Pecado original

Pecado original

domingo, 2 de março de 2014

Lavelle

Cadernos de guerra
Na frente[1]
1.    É indiferente que muitos de nós tenham de se queixar da sujeição a que nos submete uma grande miséria como a guerra e de pretender que isso impede de nos entregarmos à vida do espírito; pelo contrário, é nela que a vida do espírito adquire toda a sua força e todo o seu ardor.
2.    Para um sistema do conhecimento, o sujeito deve ocupar o seu lugar como objeto, na ordem das existências reais.
3.    É num ponto de vista psicológico que o sujeito é dado primitivamente, como em Descartes. Na ordem metafísica, a existência é anterior ao sujeito e necessária para o fundar.
4.    Objetivamente, o ritmo, subjetivamente, a recordação são os signos sensíveis da eternidade.
5.    Quando pomos o espírito e a matéria num mesmo plano (é o que faz Leibniz quando defende que o corpo é mónada), temos de desembocar necessariamente na harmonia pré-estabelecida. Mas se a matéria encontra no espírito o seu fundamento, o determinismo fica suspenso da liberdade e a necessidade física da necessidade lógica (pois a liberdade mais não é do que a necessidade lógica).
6.    A guerra é uma febre. Infelizes sejam aqueles que a fazem sem ter esta febre.
7.    Os Gregos tiveram os meios, a clareza e a subtileza, o mais vivo gosto das realidades intelectuais, a desconfiança e mesmo o desconhecimento das perturbações do sentimento. A sua dialética tinha-os elevado, com o platonismo, à vida espiritual. Mas ela subordinou-a, quando era necessário que se tornasse num simples meio, de acordo com o ímpeto espiritual do cristianismo, para que os teólogos e os santos reencontrassem, mais tarde, a verdade, quer na intuição quer no  sistema.
8.    Nada é mais contrário à verdade do que a oposição entre a matéria e o espírito. Mas a matéria que é o produto da inteligência, uma espécie de inteligência inerte, deve ainda submeter-se às suas leis e figurá-las, a partir do momento em que a vontade do indivíduo começa a agir sobre ela. Este encontra nela, ao mesmo tempo, um obstáculo e um meio; e o obstáculo limita-se a atestar que o indivíduo é finito e que não é criador.
9.    O Inferno parece-me ser o lugar do frio mais do que o lugar do calor. Pois, se Deus está presente e me queima, as minhas dores serão menores do que se estiver ausente, ao mesmo tempo que o sol.
10. Há um certo grau de incomodidade material (precisamente na medida em que parece necessário, sendo muito difícil dele nos libertarmos) que tira ao espírito toda a liberdade.
11. Igualdade produzida por tudo o que é grande (a inteligência, o conhecimento) e mesmo as paixões quando são fortes (jogo, amor).
12. Não há meio-termo entre a indiferença e o interesse mais exigente.
13. É mais fácil à razão regular as ações do que os sentimentos. Também é por aqui que devemos começar. É necessário, para que o sentimento seja posto no seu lugar, que seja o eco de uma boa ação, em vez de tentar em vão tornar-se no seu princípio.
14. O livro espanhol de Santo Inácio é um livro de sensualidade. O maior socorro é tomado de empréstimo à imaginação concreta. E não é possível que um ser mergulhado na sensualidade, mesmo que se lhe oponha, como aqui, ou que se apoie sobre ela para a vencer, alcance algo diferente do ascetismo das práticas exteriores. É justamente o contrário da vida do Espírito e de a Imitação.
Do mesmo modo os pecados, as diferentes quedas que aí podemos ter, as orações, as ações podem ser numeradas cuidadosamente.
15. Vivemos acontecimentos que foram tão exteriores a nós mesmos, que deles perdemos a marca e a recordação, como quem se desfaz de uma carapaça.
16. O espírito é libertado da duração pela morte. E, antes de mais, é o corpo e a alma – não o espírito – que se derramam no tempo. Tudo o que pertence ao espírito é eterno e, no presente, o espírito ultrapassa todo o tempo. Mas, pela sua união com a alma, parece que o próprio espírito nos arrasta. Tal é uma ilusão, se bem que o espírito individual seja libertado pela morte. Se pretendemos que essa imortalidade nada mais é do que a imortalidade de Deus, é ainda assim necessário afirmar que, na sua ligação com o corpo que acaba de se extinguir, o espírito permanece eternamente o que é. Não digamos, então, que a individualidade se extingue, nem mesmo que, dissolvendo-se a matéria, a própria base da vida pessoal desapareceu. Porque, ao entrar na eternidade, o espírito fica eternamente unido às existências que começam ou que terminam na duração. Assim, o nascimento e a morte pertencem à ordem do tempo. Mas o devir, tomado na sua totalidade, é uma simultaneidade eterna.
17. A recordação é o remédio por meio do qual procuramos reter uma realidade que se evapora. Mas como não ser o tempo uma renovação absoluta, se a eternidade ao juntar-se-lhe não exigisse que os seus diferentes momentos fossem ligados, sem que qualquer um deles seja rigorosamente aniquilado.
18. A recordação, imagem sensível da eternidade.
19. Não há melhor prova da imortalidade do que a necessidade que o espírito tem de permanecer eternamente unido mesmo às existências finitas que tiveram no tempo um começo e um termo.
20. É preciso ter muitos preconceitos para se poder entrar na escola da natureza, e aquele que se encontrasse anteriormente no estado de natureza seria seduzido facilmente por todos os preconceitos. Daqui a imbecilidade de Rousseau.
21. Parece que a distinção convém sobretudo para caracterizar as existências materiais e melhor ainda as existências imóveis. Mas a amizade, o amor, o movimento e mesmo o pensamento não são outras tantas vitórias sobre a distinção, a inércia e a matéria?
A matéria não é dependente do espírito senão porque não pode haver distinção sem uma atividade que distinga.
O ponto de vista da distinção efetuada refere-se ao objeto e à eternidade. A distinção e a atividade constituem bem o seu princípio e a sua fonte; mas é necessário considerá-los na sua essência intemporal.
22. O deísmo não é tanto a prioridade histórica quanto a prioridade lógica de Deus.
23. Tudo o que é da ordem passional é estranho à divindade.
24. Não há um único acontecimento que não seja segundo a ordem do tempo e que não faça figura de primeiro começo na ordem da eternidade.
25. No mais delicado há também para com esta guerra que se prolonga uma atenção escrupulosa ao menor mal-estar, tomado como sinal precursor de uma doença que o transportará de volta até à zona da paz.
26. Todas as grandes dificuldades, a criação, as relações entre Deus e o mundo, a pré-destinação, a liberdade provêm da crença na existência absoluta do tempo. E estas mesmas dificuldades deveriam ter conduzido a afirmar a sua idealidade. Mas mais ainda a direção que acompanha a par e passo o que é vivido e, por consequência, criado à medida. Não queremos defender que a nossa vida temporal é inexistente enquanto temporal, mas que, enquanto temporal, encontra o seu lugar marcado no sistema das existências eternas.
27. Pode facilmente imaginar-se o bombardeamento como condição permanente da vida normal. A todos os outros riscos da vida, será suficiente acrescentar o risco frequentemente renovado da morte mais brutal. 
28. O ódio do militar por tudo o que pode parecer-se com o lazer provém de duas causas, a saber:
1. a preocupação técnica, a necessidade de ver o trabalho realizado (e o mais possível)
2. a autoridade, a necessidade de ver depender todas as ações de uma ordem. Ora o lazer é livre, incontrolável e divino.
29. Qualquer que seja a potência da vida presente, a guerra é a maior prova da nossa vida temporal, porque, através da ameaça constante da morte, retira-nos todo o horizonte.
30. Há na natureza um tipo de mecanismo brutal cujos efeitos mortíferos não sabemos se são regulados pela Providência. A este respeito, estamos num estado de passividade em que a matéria em nós, e não a vida espiritual, se encontra interessada. A nossa limitação sujeita-nos às leis dum mundo sistemático de que somos, é verdade, os espetadores, mas também os escravos. Ora, este mundo sistemático é engrandecido pela vontade do homem na indústria e na guerra. Assim, a matéria tem o seu fundamento no espírito e a fatalidade na liberdade. E é através de uma visão demasiado simples que atribuímos diretamente à Providência a distribuição da infelicidade ou da morte numa grande catástrofe e numa guerra. (Há também este orgulho por meio do qual queremos que a Providência pense expressamente em nós).
31. O ódio dos soldados aos chefes preservar-nos-á depois da guerra de uma revolução militar. Não é seguro no entanto, que estejamos preservados de uma revolução popular.
32. Uma pequena sentinela, para este estreito setor angular que lhe é confiado durante duas ou três horas de noite, é um elemento absoluto da linha de defesa e de ataque.
33. A subjetividade, a possibilidade de dizer «eu» é a mais maravilhosa e a mais comovente das coisas. Não olhar para o universo apenas como espetador, mas como elemento, como ator, é o bem que em nós há de divino.
34. Há dois aspetos da guerra: a vida do soldado, que é uma grosseira farsa, e a destruição dos homens, que a torna sangrenta.
35. A ideia do eu é divina, mas é no e pelo corpo que ela se realiza sob a forma limitada duma existência humana.
36. O homem suporta mal tudo o que acredita poder evitar; mas uma vez que os males, as fadigas e as penas são necessários, que é impossível escapar-lhes, a nossa paciência e a nossa capacidade de resistir são indefinidamente estendidas.
37. É necessário que tudo o que se escreve o seja como se nunca devesse ser publicado; e seria necessário que nunca o fosse antes de morrermos. De outro modo, é impossível que um autor não pense um pouco no seu público, quer dizer, não aja em consideração da opinião; é impossível que ele não se embarace na discussão e na defesa, o que retarda e suspende o exercício do pensamento.
38. O gosto pedagógico marca uma necessidade de autoridade e um interesse material. Basta empenhar-se, sem pensamento reservado na descoberta da verdade: é necessário que seja pedagógica por si mesma e não por meio de qualquer esforço acrescentado.
39. A inteligência parece opor-se ao sentimento porque ao ultrapassá-lo dele nos isenta. Na sua irradiação perdemos a consciência do seu calor. Não saboreamos verdadeiramente a bondade própria do calor senão na obscuridade. No entanto o sol de inverno não se limita a iluminar: consola. E a luz que permanece glaciar é um escândalo que não se pode perceber a não ser pela oposição entre o espírito e a matéria, o olho e a pele. Porque a luz é o calor do espírito.
40. Todos os construtores de sistema foram grandes enganadores, e a verdade não se encontra senão naqueles que passaram a sua existência a repetir as mesmas coisas eternas.
41. A verdade para se nos revelar exige ser solicitada com doçura.
42. O Purgatório representa uma espécie de justiça humana medíocre e proporcionada. Mas a grande e dominante oposição entre o Céu e o Inferno mostra que não há graus da virtude – que não nos podemos elevar até ela sem atingir a santidade, como o apego àquilo que é temporal é sempre criminoso sem graus. Como poderia haver graus na ordem do absoluto?
43. O temporal não se opõe ao espiritual a não ser para aquele que nele se absorve; assume também um caráter sagrado quando a ele nos juntamos.
44. O progresso é a imagem temporal da perfeição.
45. A morte nega o tempo uma vez que o limita. Ela é um instante, é um ponto geométrico. É também um absoluto, um transcendente. Não pertence à série relativa de temporal. Daí a impressão divina que antecipadamente causa em nós. Também nos transporta para fora da existência temporal, nós, quer dizer, de modo nenhum o eu sensível e carnal, mas o espírito eterno que aí reside e que é o seu fundamento.
46. Mas o nascimento não é um absoluto, porque não é, em sentido algum, o primeiro começo. Não é mais do que um desenvolvimento, como me parece que Malebranche viu. Não pode ser de outra maneira se o tempo é uma aparência. Mas a morte, ao introduzir um absoluto no curso do tempo, demonstra que o próprio tempo é uma aparência que tem a sua razão na eternidade. (Especiosa objeção materialista que a morte mais não é do que uma desagregação. Mas esta desagregação é precisamente o sinal da abolição de uma série temporal, por meio da qual a unidade do eu individual se tinha desenvolvido. No nascimento, pelo contrário, nunca houve criação por composição, mas o desabrochar de uma riqueza escondida).
47. O que se decompõe depois de ter sido composto nunca teve verdadeira existência, una e individual.
48. O ritmo é na duração o sinal sensível da eternidade.
49. Na confissão, há aquela ideia excelente de que o mal declarado não é mais do que um meio mal. A perturbação e obscuridade da consciência são a fonte do pecado. Mas é no segredo que a alma escrupulosa hesita e se tortura a si própria. Não confessando o pecado por palavras claras, ela discute ainda consigo própria, e a esperança de disfarçar a sua falta é uma espécie de mentira por meio da qual deixamos de a reconhecer. A luz escorraça as trevas. Aquele que fala, toma por meio de uma decisão suspensa, consciência do que fez sem se perder nas subtilezas duma solidão raciocinante e perturbada. É menos para os outros do que para si, para informar alguém do que para se iluminar a si próprio, para pôr um termo à perturbação interior e projetar o que estava escondido num esclarecimento em que, sendo aparente para todos, é também iluminado aos vossos olhos, para quebrar as hesitações, criando, por meio de uma separação violenta, um estado violento e decisivo, um absoluto, que é bom, por vezes, declarar os seus pensamentos secretos. Esta declaração não deve ser acompanhada por vergonha como na confissão cristã. E eu considerá-la-ia antes como o fim da vergonha.
50. São Francisco de Sales é para a Imitação o que a psicologia é para a metafísica.
51. Tanta gente viveu no cristianismo uma vida puramente espiritual que não nos devemos admirar se esta doutrina encerrar todas as grandes verdades intelectuais da ordem psicológica e da ordem metafísica.
52. O pensamento é a flor da atividade. A vida é a sua raiz, o trabalho dos braços e a técnica, o tronco e os ramos.
53. Nobreza e hereditariedade (figuração da eternidade) têm o seu mais alto valor numa apreciação social e material das virtudes. Mas espiritualmente, onde tudo é um primeiro começo, elas não contam.
54. O respeito pelos superiores é uma virtude social por meio da qual a independência pessoal é salvaguardada.
55.  A purgação moral, o isolamento, despojar o homem velho. Isto é de todos os tempos e de todas as religiões. E é necessário que tal seja requerido para tornar possível o advento do homem espiritual.
Há uma purgação intelectual que tem os mesmos caráteres e que encontramos em Descartes.
Mas o erro, as subtilezas, a fragilidade raciocinante da doutrina da renovação resultam de a corrupção e a renovação serem escalonadas sobre a linha do tempo, em vez de serem consideradas como dadas simultaneamente de forma eterna.
56. Não há senão uma única prova da fé: é tê-la. E nada podemos empreender para tentar dá-la por meio do raciocínio a quem é dela privado; ceder-lhe-íamos, deste modo, colocando-nos no mesmo terreno. A técnica do raciocínio nada tem que ver com a iluminação.
57. Os piolhos representam bem o incómodo do cilício, mas seria necessário para que se pudesse suportar bem, que essa incomodidade se apresentasse como necessária - em vez de ser voluntária ou de se acreditar que possa ser suavizada.
58. Para aperceber a verdade, é preciso muita lucidez e ausência de toda a preocupação. Com demasiada frequência considera-se que é necessária a força e a subtileza para a construir. Mas recebe-se a verdade por uma graça; ela não é o produto duma fabricação técnica.
59. Gostaria de me livrar da guerra por três motivos: - pelo medo, - pela miséria material e escravatura - para não participar na destruição e no assassinato. Odeio a brutalidade e a materialidade da guerra. Mas é um flagelo da humanidade que se deve saber suportar como a doença e a morte.
60. Mais ainda do que a passividade da guerra que consiste em receber os obuses e em suportar as misérias, odeio a sua atividade que consiste em avançar com o corpo e matar.
61. Quando o pensamento é estéril, não se deve forçá-lo, mas recrear o corpo e a imaginação.
62. Não pode existir uma providência geral (Deus governa o mundo em conformidade com leis gerais – Malebranche) sem que exista também uma providência particular. Sem o que a existência de cada ser não teria um lugar atribuído no sistema do universo. Entretanto, não caímos por isso no fatalismo, porque nenhuma necessidade se impõe ao ser do exterior, pois a sua vontade faz também parte do conjunto das coisas. De tal maneira que o que parece pré-determinado quando se olha para Deus é ao mesmo tempo querido quando se olha para a criatura.
63. Tentações:
1. a experiência do ataque, do ferimento e do hospital.
2. que a elevação da vida espiritual à qual a guerra conseguiu trazer-nos não possa ser mantida e produza o seu fruto.
64. A indiferença, a esterilidade, o mau humor são os três graus do mal interior.
65. É devido à ambição humana que pedimos para não morrer antes de terminar a obra necessária que teria podido cumular uma grande vida. Mas pensar que se morre na hora em que a vida espiritual, apesar das pequenas misérias interiores, adquiriu o máximo de ardor e o máximo de elevação, isso torna-nos absolutamente prontos a morrer sem que a vida seja cobardemente lamentada nem a morte cobardemente desejada.
66. Quando um homem de 20 ou 30 anos descobriu o sentido do seu destino, podemos dizer que é inútil que a sua vida continue para o desenvolver ou aprofundar: está num ponto culminante de onde pode olhar a vida sem remorsos e a morte sem temor.
67. É necessário estar na época da maturidade, na plenitude da vida, na perfeição do equilíbrio para apreciar o valor da vida e o sentido da morte. É então que importa não a temermos, mas que estejamos prontos para ela, para ver nela o evento capital da vida, um evento inseparável da sua mesma essência e, por consequência, de cada um dos seu momentos.
68. A ameaça permanente da morte dá uma força singular para viver na instantaneidade.
69. O instantâneo está situado no seio da duração, e como é a sua negação, é também um puro nada. O eterno, em vez de negar o tempo no tempo, nega-o porque o absorve e o ultrapassa.
70. O sentimento é para o pensamento o que o calor é para a luz. E há lareiras que aquecem sem alumiar, como há claridades sem calor. Mas o homem tem necessidade de calor porque sofre frio, porque tem um corpo que se arrepia e que treme, ao passo que o corpo é esquecido a partir do momento em que o mundo e a vida nos são revelados na transparência da luz.
71. Há alguma semelhança entre a cólera e o amor passional. Nada de mais pessoal do que esses dois sentimentos, nada de mais contrário à contemplação e à objetividade. Em ambos encontramos um fervilhar tumultuoso do eu, um tremor que agita o vínculo pelo qual o ser está relacionado consigo mesmo, como se fosse uma máquina louca em que a tarefa é antinatural e o emprego impossível.
72. Há uma atonia da vida interior que é mais contrária à contemplação intelectual do que a agitação e a força dos movimentos pelos quais a alma é perturbada, mas arrasta e anima a mesma inteligência.
73. O bobo da corte estava encarregado de dizer ao rei a verdade e de o divertir com chalaças ou de fazer passar as verdades nas chalaças, o que mostra que a sociedade não dá acesso à verdade a não ser através do riso. Há entre elas uma contrariedade tão grande que a eterna gravidade tem de envergar uma máscara ridícula para a resolver. No entanto, enquanto o homem social atribui de boa fé o ridículo à verdade, o solitário atribui-a à máscara e a este uso necessário de uma máscara. É por isso que ri de boa fé sob a máscara.
74. A gravidade social é um pouco estupidificante porque é forçada, a gravidade solitária é alerta e alegre.
75. A alegria social engendra a tristeza interior.
A alegria grave do solitário produz fora de si, mesmo nas pequenas coisas, uma alegria e um esplendor.
76. O escrúpulo, o arrependimento, a perturbação da consciência e a preocupação moral são a marca duma vida desregrada e de um apego contrário à natureza. Há ações e desejos em que o ser se absorve perdendo o seu equilíbrio e a sua independência. Uma boa ação não é querida nem sentida como boa. Ela não produziu reflexo no espelho mutável e enganador da moralidade. Se antes ou depois de ser efetuada uma ação solicita um juízo imediato de valor e desperta um sentimento derivado, não é inteiramente pura. Nada de mais impuro do que a boa vontade. Não é negar que haja valores: mas como as vontades são existências, os valores são também coisas que nós julgamos metafisicamente tal como todas as outras peças do universo.
A moralidade pertence inteiramente ao mundo do sentimento e da atividade. À medida que os progressos do intelectualismo são melhor marcados, a nossa conduta torna-se mais perfeita, e isso reconhece-se no indício de que a preocupação moral recua para segunda ordem e acaba por se dissipar.
77. Aquele que comanda não deve querer comandar sempre, e é necessário que deixe aos seus subordinados esta iniciativa, esta liberdade de poder seguir o desenvolvimento com benevolência em todas as coisas que não dependam do comando (pode mesmo daí tirar proveito e instruir-se neste novo domínio). Esta virtude do bom senso é difícil de exercer, e sobretudo no exército.
78. Não há qualquer sentimento temporal mesquinho ou tão baixo que não tenha um sentido profundo e um alto valor humano. Mas o que há de mau nele é que a ele nos limitamos, é que se toma por um absoluto, em vez de lhe atribuir o seu lugar na hierarquia espiritual, de o suspender do pensamento supremo de que tudo depende (assim a volúpia, o gosto das riquezas, o luxo).
79. O presente é eterno; os momentos sucedem-se numa série sempre evanescente e sempre renovada. Mas viver no presente não é viver no momento.
80. O interesse que temos pelo presente é puro e espiritual; dá à volúpia e à mesma sensualidade um sentido divino. Mas a preocupação e os maus pensamentos nascem sempre de um interesse transportado para o futuro. Ao comprometermo-nos assim no tempo adia-se indefinidamente o momento de viver e nada prova melhor a irrealidade da duração. Mas além de isso ser falso é desagradável porque a ação e o pensamento tomam um caminho indireto, oblíquo e ambíguo.
81. Os grandes infortúnios atingem menos o vigor do pensamento do que as pequenas preocupações.
82. O humor elimina o veneno do escárnio, mas deixa-lhe o aguilhão, e a uma alma delicada aguça-a.
83. A ninfa Écho interessa-se mais pelo que faz do que pelo que é, e, na dúvida que tem de si própria, dá como testemunho a ação que acabou de realizar, e que repete, a fim de a experimentar.
84. Dar a um outro ser espaço para se mover.
85. Os piolhos
É vergonhoso ter piolhos e portanto confessamo-lo. Os piolhos não habitam nem os cabelos nem a barba como crê o ignorante do interior. Habitam na pele doce e sem pêlo debaixo da camisa. Deslocam-se lentamente na cintura, que percorrem em longos périplos, sobre o peito, ao longo das pernas. Quando chegamos, suportamo-los durante muito tempo antes de o querer reconhecer, antes de nos decidirmos a procurá-los. Todavia, com a mão sob a camisa, coçamo-nos furiosamente. E sentimos as suas mordeduras e os pequenos movimentos duma vida importuna. É um fervilhar de minúsculos arrepios, uma espécie de fermentação. Finalmente, é preciso que nos convençamos e os vejamos. A descoberta é esperada e, no entanto exasperante. E a caça começa, rápida e nervosa. A pulga é um pequeno gafanhoto duro e sanguinolento; mas o piolho é um pequeno aranhiço aderente e mole; ostenta grotescamente a forma do sol, com um lóbulo um pouco longo, branco, castanho, ou negro, consoante a idade e o tamanho e vinte mil cílios arqueados, amarelados e trémulos. Damos-lhes os nomes agradáveis de “gaux”, que talvez seja provinciano, e de “totos”, que marca uma familiaridade hostil ou relações de intimidade e mesmo de quasi-paternidade ridícula e desdenhosa.
Para os apanhar, é necessário despegá-los com esforço duma prega de roupa, onde eles se agarram, para os esmagar; rebentam com um som um pouco morno e uma gota de sangue. À noite o soldado, assim que acorda sobre a palha suja, húmida e fervilhante de vérmina, com todas as borbulhas desfeitas, dilacera furiosamente a carne e a sua cintura torna-se uma longa ferida. A pele é vermelha, coberta com borbulhas muito próximas, com nervuras, que as prolongam e se entrelaçam, de pontos negros e crostas escuras entremeadas de pequenos regatos sangrentos. No bosque vizinho do abrigo, no meandro da trincheira, encontramos a cada passo um valentão nu ou meio nu com a camisa ou as calças na mão, que, sem nada ver do exterior e nada ouvir, procura laboriosamente o inseto inimigo com uma gravidade imperturbável, a atenção concentrada e a face tensa: descobre-o ao longo das costuras ou nas pregas; apanha-o com um gesto limpo e rápido e deita-o fora após o ter sacrificado. Por vezes arranca com um só golpe de unha um cadáver seco e chato. Espanta-se e alegra-se quando se apercebe de uma fiada de ovos numa ruga. Isto acontece com um ritmo regular, sem cólera, e os movimentos têm um ar de gravidade eterna. O passante detém-se e inquire de forma breve e com um interesse sério e contido sobre o resultado do exame, antes de continuar o seu caminho. À noite, no abrigo, os odores de essências e aromas misturam-se, cruzam-se ou opõem-se: o suave eucalipto, a cânfora de embalsamamento, a mordente benzina, o inseticida amarelado que ataca a pele dilacerada. O piolho adormece embalado pelos perfumes. O piolhoso adormece também, confiante na ajuda que vem de fora, mas enfadado pela luta. Entretanto, isto não é mais do que uma trégua; no dia seguinte, o piolho agita de novo os seus tentáculos e retoma uma vida furiosamente aguçada pelo jejum. E o valentão desencorajado recomeça com uma tristeza sombria a caça por um momento interrompida.
86. É necessário olhar com muita atenção o mundo sensível. Mas não poderemos fazer uso de todas estas imagens a não ser quando a memória, ao torná-las espirituais, estiver em estado de fornecer ao nosso pensamento a argila de que necessita.
87. Aí onde o animal não encontra interesse, o amor não é íntegro.
88. Ninguém conseguiu jamais dissimular um segredo de seus sentimentos, e, menos que qualquer outro, o amor, que nos toma inteiramente.
89. Na Dialética do amor, será necessário mostrar a sua influência sobre cada uma das suas faculdades, dado que todas elas para tal contribuem, e a maneira como, agindo umas sobre as outras, produzem, na desordem, uma espécie de harmonia.
90.  Recebemos de Deus todos os dons, um tesouro infinito. Mas nem sempre sabemos descobri-lo nem utilizá-lo; tudo se reduz portanto para nós ao método. Mas acontece que aquele que descobriu a primeira pepita perde para todo o sempre o caminho que acreditava doravante conhecer. Acontece também que sem qualquer esforço colha doravante às mãos cheias.
91.  O único método é todos os dias respeitar o lazer intelectual e jamais permitir, ao estado passivo, uma recordação ou um desejo, preceder o ato. É o ato, se convoca a recordação ou se se incarna, que será o corpo vivo e espiritual da ideia.
92.  As ratazanas
Não são ratos, mas ratazanas, o corpo redondo e gordo, a cauda afilada e rasa. Elas multiplicam-se. De dia estão aí, prestes a aparecer, dão testemunho da sua presença através de ruídos rápidos e intermitentes.
Mas a noite pertence-lhes; é então que opõem com segurança o seu mundo ruidoso à solidão tranquila dos homens. Os gestos impacientes e fatigados de quem dorme e desperta não incomodam por um momento que seja a sua barafunda; porque a noite pertence-lhes, em que o homem está sem forças e vive uma vida sem efeito.
Debaixo do saco onde quem dorme apoia a sua cabeça, elas deslizam, elevando as pequenas patas e o seu dorso inchado e ouvimo-las sem vergonha a trincar o biscoito, cujas migalhas caem umas sobre as outras, e dilacerar as camisas. Comem também o sabão; trepam aos bornais, onde furam o chourição, onde raspam o chocolate. Mas a noite pertence-lhes. Acender uma vela não é mais do que um gesto vão e irreal, nenhuma luz substitui o sol; guiais os seus passos, e a vela acesa, tão apetecível como o sabão, é levada entre dentes e arrastada para o fundo das suas tocas.
Correm por cima da cobertura, em fila, com uma rapidez tornada pesada pela sua gordura, de um corpo a outro, sem receio de quem dorme, que se volta e sobressalta. Sempre presentes atrás dos ramos ou dos muros de terra dos abrigos, ouvimo-las passar por caminhos desconhecidos, com um ruido de ramos roçados, vergados e quebrados, ou de terra esboroada que vem reunir-se ao chão ou cair sobre os olhos, em pequenos montes de areia.
O/A sentinela na trincheira ouve os mesmos ruídos ao longo do parapeito. Volta-se com pavor ou dispara um tiro de espingarda para a sua frente, crendo que uma patrulha se aproxima ou que um ataque o surpreende. Por vezes, já se deixou dormir quando se ouve o estalido e continua ali friorento e um pouco confuso até que a emoção tenha passado.
Cada um deles não assume como seus o seu pequeno ruído e a sua corrida. Os ratos formam cidade; e nesta cidade não há mais do que um bando que corre, que se entrechoca, que grita, que se bate e se diverte, foge e volta a gritar. Os gritos, agudos, apressados, incessantes, dominam todos os ruídos de movimento. E são gritos de surpresa, de luta, de dor, de raiva e de amor.

Nota dos editores:

A redação deste caderno foi interrompida, sem dúvida no momento em que Louis Lavelle foi feito prisioneiro. As páginas posteriores estão em branco, mas têm cada uma um título: «A cidade subterrânea na claridade da lua», «O vinho», «A ruína», «A manobra no nevoeiro», «O cachimbo»…



[1] Tradução - Francisco Vaz, Revisão - Américo Pereira

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