Da caridade como graça política transnómica:
O caso do justo de Bordéus, Aristides de
Sousa Mendes
Introdução: o contexto político da
Segunda Grande Guerra Mundial
Como é ou deveria ser do conhecimento geral, na sequência de uma má
resolução política da Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), em que não só
as grandes questões geoestratégicas que a originaram, mas também questões
culturais gerais muito mais profundas, de tipo etnocêntrico, permaneceram, o
tempo que medeia entre 1918 e 1939 é um tempo de rearrumo das forças culturais,
políticas, económicas e sociais gerais que travaram o primeiro grande conflito,
em preparação para o subsequente, mais poderoso e de consequências muito mais
graves quer em termos quantitativos quer qualitativos.
Do lado dos aliados vencedores, uma compreensível, mas perigosíssima,
reacção contra tudo o que lembrasse guerra e os sofrimentos a ela associados
levou a uma posição quase universal de pacifismo a todo o custo. Poucas foram
as vozes que se destacaram no alerta contra esta forma utópica de encarar a
vida mundana real, tudo menos pacífica e em que o lado que se considera,
digamos assim, decente,[1]
apesar de imperfeito, tem de poder reagir contra um eventual ataque de outro
lado, menos decente, humanamente falando.
No que diz respeito às forças que perderam o conflito de 14-18, ao
sentimento de que a derrota tinha sido injusta, pois, em seu entender, o
inimigo não se tinha mostrado verdadeiramente superior no campo militar,
acresceu o modo desastroso como tais vencedores administraram a parte política
do pós-guerra, humilhando, de uma forma desnecessária, os derrotados, assim os
rearregimentando para posições de novo irredutíveis, irredutibilidade que tem
de ser esperada de gente altiva que foi derrotada e é, em seguida, submetida a
um regime de humilhação e fome, tal foi a situação em que os alemães, que são
quem aqui nos interessa, se encontraram neste período.
Não admirará, pois, que muitas destas pessoas, assim tratadas, um dia
mais tarde venham a decidir fazer o mesmo, por vingança ou um sentido
desajustado de justiça retributiva, contra outros seres, de uma forma tão
arbitrária quanto aquela que sofreram.
Poucas vozes do lado dos aliados se mostraram favoráveis a um tratamento
mais humano dos derrotados. Homens com incontornável importância política e
histórica como Thomas Woodrow Wilson (Nobel da Paz em 1919) ou Winston Spencer
Churchill foram ignorados. A posição
oficial de Wilson quanto às condições do pós-guerra não foi aprovada
internamente nos Estados Unidos, o que fez com que as posições mais duras de
iniciativa europeia triunfassem.
A Alemanha entrou num período de mais de uma década de fraqueza
económica, financeira, política e social, com fortíssimo desemprego, fome,
agitação social convulsiva, com constantes desacatos, conducentes a destruição
e mortes. Quando o país estava, finalmente, a encetar fragilmente uma
recuperação, deu-se o afundamento da Bolsa de Valores de Nova Iorque e, com o
retorno forçado do dinheiro que os norte-americanos tinham recentemente começado
a investir na Alemanha, este país voltou a cair num tempo de extrema penúria e
desassossego político e social.
Esta fase terminou com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, no fim de
Janeiro de 1933. Este acesso culminou uma cuidadosamente planeada carreira
política que se concentrou precisamente na preparação de tal culminar, através
da exploração demagógica da situação política e social vigente nos mais de dez
anos anteriores. Herr Hitler soube explorar as dificuldades e o sofrimento dos
povos da Alemanha, acabando por conquistar, com o apoio de uma oligarquia
plutocrática, a simpatia de um número suficientemente grande de votantes para
que fosse convidado para formar gabinete pelo velho e algo pusilânime Presidente Hindenburg.
Hitler implementou uma política económica de preparação infraestrutural
para a guerra, que permitiu criar emprego para quase todas as pessoas, ao mesmo
tempo que criava as condições gerais políticas, económicas e sociais para a
deflagração de um conflito de iniciativa germânica assim que a Alemanha
estivesse preparada para tal, o que estimava acontecer algures durante a
primeira metade da década de quarenta.
O objectivo de tal guerra era a expansão do Reich – o reino ou império alemão – de modo a permitir o livre
crescimento da raça propriamente alemã, às custas de todas as outras raças,
consideradas inferiores, destinadas ou à escravatura ou à pura e simples
eliminação. Encontramos um magnífico resumo da posição política de Herr Hitler
nas memórias de Churchill (em anexo), que, assim, demonstrou ter bem entendido
quais as reais intenções do tirano.
Mas Hitler, homem impaciente, não esperou pela década de quarenta para
começar a implementar o seu plano de expansão do Reich: percebendo a manifesta fraqueza política dos seus inimigos,
sobretudo os ocidentais, perdidos em discussões bizantinas e incapazes de
reacção pertinente, começou tentativamente a ocupar terreno. Todas as suas
sucessivas iniciativas foram bem sucedidas, tendo reocupado a Renânia, ocupado
a Áustria, parte da Checoslováquia e depois a Checoslováquia toda, ameaçando,
em seguida, a Polónia.
Foi apenas aquando da ameaça à Polónia que o Ocidente resolveu acordar e
reagir adequadamente, numa altura em que a sua posição era já de inferioridade
estratégica. Com a anulação do perigo de uma guerra também com a União
Soviética, a leste, através de um tratado com Estaline, Hitler ficou livre para
atacar a oeste da União Soviética, o que prontamente fez, esmagando a Polónia
em poucos dias, ainda em 1939. Começaram aqui os problemas maiores com os
refugiados, sobretudo com os refugiados de tipo cultural-rácico, e são todos os
que Hitler considerava ou sub-humanos ou ocupantes de espaço destinado aos
alemães, de entre os quais há que salientar os judeus, pelo seu número e relevância
simbólica.
Quando a agressão militar se estendeu propriamente ao Ocidente, a partir
de 10 de Maio de 1940, com a invasão da Bélgica, Holanda e França e sua
rapidíssima e esmagadora derrota em pouco mais de um mês, o problema dos
refugiados ganha proporções bíblicas. É neste momento cairótico que a história
da humanidade vai encontrar, na paz burguesa de sua vida comum de diplomata
menor, o português e cristão imperfeito, como todos, Aristides de Sousa Mendes,
cônsul de Portugal na cidade francesa de Bordéus, grande porto de mar, onde
milhares de refugiados se dirigiram com a esperança de poderem ser
transportados para fora de uma Europa que já os não queria e que seria a sua
assassina, caso dela não conseguissem fugir. Convém não esquecer que tal foi o
destino de cerca de doze milhões de pessoas, assim perseguidas, entre as quais,
estima-se, cerca de seis milhões de judeus, sem contar com todas as outras
vítimas inocentes, mortas apenas porque estavam aí onde a guerra lavrou.
A situação das pessoas em fuga
São muitas as horas de película documental essas que nos mostram milhares
de refugiados fugindo da morte ao longo das estradas da Europa, sendo
metralhados por aviões, morrendo como formigas espezinhadas, deixados a
apodrecer ou à futura piedade de quem os enterre, dado que os casuais e
efémeros sobreviventes mais não podem fazer do que avançar sempre, enquanto
podem, na esperança de conseguirem sobreviver.
Estas pessoas perderam quase tudo o que é necessário para viver
humanamente. Possuem apenas o que envergam e conseguem carregar. Estão sem
país, sem lar, sem alimento e sem relação humana estável. Estão em vias de
perder a sua mesma dignidade humana. Estão à total mercê de quem os queira
matar, por qualquer razão. A sua vida depende apenas da boa ou má vontade de
alguém.
É difícil – e ainda bem – imaginar o que esta condição seja, mas tem de
se perceber que a vida destas pessoas, nestas condições, reduzido o seu valor
político e mesmo antropológico, não valia grande coisa. Aqui, concretamente,
não há direitos humanos, apenas uma renovada selvajaria, em que uma duríssima
lei do mais forte impera. Um sim ou um não de alguém com poder de vida e de
morte decide da vida e da morte de alguém, de milhares, de milhões. Tal o caso
negativo de Herr Hitler e de seus homólogos. Mas tal, também, o caso, positivo,
de Aristides de Sousa Mendes.
A Bordéus chegaram milhares de pessoas precisamente nestas condições,
judeus, mas não só judeus, nem principalmente judeus: pessoas, seres humanos,
semelhantes ao próprio Aristides, que este sabia, como cristão que era, serem,
tal como ele, feitos à imagem e semelhança de Deus. Ora, o que se vai decidir
aqui, como em outros casos, nomeadamente o de Schindler,[2] é
precisamente o reconhecimento da comum
humanidade em todos os seres humanos: isto que tenho perante mim é ou não
humano? Se é humano, tem de ser tratado como tal, se não é humano, tem de ser
tratado como tal. Se é humano, não pode ser tratado como se de uma coisa ou de
um bicho se tratasse. Se não é humano, é uma coisa ou um bicho e pode e deve
ser tratado como tal. A escolha nazi é a segunda; a escolha de Aristides de
Sousa Mendes é a primeira, isto é, reconhecer naqueles seres entidades humanas
e agir consequentemente no sentido da sua salvação. Assim sendo, resulta óbvio,
para quem assim intui, que nada mais há a fazer do que trabalhar no sentido da salvação de tais entes, de tais pessoas. É
esse o dever do cristão; o mais é espúrio.
A decisão
Pensamos, depois do que já estudámos, que, como no caso, diferente no
pormenor, mas homólogo na forma espiritual, do também cristão e católico
Schindler, o que sucedeu na crise de Aristides de Sousa Mendes foi um momento,
doloroso momento, de radical conversão ao
bem, não ao bem relativo para que os diplomatas são treinados, enquanto
tais, mas ao absoluto do bem, como
patenteado pelo criador em cada uma de suas criaturas, mormente na humana. Se
assim foi, como não agir do modo escolhido, livremente escolhido, mas ditado
por uma intuição de bem a que, acontecida, já não se pode fugir? Como poderia
Saulo fugir da luz do damasceno caminho? Luz que penetra as pálpebras. Como?
Perante tal evidência, apenas a
prática, imperiosa, épica, literalmente entusiasmada, exteriormente
aparentemente tresloucada, para quem assim não tinha sido metamorfoseado, no sentido da salvação do maior número
possível de pessoas faz sentido.
Diz-se que tirar uma vida dá um sentimento de poder ilusoriamente
infinito, então, que poder se sentirá ao saber-se que se está a salvar uma vida, no que é uma forma de
recriação? E se tal acto for multiplicado por milhares? Deve ser inebriante,
mas não num sentido meramente psicológico, antes verdadeiramente espiritual,
pois positivamente pragmático: no seio do trabalho destruidor da guerra,
trabalhar quasi-genesiacamente, repossibilitando um bem precarizado, é trabalho
de amor, é exercício de uma caridade que aproxima a criatura que assim labora
do mesmo acto transcendente de Deus criador.
Neste labor entusiasmado, não há lugar ou tempo para considerações
mundanas: que vale a voz dos homens perante este labor ancilo-providencial? De
que servem as ameaças, como pode haver medo, se se está, em nome do céu, às
portas de um mundano inferno antecipado, carimbando salvo-condutos que impedem
o injustíssimo ingresso nesse mesmo inferno?
O trabalho no sentido de um bem de
outro modo impossível
Como é óbvio, nestas cairóticas situações, não há propriamente lugar
ético e político para hesitações prolongadas: é o tempo absoluto que o
Evangelho define, nas palavras do próprio Cristo, como o momento do sim ou do
não, sendo a hesitação imediatamente do maligno.
Se não pode haver hesitação, se se quer servir o único Senhor digno de
ser servido, que é o Senhor do bem, também não pode haver escolha que não seja
pelo mesmo bem, por Deus. O mais é maligno.
Ora, tal é o momento do discernimento.
O momento da descoberta intuitiva do bem, do maior bem possível de que se é
capaz, não em geral, não num tempo qualquer, mas neste tempo, nesta situação,
com os meios ao dispor, pois não há outro tempo e não há outros meios.
Que é o bem? Esse bem de que sou maximamente capaz nesta situação? Foi
esta questão que Aristides de Sousa Mendes teve de se pôr e à qual teve de
responder. Sabemos qual o teor da sua resposta: criar a possibilidade de
salvação para cerca de trinta mil pessoas. Se se salvaram todas ou não e para
que se salvaram não é questão que importe a Aristides de Sousa Mendes, pois tal
está manifestamente fora de seu alcance ontológico, portanto, ético e político.
Ele não detém um poder intuitivo infinito em acto, não é Deus, tem de responder à situação finita em que se
encontra e é isso que faz e faz permitindo o maior bem possível naquele
momento. Faz o que deve, mas faz maximamente o que pode, e, assim, não deve
mais do que o que pode, mas o que pode é imenso e o que deve segue esta mesma
grandeza e o que realiza partilha de tal imensidade.
Conclusão: a bondade como prática
soteriológica
No sentido da imitação de Cristo, em cada possível acto de cada ser
humano, abre-se o absoluto da possibilidade de introduzir bem no sucessivo
curso da criação. Ou não. A escolha e o que dela decorre são absolutos. Cada
acto pode permitir a continuidade de um bem próprio e que deveria ser
inalienável ou não. O mal é esta radical
impossibilitação de possibilidades ontológicas próprias, de um bem próprio,
que coincide com o próprio ser possível para cada ente. No seio do que é uma
possível comunidade humana, o bem próprio de cada um ente incorpora a
possibilidade do mesmo bem de todos e cada um dos outros. Só assim o meu bem
próprio pode aceder ao máximo humano possível, contemplando o máximo humano
possível para todos. Este é o reino do amor, da caridade e da paz.
Ora, é este mesmo possível caminho de transcendental paz, por via da
não-anulação da possibilidade própria de cada ser humano em súplica perante si,
em súplica pela sua mesma possibilidade,
que Aristides de Sousa Mendes promove, no que é uma lição de bondade por parte
de um ser humano como todos imperfeito, mas que teve a intuição da bondade
máxima que lhe era possível e a coragem de a pôr em prática, apenas perante
Deus e Deus na sua consciência, dando a Deus o que é seu absolutamente e a
César o que é dele. Mas César, por maior que pareça ou se julgue, é
infinitamente mais pequeno do que Deus e tem merecimento assim relativo.
Aristides de Sousa Mendes não é apenas um justo, é alguém que elevou a justiça
ao altar da caridade, onde se transforma em amor.
Cacém e Lisboa, Natal de 2012
Américo Pereira
Anexo:
1. Texto de Churchill sobre
súmula teórica da ideologia nazi[3]
«The
main thesis of Mein Kampf is simple.
Man is a fighting animal; therefore
the nation, being a community of fighters, is a fighting unit. Any living
organism which ceases to fight for its existence is doomed to extinction. A
country or race which ceases to fight is equally doomed. The fighting capacity
of a race depends on its purity. Hence the need for ridding it of foreign
defilements. The Jewish race, owing to its universality, is of necessity
pacifist and internationalist. Pacifism is the deadliest sin, for it means the
surrender of the race in the fight for existence. The first duty of every
country is therefore to nationalise the masses. Intelligence in the case of the
individual is not of first importance; will and determination are the prime
qualities. The individual who is born to command is more valuable than the
countless thousands of subordinate natures. Only brute force can ensure the
survival of the race; hence the necessity for military forms. The race must
fight; a race that rests must rust and perish. Had the German race been united
in good time it would have been already master of the globe. The new Reich must
gather within its fold all the scattered German elements in Europe. A race
which has suffered defeat can be rescued by restoring its self-confidence.
Above all things the Army must be taught to believe in its own invincibility.
To restore the German nation the people must be convinced that the recovery of
freedom by force of arms is possible. The aristocratic principle is fundamentally
sound. Intellectualism is undesirable. The ultimate aim of education is to
produce a German who can be converted with the minimum training into a soldier.
The greatest upheavals in history would have been unthinkable had it not been
for the driving force of fanatical and hysterical passions. Nothing could have
been effected by the bourgeois virtues of peace and order. The world is now
moving towards such an upheaval, and the new German State must see to it that
the race is ready for the last and greatest decisions on this earth. Foreign
policy may be unscrupulous. It is not the task of diplomacy to allow a nation
to founder heroically, but rather to see that it can prosper and survive.
England and Italy are the only two possible allies for Germany. No country will
enter into an alliance with a cowardly pacifist State run by democrats and
Marxists. So long as Germany does not fend for herself, nobody will fend for
her. Her lost provinces cannot be regained by solemn appeals to Heaven or by
pious hopes in the League of Nations, but only by force of arms. Germany must
not repeat the mistake of fighting all her enemies at once. She must single out
the most dangerous and attack him with all her forces. The world will only
cease to be anti-German when Germany recovers equality of rights and resumes
her place in the sun. There must be no sentimentality about Germany’s foreign
policy. To attack France for purely sentimental reasons would be foolish. What
Germany needs is increase of territory in Europe. Germany’s pre-war colonial
policy was a mistake and should be abandoned. Germany must look for expansion
to Russia, and especially to the Baltic States. No alliance with Russia can be
tolerated. To wage war together with Russia against the West would be criminal,
for the aim of the Soviets is the triumph of international Judaism. Such were
the “granite pillars” of his policy.»
Tradução:
«A
tese principal de Mein Kampf é
simples. O homem é um animal lutador; assim sendo, a nação, sendo uma
comunidade de lutadores, é uma unidade de combate. Qualquer organismo vivo que
cesse de lutar pela sua existência está condenado à extinção. País ou nação que
cessem de lutar estão igualmente condenados. A capacidade de luta de uma raça
depende da sua pureza. Daqui, a necessidade de a libertar de conspurcações
vindas do exterior. A raça judaica, devido à sua universalidade, é, por
necessidade, pacifista e internacionalista. O pacifismo é o mais mortal dos
pecados, pois significa a rendição da raça na luta pela existência. O primeiro
dever de qualquer país é, assim, o de nacionalizar as massas. A inteligência,
no caso do indivíduo, não é de primeira importância; vontade e determinação são
as qualidades principais. O indivíduo que nasceu para comandar é mais valioso
do que os incontáveis milhares de naturezas subordinadas. Apenas a força bruta
pode assegurar a sobrevivência da raça; daqui, a necessidade de uma matriz
militar. A raça deve lutar; uma raça inactiva deve enferrujar e perecer. Se a
raça Alemã tivesse estado unida em devido tempo, já seria senhora do globo. O
novo Reich deve recolher no seu seio todos os elementos Alemães dispersos pela
Europa. Uma raça que sofreu a derrota pode ser salva através da restauração da
sua confiança em si própria. Acima de todas as coisas, o Exército deve ser
ensinado a acreditar na sua mesma invencibilidade. Para restaurar a nação
Alemã, o povo deve estar convencido de que a recuperação da liberdade pela
força das armas é possível. O princípio aristocrático é fundamentalmente
correcto. O intelectualismo é indesejável. O fim último da educação consiste em
produzir um Alemão que possa ser convertido, com um mínimo de treino, num
soldado. As grandes sublevações na história teriam sido impensáveis não fora a
força motriz das paixões fanáticas e histéricas. Nada poderia ter sido
efectuado pelas virtudes burguesas de paz e ordem. O mundo está presentemente a
mover-se no sentido de uma tal sublevação, e o novo Estado Alemão deve proceder
de modo a que a sua raça esteja pronta para as derradeiras e mais grandiosas
decisões sobre esta terra. A política externa deve ser totalmente sem
escrúpulos. Não é tarefa da diplomacia permitir que uma nação se afunde
heroicamente, mas, antes, proporcionar que possa prosperar e sobreviver. A
Inglaterra e a Itália são os dois únicos aliados possíveis para a Alemanha.
Nenhum país entra para uma aliança com um Estado cobardemente pacifista,
dirigido por democratas e Marxistas. Se a Alemanha não esgrimir em seu próprio
benefício, ninguém o fará por ela. As suas províncias perdidas não podem ser
recuperadas por meio de solenes apelos ao Céu ou de piedosas esperanças postas
na Liga das Nações, mas apenas através da força das armas. A Alemanha não deve
repetir o erro de lutar contra todos os seus inimigos ao mesmo tempo. Deve isolar
o mais perigoso e atacá-lo com todas as suas forças. O mundo só deixará de ser
anti-Alemão quando a Alemanha recuperar a igualdade de direitos e retomar o seu
lugar ao sol. Não deve haver qualquer sentimentalismo relativamente à política
externa da Alemanha. Atacar a França por causa de razões puramente sentimentais
seria uma tolice. Do que a Alemanha precisa é de um aumento de território na
Europa. A política colonial anterior à guerra foi um erro e deve ser
abandonada. A Alemanha deve procurar expandir-se para a Rússia, especialmente
para os Estados Bálticos. Nenhuma aliança com a Rússia pode ser tolerada.
Travar guerra em conjunto com a Rússia contra o Ocidente seria criminoso, pois
o objectivo dos Soviéticos é o triunfo do Judaísmo internacional. Tais eram os
“pilares de granito” da sua política.».
[1]
Esta «decência»
humana, se facilmente definível em termos religiosos cristãos – basta cumprir o
mandamento de Cristo –, é de mais difícil definição em termos laicos: mas nunca
se pode fugir ao sentido transcendental de um bem-comum – pelo menos como
possível –, que é o melhor bem ontológico para
todos os seres humanos presentes num determinado topos kai kairos.
[2] Ver nossa obra: O fascínio do bem. A dimensão
agato-ontológica da acção, publicada on-line em www.lusosofia.net, em que se estuda o
papel que este nobre homem teve no salvamento de mais de mil judeus, de outro
modo condenados à morte, na Polónia, na cidade de Cracóvia.
[3]
CHURCHILL Winston Spencer, The
second world war. Volume I. The gathering storm, Boston, New York, Mariner
Books, Houghton Mifflin Company, s. d., pp. 50-51 (tradução nossa).
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