Pecado original

Pecado original

segunda-feira, 3 de março de 2014

Homossexualidade

HOMOSSEXUALIDADE
Abordagem antropológica e doutrina da Igreja
 Introdução
A homossexualidade é uma realidade muito antiga da humanidade já presente nas culturas Suméria, Egípcia, Caldeia, Asíria, Grega, Romana, Celta e tantas outras. Hoje em dia, estamos acostumados a estabelecer culturalmente um conjunto de ideias sobre os homossexuais que, muitas vezes, tendem para o campo dos preconceitos. Controvérsias à parte será que esse tipo de comportamento sexual sempre foi motivo de tanta polémica? Muitas vezes o nosso imaginário impede-nos de tentar admitir outros tipos de perspectiva em relação a esse tema.
Recuando para os tempos antigos poderemos encontrar uma visão bastante peculiar ao notarmos que afecto e prática sexual não se distinguiam naquele período. As relações sexuais não eram hierarquizadas por meio de uma distinção daqueles que a praticavam e optavam pelos hábitos homo ou heterossexuais. Na Grécia, por exemplo, o envolvimento entre pessoas do mesmo sexo chegava, em certos casos, a ter uma função pedagógica.
Com a assimilação do valor estritamente procriador do sexo, disseminado pela cultura judaica, a concepção sobre o acto homossexual foi ganhando novas feições. O advento do cristianismo trouxe consigo a ideia de que as relacções sexuais entre pessoas do mesmo sexo seria pecado. Dessa forma, desde o final do Império Romano, várias acções de reis e clérigos tentaram suprimir o homossexualismo.

Duas abordagens antropológicas: a essencialista e a construtivista
Apesar do sexo ser um tema maior dentro de nossa cultura, a teoria social prestou pouca atenção à sexualidade. Ao fazer uma avaliação retrospectiva das diferentes interpretações da sexualidade humana propostas pelas Ciências Sociais, particularmente pela Antropologia, podemos detectar duas grandes correntes interpretativas: o essencialismo e o construtivismo .
A ideia básica da interpretação essencialista é que um dado padrão de sexualidade é nativa da constituição humana, seja criada por Deus (naturalismo religioso), regida pelas hormonas, ou resultado da evolução (naturalismo científico). O que está por detrás destas interpretações é a ideia de que a nossa sexualidade seria fundamentalmente pré-social. A sociedade controla, canaliza, restringe, mas não consegue alterar os fundamentos da sexualidade[1]. Dentro desta perspectiva, logicamente, o núcleo da sexualidade só pode ser a reprodução. Muitas vezes, nos escritos antropológicos dedicados a esses temas, faltam descrições dos comportamentos sexuais, mesmo dos reprodutivos: mesmo pressupondo-se a influência do cultural, pressupõe que os atos sexuais possuem estabilidade e universalidade em termos de identidade e significado subjetivo. Tendem os seguidores da escola essencialista a crer na existência de categorias universais, como por exemplo, a  heterossexualidade e a homossexualidade.
A mais recente escola antropológica a preocupar-se com a teoria da sexualidade é conhecida por construtivismo. Esta teoria tem contribuído de maneira crítica, para uma compreensão genuinamente antropológica do sexo. Michel Foucault, um dos gurus da moderna sexologia, considerado a um tempo como pós-estruturalista é um dos principais inspiradores do Construtivismo Social. Foucault vê a sexualidade como objecto do conhecimento, com fins sociais fortemente manipulados pelo poder. A teoria construtivista diz que toda a conduta sexual humana é sócio-culturalmente determinada. Não é o órgão sexual que determina a acção, mas os aspectos sociais. Ou como disse sugestivamente o sexólogo Jean Rostand (1961) “sempre que dois corpos se entrelaçam eroticamente, há sempre uma terceira presença: a sociedade”.
Um dos mais significativos posicionamentos do construtivismo é, sem dúvida, o ter desvinculado o papel social do género, da natureza e da reprodução, negando a naturalidade da subordinação da mulher e contestando o determinismo biológico[2]. Sexualidade e género deram-se as mãos. Várias correntes do pensamento contemporâneo partilham a mesma abordagem do construtivismo, enfatizando o papel activo do sujeito guiado pela cultura, na estruturação da realidade social.
Podemos então dizer que na questão da homossexualidade, os essencialistas consideram a origem da atracção erótica em termos de “orientação” ou “tendência”, enfatizando a diferença entre pessoas de diferente orientação sexual e a inevitabilidade de tal orientação. Os construtivistas preferem utilizar os termos “preferência” ou “opção”, sublinhando, assim, a igualdade de possibilidades das pessoas.

 A doutrina da Igreja
A actual posição do magistério sobre o tema da homossexualidade inscreve-se num duplo contexto. Por um lado surge na teologia e no ensinamento eclesial saídos do Concílio Vaticano II, uma nova perspectiva que valoriza a dimensão da sexualidade humana. Contudo, até 1975 vigorava uma aproximação ao tema da homossexualidade baseada no paradigma tradicional, anterior ao Concílio. No Manual de Teologia Moral de Merkelbach, por exemplo, a homossexualidade era considerada um pecado contra naturam, que repugnavam <<a ordem e o modo instituídos pela natureza no acto venéreo em ordem à procriação, para a qual está unicamente ordenado pela natureza>>. A Declaração Persona Humana da Congregação para a Doutrina da Fé de 1975, ao abordar o tema da homossexualidade faz a distinção entre dois tipos de homossexualidade: <<a que procede de uma falsa educação, de falta de desenvolvimento sexual normal, de hábito adquirido, de mau exemplo e outras causas semelhantes>>, que qualifica de <<transitória ou, ao menos, curável>> e, por outro lado,  a homossexualidade definitiva <<causada por certo instinto inato ou constituição patológica que se supõem incuráveis>>. Por isso, diz ainda, não pode dizer-se que <<todos quantos padecem desta anomalia são pessoalmente responsáveis por ela>>. Considera assim que tal postura se encontra em oposição ao <<ensinamento constante do magistério e ao sentido moral do povo cristão>>, afirmando no entanto, que deve proporcionar-se aos homossexuais um tratamento pastoral compreensivo e actuar-se com prudência ao julgar a sua responsabilidade, afirmando taxativamente que <<não se pode aplicar nenhum método pastoral que justifique moralmente estes actos, no pressuposto de que estariam de acordo com a condição destas pessoas>>, já que <<os actos homossexuais são intrinsecamente desordenados e em nenhum caso podem aprovar-se>>, por carecerem da finalidade essencial inscrita na sexualidade humana: a procriação.
Este tema é abordado posteriormente em 1986, pela mesma Congregação na Carta aos bispos da Igreja Católica sobre a acção pastoral às pessoas homossexuais, que mantem a designação da homossexualidade como <<acto intrinsecamente mau do ponto de vista moral>>. Por ultimo o catecismo da Igreja católica, que dedica três números (do 2357 ao 2359), à homossexualidade, sublinha a existência de diversas formas e que <<a sua origem psíquica permanece em grande medida inexplicável>> e expõe sucintamente a tríplice argumentação pela qual a Igreja Católica condena os actos homossexuais: <<são contrários à lei natural. Fecham o acto sexual ao dom da vida. Não promovem uma verdadeira complementaridade afectiva e sexual>>. O Catecismo repete assim a aproximação pastoral positiva a estas pessoas afirmando que <<não elegem a sua condição homossexual; esta constitui para a maioria deles uma autêntica provação>> pelo que <<devem ser acolhidas com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á ... todo o tipo de descriminação injusta>>. Finalmente insiste que <<são chamadas à castidade>>.


Portela, 7 de Dezembro de 2013
Francisco Vaz


[1] Cfr Connel, R./Dowsett, G. “Rethinking Sex: Social Theory And Sexuality Research”, Melbourne Univ.Press, 1992
[2] Cfr, Fausto Sterling, “Myths of Gender: Biological Theories and Anti-Feminist Perspectives”. NY, Taviskock Publ. 1982 .

Sem comentários:

Enviar um comentário