Cadernos de guerra
Na frente[1]
1. É indiferente
que muitos de nós tenham de se queixar da sujeição a que nos submete uma grande
miséria como a guerra e de pretender que isso impede de nos entregarmos à vida
do espírito; pelo contrário, é nela que a vida do espírito adquire toda a sua
força e todo o seu ardor.
2. Para um sistema
do conhecimento, o sujeito deve ocupar o seu lugar como objeto, na ordem das
existências reais.
3. É num ponto de
vista psicológico que o sujeito é dado primitivamente, como em Descartes. Na
ordem metafísica, a existência é anterior ao sujeito e necessária para o
fundar.
4. Objetivamente,
o ritmo, subjetivamente, a recordação são os signos sensíveis da eternidade.
5. Quando pomos o
espírito e a matéria num mesmo plano (é o que faz Leibniz quando defende que o
corpo é mónada), temos de desembocar necessariamente na harmonia
pré-estabelecida. Mas se a matéria encontra no espírito o seu fundamento, o
determinismo fica suspenso da liberdade e a necessidade física da necessidade
lógica (pois a liberdade mais não é do que a necessidade lógica).
6. A guerra é uma
febre. Infelizes sejam aqueles que a fazem sem ter esta febre.
7. Os Gregos
tiveram os meios, a clareza e a subtileza, o mais vivo gosto das realidades
intelectuais, a desconfiança e mesmo o desconhecimento das perturbações do
sentimento. A sua dialética tinha-os elevado, com o platonismo, à vida
espiritual. Mas ela subordinou-a, quando era necessário que se tornasse num
simples meio, de acordo com o ímpeto espiritual do cristianismo, para que os
teólogos e os santos reencontrassem, mais tarde, a verdade, quer na intuição
quer no sistema.
8. Nada é mais
contrário à verdade do que a oposição entre a matéria e o espírito. Mas a
matéria que é o produto da inteligência, uma espécie de inteligência inerte,
deve ainda submeter-se às suas leis e figurá-las, a partir do momento em que a
vontade do indivíduo começa a agir sobre ela. Este encontra nela, ao mesmo
tempo, um obstáculo e um meio; e o obstáculo limita-se a atestar que o
indivíduo é finito e que não é criador.
9. O Inferno
parece-me ser o lugar do frio mais do que o lugar do calor. Pois, se Deus está
presente e me queima, as minhas dores serão menores do que se estiver ausente,
ao mesmo tempo que o sol.
10. Há um certo grau de incomodidade material
(precisamente na medida em que parece necessário, sendo muito difícil dele nos
libertarmos) que tira ao espírito toda a liberdade.
11. Igualdade produzida por tudo o que é grande (a
inteligência, o conhecimento) e mesmo as paixões quando são fortes (jogo,
amor).
12. Não há meio-termo entre a indiferença e o
interesse mais exigente.
13. É mais fácil à razão regular as ações do que os
sentimentos. Também é por aqui que devemos começar. É necessário, para que o
sentimento seja posto no seu lugar, que seja o eco de uma boa ação, em vez de
tentar em vão tornar-se no seu princípio.
14. O livro espanhol de Santo Inácio é um livro de
sensualidade. O maior socorro é tomado de empréstimo à imaginação concreta. E
não é possível que um ser mergulhado na sensualidade, mesmo que se lhe oponha,
como aqui, ou que se apoie sobre ela para a vencer, alcance algo diferente do ascetismo das práticas
exteriores. É justamente o contrário da vida do Espírito e de a Imitação.
Do mesmo modo os pecados, as diferentes quedas
que aí podemos ter, as orações, as ações podem ser numeradas cuidadosamente.
15. Vivemos acontecimentos que foram tão exteriores
a nós mesmos, que deles perdemos a marca e a recordação, como quem se desfaz de
uma carapaça.
16. O espírito é libertado da duração pela morte. E,
antes de mais, é o corpo e a alma – não o espírito – que se derramam no tempo.
Tudo o que pertence ao espírito é eterno e, no presente, o espírito ultrapassa
todo o tempo. Mas, pela sua união com a alma, parece que o próprio espírito nos
arrasta. Tal é uma ilusão, se bem que o espírito individual seja libertado pela
morte. Se pretendemos que essa imortalidade nada mais é do que a imortalidade
de Deus, é ainda assim necessário afirmar que, na sua ligação com o corpo que
acaba de se extinguir, o espírito permanece eternamente o que é. Não digamos,
então, que a individualidade se extingue, nem mesmo que, dissolvendo-se a
matéria, a própria base da vida pessoal desapareceu. Porque, ao entrar na
eternidade, o espírito fica eternamente unido às existências que começam ou que
terminam na duração. Assim, o nascimento e a morte pertencem à ordem do tempo.
Mas o devir, tomado na sua totalidade, é uma simultaneidade eterna.
17. A recordação é o remédio por meio do qual
procuramos reter uma realidade que se evapora. Mas como não ser o tempo uma
renovação absoluta, se a eternidade ao juntar-se-lhe não exigisse que os seus
diferentes momentos fossem ligados, sem que qualquer um deles seja
rigorosamente aniquilado.
18. A recordação, imagem sensível da eternidade.
19. Não há melhor prova da imortalidade do que a
necessidade que o espírito tem de permanecer eternamente unido mesmo às
existências finitas que tiveram no tempo um começo e um termo.
20. É preciso ter muitos preconceitos para se poder
entrar na escola da natureza, e aquele que se encontrasse anteriormente no
estado de natureza seria seduzido facilmente por todos os preconceitos. Daqui a
imbecilidade de Rousseau.
21. Parece que a distinção convém sobretudo para
caracterizar as existências materiais e melhor ainda as existências imóveis.
Mas a amizade, o amor, o movimento e mesmo o pensamento não são outras tantas
vitórias sobre a distinção, a inércia e a matéria?
A matéria não é dependente do espírito senão porque
não pode haver distinção sem uma atividade que distinga.
O ponto de vista da distinção efetuada refere-se
ao objeto e à eternidade. A distinção e a atividade constituem bem o seu
princípio e a sua fonte; mas é necessário considerá-los na sua essência
intemporal.
22. O deísmo não é tanto a prioridade histórica
quanto a prioridade lógica de Deus.
23. Tudo o que é da ordem passional é estranho à
divindade.
24. Não há um único acontecimento que não seja
segundo a ordem do tempo e que não faça figura de primeiro começo na ordem da
eternidade.
25. No mais delicado há também para com esta guerra
que se prolonga uma atenção escrupulosa ao menor mal-estar, tomado como sinal
precursor de uma doença que o transportará de volta até à zona da paz.
26. Todas as grandes dificuldades, a criação, as
relações entre Deus e o mundo, a pré-destinação, a liberdade provêm da crença
na existência absoluta do tempo. E estas mesmas dificuldades deveriam ter
conduzido a afirmar a sua idealidade. Mas mais ainda a direção que acompanha a
par e passo o que é vivido e, por consequência, criado à medida. Não queremos
defender que a nossa vida temporal é inexistente enquanto temporal, mas que,
enquanto temporal, encontra o seu lugar marcado no sistema das existências eternas.
27. Pode facilmente imaginar-se o bombardeamento
como condição permanente da vida normal. A todos os outros riscos da vida, será
suficiente acrescentar o risco frequentemente renovado da morte mais
brutal.
28. O ódio do militar por tudo o que pode parecer-se
com o lazer provém de duas causas, a saber:
1. a preocupação técnica, a necessidade de ver o
trabalho realizado (e o mais possível)
2. a autoridade, a necessidade de ver depender
todas as ações de uma ordem. Ora o lazer é livre, incontrolável e divino.
29. Qualquer que seja a potência da vida presente, a
guerra é a maior prova da nossa vida temporal, porque, através da ameaça
constante da morte, retira-nos todo o horizonte.
30. Há na natureza um tipo de mecanismo brutal cujos
efeitos mortíferos não sabemos se são regulados pela Providência. A este
respeito, estamos num estado de passividade em que a matéria em nós, e não a
vida espiritual, se encontra interessada. A nossa limitação sujeita-nos às leis
dum mundo sistemático de que somos, é verdade, os espetadores, mas também os
escravos. Ora, este mundo sistemático é engrandecido pela vontade do homem na
indústria e na guerra. Assim, a matéria tem o seu fundamento no espírito e a
fatalidade na liberdade. E é através de uma visão demasiado simples que
atribuímos diretamente à Providência a distribuição da infelicidade ou da morte
numa grande catástrofe e numa guerra. (Há também este orgulho por meio do qual
queremos que a Providência pense expressamente em nós).
31. O ódio dos soldados aos chefes preservar-nos-á
depois da guerra de uma revolução militar. Não é seguro no entanto, que
estejamos preservados de uma revolução popular.
32. Uma pequena sentinela, para este estreito setor
angular que lhe é confiado durante duas ou três horas de noite, é um elemento
absoluto da linha de defesa e de ataque.
33. A subjetividade, a possibilidade de dizer «eu» é
a mais maravilhosa e a mais comovente das coisas. Não olhar para o universo
apenas como espetador, mas como elemento, como ator, é o bem que em nós há de
divino.
34. Há dois aspetos da guerra: a vida do soldado,
que é uma grosseira farsa, e a destruição dos homens, que a torna sangrenta.
35. A ideia do eu é divina, mas é no e pelo corpo
que ela se realiza sob a forma limitada duma existência humana.
36. O homem suporta mal tudo o que acredita poder
evitar; mas uma vez que os males, as fadigas e as penas são necessários, que é
impossível escapar-lhes, a nossa paciência e a nossa capacidade de resistir são
indefinidamente estendidas.
37. É necessário que tudo o que se escreve o seja
como se nunca devesse ser publicado; e seria necessário que nunca o fosse antes
de morrermos. De outro modo, é impossível que um autor não pense um pouco no
seu público, quer dizer, não aja em consideração da opinião; é impossível que
ele não se embarace na discussão e na defesa, o que retarda e suspende o
exercício do pensamento.
38. O gosto pedagógico marca uma necessidade de
autoridade e um interesse material. Basta empenhar-se, sem pensamento reservado
na descoberta da verdade: é necessário que seja pedagógica por si mesma e não
por meio de qualquer esforço acrescentado.
39. A inteligência parece opor-se ao sentimento
porque ao ultrapassá-lo dele nos isenta. Na sua irradiação perdemos a
consciência do seu calor. Não saboreamos verdadeiramente a bondade própria do
calor senão na obscuridade. No entanto o sol de inverno não se limita a
iluminar: consola. E a luz que permanece glaciar é um escândalo que não se pode
perceber a não ser pela oposição entre o espírito e a matéria, o olho e a pele.
Porque a luz é o calor do espírito.
40. Todos os construtores de sistema foram grandes
enganadores, e a verdade não se encontra senão naqueles que passaram a sua
existência a repetir as mesmas coisas eternas.
41. A verdade para se nos revelar exige ser
solicitada com doçura.
42. O Purgatório representa uma espécie de justiça
humana medíocre e proporcionada. Mas a grande e dominante oposição entre o Céu
e o Inferno mostra que não há graus da virtude – que não nos podemos elevar até
ela sem atingir a santidade, como o apego àquilo que é temporal é sempre
criminoso sem graus. Como poderia haver graus na ordem do absoluto?
43. O temporal não se opõe ao espiritual a não ser
para aquele que nele se absorve; assume também um caráter sagrado quando a ele
nos juntamos.
44. O progresso é a imagem temporal da perfeição.
45. A morte nega o tempo uma vez que o limita. Ela é
um instante, é um ponto geométrico. É também um absoluto, um transcendente. Não
pertence à série relativa de temporal. Daí a impressão divina que
antecipadamente causa em nós. Também nos transporta para fora da existência
temporal, nós, quer dizer, de modo nenhum o eu sensível e carnal, mas o
espírito eterno que aí reside e que é o seu fundamento.
46. Mas o nascimento não é um absoluto, porque não
é, em sentido algum, o primeiro começo. Não é mais do que um desenvolvimento,
como me parece que Malebranche viu. Não pode ser de outra maneira se o tempo é
uma aparência. Mas a morte, ao introduzir um absoluto no curso do tempo, demonstra
que o próprio tempo é uma aparência que tem a sua razão na eternidade.
(Especiosa objeção materialista que a morte mais não é do que uma desagregação.
Mas esta desagregação é precisamente o sinal da abolição de uma série temporal,
por meio da qual a unidade do eu individual se tinha desenvolvido. No
nascimento, pelo contrário, nunca houve criação por composição, mas o
desabrochar de uma riqueza escondida).
47. O que se decompõe depois de ter sido composto
nunca teve verdadeira existência, una e individual.
48. O ritmo é na duração o sinal sensível da
eternidade.
49. Na confissão, há aquela ideia excelente de que o
mal declarado não é mais do que um meio mal. A perturbação e obscuridade da
consciência são a fonte do pecado. Mas é no segredo que a alma escrupulosa
hesita e se tortura a si própria. Não confessando o pecado por palavras claras,
ela discute ainda consigo própria, e a esperança de disfarçar a sua falta é uma
espécie de mentira por meio da qual deixamos de a reconhecer. A luz escorraça
as trevas. Aquele que fala, toma por meio de uma decisão suspensa, consciência
do que fez sem se perder nas subtilezas duma solidão raciocinante e perturbada.
É menos para os outros do que para si, para informar alguém do que para se iluminar
a si próprio, para pôr um termo à perturbação interior e projetar o que estava
escondido num esclarecimento em que, sendo aparente para todos, é também
iluminado aos vossos olhos, para quebrar as hesitações, criando, por meio de
uma separação violenta, um estado violento e decisivo, um absoluto, que é bom,
por vezes, declarar os seus pensamentos secretos. Esta declaração não deve ser
acompanhada por vergonha como na confissão cristã. E eu considerá-la-ia antes
como o fim da vergonha.
50. São Francisco de Sales é para a Imitação
o que a psicologia é para a metafísica.
51. Tanta gente viveu no cristianismo uma vida
puramente espiritual que não nos devemos admirar se esta doutrina encerrar
todas as grandes verdades intelectuais da ordem psicológica e da ordem
metafísica.
52. O pensamento é a flor da atividade. A vida é a
sua raiz, o trabalho dos braços e a técnica, o tronco e os ramos.
53. Nobreza e hereditariedade (figuração da
eternidade) têm o seu mais alto valor numa apreciação social e material das
virtudes. Mas espiritualmente, onde tudo é um primeiro começo, elas não contam.
54. O respeito pelos superiores é uma virtude social
por meio da qual a independência pessoal é salvaguardada.
55. A purgação moral, o isolamento, despojar o
homem velho. Isto é de todos os tempos e de todas as religiões. E é necessário
que tal seja requerido para tornar possível o advento do homem espiritual.
Há uma purgação intelectual que tem os mesmos
caráteres e que encontramos em Descartes.
Mas o erro, as subtilezas, a fragilidade
raciocinante da doutrina da renovação resultam de a corrupção e a renovação
serem escalonadas sobre a linha do tempo, em vez de serem consideradas como
dadas simultaneamente de forma eterna.
56. Não há senão uma única prova da fé: é tê-la. E
nada podemos empreender para tentar dá-la por meio do raciocínio a quem é dela
privado; ceder-lhe-íamos, deste modo, colocando-nos no mesmo terreno. A técnica
do raciocínio nada tem que ver com a iluminação.
57. Os piolhos representam bem o incómodo do
cilício, mas seria necessário para que se pudesse suportar bem, que essa
incomodidade se apresentasse como necessária - em vez de ser voluntária ou de
se acreditar que possa ser suavizada.
58. Para aperceber a verdade, é preciso muita
lucidez e ausência de toda a preocupação. Com demasiada frequência considera-se
que é necessária a força e a subtileza para a construir. Mas recebe-se a
verdade por uma graça; ela não é o produto duma fabricação técnica.
59. Gostaria de me livrar da guerra por três motivos:
- pelo medo, - pela miséria material e escravatura - para não participar na
destruição e no assassinato. Odeio a brutalidade e a materialidade da guerra.
Mas é um flagelo da humanidade que se deve saber suportar como a doença e a
morte.
60. Mais ainda do que a passividade da guerra que
consiste em receber os obuses e em suportar as misérias, odeio a sua atividade
que consiste em avançar com o corpo e matar.
61. Quando o pensamento é estéril, não se deve
forçá-lo, mas recrear o corpo e a imaginação.
62. Não pode existir uma providência geral (Deus
governa o mundo em conformidade com leis gerais – Malebranche) sem que exista
também uma providência particular. Sem o que a existência de cada ser não teria
um lugar atribuído no sistema do universo. Entretanto, não caímos por isso no
fatalismo, porque nenhuma necessidade se impõe ao ser do exterior, pois a sua
vontade faz também parte do conjunto das coisas. De tal maneira que o que
parece pré-determinado quando se olha para Deus é ao mesmo tempo querido quando
se olha para a criatura.
63. Tentações:
1. a experiência do ataque, do ferimento e do
hospital.
2. que a elevação da vida espiritual à qual a
guerra conseguiu trazer-nos não possa ser mantida
e produza o seu fruto.
64. A indiferença, a esterilidade, o mau humor são
os três graus do mal interior.
65. É devido à ambição humana que pedimos para não
morrer antes de terminar a obra necessária que teria podido cumular uma grande
vida. Mas pensar que se morre na hora em que a vida espiritual, apesar das
pequenas misérias interiores, adquiriu o máximo de ardor e o máximo de
elevação, isso torna-nos absolutamente prontos a morrer sem que a vida seja
cobardemente lamentada nem a morte cobardemente desejada.
66. Quando um homem de 20 ou 30 anos descobriu o
sentido do seu destino, podemos dizer que é inútil que a sua vida continue para
o desenvolver ou aprofundar: está num ponto culminante de onde pode olhar a
vida sem remorsos e a morte sem temor.
67. É necessário estar na época da maturidade, na
plenitude da vida, na perfeição do equilíbrio para apreciar o valor da vida e o
sentido da morte. É então que importa não a temermos, mas que estejamos prontos
para ela, para ver nela o evento capital da vida, um evento inseparável da sua
mesma essência e, por consequência, de cada um dos seu momentos.
68. A ameaça permanente da morte dá uma força
singular para viver na instantaneidade.
69. O instantâneo está situado no seio da duração, e
como é a sua negação, é também um puro nada. O eterno, em vez de negar o tempo
no tempo, nega-o porque o absorve e o ultrapassa.
70. O sentimento é para o pensamento o que o calor é
para a luz. E há lareiras que aquecem sem alumiar, como há claridades sem
calor. Mas o homem tem necessidade de calor porque sofre frio, porque tem um
corpo que se arrepia e que treme, ao passo que o corpo é esquecido a partir do
momento em que o mundo e a vida nos são revelados na transparência da luz.
71. Há alguma semelhança entre a cólera e o amor
passional. Nada de mais pessoal do que esses dois sentimentos, nada de mais
contrário à contemplação e à objetividade. Em ambos encontramos um fervilhar
tumultuoso do eu, um tremor que agita o vínculo pelo qual o ser está
relacionado consigo mesmo, como se fosse uma máquina louca em que a tarefa é
antinatural e o emprego impossível.
72. Há uma atonia da vida interior que é mais
contrária à contemplação intelectual do que a agitação e a força dos movimentos
pelos quais a alma é perturbada, mas arrasta e anima a mesma inteligência.
73. O bobo da corte estava encarregado de dizer ao
rei a verdade e de o divertir com chalaças ou de fazer passar as verdades nas
chalaças, o que mostra que a sociedade não dá acesso à verdade a não ser
através do riso. Há entre elas uma contrariedade tão grande que a eterna
gravidade tem de envergar uma máscara ridícula para a resolver. No entanto, enquanto o homem social atribui de
boa fé o ridículo à verdade, o solitário atribui-a à máscara e a este uso
necessário de uma máscara. É por isso que ri de boa fé sob a máscara.
74. A gravidade social é um pouco estupidificante
porque é forçada, a gravidade solitária é alerta e alegre.
75. A alegria social engendra a tristeza interior.
A alegria grave do solitário produz fora de si,
mesmo nas pequenas coisas, uma alegria e um esplendor.
76. O escrúpulo, o arrependimento, a perturbação da
consciência e a preocupação moral são a marca duma vida desregrada e de um
apego contrário à natureza. Há ações e desejos em que o ser se absorve perdendo
o seu equilíbrio e a sua independência. Uma boa ação não é querida nem sentida
como boa. Ela não produziu reflexo no espelho mutável e enganador da
moralidade. Se antes ou depois de ser efetuada uma ação solicita um juízo
imediato de valor e desperta um sentimento derivado, não é inteiramente pura.
Nada de mais impuro do que a boa vontade. Não é negar que haja valores: mas
como as vontades são existências, os valores são também coisas que nós julgamos
metafisicamente tal como todas as outras peças do universo.
A moralidade pertence inteiramente ao mundo do
sentimento e da atividade. À medida que os progressos do intelectualismo são
melhor marcados, a nossa conduta torna-se mais perfeita, e isso reconhece-se no
indício de que a preocupação moral recua para segunda ordem e acaba por se
dissipar.
77. Aquele que comanda não deve querer comandar
sempre, e é necessário que deixe aos seus subordinados esta iniciativa, esta
liberdade de poder seguir o desenvolvimento com benevolência em todas as coisas
que não dependam do comando (pode mesmo daí tirar proveito e instruir-se neste
novo domínio). Esta virtude do bom senso é difícil de exercer, e sobretudo no
exército.
78. Não há qualquer sentimento temporal mesquinho ou
tão baixo que não tenha um sentido profundo e um alto valor humano. Mas o que
há de mau nele é que a ele nos limitamos, é que se toma por um absoluto, em vez
de lhe atribuir o seu lugar na hierarquia espiritual, de o suspender do
pensamento supremo de que tudo depende (assim a volúpia, o gosto das riquezas,
o luxo).
79. O presente é eterno; os momentos sucedem-se numa
série sempre evanescente e sempre renovada. Mas viver no presente não é viver
no momento.
80. O interesse que temos pelo presente é puro e
espiritual; dá à volúpia e à mesma sensualidade um sentido divino. Mas a
preocupação e os maus pensamentos nascem sempre de um interesse transportado
para o futuro. Ao comprometermo-nos assim no tempo adia-se indefinidamente o
momento de viver e nada prova melhor a irrealidade da duração. Mas além de isso
ser falso é desagradável porque a ação e o pensamento tomam um caminho
indireto, oblíquo e ambíguo.
81. Os grandes infortúnios atingem menos o vigor do
pensamento do que as pequenas preocupações.
82. O humor elimina o veneno do escárnio, mas
deixa-lhe o aguilhão, e a uma alma delicada aguça-a.
83. A ninfa Écho interessa-se mais pelo que faz do
que pelo que é, e, na dúvida que tem de si própria, dá como testemunho a ação
que acabou de realizar, e que repete, a fim de a experimentar.
84. Dar a um outro ser espaço para se mover.
85. Os piolhos
É vergonhoso ter piolhos e portanto
confessamo-lo. Os piolhos não habitam nem os cabelos nem a barba como crê o
ignorante do interior. Habitam na pele doce e sem pêlo debaixo da camisa.
Deslocam-se lentamente na cintura, que percorrem em longos périplos, sobre o
peito, ao longo das pernas. Quando chegamos, suportamo-los durante muito tempo
antes de o querer reconhecer, antes de nos decidirmos a procurá-los. Todavia,
com a mão sob a camisa, coçamo-nos furiosamente. E sentimos as suas mordeduras
e os pequenos movimentos duma vida importuna. É um fervilhar de minúsculos
arrepios, uma espécie de fermentação. Finalmente, é preciso que nos convençamos
e os vejamos. A descoberta é esperada e, no entanto exasperante. E a caça
começa, rápida e nervosa. A pulga é um pequeno gafanhoto duro e sanguinolento;
mas o piolho é um pequeno aranhiço aderente e mole; ostenta grotescamente a
forma do sol, com um lóbulo um pouco longo, branco, castanho, ou negro,
consoante a idade e o tamanho e vinte mil cílios arqueados, amarelados e
trémulos. Damos-lhes os nomes agradáveis de “gaux”, que talvez seja
provinciano, e de “totos”, que marca uma familiaridade hostil ou relações de
intimidade e mesmo de quasi-paternidade ridícula e desdenhosa.
Para os apanhar, é necessário despegá-los com
esforço duma prega de roupa, onde eles se agarram, para os esmagar; rebentam
com um som um pouco morno e uma gota de sangue. À noite o soldado, assim que
acorda sobre a palha suja, húmida e fervilhante de vérmina, com todas as
borbulhas desfeitas, dilacera furiosamente a carne e a sua cintura torna-se uma
longa ferida. A pele é vermelha, coberta com borbulhas muito próximas, com nervuras,
que as prolongam e se entrelaçam, de pontos negros e crostas escuras
entremeadas de pequenos regatos sangrentos. No bosque vizinho do abrigo, no
meandro da trincheira, encontramos a cada passo um valentão nu ou meio nu com a
camisa ou as calças na mão, que, sem nada ver do exterior e nada ouvir, procura
laboriosamente o inseto inimigo com uma gravidade imperturbável, a atenção
concentrada e a face tensa: descobre-o ao longo das costuras ou nas pregas;
apanha-o com um gesto limpo e rápido e deita-o fora após o ter sacrificado. Por
vezes arranca com um só golpe de unha um cadáver seco e chato. Espanta-se e
alegra-se quando se apercebe de uma fiada de ovos numa ruga. Isto acontece com
um ritmo regular, sem cólera, e os movimentos têm um ar de gravidade eterna. O
passante detém-se e inquire de forma breve e com um interesse sério e contido
sobre o resultado do exame, antes de continuar o seu caminho. À noite, no
abrigo, os odores de essências e aromas misturam-se, cruzam-se ou opõem-se: o
suave eucalipto, a cânfora de embalsamamento, a mordente benzina, o inseticida
amarelado que ataca a pele dilacerada. O piolho adormece embalado pelos
perfumes. O piolhoso adormece também, confiante na ajuda que vem de fora, mas
enfadado pela luta. Entretanto, isto não é mais do que uma trégua; no dia
seguinte, o piolho agita de novo os seus tentáculos e retoma uma vida
furiosamente aguçada pelo jejum. E o valentão desencorajado recomeça com uma
tristeza sombria a caça por um momento interrompida.
86. É necessário olhar com muita atenção o mundo
sensível. Mas não poderemos fazer uso de todas estas imagens a não ser quando a
memória, ao torná-las espirituais, estiver em estado de fornecer ao nosso
pensamento a argila de que necessita.
87. Aí onde o animal não encontra interesse, o amor
não é íntegro.
88. Ninguém conseguiu jamais dissimular um segredo
de seus sentimentos, e, menos que qualquer outro, o amor, que nos toma
inteiramente.
89. Na Dialética do amor, será necessário mostrar a
sua influência sobre cada uma das suas faculdades, dado que todas elas para tal
contribuem, e a maneira como, agindo umas sobre as outras, produzem, na
desordem, uma espécie de harmonia.
90. Recebemos de Deus todos os dons, um
tesouro infinito. Mas nem sempre sabemos descobri-lo nem utilizá-lo; tudo se
reduz portanto para nós ao método. Mas acontece que aquele que descobriu a
primeira pepita perde para todo o sempre o caminho que acreditava doravante
conhecer. Acontece também que sem qualquer esforço colha doravante às mãos
cheias.
91. O único método é todos os dias respeitar o
lazer intelectual e jamais permitir, ao estado passivo, uma recordação ou um
desejo, preceder o ato. É o ato, se convoca a recordação ou se se incarna, que
será o corpo vivo e espiritual da ideia.
92. As ratazanas
Não são ratos, mas ratazanas, o corpo redondo e
gordo, a cauda afilada e rasa. Elas multiplicam-se. De dia estão aí, prestes a
aparecer, dão testemunho da sua presença através de ruídos rápidos e
intermitentes.
Mas a noite pertence-lhes; é então que opõem com
segurança o seu mundo ruidoso à solidão tranquila dos homens. Os gestos
impacientes e fatigados de quem dorme e desperta não incomodam por um momento
que seja a sua barafunda; porque a noite pertence-lhes, em que o homem está sem
forças e vive uma vida sem efeito.
Debaixo do saco onde quem dorme apoia a sua
cabeça, elas deslizam, elevando as pequenas patas e o seu dorso inchado e
ouvimo-las sem vergonha a trincar o biscoito, cujas migalhas caem umas sobre as
outras, e dilacerar as camisas. Comem também o sabão; trepam aos bornais, onde
furam o chourição, onde raspam o chocolate. Mas a noite pertence-lhes. Acender
uma vela não é mais do que um gesto vão e irreal, nenhuma luz substitui o sol;
guiais os seus passos, e a vela acesa, tão apetecível como o sabão, é levada
entre dentes e arrastada para o fundo das suas tocas.
Correm por cima da cobertura, em fila, com uma
rapidez tornada pesada pela sua gordura, de um corpo a outro, sem receio de
quem dorme, que se volta e sobressalta. Sempre presentes atrás dos ramos ou dos
muros de terra dos abrigos, ouvimo-las passar por caminhos desconhecidos, com
um ruido de ramos roçados, vergados e quebrados, ou de terra esboroada que vem
reunir-se ao chão ou cair sobre os olhos, em pequenos montes de areia.
O/A sentinela na trincheira ouve os mesmos
ruídos ao longo do parapeito. Volta-se com pavor ou dispara um tiro de
espingarda para a sua frente, crendo que uma patrulha se aproxima ou que um
ataque o surpreende. Por vezes, já se deixou dormir quando se ouve o estalido e
continua ali friorento e um pouco confuso até que a emoção tenha passado.
Cada um deles não assume como seus o seu pequeno
ruído e a sua corrida. Os ratos formam cidade; e nesta cidade não há mais do
que um bando que corre, que se entrechoca, que grita, que se bate e se diverte,
foge e volta a gritar. Os gritos, agudos, apressados, incessantes, dominam
todos os ruídos de movimento. E são gritos de surpresa, de luta, de dor, de
raiva e de amor.
Nota dos editores:
A redação deste caderno foi interrompida, sem dúvida
no momento em que Louis Lavelle foi feito prisioneiro. As páginas posteriores
estão em branco, mas têm cada uma um título: «A cidade subterrânea na claridade
da lua», «O vinho», «A ruína», «A manobra no nevoeiro», «O cachimbo»…
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