Pecado original

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domingo, 2 de março de 2014

Homero


Comentário ao Cap. XX da Odisseia de Homero

O conto mitológico constituiu na antiguidade um verdadeiro laboratório onde o ser humano se experimenta semântica e paradigmaticamente, procurando encontrar um sentido para a sua realidade. O mito tem que ser lido e compreendido sempre a partir daquilo que é o próprio mito e não a partir de interpretações baseadas em narrativas pessoais. Só assim, de forma intelectualmente honesta, se podem tirar ilações verdadeiramente interessantes e válidas para a humanidade. Tal como em Gilgamesh1, o herói da Odisseia, Ulisses é um homem, mas um homem especial. Somos convidados a ver nele a própria consubstanciação da inteligência humana, que procura através da fundação da relação política no bem comum, construir uma verdadeira comunidade humana, onde o bem dos relacionamentos prevalece. O canto XX da Odisseia relata-nos o retorno de Ulisses, após as vicissitudes por que passou, lutando contra homens e deuses, sob a protecção de Atena, a deusa da inteligência. Ulisses experimentou os prazeres da sensualidade e da aventura, mas ao mesmo tempo a dor e o sofrimento, paradigmas da condição humana. Ao regressar a casa, Ulisses começa a congeminar um plano para aniquilar os pretendentes ao seu trono, que desde a sua partida sequestraram a mulher Penélope, o filho Telémaco, e os servidores. Nesta história Ulisses personifica o homem e o sentido absoluto do ser, naquilo que é o acto absoluto da própria humanidade. O seu regresso representa o retorno à segurança e ao ente que ama e que lhe dá plenitude ontológica: Penélope. Como em Job2, Ulisses pressente que o ser é o absoluto, que se ergue através do acto, em oposição ao absoluto nada. O mito grego marca, de forma indelével, a aurora do auto-conhecimento do homem, onde o pensamento humano, o único que se conhece, começa a formar a consciência do sentido absoluto do acto, como pura possibilidade de relação, preparando o caminho à filosofia platónica, cujo encontro com o cristianismo3 resultou na nossa matriz, religiosa, cultural e social. Ulisses, como paradigma de toda a humanidade, mostra que a ética e a política, são dois atributos indispensáveis para que possa haver homem.

1 Gilgamesh é a obra de abertura da humanidade, que se pensa como humanidade, onde a ética, é tratada pela primeira vez, como fonte principal da acção do homem.

2 Job intui o absoluto do ser próprio, na medida em que lhe vai sendo retirado tudo o que nele não é essencial. Campeão do livre arbítrio, ao aproximar-se do absoluto nada, constitui-se como um teste à bondade do ser.
3 Paulo é o grande responsável por este encontro entre a filosofia grega e o cristianismo. 

Portela, 10 de Junho de 2010
Francisco Vaz

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