O bem-comum e o bem natural.
Na simplicidade dos
princípios, longe do simplismo antropocêntrico da valoração maniqueia centrada
nos interesses de quem avalia e da falsa complexidade cultural dos valores como
projecção tirânica dos desejos de poder de quem tem acesso ao altifalante político,
o bem-comum é esse, único, que permite, no mesmo acto, o bem próprio de e apropriado para cada pessoa e para todas as pessoas, mas em concomitância com
o bem universal do acto em que cada pessoa e todas as pessoas se situam, em
cada momento que se queira considerar.
Menos do que isto, e
tem-se imediatamente um desequilíbrio de bens que anula quer o bem-comum quer o
bem universal. Este desequilíbrio é, em seu acto, concomitantemente económico e
ecológico.
Ora, é este bem universal, que inclui o
bem-comum, que é o acto ecológico do mundo.
Menos do que isto, e
não há acto ecológico do mundo. Menos do que isto, e não há verdadeiramente mundo, pois mundo significa a realidade da
ordem. Sem esta realidade da ordem, não há mundo, há caos.
Mas, então, não há
caos no mundo, como se diz por aí?
Diz-se, mas tal não
faz qualquer sentido, pois isso que os termos «caos» e «mundo» significam faz
deles termos contraditórios e a contraditoriedade obriga a que se a realidade
dita por um dos termos for, a outra não possa ser, absolutamente.
Assim, se há caos, não há mundo; se há mundo, não
há caos.
O que se designa como
«caos», por preguiça intelectual, não é caos algum, mas, sim, a impossibilidade
de posse humana do algoritmo infinito do real, que entendível quer como
instante artificialmente estático quer como dinâmica incessante, precisamente
isso de que o velho filósofo Heraclito já tinha tratado, de forma definitiva,
quando intuiu a infinitude do movimento (a natureza, mas também o absoluto de
tal movimento, isso que não se move, que é o haver movimento, a trans-natureza).
A este absoluto chamou
«Logos», e este «Logos» é o que racionalmente mais próximo existe de um
algoritmo infinito do movimento: é o «logos» do movimento. Não nos deixemos fascinar pela poética da linguagem;
percebamos o que está em causa.
A ecologia é, assim, o mundo como
movimento ordenado.
Mas, pode dizer-se: aquela
é uma abstracção teórica. O que existe não é isto, mas um movimento imperfeito,
em que tal «logos» ordenador não efectivamente existe.
Nada mais errado, no
que ao movimento não-humano diz respeito.
Tocamos, neste ponto,
a face mais subtil do maniqueísmo, de que se alimenta a fraca ciência mercantil
contemporânea, não a grande, a de um Planck, de um Einstein, de um Heisenberg
ou de um Pasteur, entre outros verdadeiramente grandes: o maniqueísmo não como hipostasiação de dois claros
princípios metafísicos para a ontologia geral, mas como desvalorização da ordem
real do mundo a partir de uma hipóstase de uma idealização de uma suposta ordem
perfeita trans-natural a que a ordem natural deveria obedecer.
Caso não obedeça a
tal ordenação trans-natural, então, o mundo, em sua aparente ordem mundana, é
imperfeito. E só há este mundo imperfeito.
Esta argumentação
maniqueia serve tanto o impotente ateísmo dos que ainda vivem, quanto o não menos
impotente falso teísmo dos que, querendo ensinar Deus, proferem a lição da ideal
perfeição trans-mundana do mundo.
Ora, não há perfeição
trans-mundana do mundo. O mundo é perfeito na ordem que é, como ordem que é,
exactamente como a ordem que é, em cada considerável instante.
Não seria mais
perfeito um mundo em que não houvesse explosões estelares ou vulcânicas –
algumas impertinentes, mesmo… –; não seria mais perfeito um mundo em que a
gravidade não esmagasse uns calhaus contra os outros, destruindo tão belas
pedras semi-preciosas; não seria mais perfeito um mundo em que os lobos não
tivessem fome, tendo de comer carne?
No entanto, que coisa
estranha seria essa constituída por um lobo incapaz de fome, sendo alimentado
de energia, quem sabe, através de pilhas atómicas.
Não. Não seria mais
perfeito, em geral, um mundo que não estivesse submetido à entropia, mesmo que
esta signifique a morte ontológica do mesmo mundo.
Não é a entropia da
«coisa mundo» que incomoda, que angustia ou causa medo, mas a noção, quiçá, a
certeza de que esta mesma entropia universal me habita e que, assim, eu nasci para mundanamente morrer. Como
a esperança frustrada do que teme a entropia trai o seu profundo desejo de
nunca morrer! Ateus? De que deus?
Ora, desde o Génesis (na verdade, metafisicamente, a
noção está antecipada já na Epopeia de
Gilgamesh, na forma da mortalidade radical dos que falham, precisamente, a ordem
do mundo), que se sabe que o que nasce, isto é, o mundo, morre,
necessariamente morre. Ora, para morrer, para que morte (a entropia: os nomes são
apenas nomes, não são o real) faça parte da ordem do mundo, é necessário que da
ordem do mundo faça parte a possibilidade da sua morte, isto é, que a ordem do
mundo seja exactamente essa que culmina na morte do mundo.
Angustiante,
perceber-se isto? Certamente, mas apenas nós o percebemos, as bestas não. E nós
não queremos ser bestas, certamente, também.
O erro dos maniqueus
é pensar que o mundo que existe não é perfeito exactamente como existe: nada no movimento natural é imperfeito;
este é sempre o que é. Dizer que o movimento A poderia ser mais perfeito é compará-lo com algo que nunca foi,
com algo que é simplesmente imaginado como possível, como se houvesse um mundo,
esse sim, real, perfeito, de que o mundo, o único real, que é este em que
estamos, tivesse como que a “obrigação moral” de imitar.
Tal é absolutamente
irreal. A infinitude de mundos teóricos, reais como coisa teórica, em nada diz
respeito ao mundo natural em que estamos, que não é cópia de coisa alguma, mas desenvolvimento cinético de uma
dinâmica, essa sim, real, que não existe em universo teórico algum, mas se
encontra impressa no que podemos chamar de «inércia ontológica» do mundo. O
movimento do mundo transporta-se a si próprio, num presente contínuo, que assume passado e futuro, que, sem ele, não
são, em absoluto.
É esta a razão
fundamental pela qual a natureza –
assumamos o velho termo, em todo o seu esplendor – é sempre ecológica; perfeitamente ecológica.
Não há imperfeição na natureza: o cancro não é uma imperfeição –
mesmo que eu tenha um –, mas parte do
movimento próprio da natureza, a menos que tal cancro seja fruto de uma
acção não-natural, isto é, humana.
E é aqui que a
questão ecológica, de facto e de direito, começa e se instala: na acção que constitui a relação do ser
humano com a natureza, dos seres humanos com a natureza, da ética e da cultura com a natureza.
Tomemos o exemplo do
cancro: na ocorrência natural do cancro, tal ocorrência é uma imperfeição relativamente a quê? Há algum modelo de
perfeição – real, não imaginado e hipostasiado – a que os organismos tenham de
obedecer?
Naturalmente, por que
razão é mais perfeito um organismo sem cancro do que um com cancro? E a
perfeição própria do cancro? Quem determina que tal não existe? Qual é o
modelo? Onde está?
O maniqueu religioso
ainda pode remeter tal modelo transcendente para o «deus mau», mas para que
entidade remete tal perfeição o maniqueu não-religioso? Para a natureza? Mas,
então, atribui à natureza uma «natureza» que esta não pode ter em ambiente
intelectual não-religioso.
Desvalorizar qualquer
membro da realidade – natural ou não – é sempre um acto maniqueu, que nega a
bondade do ser que assim se ajuíza. Como muito bem percebeu Francisco de Assis,
da ordem do mundo tudo faz parte, desde
que não seja o mal introduzido pelo ser humano; nada mais é propriamente
mal, mesmo que seja fonte de sofrimento, mesmo que seja deletério da vida
humana.
Por isso, também a
morte é irmã, isto é, filha do mesmo «pai» (ou «mãe»). A morte e o que
significa, a entropia, se se preferir, fazem parte da ordem do mundo.
O mundo é perfeito entropicamente.
Ah, mas saber tal é
profundamente angustiante, saber tal é dilacerante, saber tal é, presume-se,
pior que morrer. Não podemos contrariar qualquer uma destas afirmações; aliás,
confirmamo-las.
Mas, como é belo,
como Pascal, pensar a grandeza humana
precisamente a partir da fragilidade humana, o ser que é ordenado para a
morte, para que possa saborear o absoluto da vida no que cada acto tem de
imortal em sua mesma mortalidade, para que possa descobrir Deus em cada
instante móvel, para que possa perceber que o seu bem é o bem de todos, o bem
de todos o seu bem e o mundo, absolutamente vivo em seu caminho para a morte, é
tão bom e tão grande quanto a sua capacidade de saborear cada acto, como dizia
o Poeta, «usar por dentro todas as sensações, descascando-as até Deus»
(Fernando Pessoa, Livro do desassossego).
Ou, como Deus
simplesmente disse do frágil mundo, em absoluto de seu acto: bom, belo!
Deus, o grande
ecologista.
Lisboa, Dezembro de
2017
Américo Pereira
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