Pecado original

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domingo, 2 de março de 2014

A felicidade, o optimismo e a esperança

A felicidade, o optimismo e a esperança

O tema que nos foi proposto abordar é por si só tão vasto que se torna difícil fazer em poucas linhas um enquadramento adequado à sua discussão. Muito haveria que dizer tendo em conta as várias formas de o abordar e as diferentes correntes filosóficas e universos culturais que nos dão definições e conceitos por vezes opostos.
Optamos por isso por procurar dar algumas pistas e levantar algumas questões de forma muito sintética, deixando em aberto o rumo que virá a ser seguido durante a discussão do tema.
Advertimos também que um diálogo filosófico não pede que se concorde com ele nem pretende apontar o caminho. Ele deve, acima de tudo, lançar a semente da dúvida e, quando ela vinga, colher o fruto da busca e da reflexão partilhada.
A discussão que será feita na forma de tertúlia, que na sua essência é uma reunião de amigos para discutir temas de interesse comum, permitirá pôr questões e tecer comentários sobre o tema em questão.
Quais as relações entre o processo civilizacional e a felicidade humana? Os benefícios da civilização são tangíveis e passíveis de serem medidos? Até que ponto a civilização moderna tem promovido ou dificultado a busca da felicidade? Um conjunto expressivo de indicadores biomédicos, sociais e económicos atesta os ganhos objetivos em termos de longevidade, saúde, escolarização, acesso a bens de consumo e tantos outros feitos derivados do progresso científico e do aumento da produtividade. Mas quais têm sido os efeitos de todas essas brilhantes conquistas no tocante à felicidade, ou seja, tendo em vista a nossa satisfação de viver e o grau de realização que esperamos alcançar?
O que revelam e quais são as relações entre indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar? Existirão custos ocultos no processo civilizacional? E se fosse inventada uma “pílula da felicidade instantânea”, estaria resolvido o problema?
Estas e outras são questões que se revestem duma particular acuidade num momento em que a humanidade atingiu padrões de desenvolvimento sem paralelo e sistemas de comunicação sofisticados parecem unificar essa mesma humanidade. Mas será assim ou teria razão Chesterton quando dizia que “barbárie e civilização nunca foram estágios sucessivos no progresso do mundo. Foram condições que existiram lado a lado como ainda existem lado a lado. Houve civilizações então como há civilizações agora; há selvagens agora como os havia naquela época.”
Felicidade optimismo e esperança são conceitos que existem isolados ou estarão, pelo contrário, interligados? Para alguns filósofos a felicidade não é o fim último do homem sobre a terra. É este, por exemplo, o caso de Agostinho da Silva que diz “Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não ser feliz...”
Em retrospectiva parece não haver margem para dúvida de que os avanços no campo da ciência, da tecnologia e da produtividade trouxeram enormes benefícios na vida das pessoas em termos de saúde, conforto, rendimentos e condições de trabalho.
Entre as crenças que povoavam a imaginação e a visão de um futuro iluminista, uma em particular revelou-se problemática: a noção de que os avanços da ciência, da técnica e da razão teriam o dom não só de melhorar as condições objetivas de vida, mas atenderiam também aos anseios de felicidade, de bem estar subjetivo e de realização existencial da humanidade.
É o mundo maravilhosamente descrito pelos pintores impressionistas cujas telas refletem a inocência, a alegria, os reflexos coloridos da natureza, a leveza, a despreocupação. As pinturas de Renoir e Monet são manifestações dessa alma feliz. Mas essa viagem maravilhosa em direção à Cidade Santa, fulgurante no alto da montanha, revelou um outro  destino: a barbárie. Tornando-se possuidor de um conhecimento científico quantitativamente muito superior a todo o conhecimento acumulado no passado o homem, no entanto, revelou a sua fragilidade provavelmente devido a um duvidoso e grosseiro simulacro de educação: os saberes e a ciência não produziram nem sabedoria nem bondade. Foi esse homem supostamente educado e conhecedor da ciência que produziu duas das mais terríveis e devastadoras tragédias que se abateram sobre a humanidade: as duas guerra civis europeias da primeira metade do século XX, que de facto se jogaram um pouco por todo o globo. Na opinião do filósofo A. Devaux “A guerra veio arruinar duas ilusões que o século XIX tinha alimentado: a ilusão de que a ciência faria da terra um novo Éden, a ilusão de que o direito bastaria para estabelecer a paz e a justiça ao mesmo tempo”.
De facto aconteceram os campos de extermínio do comunismo e do nazismo, a criação de armamento cada vez mais letal, uma riqueza jamais sonhada e milhões que morrem de fome, genocídios, a destruição da natureza e das fontes de vida, as cidades infernais, a violência, o terrorismo armado com armas produzidas e vendidas por empresas geradoras de progresso. Haverá hoje razões  para  otimismo?
De facto basta-nos ligar a televisão, ler um jornal ou aceder a um qualquer canal informativo multimédia para constatar esta realidade violentamente atual e atuante que nos entra diariamente portas adentro.
Por outro lado, ouvimos frequentemente dizer a máxima já muito gasta de que a “esperança é a ultima coisa a morrer”, como se a esperança fosse um álibi para continuarmos a viver sem complicações e inquietações de consciência; ou como um pretexto que permite adiar “sine die” a oportuna retificação da conduta e a luta para atingir metas mais nobres. Será que o bem existe? Será que vale a pena trabalhar no sentido do bem? Vale ou não vale a pena ser bom?
De facto fica-se longe de se obter uma coisa, quando se malogra o desejo de a possuir. Quando se limita a esperança a uma ilusão, ao simples consolo ante as angústias da vida, não estaremos a transformá-la numa fria veleidade que apenas pode conduzir ao desespero?
Afirmava Leonardo Castellani que o desespero “é o sentimento profundo de que tudo isto nada vale, de que o viver não compensa e é definitivamente um engano; e este sentimento é fatalmente consequente com a convicção de que não há vida depois da morte”.
É este o desespero com que nos deparamos, na falta de um sentido último para o ser. Este pensamento é já patente na Grécia antiga com filósofos como Demócrito de Abdera, para quem o ser não tinha um absoluto que o sustentasse e o mundo era um caos geral entrecortado por alguns momentos inexplicáveis de aquilo a que nós chamamos ordem. Na modernidade, filósofos como Schopenhauer, vêm, na senda de Demócrito, defender a tese de que “este é o pior dos mundos possíveis”, que “toda a vida é sofrimento” e portanto “era melhor não ter nascido”.
Por outro lado, encontramos também já no pensamento grego, no primeiro dos academicamente chamados filósofos, Tales de Mileto, “a intuição do absoluto do ser, de isso que é a pura atualidade de haver algo, sempre em oposição e em absoluta contradição com o nada”. É no seguimento desta tradição que mais tarde a pessoa surge no pensamento filosófico como uma categoria espiritual e o seu valor incomensurável é afirmado pela teologia cristã, dando sentido à esperança porque pensada e inscrita num horizonte de transcendência.
A terminar deixamos mais algumas questões em aberto:
O que podemos esperar? Tem sentido uma esperança humana finita ou necessitamos de uma esperança com outros horizontes?
            O que havia de errado e o que permanece vivo no projeto iluminista de conquista da felicidade por meio do progresso científico e material?
            Até que ponto as nossas escolhas têm conduzido à criação de condições adequadas para vidas mais livres e dignas de serem vividas?
            Que lições tirar das conquistas e desacertos das nações que lideram o processo e o progresso civilizacional?
            A civilização entristece o animal humano?
            Qual deverá ser o lugar da felicidade do otimismo e da esperança na busca da melhor vida, ou seja, de uma vida que vale a pena viver?


3 de Setembro de 2013
Francisco Vaz

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