Pecado original

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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Elvira Madigan, Romeu e Julieta e a pedagogia da paixão

A paixão é um dom. Mas nunca deve conduzir a nossa vida.

Há histórias que sobrevivem aos séculos porque falam de algo permanente na condição humana. Romeu e Julieta, de Shakespeare, pertence à literatura. Elvira Madigan pertence à história. No entanto, ambas parecem narrar o mesmo drama: dois seres humanos que acreditam que a intensidade da paixão é suficiente para vencer todos os obstáculos.

É precisamente aqui que reside o equívoco.

A cultura romântica habituou-nos a considerar estas histórias como celebrações do amor absoluto. Talvez sejam, antes de mais, uma advertência sobre aquilo que acontece quando a paixão deixa de reconhecer a verdade.

Importa começar por uma distinção essencial.

A paixão não é um mal.

Pelo contrário, é uma das grandes riquezas da pessoa humana. Sem paixão não haveria entusiasmo, criatividade, coragem, desejo de conhecer, capacidade de admirar nem enamoramento. Uma existência sem paixão seria uma vida sem fogo interior.

O problema nunca foi a paixão.

O problema começa quando deixamos de ser nós a conduzi-la e passamos a ser conduzidos por ela.

Platão compreendeu esta realidade de forma admirável no Fedro. A alma humana é comparada a uma parelha alada. Dois cavalos representam as forças que habitam o coração humano. Um tende naturalmente para o bem; o outro é impulsivo, indisciplinado e procura satisfazer imediatamente os seus desejos. Nenhum dos dois deve ser eliminado. Ambos possuem uma energia indispensável. Mas a direção pertence ao cocheiro, imagem da razão. Quando são os cavalos que conduzem a carruagem, o desastre torna-se inevitável.

Mais de dois mil anos depois, Louis Lavelle retoma esta mesma intuição numa linguagem profundamente espiritual. As paixões fazem parte da riqueza da vida. São elas que dão intensidade à existência. Contudo, deixam de servir a pessoa quando pretendem ocupar o lugar da consciência. A liberdade não consiste em destruir as paixões, mas em integrá-las numa ordem superior, onde a inteligência e a vontade lhes conferem sentido e direção.

Esta talvez seja uma das grandes lições esquecidas do nosso tempo.

Vivemos numa cultura que frequentemente identifica autenticidade com espontaneidade. Parece-nos natural pensar que, se um sentimento é intenso, então deve ser seguido. Mas a intensidade nunca foi critério de verdade. Uma paixão pode ser sincera e, ainda assim, conduzir ao erro.

É precisamente isso que encontramos em Romeu e Julieta.

O sentimento entre ambos é verdadeiro. Shakespeare nunca o ridiculariza. O que mostra é um amor ainda demasiado jovem para suportar o peso da realidade. Em poucos dias conhecem-se, apaixonam-se, casam e morrem. A paixão corre mais depressa do que a prudência.

Também Elvira Madigan e Sixten Sparre acreditaram que bastava seguir o impulso do coração. Ela abandonou a sua carreira de artista de circo. Ele deixou para trás a esposa, os filhos e a carreira militar. Durante algum tempo viveram apenas da intensidade da paixão. Mas nenhuma paixão, por mais bela que seja, consegue abolir as responsabilidades anteriormente assumidas nem alterar a verdade das circunstâncias. A realidade acabou por revelar aquilo que a paixão recusava ver.

É aqui que importa fazer uma distinção decisiva.

Não foi o amor que fracassou.

Foi uma paixão que ainda não se tinha transformado plenamente em amor.

Porque o amor autêntico não é apenas um sentimento. É também inteligência, liberdade, responsabilidade, fidelidade e vontade de procurar o verdadeiro bem do outro. Como ensinava São Tomás de Aquino, amar é querer o bem da pessoa amada. A paixão pode iniciar esse caminho; nunca pode substituí-lo.

Talvez seja por isso que estas duas histórias continuam a comover-nos. Não porque glorifiquem o chamado "amor impossível", mas porque espelham um conflito que todos conhecemos. Cada ser humano experimenta dentro de si desejos intensos, impulsos generosos, entusiasmos e fascínios. Todos eles são bons enquanto forças da vida. Mas nenhuma dessas forças deve ocupar o lugar da consciência.

A paixão é um excelente motor.

É um péssimo piloto.

A sabedoria não consiste em apagar o fogo do coração, mas em aprender a orientá-lo.

No fundo, Platão, São Tomás de Aquino e Louis Lavelle dizem a mesma coisa, cada um na linguagem do seu tempo. A vida humana encontra a sua plenitude quando todas as dimensões da pessoa — inteligência, vontade, afetividade e liberdade — deixam de competir entre si e passam a colaborar na procura da verdade e do bem.

Talvez seja esta a verdadeira pedagogia da paixão.

Não a sua repressão.

Não a sua idolatria.

Mas a sua integração.

Porque o verdadeiro amor nunca nasce contra a verdade.

Nasce quando a paixão aceita deixar-se iluminar por ela.

Francisco Vaz

29 de julho de 2026

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