Introdução
As questões relativas à
genética não são recentes, recente é a importância conscientemente atribuída a
estas questões, nomeadamente no que diz respeito às eventuais repercussões sobre
não apenas a vida e a saúde dos seres humanos hodiernamente presentes, mas
sobre a mesma realidade humana, no que concerne a possíveis alterações da
essência e substância humanas, produzidas a partir da já muito fácil manipulação
genética.
Se bem que certos avanços
científicos em âmbito da genética sejam positivamente promissores, no que toca
à reformulação de mal-formações congénitas, de perdas a nível de membros ou
outros elementos físicos, do tratamento de índole genética de várias doenças e
prevenção de outras, o fantasma do uso abusivo, anti-humano, da mesma genética
– não nos devemos esquecer dos pérfidos sonhos nazis, realização de um mundo
frankensteineano por vias biológicas artificiosas, nomeadamente genéticas – com
finalidades eugénicas, sentido lato, permanece e não é possível ignorar o
potencial eventualmente destrutivo do que é propriamente humano que, não a
genética enquanto constituinte onto-biológico dos seres vivos, mormente os
seres humanos, mas o conhecimento genético encerra.
Genética
O sentido genético ligado
a uma dimensão onto-natural dos seres vivos é muito antigo, possivelmente tão
antigo quanto o sentido da sucessão imediata que se manifesta pelo eclodir de
uma nova vida humana, diferente e irredutível, a partir do ventre materno,
acontecimento tão antigo, por definição, quanto a mesma humanidade.
O sentido da
hereditariedade, isto é, da herança ontológica, está indissoluvelmente ligado
ao sentido da imediata sucessão materna. O mesmo já não se pode dizer da
paternidade, cuja ligação foi, durante muito, tempo, muito mais do âmbito da
crença na palavra da mulher do que relevante de uma qualquer prova biológica
insofismável, como hodiernamente é aquela que se obtém através da análise do
ADN.
Por outro lado, esta
mesma sucessão imediata entre a fêmea da espécie animal – sobretudo nos
mamíferos – e a sua progénie podia ser observada em muitos outros casos de
seres vivos não humanos. A hereditariedade surge, assim, como isso que faz que
haja uma necessária ligação onto-biológica entre a progenitora – mãe, no caso
humano – e a sua progénie. O que esta progénie possui depende asseguradamente
da progenitora que a albergou em seu ventre – ou análogo, segundo a espécie –
durante o período necessário para que pudesse estar pronta a nova geração, na
forma de um novo ente singular, para emergir para o mundo não uterino – ou
outro análogo – de forma a ser um novo e possivelmente viável ente do mesmo
tipo, da mesma espécie. No que diz respeito à humanidade, a contribuição de
outro qualquer ser para lá da mulher chegou mesmo a ser posta em causa em
certas culturas.
No entanto, estas formas
extremas de entender a herança biológica são marginais, sendo que, na
esmagadora maioria das culturas conhecidas, há a noção, sempre vária, da
necessária contribuição dos dois progenitores, feminino e masculino, para o
surgimento de um novo ser da espécie em causa, mormente na humana.[1]
Assim, a noção básica de
herança biológica implica a presença, de algum modo, de contribuições
biológicas maternas e paternas.[2]
Mesmo sem qualquer forma de ciência genética formal, sabe-se que há uma
passagem de modelos de caracteres de uma geração anterior para a posterior que
dela biologicamente depende.[3]
Ética e politicamente, o ser humano da geração X sente-se biologicamente
prolongado, através desta mesma herança física, na geração X+1, que sabe que
tem a sua origem biológica em si.
É esta dimensão
onto-físico-biológica que permite a fundação de uma manifestação política da
continuidade hereditária: na afirmação, «este é o meu descendente», está dada
toda a importância da relação genética que permite alicerçar toda uma estrutura
política baseada na mesma transmissão biológica de algo de fundamental dos pais
à sua descendência.
Como sabemos, a
manifestação política de tal relação assumiu, ao longo dos tempos e através dos
espaços históricos, muitas formas diferenciadas. No entanto, todas elas,
matrilineares ou patrilineares, serviram e servem sempre para manifestar e
justificar uma passagem ultrageracional dinâmica de características biológicas
– e ontológicas, na sua dimensão biológica – ao longo de vectores temporais.
A hereditariedade,
considerada nesta perspectiva, é o mais importante elemento anti-entrópico que
se conhece: estabelece a luta contra a entropia, não ao nível do acontecimento
singular – sempre necessariamente e inapelavelmente entrópico – ou do dinamismo
e cinética de um só indivíduo isolado – a entropia, aqui, vence imediatamente
–, mas ao nível da espécie, isto é,
de um vector bio-ontológico que explora a capacidade de transmissão
extra-individual sucessiva como forma, não de anular a entropia, mas de a
contornar, através da perpetuação do que é próprio desta linhagem como literal
forma própria, no que é algo como a substancialização biológica de uma essência
trans-individual, tornada real na sua permanência, através precisamente do
procedimento vectorial da hereditariedade. Conhecemos esta entidade dinâmica e
cinética como «espécie».
A hereditariedade, surge,
assim, como a grande forma de que o nível biológico da realidade possui para
lutar contra a inexorabilidade da entropia. Este movimento hereditário, no que
constitui o seu precário triunfo, confunde-se com a mesma ordem: se,
estranhamente, houvesse um qualquer estado de ordem do universo que não pudesse
ser comunicado, com o seu desaparecimento, desapareceria toda a ordem. Assim se
passa com a vida. Nesta, a hereditariedade permite conservar parte da ordem
presente num determinado momento, transmitindo essa mesma parte a uma nova
geração. Enquanto tal possibilidade continuar e for realizada, a entropia não
tem o seu triunfo total.
Percebe-se, assim, melhor
o papel político da intuição da hereditariedade e das noções que foi permitindo
constituir ao longo das diferentes culturas: ela é o garante, frágil, mas real
enquanto é, da sobrevivência de uma determinada ordem, precisamente aquela que
me ergue, a mim e a todos os que fazemos parte de uma mesma forma de ordem,
literalmente vital porque é a ordem que sabemos que permite ser como somos, isto
é, biologicamente: a prova é que, precisamente, somos, somos mesmo, e o devemos
à ordem que nos faz ser.
Esta constatação da
ligação profundíssima entre a ordem e a possibilidade da existência, em seu
sentido absoluto – e, na realidade, não há, aqui, qualquer forma de relativismo
possível, o que significaria a vitória da desordem (bio-fisicamente, da
entropia) – é também o alicerce de todas as formas de etnocentrismo, pois a ordem que me ergue é garantida – ou não me
ergueria –, ao passo que as possíveis ordens que erguem os outros podem ser boas
pare eles, mas podem não o ser para mim,
pelo que não há que haver mistura entre elas, uma vez que tal poderia
significar uma forma de anulação de uma delas em favor da outra, mormente da
minha em favor da alheia.
Esta forma de pensar, teoricamente
compreensível a partir deste ponto de vista, implica formas de extrema
violência sempre que possa haver ameaça de uma forma de ordem sobre a outra,
pois o que se percebe é que a nossa forma de ordenação, que permite a nossa
vida e existência, pode estar prestes a desaparecer e nós com ela.
O que garante a
sobrevivência desta forma de ordenação é a herança biológica, que permite que
as gerações futuras herdem isso que ordenadamente me ergue como ser vivo, o que
permite, por sua vez, que haja a possibilidade de, sobre isso, elaborar todo um
trabalho cultural complementar.[4]
É óbvio que é também
sobre bases deste tipo de sentido hereditário, em que a herança biológica se
confunde com a herança da possibilidade ontológica, transportada pela ordem que
é vectorializada pela herança biológica, que os proponentes de teorias chamadas
de raciais, como a de tipo nazi, se fundam.
Todo o etnocentrismo, de
que estas teorias são parte, se baseia não apenas na realidade da transmissão
hereditária biológica, mas também sobre o postulado de que há boas e más
heranças a transmitir, sendo que as boas devem ser estimuladas e as más anuladas.
Neste ambiente cultural,
a operação deve ser realizada ao nível mais profundo possível, em termos desta
herança, que é o nível biológico. Assim, todos os passos devem ser dados de
modo a impedir a transmissão de tais heranças ditas más: começando por impedir
relações sexuais que possam permitir essa transmissão, acabando por eliminar fisicamente todo o tesouro
biológico passível de ser transmitido, o que só pode ser conseguido através
da eliminação física de tal riqueza, isto é, através da eliminação física dos
seus repositórios biológicos, as mesmas pessoas que os incorporam.
No núcleo operativo da
matança genocida perpetrada pelos nazis e seus cúmplices, encontramos um motivo
e um motor técnico-biológico. A própria operacionalização da matança foi
implementada como mero procedimento de tipo higiénico, não estando os matadores
a fazer mais do que a proceder a uma necessária higienização do património
genético existente, de onde deveria desaparecer toda a poluição constituída
pelos dados hereditários não arianos. A ideia presente no Mein Kampf, de Hitler, consistia num progresso de tal medida, até
que o universo ficasse reduzido a uma pura herança ariana.
Toda a decorrência
bioética surgida neste e deste programa de sanitarização biológica genocida
deriva da necessidade que Hitler sentiu de anular todo o património genético
não-ariano. Todos os movimentos que se enquadrem imediata ou mediatamente neste
paradigma teleológico ou operacional suscitam as mesmas questões éticas e
propriamente bioéticas.
O domínio sobre a genética humana permite o domínio sobre
tudo o que pode ser transmitido como possível património humano futuro.
Se é verdade que a
genética é o meio disponível de luta contra a entropia que ameaça a mesma
espécie humana, então, tudo o que disser respeito a este possível domínio é o
que de mais importante há para a sobrevivência da mesma espécie humana. Há já
muito tempo que muitas pessoas perceberam tal, algumas das quais não possuem as
melhores intenções.
Os três grandes momentos da genética moderna
Podemos situar o primeiro
grande momento da genética moderna no discreto desenvolvimento dos trabalhos,
pioneiros e definitivos no seu âmbito, do Frade Mendel. Este estudou a genética
relativa à transmissão de caracteres simples, como o aparecimento de grãos de
ervilha rugosos ou lisos por cruzamento de progenitores cuidadosamente seleccionados.
Ao longo de várias
colheitas – gerações – de ervilhas, num ensaio que controlou de forma perfeita,
Mendel foi capaz de intuir qual o modelo de transmissão de tais caracteres e a
realidade dinâmica profunda que presidia à manifestação maioritária de um dos
tipos de casca relativamente ao outro: por exemplo, a partir de uma determinada
geração, o número de ervilhas com casca lisa era três vezes superior ao número
de ervilhas de casca rugosa.
Mendel foi, assim, com o
exercício de cruzamentos totalmente controlados quantitativa e
qualitativamente, capaz de perceber qual o tipo de contribuição dos progenitores,
em que capacidade genética e com que peso relativo no que dizia respeito aos
caracteres manifestados.
Foi com o trabalho de
Mendel, só conhecido muito depois de ter sido realizado, que foi possível
passar a saber sem margem para dúvida – depois de outros terem confirmado as
descobertas – que, neste tipo de reprodução, a hereditariedade dependia dos
dois progenitores, sendo a contribuição de ambos necessária, mas revelando-se
os caracteres de forma diferenciada, conforme a sucessão das gerações, havendo
a possibilidade, muito comum, de existir caracteres dominantes e recessivos. A
combinatória possível dependia não apenas do jogo puramente matemático
decorrente das sucessivas dualidades numéricas presentes em cada novo
cruzamento, mas também da qualidade dominante ou recessiva dos elementos
biológicos presentes.
Esta genética, se bem que
de uma lógica irrepreensível, era apenas de tipo fenoménico, isto é, lidava
apenas com as manifestações exteriores – fenotípicas – de algo biológico
interior muito mais profundo, o genótipo, que havia que descobrir.
O segundo grande momento
deveria, assim, dizer respeito a algo que correspondesse à interiorização bio-material
dos agentes responsáveis pelo jogo da herança biológica.
À descoberta de Mendel,
sucedeu-se um grande conjunto de investigações e descobertas relativas ao que,
em cada célula, permite quer a acumulação da informação necessária para a
formação dessa mesma célula quer a possibilidade de essa célula dar origem a
outras que prolonguem a já discutida luta vital contra a entropia.
Descobriu-se que, na
estrutura da célula, há sub-estruturas responsáveis pela acumulação de
informação e também pela sua comunicação, na forma de replicação o mais
perfeita possível dessa mesma estrutura informacional.
São estas estruturas,
normalmente de ADN, que compilam a informação necessária para a existência da
vida biológica e para a sua propagação em novos seres vivos.
A combinatória que Mendel
observou e fixou deve-se ao jogo de replicação destas estruturas, aos seus
acertos de tipo mecânico – que produzem novos seres informacionalmente
semelhantes aos de onde provêm –, mas também aos desacertos que, porque a
entropia é uma realidade universal, sempre sobrevêm em qualquer processo
mecânico: a estes, neste âmbito, chamamos «mutações». Estas desempenham um
papel fundamental, segundo a teoria da evolução natural, porque é através delas
que é possível haver diferenciação ontológica por via biológica.
Como ponto culminante
deste processo de interiorização biológica da genética, encontramos o modelo
físico-químico da dupla hélice do ADN, que se deve a Watson e Crick. Neste
modelo, encontramos a definitiva resposta formal à questão de como é que se
constitui quer o alfabeto informacional da genética quer a sua sintaxe. Num
esquema muito simples, em grande parte análogo ao sistema binário usado na
linguagem computacional, a genética depende de um reduzido número de bases informacionais,
que só se podem ligar a outras pré-ordenadas, e cuja sequência, como na
ordenação informática, permite um infinito número de combinações de dados,
neste caso biológicos, os necessários para produzir tal ou tal tipo de
organismo.
Este avanço, depois de
confirmada a sua presa na realidade biológica, permitiu perceber que há uma
forma humanamente passível de dominar esta linguagem e, com este domínio,
dominar o modo biológico de produzir a ordem conducente às diferentes formas de
vida. Mas tal abre também para a possibilidade de interferir de qualquer modo sobre a mesma base estrutural produtora
da vida.
Esta abertura não possui
qualquer limite que não seja técnico ou ético. As técnicas, como sabemos,
desenvolvem-se à medida que vão sendo precisas, sem qualquer dependência
necessária de um sentido de bem-comum, pelo que a única barreira que pode
existir a uma possível manipulação monstruosa da genética é apenas de ordem ética, mais propriamente bioética. Compete à bioética uma
vigilância estrita neste âmbito, passível de gerar inumeráveis Doutores
Mengele.
O terceiro e último
momento é muito recente e acrescenta possibilidades extremas quer ao potencial
de bem-fazer da genética e suas decorrências quer ao potencial de prática do
mal. Trata-se da codificação humana do chamado «código genético»[5]
humano.
Esta codificação permite
o acesso à constituição física da hereditariedade humana. Mas permite mais:
como o que se possui é mesmo um código humanamente entendível e manipulável
como outro código qualquer, há a possibilidade, como com qualquer outro código,
de jogar com os elementos nele presentes, sem qualquer preocupação de coerência
com o que é propriamente humano nesse código, na relação com a parte física que
representa.
Assim, posso pegar na
parte do código que corresponde a, por exemplo, «mão» e experimentar mudar a
colocação da mão do «sítio habitual» para um outro sítio qualquer. Por que não,
se, agora, tal é possível?
Basta este exemplo para
marcar qual a possibilidade de malfeitoria que o domínio da realidade da
hereditariedade como código implica. Por outro lado, tal domínio, se usado para
o bem do ser humano e da espécie, pode permitir anular muitos dos defeitos
ligados à genética. Dentro de certos limites, tal constitui um bem. Negados
tais limites, este uso será algo de tipo eugénico, regressando o fantasma dos
extremismos nazis ou semelhantes.
Mais do qualquer outra
tarefa, é esta a grande tarefa hodierna da bioética, precisamente porque a
ameaça é, ainda, velada, o que não acontece com outras fontes de cuidado para
esta disciplina. Para além disto, se na maioria dos outros âmbitos, é a vida do
ser humano individual que está em causa, no âmbito da genética, é a própria
realidade da espécie humana como tal que está em causa: não apenas «pode estar
em causa», mas já está em causa, pois os instrumentos necessários já existem e
estão prontos a ser usados.
Fevereiro de 2018
Américo Pereira
[1]
A ocorrência de eventuais mutações não anula o que ficou dito, sendo que tal
ocorrência se dá como alteração substantiva à morfologia, morfo-biologia, do
ser assim concebido, mas no seio desta relação.
[2]
Esta noção de necessária contribuição biológica, se distorcida, por exagero da
importância ontológica de tal contribuição, pode conduzir a um entendimento do
novo ser como precisamente não-novo, pois mais não é do que um híbrido reduzido
a comparticipações maternas e paternas. É claro que esta não é uma questão
biológica, mas pode ser uma questão
bioética. Uma das consequências boas do avanço da moderna genética, nascida
com Mendel, consiste no rigor com que a medida da contribuição genética de cada
progenitor pode ser feita, não deixando qualquer forma de possibilidade de
dúvida acerca do que é próprio de cada ente, sem predomínios que não de índole
da mesma combinatória possível, sem que se possa afirmar que a presença de uma
qualquer contribuição genética corresponda a uma forma qualquer de redução daquele
que recebe essa contribuição àquele que contribui.
[3]
Um modo intuitivamente baseado nesta constatação é o que se manifesta nos
interditos à procriação entre certas classes de indivíduos humanos, pois, de
algum modo, sabia-se que tais relações biológicas favoreciam o surgimento de
taras. Estes interditos, dada a sua importância, foram mesmo incorporados em
mitos, que são sempre veículos de sentido absoluto para quem os vive.
[4]
O recebimento na comunidade cultural assim diferenciada de seres humanos
biologicamente diversos é sempre um passo que revela uma grandeza humana que
está para além da mera rotina da luta contra a entropia física, pois aceita
como bom para esta luta um ser que não faz parte da linhagem biológica. A menos
que o recebimento seja feito de forma constrangedora, por carência de
continuadores da linhagem, revela-se como um gesto de grande generosidade,
porque contraria a força, de outro modo incontornável, da parte biológica em
questão.
[5]
Habitualmente, diz-se «descodificação do ADN», como se o ADN fosse um código.
Ora, este não é um código, mas um conjunto de moléculas especiais, dispostas de
modo especial, que nós podemos ler como
um código. O trabalho que se realizou consistiu em traduzir na forma de um
código humano a presença material de tais moléculas, atribuindo-lhes um
significado alternativo, humanamente perceptível: é isto que é o dito “código”.
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