A fé como força vital e forma expressiva da existência humana
(Meditação do encontro após a procissão do Senhor dos
Passos – 17 Março 2013)
É muito comum nos nossos dias
considerar-se a fé como algo que diz respeito apenas a ambientes religiosos,
mas não a ambientes intelectuais não religiosos, puramente “racionais”, como
por vezes se diz. No entanto, a fé é também um ato de inteligência, perfeitamente
racional e universal sem o qual, a mesma inteligência ficaria impedida de todas
as suas possibilidades.
A fé, é, na sua dimensão ética e
política mais básica, um dos principais constituintes ontológicos do ato
antropológico-ético do ser humano. Sem ela, seria muito difícil qualquer
movimento político e o ser humano nada mais poderia ser do que uma entidade
encerrada para sempre num absoluto solipsismo ético.
A fé na forma da confiança básica humana
é o que nos permite acreditar nas pessoas com quem vivemos. É o que há como
mais elementar na vida. A própria vida pede um gesto de fé, trazendo consigo o
germe da confiança. Não conseguimos imaginar uma criança que não possa confiar
quando o que a traz à vida é precisamente a confiança. É o poder confiar no
leite que lhe é dado, é o poder confiar no colo que lhe é dado, é o poder confiar
nas canções de embalar que lhe são cantadas. A confiança é, por isso, algo de
elementar na experiência de qualquer homem ou de qualquer mulher. Somos, assim,
seres assinalados pela confiança.
A fé religiosa não explicitamente cristã
e depois a fé explicitamente cristã inscreve-se nesta dinâmica humana da
confiança. Inscrevendo-se no terreno da confiança, a experiência de fé cristã é
uma experiência profundamente humana. Não é uma experiência de dois ou três,
mais ou menos beatos ou medrosos ou humanamente diminuídos, que fazem uma
experiência estranha à humanidade, de tal maneira que o homem e a mulher
modernos, verdadeiramente seres humanos, não seriam crentes.
A mensagem da modernidade é a de que o
homem que nasce da Revolução Francesa é um ser autónomo, auto referenciável e não
crente. De facto, a tendência moderna é a de separar os campos: uma coisa é a
razão, com que conhecemos, com que estabelecemos o espaço público e a sociedade
civil. Depois, há questão da fé, para uns quantos que ainda não atingiram a
maturidade humana.
Outra das fraturas da modernidade é a
separação entre verdade e a liberdade: a verdade conhece-se pela razão e a liberdade
é perfeitamente autónoma e auto-suficiente. Esta fratura continua a existir num
tempo que muitos designam por pós moderno. Se o homem moderno se compreendia
como racional, no ambiente pós moderno o homem sente-se mais como afetivo,
sensível, atento às experiências imediatas e concretas e portanto já acredita
muito pouco que a verdade se alcança pela razão. No entanto, parece que o nosso
modo de compreender as coisas vitais continua a pautar-se pelo registo da
separação entre a liberdade, que é autónoma, e a verdade, que é exterior a si
mesma, sendo que liberdade e verdade não se relacionam uma com a outra. Ora,
esta dicotomia entre liberdade e verdade está muito aquém daquilo que a
experiência de fé inscreve na existência humana, que é uma experiência de
reconhecimento de algo que vem de fora, mas que se dá à adesão da minha
liberdade. A fé, de facto, conjuga a verdade e a liberdade.
Precisamos de testemunhar hoje que a fé é
uma experiência humana vital. Mas esta é talvez a maior dificuldade e o maior
obstáculo para as pessoas não aderirem à fé cristã. De facto, a fé parece não
ser uma experiência humana significativa. Parece não se inscrever no que há de
mais elementar na nossa existência. Talvez a nossa grande debilidade seja o facto
de não conseguirmos testemunhar esta força vital e esta forma expressiva da
existência humana. Por isso, os pais e os avós sentem-se defraudados, porque
não conseguem transmitir aos filhos e aos netos a força vital da fé. E,
possivelmente, também nós, como Igreja, sentimos esta tristeza, esta
impenitência, de não conseguirmos testemunhar esta força vital da existência
humana.
Por isso, temos de começar pelo mais
elementar, ou seja, inscrever esta reflexão no campo teológico que está no
centro do mistério cristão: a encarnação. Quando colocamos no centro da fé
cristã a encarnação, estamos a dizer que o mistério de Deus se inscreve na
história, se inscreve no tempo se inscreve na fragilidade, se inscreve na
contingência e nas relações. Deus não quis revelar-se-nos puxando-nos para o
céu. Esta foi, aliás, uma das primeiras heresias com que o cristianismo teve
que se confrontar: O gnosticismo. Segundo o gnosticismo Deus é espírito e só
espírito. Deus vive no céu e só no céu. Para se dar a conhecer, a uns tantos
iniciados, Deus puxa-nos para o espiritual fazendo-nos sair do corpo, que é
mau, do tempo que é mau, da finitude que é má, da multiplicidade que é má,
levando-nos para o céu, para, então sim, pelo conhecimento, nos dizer quem é. Mas,
para chegarmos a esse conhecimento temos que abandonar o tempo que é
mortalidade, abandonar o corpo que é degradação, abandonar a multiplicidade que
é devir. Dizia Stº. Ireneu que o centro da nossa fé é a encarnação, que Deus
encarnou verdadeiramente em Jesus que é o filho, numa intuição extraordinária
dos primeiros tempos do cristianismo. No entanto, esta tendência gnóstica tem
estado sempre presente entre nós, como se fosse mais cristã, mais espiritual e
mais divina.
No Natal, que vivemos todos os anos, celebramos
a vinda de Deus que se dá a conhecer no corpo, na história, no contingente, no
finito. É aqui e só aqui que Deus quer ser reconhecido.
Que o espírito é espírito nós já sabemos.
Que a matéria é espiritual, essa é a conversão – convertemo-nos ao espiritual
na matéria, no corpo, no tempo, na contingência. A fé é a força vital, que dá
corpo ao espírito. A fé é, antes de mais, esta experiência humana que reconhece
a força espiritual no corpo, na história, na contingência, no espaço, no tempo,
nas relações.
O homem deverá, pois,
repensar o que constitui a humanidade do seu ser, estabelecendo vínculos sérios
entre o sentir e o pensar, a dinâmica dos afetos e o reconhecimento da verdade,
a fé religiosa e a inteligência da existência, começando pela originária
confiança existencial.
De facto, a fé cristã
vive-se fundamentalmente entre a alteridade de Deus, que afeta, através da
incarnação de Cristo, pela confiança com que se nos expõe e a nossa liberdade,
através do sim à relação com um Deus em que se pode confiar.
Para reconhecer a identidade
de Jesus e a sua singularidade, não podemos separar o evento histórico e o seu
reconhecimento afetivo da verdade teológica. Fazê-lo significaria separar a história
da intencionalidade de Jesus, ou seja, da sua própria identidade.
Por outro lado, a fé cristã
prende-se com a articulação entre reconhecimento e exercício memorial. Pelo
reconhecimento, a verdade de Deus é reconhecida na vida de Jesus. Pelo exercício
da memória, vivido pelos discípulos e registado nas escrituras, é testemunhado
o acontecimento histórico. Por sua vez, o exercício da memória é despoletado
pela ressurreição de Cristo, que re-envia os discípulos para a re-construção da
memória de Jesus, de modo a colher a revelação da verdade de Deus. É, portanto,
o reconhecimento pascal que remete para os acontecimentos históricos, para
colher neles o significado teológico.
Contra todos os preconceitos,
sejam eles religiosos ou não, a paixão, a morte na cruz e a ressurreição são o
lugar do acolhimento da verdade e justiça de Deus, sendo precisamente através
da morte e ressurreição que essa verdade e essa justiça se manifestam, como dom
sem condições pela vida de cada homem e de cada mulher.
O reconhecimento e adesão à verdade de
Deus acontece em virtude de uma decisão livre, da mesma forma que o homem
percebe algo de verdadeiro na sua vida e se lhe confia. A adesão à verdade de
Deus tem a mesma especificidade. Acreditar na verdade de Deus é acreditar na implicação
mútua da evidência da manifestação histórica de Jesus de Nazaré e do
reconhecimento da verdade teológica de Jesus Cristo.
A fé não é uma construção empírica, nem
uma evidência. Resulta de uma disposição pessoal ao reconhecimento através de
uma apreciação afetiva. A fé é sempre uma relação pessoal com o Senhor,
alicerçada na mediação testemunhal da experiência imediata do Ressuscitado
feita pelos discípulos e transmitida através dos Evangelhos e pela comunidade.
É esta a dinâmica do acesso à fé, que necessita sempre da mediação eclesial
para que seja possível a experiência imediata do encontro com o Senhor.
É nesta dinâmica da fé, que tem a sua
origem em Deus, que cada um encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a
ela, se torna livre. Fé que, sendo comunitária, se revela a cada um de nós de
modo pessoal, particular e diferente, como força vital e forma expressiva da
existência humana.
Portela, 17 de Março de 2013
Francisco Piedade Vaz
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