Comentário ao Cap. XX da Odisseia de Homero
O conto mitológico constituiu na antiguidade um verdadeiro laboratório onde o
ser humano se experimenta semântica e paradigmaticamente, procurando
encontrar um sentido para a sua realidade. O mito tem que ser lido e
compreendido sempre a partir daquilo que é o próprio mito e não a partir de
interpretações baseadas em narrativas pessoais. Só assim, de forma
intelectualmente honesta, se podem tirar ilações verdadeiramente
interessantes e válidas para a humanidade. Tal como em Gilgamesh1, o herói
da Odisseia, Ulisses é um homem, mas um homem especial. Somos
convidados a ver nele a própria consubstanciação da inteligência humana, que
procura através da fundação da relação política no bem comum, construir uma
verdadeira comunidade humana, onde o bem dos relacionamentos prevalece.
O canto XX da Odisseia relata-nos o retorno de Ulisses, após as vicissitudes
por que passou, lutando contra homens e deuses, sob a protecção de Atena, a
deusa da inteligência. Ulisses experimentou os prazeres da sensualidade e da
aventura, mas ao mesmo tempo a dor e o sofrimento, paradigmas da condição
humana. Ao regressar a casa, Ulisses começa a congeminar um plano para
aniquilar os pretendentes ao seu trono, que desde a sua partida sequestraram
a mulher Penélope, o filho Telémaco, e os servidores. Nesta história Ulisses
personifica o homem e o sentido absoluto do ser, naquilo que é o acto absoluto
da própria humanidade. O seu regresso representa o retorno à segurança e ao
ente que ama e que lhe dá plenitude ontológica: Penélope. Como em Job2,
Ulisses pressente que o ser é o absoluto, que se ergue através do acto, em
oposição ao absoluto nada. O mito grego marca, de forma indelével, a aurora
do auto-conhecimento do homem, onde o pensamento humano, o único que se
conhece, começa a formar a consciência do sentido absoluto do acto, como
pura possibilidade de relação, preparando o caminho à filosofia platónica, cujo
encontro com o cristianismo3 resultou na nossa matriz, religiosa, cultural e
social. Ulisses, como paradigma de toda a humanidade, mostra que a ética e a
política, são dois atributos indispensáveis para que possa haver homem.
1 Gilgamesh é a obra de abertura da humanidade, que se pensa como humanidade, onde a ética, é tratada pela primeira vez, como
fonte principal da acção do homem.
2 Job intui o absoluto do ser próprio, na medida em que lhe vai sendo retirado tudo o que nele não é essencial. Campeão do livre
arbítrio, ao aproximar-se do absoluto nada, constitui-se como um teste à bondade do ser.
3 Paulo é o grande responsável por este encontro entre a filosofia grega e o cristianismo.
Portela, 10 de Junho de 2010
Francisco Vaz
Portela, 10 de Junho de 2010
Francisco Vaz
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