tem sido realizado. Seria muito ingénuo pensar que
tais experimentações não ocorrem, só porque podem suscitar «problemas éticos».
As bestas humanas definem-se precisamente pela ausência de princípios éticos.
Nunca, em toda a história
conhecida da humanidade, houve qualquer forma de abstenção de movimento num
qualquer sentido eventualmente perverso apenas porque tal movimento poderia
suscitar «problemas éticos».
A fonte própria de toda a
dramaticidade e da eventual tragicidade que aquela consigo acarreta reside
precisamente no desfasamento ontológico entre o que é o absoluto da
possibilidade, sem mais, e o absoluto da possibilidade de realização de um bem
maior (maior do que aquele que o movimento perverso realiza).
O ser humano sempre foi capaz e continua sendo de escolher um
bem menor, mesmo perante a evidência da possibilidade de um bem maior.
Assim, o panorama de
absoluto de possibilidade ao dispor da engenharia genética é incomensurável com
isso que será a eventual realização de um maior bem possível em termos de
bem-comum.
Os seres humanos que
dispõem do poder conferido pela engenharia genética podem sempre escolher
contrariar o bem-comum e avançar num sentido que, dado o poder onto-biológico
de que são possuidores, em última análise, pode significar o fim da própria
vida, não apenas a humana, mas toda, sem qualquer excepção.
Um agente bio-suicidário
universal não só não é impensável, como é eventualmente realizável. Mas mais
facilmente realizável são formas genéticas que permitam formas de vida
escravizáveis – entes biológicos humanos ou outros, capazes de desempenhar
funções desagradáveis, e aos quais tenha sido retirada toda a capacidade
crítica; formas biológicas de produção de alimentos monstruosas, em que apenas
as partes industrialmente necessárias sejam desenvolvidas; armas biológicas
destinadas a destruir especificamente certas outras formas biológicas, poupando
as restantes; etc..., sendo este possível campo de acção virtualmente
infinitizável.
É claro que toda esta
possibilidade de realização de novidade onto-bio-génica pode ser também –
dir-se-á, “deveria ser apenas” – usada para a concretização de bens
biologicamente úteis quer em termos humanos quer em termos trans-humanos.
Tal é inegável. Mas há
que perceber que esta utilização pode hibridar-se processualmente com a
anterior e encontrarmo-nos a produzir bens por meio de engenharia genética que
servem boas finalidades, mas que se servem de meios também eles perversos: que
tal produzir um ser humano completo apenas para lhe retirar «umas peças»
aplicáveis a um seu semelhante biogenético? Ou produzir “apenas” uma parte
biológica com a mesma finalidade?
É também claro que a
engenharia genética pode permitir uma intervenção imediata ao nível da própria
constituição defeituosa em termos de património genético próprio de um ser
vivo, mormente humano. Se for possível, por meio da engenharia genética, operar
transformações genéticas que beneficiem um determinado ser sem com isso e por
isso prejudicar um outro, especialmente no que aos seres humanos diz respeito,
em sua mútua relação política, tal será um bem inquestionável e, assim sendo,
pela sua mesma constituição, não chega sequer a suscitar qualquer problema
ético.
Uma tal intervenção pode
ser comparada a uma intervenção de saúde comum, estando como tal, coberta por
toda uma tradição de «bem-fazer», que constitui talvez o grande momento civilizacional
da humanidade. Não será distinta de uma qualquer outra intervenção clássica no
sentido da salvaguarda do bem biológico de um ser, mormente humano. Aqui, a
bioética não tem que se preocupar.
A preocupação, fortíssima
e inegociável, da bioética deve, assim, fazer-se sentir com toda a clareza, ao
nível das possíveis perversões – já vimos que são infinitizáveis – da
utilização da engenharia genética como instrumento de poder, ao serviço não do
bem-comum, mas do interesse de tiranos ou de oligarquias ou mesmo de maiorias,
todos passíveis de ser indiferentes à vida como bem universal e precioso em
cada vivente. Aí, a bioética – isto é, os seus cultores – deve ser inequívoca
na denúncia do que não está bem e impiedosa na sua emenda, pois o bem que está
em jogo é o mais precioso que podemos pensar, quer dizer, a mesma
insubstituível vida, em toda a sua grandeza.
Clonagem
Os processos de clonagem
são biologicamente muito antigos e correspondem a formas de reprodução em que
apenas se dá uma separação auto-recopiante
do material genético, de onde resulta – teoricamente e apenas teoricamente – a exacta
e precisa replicação total do material genético anterior.
Assim, as novas gerações,
novas do ponto de vista fenotípico, recebem uma herança genética que é – teoricamente – igual à das gerações
anteriores, passando, se o processo se mantiver inalterado, a mesmíssima
composição genética às gerações futuras. O sublinhado do termo «teoricamente»
deve-se a não ser possível saber se, em cada caso real, há ou não uma qualquer
modificação mecânica acidental.
Apenas uma tal
modificação, de etiologia vária, interna ou externa, pode fazer que haja uma
alteração na herança genética. Nisto, o processo de tipo clonagem está
abrangido pelas mesmas condições que regem qualquer outro, nomeadamente aquele
em que há troca recombinatória de património genético com outros dadores.
O que não há na
reprodução de tipo clonagem é a possibilidade de variação combinatória genética
que pode haver onde há influxo de material proveniente de outros seres
biológicos (em princípio, para o aqui nos interessa, da mesma espécie).
A clonagem, ao nível
genético, é um simples processo de cópia
lógica de informação, que permite a perpetuação de um genótipo biológico de
sucesso, pois o fenótipo a que dá origem ainda se mantém presente no seio do
domínio biológico: se não fosse bem sucedido, já teria sido eliminado, segundo
os critérios evolucionistas comuns, que aqui não discutimos.
A grande bondade
biológica deste sistema de replicação teoricamente igual reside precisamente na
cópia virtualmente indefinida de um genoma bem sucedido, enquanto houver
fenótipos que o possam fazer, isto é, enquanto for bem sucedido. É uma maneira
muito económica de uma determinada forma de vida se perpetuar.
Mas tem como maior
inconveniente ser incapaz de recombinatória introdutora de novidade, sem ser
através de um processo mutacional, que pode até modificar a espécie,
sobrevivendo, assim, parte do genótipo, mas alterando o fenótipo de tal modo
que elimina a espécie anterior.
A capacidade de
reprodução de um património genético igual é útil à espécie enquanto duram as
condições que a favorecem, mas pode levar à aniquilação de tal património se as
condições se alterarem desfavoravelmente. O modelo recombinatório não clonante
permite o aparecimento de versões de uma mesma espécie capazes de, dentro do
mesmo património genético, se conciliarem com tais novas condições não
favoráveis a certas versões mais antigas e indiferenciadas.
Relativamente à evolução
imprevisível do biótopo (em que o biótipo genético se insere), quanto maior for
a capacidade de conciliação fenotípica, dada pela capacidade de conciliação
genotípica, tanto mais capacidade de sobrevivência há. E a sobrevivência é o
absoluto biológico mais importante, pois, sem ela, simplesmente não há
possibilidade de continuidade da vida.
Se bem que os clones de
uma geração qualquer n+1 sejam
teoricamente iguais aos de uma qualquer geração n ou mesmo de uma qualquer geração n-1 ou n-x, tal não
significa que os entes assim gerados sejam iguais: eles são sempre semelhantes,
essa semelhança tem a sua origem imediata na igualdade teórica do património
genético obtido por clonagem, mas fenotipicamente, no seu pormenor próprio, são diferentes e distintos.
Materialmente, a matéria que constitui A não é a mesma que constitui B, ou
seriam materialmente o mesmo. Mas os seus movimentos próprios, sentido lato,
também não são os mesmos ou redutíveis a um mesmo movimento indiferenciado,
confuso.
Eles são entes
diferentes, com histórias diferentes, com realidades diferentes: não é possível
haver dois seres materiais iguais, sem que sejam o mesmo e apenas um.
Assim, e passando para a
clonagem humana, que mais não é do que um caso especial, artificial, deste
processo – se bem que os gémeos chamados de «idênticos» possam ser vistos como
clones de um mesmo património genético comum, mas não é isto que aqui nos
interessa –, convém começar por dizer que nunca produzirá seres iguais ou
poderá produzir o mesmo ser numa cópia futura, mas pode apenas produzir versões geneticamente idênticas – teoricamente
«iguais», com as restrições apontadas – e fenotipicamente semelhantes, mas
entitariamente diferentes de um ser humano.
Como é evidente, já nos
casos de gémeos idênticos separados geográfica e culturalmente, nunca se obtém
duas pessoas iguais, podendo mesmo obter-se duas pessoas fenotipicamente
semelhantes, mas historicamente diferentes ou mesmo, dependendo da influência
do modo cultural como se viveu, duas pessoas com fenótipos já não tão
semelhantes quanto se poderia acriticamente esperar.[3]
Assim, a “grande questão”
da replicação pessoal através da clonagem não chega sequer a ser questão
alguma.
Mas a clonagem suscita
necessariamente questões.
Imediatamente, a questão
da diminuição da variabilidade, com as implicações de perigosidade específica
que tal implica. Depois, politicamente, é possível procurar usar a clonagem
como forma de replicar ao infinito certas formas de seres – humanos, mas, claramente,
não só – que permitam a quem os domine um exercício qualquer de formas de poder
de tipo tirânico ou oligárquico (a mesma questão surge ao nível de
possibilidades biónicas ou de robotização). No limite, que não é impossível,
podemos pensar um Rei Midas da clonagem que impere sobre um mundo em que já só
haja um tipo genotípico e fenotípico humano, obtido por clonagem, para
satisfação de tal senhor.
A clonagem significa,
assim, a impossibilidade da diferenciação genotípica humana, com tudo o que tal
implica. A monotematização que tal implica significaria, segundo as mesmas
regras evolucionistas, a morte anunciada de tal espécie genotipicamente
monotemática.
Mas, no que diz respeito
às questões nosológicas, não haverá um uso possivelmente útil da clonagem? Por
exemplo, no tratamento de certas doenças ou mal-formações, que possam ser
contrariadas através da produção de tecidos obtidos através de clonagem de
organismos, integralmente ou parcialmente?
A resposta
mecânico-materialista é: sim.
Resta saber o que é que
se vai reproduzir assim. Será que se vai querer reproduzir uma pessoa, isto é,
criar por clonagem uma nova pessoa biológica para, de seguida, lhe retirar uma
parte para integrar no seu originador biológico, sacrificando-a neste processo?
Mas, se a resposta for
positiva, em que é que um tal processo se distingue fundamentalmente das
experiências que o Dr. Mengele realizou em Auschwitz?
Se material e
biologicamente todas as barreiras físicas a estes tipos de experimentação estão
a cair e irão cair futuramente, há que recentrar a atenção não na materialidade
estrita das coisas a manipular, mas no sentido ético e político, segundo uma
perspectiva de bem-comum, que não pode, de modo algum, pôr em causa o bem
pessoal, dos movimentos que operamos, a todos os níveis. O nível biológico não
só não é isentável desta nova atenção, como é um seu alvo fundamental, pois diz
respeito e interessa o que de mais profundo existe em nós, a nossa mesma vida,
de que a dimensão biológica é essencial e substancial parte.
Fevereiro de 2018
[1]
Para uma visão técnica muito bem informada, remetemos para a entrada, da
autoria de Angelo Serra, «Engenharia Genética», in Enciclopédia interdisciplinar de ciência e fé. Cultura científica,
Filosofia e Teologia, Lisboa, Editorial Verbo, 2008, pp. 678-691 (tradução
de Artur Morão). A perspectiva que aqui propomos é diferente.
[2]
Sobre a sua origem histórica consultar texto indicado na nota 1.
[3]
Por exemplo, dois gémeos idênticos, um criado numa família abastada de um país
rico, outra criada num país sem recursos alimentares suficientes: esta última,
mesmo que sobreviva, não vai dispor dos elementos físicos necessários para o
seu desenvolvimento biológico; no fim, um dos gémeos pode atingir um tamanho
físico plenamente desenvolvido, ao passo que o outro pode ficar com um tamanho
necessariamente muito menor. Fenotipicamente serão muito diferentes.
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