Radicação ontológica da bioética
Um dos maiores problemas
da bioética como habitualmente tal disciplina ou área de conhecimento nos é
servida refere-se à sua manifesta distanciação relativamente ao domínio
ontológico, ao domínio do ser.
Se é fácil perceber a sua
relação com a biologia e a ética, já não é fácil perceber a sua relação com a
ontologia e a ontologia própria do ser humano, isto é, com uma
onto-antropologia, mas não apenas com ela, pois há uma radicação ontológica geral da bioética no seio de uma sistémica
biológica e cosmológica geral, sem o que a bioética não passa de mais um
moralismo, apenas útil como forma de instrumentalização de isso que os mentores
que assim procedam procuram dominar, o governo universal[1]
da vida.
Assim, a bioética
relaciona-se com o ser de isso que constitui o seu campo de trabalho: a vida
dos seres humanos, mas na relação com todo o biótopo que estes mobilizam com e
na sua vida, mas também com o ambiente geral, não propriamente biológico, que é
imediata ou mediatamente implicado. Há, deste ponto de vista fundamental, uma necessária dimensão ecológica da bioética,
de que trataremos mais adiante.
Percebe-se, então, que a bioética diz respeito a todas as formas de
relação humana com a vida própria do ser humano em contexto ecológico geral.
Deve ser este o seu
escopo e não se limitarem as suas ambições a um funcionamento meramente
moralizador de comportamentos ou, pior, moralista e funcionalizador dos seus
fins a uma ancilaridade política, económica ou outra qualquer, fundamentalmente
irrelevante.
Isso com que a bioética
se relaciona é com o ser do ser humano,
de cada ser humano e de todos os seres humanos, não apenas no que esses seres
possuem de biológico – no que seria uma inaceitável perspectiva partitiva e
reducionista –, mas no que têm de total, no que tem de ser necessariamente uma
perspectiva holística, que assuma como única a abordagem que lide com o ser
humano como um todo.
Só a partir desta
perspectiva ontológica holística pode ser possível algo de real como o famoso
respeito pela pessoa humana ou, melhor ainda, uma relação de amor por essa
mesma pessoa. Percebe-se, deste modo, facilmente, que o âmbito próprio da bioética é também o do bem-comum: uma bioética
agente é um elemento construtor do bem-comum, e a bioética só faz sentido
plenamente humano no seio deste horizonte e tendo o bem-comum como seu
horizonte próprio.
A bioética trabalha não apenas para o bem do indivíduo, mas
para o bem da comunidade.
Entre indivíduo e
comunidade, sendo o bem-comum a finalidade última a promover, não há qualquer
forma de oposição. O bem-comum é apenas atingível quando é realizável o melhor
bem próprio possível para cada pessoa singular. O bem-comum é a soma dinâmica
integrada e sistémica do bem próprio de cada pessoa singular, de todas as
pessoas singulares, assim – e apenas assim – constituídas em comunidade. Um não
existe e não pode existir sem o outro.
Deste modo, não é
possível uma bioética digna do nome sem que o seu escopo não seja apenas o bem
da pessoa singular, mas o bem desta integrado no bem-comum de toda uma
comunidade, precisamente a comunidade a que essa pessoa pertence e que essa
pessoa ajuda a erguer através da sua mesma pertença.
A bioética tem, pois, assim, uma dimensão política
intrínseca, que lhe é inalienável.
Talvez melhor do que
«bioética» o nome de «biopolítica»
fosse mais apropriado. De qualquer modo, a dimensão política da bioética é
indiscutível e não é possível constituir uma bioética qualquer sem que esta
dimensão seja devidamente acautelada e pensada.
É apenas no seio desta
dimensão política e como sua forma basal – como acontece em qualquer estrutura
política real – que a parte propriamente económica da bioética faz sentido,
isto é, faz sentido humano.
Assim sendo, sempre que
se encontra uma qualquer forma de dimensão económica quando está em causa uma
qualquer questão bioética, é necessário ter presente que esta dimensão económica
não diz respeito a escolhas políticas, por exemplo, mas diz, sim, respeito a uma dimensão económica necessária que todo o
viver político possui e que, no que tem de fundamental, é independente do
arbítrio dos seres humanos.
Logo, quando se pensa
qualquer problemática bioética, há que saber que há domínios e momentos em que barreiras ontológicas de tipo económico
irão surgir, barreiras que não podem ser eliminadas ou ultrapassadas, que,
assim, condicionam necessariamente o que será a acção possível, mas que não
impedem necessariamente o trabalho a realizar, embora o limitem necessariamente.
No entanto, momentos há
em que a parte económica real – isto é, a ontológica – elimina qualquer
possibilidade de trabalho. Mas tal implica que já não haja ou possa haver
qualquer forma de problemática propriamente ética, pois não há já qualquer possibilidade
de trabalho.
As impossibilidades ontológicas não constituem problemas
éticos ou políticos.
Tais impossibilidades são
simples dados incontornáveis, profundamente relevantes do ponto de vista do
ser, mas totalmente irrelevantes do ponto de vista ético e político. Por
exemplo, no seio de uma catástrofe natural, tem toda a relevância ontológica a
total ausência de meios terapêuticos não humanos, mas não tem qualquer
relevância ética ou política. Já a existência de meios terapêuticos humanos,
por exemplo, a existência de pessoal de saúde capaz de acção, é relevante dos
três pontos de vista. Mesmo sem outros meios, os meios humanos devem agir com o
que têm à mão, precisamente as suas mãos: o símbolo não necessita de mais
explicitação.
Muito brevemente, podemos
perceber que o campo de trabalho da bioética radica em estruturas ontológicas,
que ultrapassam e integram a estrita ontologia antropológica, fazendo com que
uma bioética qualquer digna do nome tenha necessariamente de ter em
consideração a amarração ontológica de isso com que lida.
Ora, é precisamente na
dimensão ontológica própria do ser humano que a intervenção de uma bioética se
justifica, pois é o ser humano como tal
que está em causa e que justifica a intervenção.
Sem a dimensão ontológica do ser humano em causa, para quê
uma bioética?
Esta dimensão ontológica
assume todas as sub-dimensões partitivas que dela podem ser relevadas, por
exemplo, biológica, sanitária, política, ética, psicológica, sociológica,
religiosa, cultural em sentido lato ou estrito, etc.
No entanto, nenhuma
destas dimensões parciais por si só ou em agrupamento restrito justifica o
trabalho da bioética: esta dirige-se à
pessoa como um todo e como um todo ontologicamente considerado.
Sem esta consideração
ontológica, corre-se sempre o perigo de redução do ser humano a algo de menor
do que é realmente. E é esta redução que está sempre na origem da
possibilitação de todas as formas de atentado contra não apenas a dignidade
propriamente humana das pessoas, mas contra a sua mesma realidade existencial
concreta, isso que a bioética deve trabalhar para defender e promover, enquanto
tal.
Radicação ética da bioética
Tendo em consideração o
que ficou estabelecido anteriormente, e sendo a ética uma parte própria
irredutível da ontologia humana, presente como dimensão auto-constitutiva em
cada e em todo o ser humano, por via desta sua dimensão ética, a bioética
assume uma outra ligação ontológica com o ser humano, pois, como ética, é a
ontologia própria do ser humano em movimento: cada movimento próprio de uma bioética é um movimento ético, logo um
movimento de auto-constituição própria do ser humano que o pratica.
A bioética é ontologia humana em realização.
Mas é-o porque é um
movimento de um ser humano no sentido do bem-comum, porque do bem individual
com este relacionado, de um outro ser humano, de uma pessoa. Não há movimento
em bioética que não seja ontologicamente significativo, onto-antropologicamente
significativo, positiva ou negativamente.
Esta acção depende sempre
de uma qualquer intuição relativa a uma qualquer situação em que esteja em
causa uma dimensão biológica de um ser humano, implica uma qualquer ponderação
acerca dela e a tomada de uma qualquer resolução relativa a uma possível
intervenção, a que se seguirá ou não uma intervenção. Há uma estrutura dinâmica
e cinética do movimento bioético em tudo semelhante à da agência ética comum e
geral.
Assim, todo o movimento
em bioética é sempre fruto de uma qualquer deliberação, mais ou menos perfeita,
de um qualquer sujeito ético, isto é, necessariamente humano, que leva a uma
qualquer intervenção, mesmo que pela negativa, dado que, posta a situação,
mesmo uma decisão de não intervenção constitui imediatamente uma forma de
intervenção, por ausência de intervenção.
Ética e politicamente, é
este um dos dados mais relevantes no que à bioética diz respeito (como acontece
universalmente em todo o campo da ética e da política), pois, uma vez o sujeito
bioético estando lançado na situação bioética não tem outra saída que não seja
o laborar bioeticamente, mesmo que seja pela negativa.
É esta a situação sempre
dramática e por vezes trágica em que, por exemplo, todo o pessoal de saúde se
encontra, apenas por ser precisamente pessoal de saúde. É uma situação necessária, em que se exige sempre uma
qualquer decisão, em que não há como não decidir e em que o sujeito, assim tornado, mesmo contra sua vontade, bioético, é sempre
responsável, em maior ou menor grau, pela decisão que toma e em que não há
valores ou tabelas deontológicas que eliminem a sua condição de sujeito
ético-bioético-político em necessidade de tomada de decisão.
Desta decisão, como de
todas as outras em âmbito ético e ético-político geral, promanam consequências irredutíveis que ou
promovem um maior bem possível ou não promovem um maior bem possível.
A responsabilidade é sempre de quem toma as decisões, sendo que a tomada de decisão não é
um instantâneo evento isolado, mas tem sempre um historial, historial que congrega ontologicamente as
responsabilidades pelas consequências havidas. Este historial corresponde
sempre a uma qualquer pessoa, que, assim, é responsável pelo que tal historial
congrega, isto é, é responsável por si própria enquanto tomadora de decisões.
Não há decisões vindas do
nada ou mecanicamente redutíveis, todas têm um sujeito humano, imediato ou
mediato, a que reportam (mesmo que haja máquinas capazes de tomar decisões ou
de as replicar, o responsável é o ser humano que assim as produziu, mesmo que
medeie um século entre a produção e decisão em causa).
Se, por exemplo, de um
ponto de vista jurídico, tal não é contemplado, isso apenas quer dizer que há
uma qualquer limitação da inteligência jurídica, voluntária ou não, mas não
quer dizer que não haja uma responsabilidade mais funda.
Assim, e como exemplo, se
alguém tiver decidido diminuir os recursos de socorro em caso de catástrofe,
independentemente das razões aduzidas, que podem ser virtualmente infinitas e
indefinidamente justificáveis ou não, se houver uma qualquer catástrofe e os
meios reduzidos não forem suficientes, então, não é por a decisão ter sido
tomada há dez anos e de uma forma formalmente legítima que deixa de ter
responsabilidade na vitimização das vítimas quem tomou tal decisão.
Ética e politicamente é
assim, e se outras dimensões não contemplam esta dimensão ética e política
radicada ontologicamente – que é o forum
onde o fundamental da questão se passa – tanto pior para a humanidade.
Tal atitude deveria ser
abandonada e o cuidado com o bem-comum deveria presidir às decisões dos que são
encarregues dos destinos dos povos.
Note-se que, deste ponto
de vista, haverá muito poucas decisões de governo político dos povos que possam
não vir a ter, de uma qualquer forma, uma eventual implicação bioética. Este
horizonte transcendental deveria estar presente nas mentes dos decisores
políticos administrativos.
Radicação biológica da bioética
Sem a dimensão
propriamente biológica do ser humano, que é o que está em causa, não faria
sentido a existência de algo como uma bioética, pois a restante ética, geral e
especializada, bastaria. Assim, é especificamente para o que diz respeito à
dimensão biológica do ser humano que a bioética faz sentido.
Deste ponto de vista, na
sua vertente científica, a bioética pode ser entendida como uma ciência da
vida, ciência da vida relativa não ao estudo da estrita especificidade da
mesma, mas à sua relação com a fonte
ética dos movimentos humanos que condicionam a mesma vida, especial e
mormente a humana. A parte dedicada à saúde é apenas uma sua sub-parte, se bem
que importantíssima.
Ora, se o olhar da
biologia, como ciência, deveria ser um olhar desapaixonado sobre a vida – o que
nem sempre acontece – o olhar da bioética deve ser um olhar apaixonado, pois o
seu papel não é um papel descritivo ou narrativo ou meramente intelectual, mas
um papel que parte de uma compreensão o mais lata e profunda possível para uma intervenção concreta cuja única finalidade é
a promoção da vida e da sua grandeza própria.
Tal implica, na relação
com os seres humanos, que deva promover
uma cada vez maior e melhor dignificação da mesma vida humana, todavia
sempre em relação com todas as outras formas de vida e com todas as outras
formas de existência, contribuindo, assim, não apenas para uma promoção da
humanidade como mais uma espécie, em concorrência biológica com as outras, mas
para uma promoção da mesma humanidade como agente de uma cada vez melhor
co-existência biossistémica universal.
Sem qualquer forma de
mitificação ou de utopização, é apenas no seio deste ambiente de contribuição
humana, consubstanciada na implementação biossistémica da novidade biológica e
cosmológica constituída pelo sentido teleológico do bem-comum, fundamentalmente
diferente do sentido de uma competitividade cega e bio-entrópica, que se pode
pensar a sobrevivência de um biótopo, o terrestre, que, após a novidade humana,
não podendo, por enquanto, viver sem ela, pode encontrar no literal convívio
com ela, uma possibilidade única de perpetuação, pois é a única realidade que
sabe como atrasar a entropia que ameaça constantemente a vida.
A bioética pode ser uma
forma ilustre de combater esta entropia no que ao ser humano diz respeito, mas,
para tal, tem de assumir uma atitude verdadeiramente ecológica.[2]
A bioética como parte de uma nova «ecologia» eco-onto-ética
Espera-se, pois, da
bioética não formas moralistas, sempre servas de inconfessáveis vontades de
poder, mas uma contribuição para o que se pode definir como o bem-comum da vida
como a conhecemos, mormente a vida humana. É neste horizonte epistemológico que
a bioética deve ser reposta como uma reflexão acerca da vida, das ciências da
vida e de todo o trabalho que se exerce sobre a vida, tendo como pano de fundo
a ontologia geral da vida como a conhecemos, isto é, a vida como um irredutível sistema ecológico.
A realidade da vida
humana e de tudo o que dela decorre não existe separada da demais realidade e
da demais realidade vital. A vida humana relaciona-se com o meio que a rodeia,
é por ele condicionado, condiciona-o, quer este meio seja um meio redutoramente
considerado apenas como biológico quer seja considerado como um meio
paradigmaticamente biotípico, em que todas as dimensões ontológicas nele
consideráveis são realmente consideradas.
Assim, a própria noção de
saúde, em seu sentido mais vasto, que inclui, por exemplo, a imensurável noção
de «bem-estar», recebe uma nova luz, percebendo-se que a saúde humana não é
algo de separado, mas algo de ecologicamente integrado num biótopo geral que
inclui todas as formas de vida e sua inter-agência, mas também todos os
condicionantes puramente físicos-não-vivos, de um modo tão amplo, que inclui
também a própria agência humana como forma necessariamente integrante desse e integrada
nesse biótopo.
A consideração da vida
humana e da saúde humana assume uma dimensão de interdependência necessária com
a totalidade do meio, quer ele seja meramente físico quer seja também biológico
quer seja também ético-político.
As questões da vulgar
bioética passam a enquadrar-se num âmbito mais vasto, em que ganham uma outra
dimensão, passando a perceber-se que muito do que se joga em bioética se refere
não apenas ao ser humano como algo de separado e de irrelacionado com o demais
da realidade, mas a esse mesmo ser humano como parte integrante dessa mesma
realidade.
Tal permite que todos os
elementos que contribuem para a realidade da situação que reclama a intervenção
bioética surjam a uma outra luz, precisamente já não como algo de estranho, mas
como algo que pertence de direito à mesma problemática bioética. Por exemplo,
as questões de índole económica já não parecem ser de âmbito exterior à
bioética, mas revelam-se em toda a sua pertinência como elemento próprio
daquela situação. Pode mesmo ser que, num caso extremo, toda a questão, que
agora é da ordem da bioética, seja motivada por um elemento económico. Sem este
elemento, cuja presença pode ser legítima ou não – o que como elemento que
provoca a situação que necessita de intervenção bioética não interessa, passa a
interessar como isso que a bioética vai ter de pensar e resolver –, nem
situação própria para uma intervenção bioética haveria.
Todas as situações
habitualmente tratadas em termos de bioética ganham um outro sentido mais
profundo quando perspectivadas neste horizonte eco-onto-ético, em que se
patenteia que é o ser do ente está em causa que importa em termos bioéticos,
mas no seio de tudo o que forma precisamente o seu contexto bio-onto-ecológico.
Américo Pereira
[1]
Este «universal» diz respeito apenas à vida como ela é conhecida no biótopo
geral que é a biosfera terrestre. Não se especula acerca de vida fora deste
biótopo.
[2]
Não nos referimos evidentemente a formas menores de ecologia, ancilares de
vontades de poder mal disfarçadas, mas à atitude ética que percebe o conjunto
da vida como íntegro e a habitação desta mesma vida como um lugar comum tanto
mais rico quanto mais nele a diferença puder existir, sem abusos de
agressividade, sempre aliados de uma entropia inexorável.
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