A felicidade, o optimismo e a esperança
O tema que nos foi proposto abordar é por si só tão vasto que se torna
difícil fazer em poucas linhas um enquadramento adequado à sua discussão. Muito
haveria que dizer tendo em conta as várias formas de o abordar e as diferentes
correntes filosóficas e universos culturais que nos dão definições e conceitos
por vezes opostos.
Optamos por isso por procurar dar algumas pistas e levantar algumas
questões de forma muito sintética, deixando em aberto o rumo que virá a ser
seguido durante a discussão do tema.
Advertimos também que um diálogo filosófico não pede que se concorde com
ele nem pretende apontar o caminho. Ele deve, acima de tudo, lançar a semente
da dúvida e, quando ela vinga, colher o fruto da busca e da reflexão partilhada.
A discussão que será feita na forma de tertúlia, que na sua essência é uma
reunião de amigos para discutir temas de interesse comum, permitirá pôr
questões e tecer comentários sobre o tema em questão.
Quais as relações entre o processo civilizacional e a felicidade humana? Os
benefícios da civilização são tangíveis e passíveis de serem medidos? Até que
ponto a civilização moderna tem promovido ou dificultado a busca da felicidade?
Um conjunto expressivo de indicadores biomédicos, sociais e económicos atesta
os ganhos objetivos em termos de longevidade, saúde, escolarização, acesso a
bens de consumo e tantos outros feitos derivados do progresso científico e do
aumento da produtividade. Mas quais têm sido os efeitos de todas essas
brilhantes conquistas no tocante à felicidade, ou seja, tendo em vista a nossa
satisfação de viver e o grau de realização que esperamos alcançar?
O que revelam e quais são as relações entre indicadores objetivos e
subjetivos de bem-estar? Existirão custos ocultos no processo civilizacional? E
se fosse inventada uma “pílula da felicidade instantânea”, estaria resolvido o
problema?
Estas e outras são questões que se revestem duma particular acuidade num
momento em que a humanidade atingiu padrões de desenvolvimento sem paralelo e
sistemas de comunicação sofisticados parecem unificar essa mesma humanidade.
Mas será assim ou teria razão Chesterton quando dizia que “barbárie e
civilização nunca foram estágios sucessivos no progresso do mundo. Foram
condições que existiram lado a lado como ainda existem lado a lado. Houve
civilizações então como há civilizações agora; há selvagens agora como os havia
naquela época.”
Felicidade optimismo e esperança são conceitos que existem isolados ou
estarão, pelo contrário, interligados? Para alguns filósofos a felicidade não é
o fim último do homem sobre a terra. É este, por exemplo, o caso de Agostinho
da Silva que diz “Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja
característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que
nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais
alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser
ou não ser feliz...”
Em retrospectiva parece não haver margem para dúvida de que os avanços no
campo da ciência, da tecnologia e da produtividade trouxeram enormes benefícios
na vida das pessoas em termos de saúde, conforto, rendimentos e condições de
trabalho.
Entre as crenças que povoavam a imaginação e a visão de um futuro
iluminista, uma em particular revelou-se problemática: a noção de que os
avanços da ciência, da técnica e da razão teriam o dom não só de melhorar as
condições objetivas de vida, mas atenderiam também aos anseios de felicidade, de
bem estar subjetivo e de realização existencial da humanidade.
É o mundo maravilhosamente descrito pelos pintores impressionistas cujas
telas refletem a inocência, a alegria, os reflexos coloridos da natureza, a
leveza, a despreocupação. As pinturas de Renoir e Monet são manifestações dessa
alma feliz. Mas essa viagem maravilhosa em direção à Cidade Santa, fulgurante
no alto da montanha, revelou um outro
destino: a barbárie. Tornando-se possuidor de um conhecimento científico
quantitativamente muito superior a todo o conhecimento acumulado no passado o
homem, no entanto, revelou a sua fragilidade provavelmente devido a um duvidoso
e grosseiro simulacro de educação: os saberes e a ciência não produziram nem
sabedoria nem bondade. Foi esse homem supostamente educado e conhecedor da ciência
que produziu duas das mais terríveis e devastadoras tragédias que se abateram
sobre a humanidade: as duas guerra civis europeias da primeira metade do século
XX, que de facto se jogaram um pouco por todo o globo. Na opinião do filósofo
A. Devaux “A guerra veio arruinar duas ilusões que o século XIX tinha
alimentado: a ilusão de que a ciência faria da terra um novo Éden, a ilusão de
que o direito bastaria para estabelecer a paz e a justiça ao mesmo tempo”.
De facto aconteceram os campos de extermínio do comunismo e do nazismo, a criação
de armamento cada vez mais letal, uma riqueza jamais sonhada e milhões que
morrem de fome, genocídios, a destruição da natureza e das fontes de vida, as
cidades infernais, a violência, o terrorismo armado com armas produzidas e
vendidas por empresas geradoras de progresso. Haverá hoje razões para
otimismo?
De facto basta-nos ligar a televisão, ler um jornal ou aceder a um qualquer
canal informativo multimédia para constatar esta realidade violentamente atual
e atuante que nos entra diariamente portas adentro.
Por outro lado, ouvimos frequentemente dizer a máxima já muito gasta de que
a “esperança é a ultima coisa a morrer”, como se a esperança fosse um álibi
para continuarmos a viver sem complicações e inquietações de consciência; ou
como um pretexto que permite adiar “sine die” a oportuna retificação da conduta
e a luta para atingir metas mais nobres. Será que o bem existe? Será que vale a
pena trabalhar no sentido do bem? Vale ou não vale a pena ser bom?
De facto fica-se longe de se obter uma coisa, quando se malogra o desejo de
a possuir. Quando se limita a esperança a uma ilusão, ao simples consolo ante
as angústias da vida, não estaremos a transformá-la numa fria veleidade que
apenas pode conduzir ao desespero?
Afirmava Leonardo Castellani que o desespero “é o sentimento profundo de
que tudo isto nada vale, de que o viver não compensa e é definitivamente um
engano; e este sentimento é fatalmente consequente com a convicção de que não
há vida depois da morte”.
É este o desespero com que nos deparamos, na falta de um sentido último
para o ser. Este pensamento é já patente na Grécia antiga com filósofos como
Demócrito de Abdera, para quem o ser não tinha um absoluto que o sustentasse e
o mundo era um caos geral entrecortado por alguns momentos inexplicáveis de
aquilo a que nós chamamos ordem. Na modernidade, filósofos como Schopenhauer,
vêm, na senda de Demócrito, defender a tese de que “este é o pior dos mundos
possíveis”, que “toda a vida é sofrimento” e portanto “era melhor não ter
nascido”.
Por outro lado, encontramos também já no pensamento grego, no primeiro dos
academicamente chamados filósofos, Tales de Mileto, “a intuição do absoluto do
ser, de isso que é a pura atualidade de haver algo, sempre em oposição e em absoluta
contradição com o nada”. É no seguimento desta tradição que mais tarde a pessoa
surge no pensamento filosófico como uma categoria espiritual e o seu valor
incomensurável é afirmado pela teologia cristã, dando sentido à esperança
porque pensada e inscrita num horizonte de transcendência.
A terminar deixamos mais algumas questões em aberto:
O que podemos esperar? Tem sentido uma esperança humana finita ou
necessitamos de uma esperança com outros horizontes?
O que havia de errado e o que permanece vivo no projeto
iluminista de conquista da felicidade por meio do progresso científico e
material?
Até que ponto as nossas escolhas têm conduzido à criação
de condições adequadas para vidas mais livres e dignas de serem vividas?
Que lições tirar das conquistas e desacertos das nações
que lideram o processo e o progresso civilizacional?
A civilização entristece o animal humano?
Qual deverá ser o lugar da felicidade do otimismo e da
esperança na busca da melhor vida, ou seja, de uma vida que vale a pena viver?
3 de
Setembro de 2013
Francisco Vaz
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