Breve ensaio sobre alguns aspectos da «Paixão de Cristo, segundo São
Mateus»
Introdução
Independentemente de se ser seguidor de Cristo, em qualquer das muitas
formas teoricamente possíveis e historicamente reais, dando como bons os
relatos históricos[1]
acerca do que foi a sua vida, em sua mesma plenitude humanamente testemunhada,
é possível ensaiar perceber o que foi essa mesma vida e, nessa vida, a sua
«paixão» e morte, não na sua dimensão interior que, em Cristo como em qualquer
ser humano, é absolutamente incomunicável enquanto tal, mas na sua dimensão
revelada, histórica e humanamente revelada. É esta a grande vantagem da
revelação política de algo: poder ser testemunhado politicamente, estar
precisamente na praça pública, praça que mais não é do que o topos da relação lógica da humanidade,
isto é, o lugar próprio da partilha espiritual.
Da figura de Cristo, como de qualquer outra figura de que há humana
memória histórica, possuímos relatos objectivos políticos e especulações acerca
de actos interiores, impossíveis de conhecer como tais, mas cuja adequação à
transparência política da pessoa é politicamente verificável. Fazemos isto
todos os dias, numa acção de judicação que, não tendo alcance ontológico – e só
quando não o tem –, é o que nos permite precisamente acreditar nas pessoas com
quem vivemos, sem o que seria impossível ter nelas fé, na forma de básica
humana confiança.
A fé é, assim, na sua dimensão ética e política mais básica, o principal
constituinte ontológico do acto antropológico-ético do ser humano: sem ela,
seria impossível qualquer movimento político e o ser humano nada mais poderia
ser do que uma entidade meramente ética, encerrada para sempre num absoluto
solipsismo ético.
O contacto intelectual com a vida e morte de Cristo, na forma dos relatos
que dela[2]
até nós chegaram, é, pois, fundamental quer para os crentes, que neste contacto
buscam razões para a sua fé, para que esta não seja uma fé indigna de seres
humanos, propriamente racionais, quer para os que querem apenas ver humanamente
claro nisso que é o que humanamente resta de tão importante figura. Neste
contacto, uns podem perder a pouca fé – dita teologal – que tinham, outros
podem encontrar um tipo de fé de que nunca suspeitaram poder ser capazes. Mas
uns e outros encontrarão, se abrirem a inteligência que são ao infinito de
inteligibilidade de que esta é capaz, os limites da própria inteligência e da
própria pessoa, não num sentido abstracto, mas no sentido concreto da sua mesma
limitação pessoal. Limitação que tem como horizonte o infinito que a convoca,
seja ela crente ou não.
Começar pelo fim: a crucifixão
No seu habitual estilo seco e essencialista, Mateus fala da crucifixão
como algo já feito, a propósito da partilha das vestes de Cristo. Se o acto de
estar na cruz, acto prolongado em seu sofrimento precisamente excruciante, é
fundamental, o acto da fixação do supliciado à cruz é, em si mesmo, silenciado.
Imediatamente, Mateus situa-nos não no mundo menor do espectáculo, sempre do
agrado de gentes superficiais – e quantos destes não haveria ali, naquele
momento –, mas no mundo maior da manifestação de algo que necessariamente
transcende o espectáculo, a sua pelicular superficialidade, e remete para o
drama e a tragédia de um ser que é fundamentalmente algo para lá da sua superfície
manifesta, exactamente no seio de sua interioridade.
Isto aplica-se a qualquer pessoa humana, qualquer que seja o seu estatuto
ontológico especial. Nisto, Cristo é semelhante a todo e qualquer ser humano.
Tal não menoriza a figura cristã de Cristo, antes lhe realça o fundamental
papel de paradigma ontológico,
precisamente humano. Reforça, ainda, quer paradigmática quer
individualmente a importância de ser – segundo a fé de quem é esse acto de fé –
um ser humano que é Deus formalizado em humana carne. Crucificar este Cristo é
crucificar o Deus-homem, mas é também crucificar Deus em cada homem
crucificado, não apenas neste homem especial que é Cristo. O mal na cruz é paradigmático de todo o mal humano, mal que,
crucificando algo de tão importante, crucifica o próprio Deus. Dificilmente se
pode ser mais claro quanto à importância negativa do mal.
No acto do mal na cruz, supera-se toda a história do mal: o mal na cruz
faz parecer o mal adâmico pecadilho infantil. Não é possível maior mal do que
matar a própria fonte de todo o bem. Tal é demasiado óbvio para necessitar de
qualquer explicação.
A narração de Mateus reforça o sentido do absoluto deste mal ao não se
demorar sobre o acto de crucifixão: o mal
maior é instantâneo; na sua “descriação” do bem dos bens é como que o acto
de criação inicial ao contrário. Se Deus, ao criar cada novíssimo lote do bem
de ser, viu superlativamente o bem que operara, manifestando-o logicamente,
dando voz ao «logos» criador como «logos» manifestador, numa divina intuição
sem contrapartida possível na história humana, o erguer da cruz é anti-apical
clímax, quase instantâneo, do milagre da criação. O que se pode contemplar no
Gólgota é o quase-triunfo das trevas de um absoluto nunca sobre as manhãs
absolutas saídas das mãos do criador. Para Mateus, o que há para contemplar e
que contemplar não é a crucifixão, anti-momento por excelência do momento da
criação, obsceno, mas o já crucificado.
Não há já possibilidade alguma de voltar atrás e de o descrucificar. Tal
é a marca indelével, agora escandalosamente patente, do carácter de eternidade de cada acto. Assim como é eterno o bem
absoluto de cada acto de criação, assim é eterno cada acto de real des-criação,
que é o mal. Ora, o mal é possibilidade própria e exclusivamente humana. O seu
timbre e o seu preço e prémio são sempre antropológicos. Na cruz, com o Cristo
nela pregado, está o eterno espelho da realidade do mal, mal que é parte
constituinte de quem o pratica. Quem prega um qualquer Cristo numa qualquer
cruz prega-o para a eternidade não apenas do Cristo, mas sua mesma própria.[3]
Compreende-se, assim, muito melhor qual a verdadeira necessidade de um
redentor, capaz de pôr o mal na devida conta que a eternidade lhe merece.
Se o mundo romano é o mundo da política cidadania, sempre ontologicamente
superficial, sempre pronta a ser reduzida a uma anedota prostituinte de «pão e
circo», em troca do favor da aceitação de uma oligarquia ou tirania qualquer, o
mundo do paradigma do Gólgota é o mundo da irredutível
pessoalidade, da absoluta solidão
ontológica da pessoa, em que bem e mal próprios do ser humano são
incomunicáveis quanto à sua origem e radicação. Num sentido muito profundo,
absoluto, o mal de Cristo é só e apenas
de Cristo. Ninguém o pode sofrer por ele. Mas, sendo paradigma ontológico
de todos os homens, a sua paixão é a paixão de todos os homens: deste ponto de
vista, ninguém pode substituir outrem. A tomada do mal dos seres humanos, de
todos os seres humanos – primeiro momento da história da humanidade em que se
assume a humanidade como um único todo –, sobre si significa a tomada do
criador sobre si de toda a imperfeição imposta sobre o criado, única forma
lógica de poder haver uma qualquer possível
remissão de tais imperfeições, dado que mais ninguém ou nada o poderia
fazer. Não significa a isenção ontológica do acto de mal por parte de quem o
praticou, algo que não faz qualquer sentido.
Partilha das vestes
«Depois de o terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes,
tirando-as à sorte. Ficaram ali sentados a guardá-lo.»[4]
Esta versão curta, clara e concisa, dada por Mateus, patenteia, em sua mesma
fria concisão, a chegada de Cristo ao absoluto do humano desnudamento material:
é o momento em que a humanidade física e carnal de Cristo se encontra com a
humanidade narrativa do Job reduzido, teórico-paradigmaticamente, a nada mais
do que uma periclitante chama espiritual com um pavio material por corpo. Nada
mais.
Não basta a nudez material do corpo humano, exposto politicamente para
manifestar a redução, também política, do ser daquele que assim é apresentado,
vulgarizado, obscenizado, a mera função da vontade e do interesse de quem tem
poder de vida e de morte sobre ele. A situação em que se incorre, em que Cristo
incorre é modelar quanto ao extremo da
condição humana perante a morte, uma morte qualquer, como qualquer
possível, mas também perante uma morte que é injusta, sumamente injusta. Esta
situação paradigmática significa que, perante qualquer possibilidade de morte
própria, o ser humano está completamente destituído de qualquer forma de
sustentação material absoluta.
Como Job, em sua definitiva provação, Cristo, na sua cruz própria, nada
mais tem senão o que é. A passagem da posse das roupas para terceiros, não
importa quem nem como nem porquê nem para quê, simboliza a infinita distância ontológica entre o que se é e o que se tem. Na hora mais extrema, nada se possui: tudo
se é. Ou não é.
A morte anula todo o ter e expõe, apresenta, manifesta todo o ser, para,
imediatamente, manifestamente, o negar. Cristo,
como qualquer outro ser humano no momento da sua cruz – e a cruz é o momento
cairótico da morte, muito mais do que o momento do sofrimento, quase
irrelevante deste ponto de vista[5]
(como o fora substantivamente com Job em seu extremo ontológico, já perante
Deus) –, está absolutamente a sós com o
que é e o que é assume tudo o que foi, tudo.
Segundo uma certa abordagem tradicional, dir-se-ia que «Cristo fora
totalmente abandonado», mesmo pelo Pai, no que parece ser uma blasfémia de Deus
contra si próprio, constituindo talvez o maior apelo ao ateísmo que se pode
imaginar: que Deus é este que se lança em forma filial para este suplício e,
depois, se abandona, como quem abandona um filho nas mãos do carrasco? Não é
este Pai o pior dos carrascos?
Se percebermos que, segundo a mesma narrativa geral cristã, suportada por
toda uma tradição anterior, neste mesmo transe, é o próprio Deus que
experimenta quer o sofrimento quer o seu redobro provocado pelo abandono,
então, percebemos que estamos perante um momento verdadeiramente abissal e
vertiginoso no que diz respeito à possibilidade de sentido, em absoluto.
Que significado poderá ter este abandono total, já teoricamente
experimentado por Job?
Que é e quem é este Cristo pregado numa cruz, que os guardas guardam?
Precisamente isso que já não precisa de ser guardado, porque já não possui
qualquer dimensão política, quer dizer, já não possui qualquer ligação com a
exterioridade: esta disso se encarregou. Cristo está absolutamente só.[6]
Ontologicamente, absolutamente só. É o
momento cairótico da absoluta coincidência com o que se é. Do ponto de
vista da pessoa abandonada e em agonia, nada mais há e nada mais interessa. Se
não houver, no mais íntimo – agostinianamente reconhecido – de si próprio, uma
qualquer amarração ontológica a algo de transcendente, a solidão vence e a vida
termina absolutamente. Ou há neste ser uma presença íntima que o liga
absolutamente a uma plenitude ontológica infinita ou é o nada que triunfa. Esta
é a situação, magnificamente narrada em Job,
comum a todos os seres, sem excepção. Mormente ao ser humano, mormente a uma
qualquer sua forma paradigmática.
Mas, a haver mesmo um qualquer
abandono real, absoluto, esse abandono significaria a aniquilação. Isso a
que se chama abandono – já presente em Job
– é a recondução do ser de cada ser ao
absoluto do que é. Aquilo que era uma relação política passa a assumir-se
como o que é: uma relação ontológica e o ser liga-se ao ser não através de uma
agência mágica ou de um intermediário material qualquer, como na política, mas
através de uma comunidade ontológica básica, em que o dom de ser se compagina com o dom da possibilidade da diferença.
É este dom que constitui o paradigma do amor – o amor, paradigmaticamente, é
uma doação infinita de possibilidade, isto é, é algo de metafísico –, é
sobre este dom que se pode fundar qualquer relação entre seres, mormente a
própria relação trinitária. A pericorese é esta infinita entre-doação de amor,
possível e real, ambos infinitamente.
Mas Cristo, nesta situação e porque é modelarmente humano, está
absolutamente só como qualquer outro ser também humano. Mas está absolutamente
só como sempre Deus está. A conclusão óbvia parece horrorosa:[7]
então, é este o estado comum de Deus e do ser humano? Estar só é o nosso estado
ontologicamente definidor?
Neste sentido, é.
Simbolicamente marcado pela nudez e pela impossibilidade de se revestir,
dada na transferência de posse das suas vestes, Cristo é o modelo ontológico da
situação ontológica própria do ser humano e de Deus. Aliás, nisso são
semelhantes: Deus e o ser humano são irmãos em solidão ontológica.
Repare-se que não se está a tratar de solidão política, o que é tão
superficial quanto a não-solidão política, mas de solidão ontológica ou
propriamente ética, se se quiser. Não está em causa o facto de haver ou não
haver pessoas junto à cruz e mesmo junto a Cristo: sabemos que há lá pessoas e
que umas o guardam outras o escarnecem outras o amam e sofrem por o verem
sofrer e saberem que vai morrer.
Mas, crueza das cruezas, nada disto verdadeiramente interessa, pois quer
a presença destas presenças humanas quer a sua ausência nada importam
relativamente ao que Cristo tem de sofrer e que é a sua mesma morte, como
sofrera, isto é, vivera a sua mesma vida. Esta
paixão geral é necessária como algo de absolutamente solitário: ninguém
nasce, vive ou morre por outrem, no sentido de «em vez de outrem». Trata-se de
um transcendental humano (universal e necessário): não há ser humano que assim
não seja; sem ser assim, não se é um ser humano.
Este abandono total, que, assim, não é verdadeiramente um abandono, mas
uma necessária solidão, tornara-se patente aquando da cena do cálice (que tem
uma extraordinária relevância trinitária). Nesta cena, a «Segunda Pessoa da
Trindade» assume, quando aceita beber o cálice, isto é, quando dá o seu
assentimento à realidade futura necessária de seu sofrimento e de sua morte (um
Deus morrer!, como não iriam os gregos repudiar tal estranha e absurda
ideia...), a sua plena identidade própria: o Filho Homem só será Filho-Homem
quando for plenamente Homem, pelo que tem
de passar pela experiência total de ser homem, isto é, tem de nascer, viver
e morrer (a reprodução não será biológica, mas segundo a filiação espiritual,
muito mais fecunda, porque infinitamente rica em número de filhos a haver).[8]
Para se poder ser um ser humano há
que poder morrer e morrer mesmo. Ora, é no momento extremo da vida que se
finda que o ser humano percebe o quanto ele é ele mesmo e mais nada. Mas para
que tal possa perceber há que intuir que é
o que é, numa total solidão ontológica. Não pode Cristo ser o Homem
perfeito sem que passe por esta experiência, como qualquer ser humano.
Para que não se pense que se está a laborar numa tendência solipsista, há
que adiantar já que, apenas a partir e sobre esta fundação ontológica de uma
total solidão de cada ser humano, isso que faz dele ontologicamente uma pessoa,
se pode construir isso que é precisamente o que Cristo veio ordenar, mandatar,
o amor: este não é fruto de uma qualquer relação necessária que ligue entidades
necessariamente, fundindo-as e, assim, anulando-as, mas um movimento puramente
ético-ontológico, que parte de um ser humano relativamente a um outro (ou a uma
outra entidade qualquer, mesmo Deus), no sentido da promoção do bem próprio
desse outro ser.
Apenas uma total solidão ontológica
pode permitir este movimento, pois, sem ela, qualquer relação poderia ser não
mais do que uma forma de apropriação do bem do outro. Ora, é precisamente
este último o regime comum, um regime de anti-amor, ou de pecado, se se preferir,
regime este que foi o que Cristo veio anular.
A solidão de Cristo na cruz é a demonstração definitiva do estado
necessário para que se possa amar: que ninguém possa penetrar na ontologia do
outro, que esta esteja sempre preservada – nem Deus pode nela interferir, isto
é, se quiser continuar a merecer o título de Deus (é o que está em causa na
cena do cálice que, se tivesse um outro desfecho, implicaria a confusão
substancial da pessoa do Pai com a do Filho e a anulação do Espírito, assim, de
toda a Trindade).
Por outro lado, fisicamente, corporalmente, incarnadamente, a nudez
permite assistir a uma transmutação fundamental do sentido da beleza, que passa
de uma superficial apreciação formal, cosmética, numa relação em que se procura
que a sensibilidade contemplativa seja lisonjeada pelo que sente relativamente
ao contemplado, para uma profunda intuição da transparência carnal da luta e do
sofrimento do espírito, manifestos na nudez, sem ocultação possível, sem
possível fuga à obscenidade do mal feito,
assim patenteado. Na carne visivelmente marcada pela dor e pelo sofrimento,
cortada, esfacelada, retorcida; no esgar que não pode humanamente deixar de
marcar o rosto, como em Job, testemunha-se a profundidade não apenas da paixão
dolorosa que se sofre, mas da realidade de uma
fidelidade ao bem que nada pode anular, precisamente enquanto houver ainda
o que sofrer: mesmo quando a vida é apenas quase só sofrimento, há algo que
transcende esse mesmo sofrimento e que é o amor por um bem que nada pode,
enquanto tal, anular.
A morte não o anula, retira-lhe a possibilidade, o que é diferente.
Ora, a beleza deste momento é total, pois vai para lá de qualquer forma
possível: é o puro excesso do amor. E em cada gota de sangue, em cada rasgão da
carne, é o mesmo espírito que brota, até que mais espírito não haja. É a beleza
pura do bem isso que se manifesta neste cenário asqueroso e de outro modo
obsceno. O único momento possível para a anulação desta beleza espiritual seria
aquele em que Cristo negasse o seu amor e suspendesse a sua paixão. Tal não
acontece.
Deste ponto de vista, não, há, pois, momento de maior beleza do que este.
Beleza de um dramatismo radical, beleza provisoriamente trágica, mas beleza da
manifestação da infinitamente potente força de potencialidade de bem que habita
o ser humano. A fealdade está alhures. Muito perto, aliás.
O que é não-belo aqui é o mal que necessitou este sofrimento: desde a narração paradigmática da escolha
adâmica que as chagas de Cristo estão sendo abertas. Mas não são estas que
são não-belas, antes a agência de quem as abre. O não-belo é sempre o mal, a
maldade, o mau. Não-belo é sempre quem pratica o mal, nunca quem o sofre. Belo
é o Sócrates de Atenas nas mãos dos seus carrascos; não-belos estes. Platão
aprendeu, assim, que a beleza exterior é fortuita; que a grande beleza diz
respeito à interioridade motora do bem que se pratica: assim, o fisicamente
feio Sócrates de Atenas era o mais belo dos homens. Sumamente belo, apenas o
próprio Bem, isto é, isso que há de absoluta positividade ontológica em cada
coisa e em tudo, infinitamente.
É precisamente esta a beleza manifesta no nu e torturado corpo de Cristo,
isto é, no Cristo ainda vivo. É o absoluto do bem que é que se manifesta aqui em toda a sua grandeza. O corpinho
leitoso do Menino Jesus só atinge a sua plena beleza aqui, só quando se
experimenta como epifania de um amor que não tem reservas, mortalha que o
esconda. A ressurreição dá-se em nudez,
deixando a mortalha, essa, sim, obscena, para trás, como pagamento aos que
preferem o véu do templo ao Santo dos Santos. No que, nas próprias palavras de
Cristo: «já têm a sua recompensa».[9]
Letreiro
«Este é Jesus, o Rei dos Judeus.»[10]
Nem uma palavra a mais nem a menos do que o essencial para mostrar a
razão humana para a morte de Cristo. A tradução é precisamente literal, palavra
a palavra. Então a «acusação», a literal «aitia» contra Jesus consistia em tal
ser humano se ter manifestado como «basileu dos judeus», no entender
estritamente político de quem mandou escrever o letreiro.
Deste ponto de vista, Cristo é mandado matar porque é um sujeito político
que assume uma pretensão de autoridade que atenta contra o poder estabelecido.
A tarefa propriamente religiosa-ontológica não é tida em consideração. Nem tal
interessava, pois, para quem detém o poder pelo poder e não pelo serviço de e
ao bem-comum que ele deve constituir, quem quer que seja que assuma um papel
político concorrente com o seu, deve ser eliminado.
Mesmo que Cristo tivesse conseguido provar junto do representante da
autoridade imperial que a sua realeza era puramente da ordem do espiritual, tal
não teria interessado, pois qualquer poder imperial, sempre tirânico, sem o que
não poderia ser «imperial, não pode continuar a ser «imperial» por muito mais
tempo se consentir em partilhar, seja com quem for, o seu necessariamente
exclusivo poder.[11]
O que caracteriza o poder político com que Cristo tem de conviver e
contra o qual tem de afirmar a sua tarefa libertadora – já começara com o velho
Herodes e a necessidade que este teve de eliminar qualquer possibilidade de um
qualquer recém-nascido real o poder derrubar de seu trono – é a impossibilidade
de partilhar o poder. Aliás, na própria evolução política da «civitas» Roma,
tal acabou por se manifestar na forma da cessação da República (aristocracia
senatorial e consular) e no aparecimento gradual de uma forma tendencialmente
imperial, finalmente imperial, tendo o imperador, na sua única pessoa, assumido
tais poderes políticos e religiosos institucionais, que acabou por se tornar numa
espécie de «eixo cósmico» vivo, sendo logicamente investido politicamente com
uma ontologia semelhante à dos deuses.
Era este “deus” que exigia o culto divino, precisamente como manifestação
de total submissão, mesmo ontológica, de todo o cidadão e súbdito; era a este
“deus” que o cristão não podia, mesmo tendo de morrer, prestar tal culto, pois
sabia que este não poderia ser Deus, pois, para si, o único Deus era aquele de
que Cristo lhe tinha falado. Politicamente, estamos perante uma luta de
impérios, em que um império humano procura chamar a si uma dignidade
onto-política que não tem e não pode ter e um império divino não pode suportar
tal impertinência. No meio, como acontece com o próprio Cristo, o ser humano
que não se rebaixa à adoração de um outro ser humano, acaba por ser vítima de
uma luta, verdadeiramente cosmológica, pela preponderância ontológica.
Assim, a morte de Cristo acaba por ter como instrumento pragmático uma
luta cósmica, com reflexos políticos, entre princípios cósmicos: o real e o suposto.
Note-se que não se está aqui a defender que os romanos tinham de aceitar que o
Deus dos judeus é que era o verdadeiro, mas que caíram na «hybris» de
considerarem um dos seus como um «dos deuses», independentemente de quem estes
deuses eram.
Ora, por muito ignorantes que fossem – que não o eram – os romanos que
aqui estão sob inspecção sabiam que tal assunção principial cósmica fora sempre
portadora de consequências terríveis para quem assim procedera: grande parte
das tragédias helénicas com que contactavam em sua educação nascera de tais
movimentos de usurpação do divino por parte do humano: lembremo-nos do caso
paradigmático de Prometeu.[12]
O cartaz é, assim, o exemplo acabado de uma total incompreensão daquilo
que procura manifestar. Fala de política, quando deveria falar de religião.
Remete para o poder humano, quando deveria remeter para o poder ontológico. Diz
do medo da fraqueza humana, quando deveria assinalar a grandeza da coragem e do
amor divinos, feitos humana carne. Carne que, aqui, perde toda a sua fraqueza e
se assume como lugar voluntariamente sofredor do espírito. Carne que grita de
dor, mas que irradia infinitamente vontade de bem.
Política
Não há realidade humana mais política do que a religião. Esta implica
sempre, por essência e substância próprias, uma qualquer relação entre um
qualquer sujeito, o sujeito religioso e isso, qualquer, que é o fim da sua
relação. Esta não tem de ser recíproca: o fim não tem de retribuir (pode mesmo
não o poder, se for algo de inanimado). A relação religiosa pode ser apenas um
acto relacional que liga unilateralmente o sujeito, assim, religioso, com isso
que é o fim da relação. Mais nada.
Então, porquê a necessidade política? Porque esta relação implica uma
saída de uma pura esfera ética, isto é, meramente interior do sujeito. Toda a
relação de um qualquer sujeito com algo que não é a sua mesma pura
interioridade é uma relação política. Aliás, é esta transcenção para fora de si
próprio que institui o âmbito do propriamente político. Ora, toda a relação religiosa,
não auto-cêntrica, é, assim, necessariamente, uma relação política. Apenas a
auto-latria de um indivíduo não esquizóide é apolítica.
Assim, também na paixão de Cristo, há uma necessária dimensão política,
que não diz fundamentalmente respeito à superficialidade dos dados de um jogo
de poder de uns seres humanos sobre os outros, mas, essencial e
substancialmente, ao dado necessário de ser qualquer relação entre qualquer ser
humano e a sua exterioridade algo de político. Não surpreende, assim, o comum
desdém que Cristo manifesta perante as tolices pequeno-políticas com que uns e
outros o tentam molestar: messianismo, revolta anti-romana, candidatura a rei
temporal dos judeus, etc. Que importância tem esta superficialidade mundana e
temporal, quando comparada com a grande mensagem política que há que transmitir
e que é a mensagem do amor? Obviamente, nenhuma.
Sem esta noção política fundamental relativa à essência e substância do
acto de humana transcenção, nada pode ser compreendido na vida e na paixão de
Cristo. É o amor como realidade de relação e como realidade de relação
salvífica que aqui está em causa. Nada do que Cristo faz é estritamente ético:
Cristo não se esgota na sua pura interioridade. A sua exposição política é
necessária e começa pouco após ter nascido. Se, durante algum tempo, se mantém
politicamente confinado a um ambiente mais próximo-familiar, a certa altura
passa a um regime de total epifania política, que culmina com o momento da sua
morte, que o reconduz a uma realidade puramente ética (para os crentes; para os
não-crentes, apenas o aniquila), até que retoma a sua relação política, após
ressuscitar.
A Paixão é fundamentalmente algo de político. A mensagem que procura
deixar é fundamentalmente algo de político. A religião que dela dimana é
fundamentalmente um modo político de propor, através da manifestação política
de Cristo, uma salvação universalizável.
Esta possível universalização, algo de muito raro nas culturas humanas – todas
elas políticas por essência e substância, mas pouquíssimas capazes de
transcender paupérrimos etnocentrismos – tem a sua base de sustentação neste
sentido político de uma possível – é aqui que Agostinho vem beber – cidade
universal de Deus.
A pedra angular desta possível cidade é precisamente a agência política
de Cristo ao longo de toda a sua vida, mostrando que a humanidade é essencial e
substancialmente uma relação entre pessoas ou não é humanidade alguma. O reino
da política é este reino destas relações. O «reino de Deus» é este reino
político onde impera absolutamente o bem. É este sentido metafísico subjacente
à agência de Cristo que permite o posterior encontro com a metafísica
platónica.[13]
Mas, deste ponto de vista, o culminar político da vida de Cristo não é o
momento da morte, mas o momento da proclamação
do amor como veículo de salvação. Note-se que Cristo não se assume como
xamã mágico, capaz de, apesar de tudo o mais, conseguir a salvação da pessoa.
Uma salvação mágica, automática, bastando, para tal, ser súbdito, adorador, ou
mesmo bajulador do detentor do poder. É esta, aliás, a lógica comum da vida
política, segundo a lógica do poder sobre os outros seres humanos.
Não é esta a mensagem de Cristo.
Não se assume, também, como imperador autocrático e caprichoso, ao modo
de tantas versões culturalmente conhecidas. Nestas versões, o poder supremo
coincide com a suprema forma de uma bestialidade incontrolada e ancilar do
interesse exclusivo da entidade mandante: este é o modelo comum do tirano
humano, assim hiperbolizado e hipostasiado em forma “divina”, dando, aliás,
razão a Xenófanes e à sua fundamental crítica.
Não há magia no proceder de Cristo: há
mediação e mediação carnal. É à humana carne que se pede que se liberte das
peias de tudo o que lhe possa constranger a liberdade. No fundo, o ser mais livre é aquele que mais se
transcende no sentido do bem universal, universalmente particularizado.
Assim Cristo: o que ama infinitamente a imensidade dos particulares (como
Francisco de Assis, por exemplo, bem percebeu e se esforçou por imitar).
Esta transcenção segundo o bem universal para tudo é a mesma realidade do
amor. Mas este mesmo amor é a realidade
política por excelência. Na cruz, Cristo irradia infinitamente a afirmação
política do amor. A cruz é o foco absoluto de onde promana a graça do amor. É a
mesma definição da caridade, como amor sem obstáculo e sem preço: uma infinita refeição absolutamente gratuita.
Sem esta gratuidade, não pode haver amor.
Como na metáfora do bem platónico, que infinitamente irradia ser e
possibilidade de ser, como o sol irradia seus raios, se irradia em seus raios, assim o Cristo na cruz é esta fonte de
dadivosidade[14]
infinita e universal, no que é o movimento propriamente humano por excelência,
drama de criação da possibilidade de bem para tudo. O gesto político por excelência
é, assim, o gesto de amor, como
possibilitador universal de ser. É este o acto fundamental de Cristo na cruz.
No âmbito da narrativa cristã, se Deus cria o mundo, no Génesis, se o ser humano parece nada
mais fazer do que procurar “des-criar” o que Deus criou, o momento da cruz
corresponde a uma recriação da criação, através não apenas de um supremo gesto
de amor, mas da manifestação desse gesto como o gesto salvífico universalizável, e apenas verdadeira e eficazmente
salvífico porque universalizável e se universalizado. A salvação não é mágica,
ela depende do gesto paradigmático de Cristo, mas também da infinita retoma
desse procedimento por cada ser humano. Como em Job, Deus não salva sem o
trabalho do salvável e, muitas vezes, sem um trabalho salvador por parte do ser
humano: Cristo é o paradigma deste trabalho salvador.
A grande dificuldade da vida proposta a um cristão reside em não haver
aqui qualquer possibilidade de magia.[15]
Este sentido anti-mágico é dado precisamente na figura da cruz, como meio de
realização suprema de uma suprema vontade. Cada
movimento humano é um movimento crucial. Não há momento algum em que haja
um qualquer movimento que não seja determinante. Assim, cada um destes momentos
e movimentos é uma cruz, em que toda a existência e realidade humanas se jogam
e se jogam definitivamente.
Cada cairótico momento político é uma
cruz decisiva para cada ser humano e para todos os seres humanos. Cada um é
movimento que ou promove o bem ou não promove o bem. Cada um é amor ou antítese
de amor. Cada um é possibilitante da cidade de Deus ou da não-cidade de Deus.[16]
A cruz impede a confusão entre as duas
cidades e pode dilacerar cada ser humano em cada um de seus movimentos. A
cruz é a espada política que separa o bem do mal em cada movimento humano. A
cruz é o céu do bem e o inferno do mal.
Na cruz
Também no momento da estada na cruz não assistimos a qualquer
manifestação obscena de dor e sofrimento, bastando, para que tal se perceba, a
inteligência teórica do que tal estadia implica. Não é um povo de psicopatas
emotivos que Mateus quer converter, não é à parte mais baixa do homem que
Mateus se dirige, antes à sua inteligência, ao seu poder de apreensão de
sentido, único lugar humano que pode ser convertido no sentido do bem, única
conversão que pode bem servir o serviço da morte de Cristo, precisamente como
paradigmático agente de conversão do ser humano como um todo, mas como um todo
que depende fundamentalmente da sua capacidade de inteligência, de
transformação de seu ser num acto de sentido.
Aceitando sem discussão a velha hispostasiação das faculdades, é óbvio
que não é possível converter a “vontade” sem ser por intermédio da
“inteligência”. A conversão é algo de espiritual, não de psicológico ou de
“emocional”, dirige-se ao acto de inteligência, a cada acto de inteligência,
fonte humana de todo o bem e de todo o mal de que o mesmo ser humano é capaz.
Lugar próprio do livre-arbítrio, agente capaz da liberdade do bem ou da
escravidão do mal. Espírito que, no ser humano, quando é, é sempre santo,
quando não é – quando falha – é o imediato mal em acto, possível diabo nosso de
cada dia.
Pregado à cruz, no meio de um óbvio sofrimento provocado não apenas pelo
excesso de dor relativa aos maus tratos sofridos, mas também, e talvez
sobretudo, pela própria situação geral em que se encontrava, situação que
factualmente desmentia as suas palavras acerca de um reinado de bem e de amor,
Cristo passa humanamente, ainda que inteligência não apenas humana, pelo crisol
– pré-anunciado pelo drama literário e litúrgico de Job –, em que a essência da mesma humanidade é posta em
labor de extrema purificação e de onde só é possível resultar ou o ouro de
uma redução do todo ao melhor real ou a escória de uma redução do todo ao pior
real.
É esta a razão pela qual a cruz de Cristo é verdadeiramente paradigmática
e não apenas mais um dado histórico singular, ainda que divinamente grandioso
em sua mera singularidade histórica. Assim como uma narração mítica qualquer
geralmente entendida – mítica, mas de um realismo que reenvia necessariamente
para uma experiência de crise espiritual real, sem a qual não haveria este
mito, impossível de inventar sem substracto experiencial, sua causa suficiente
e necessária – não se refere a um qualquer sujeito empírico individual e individualmente
irrelativo aos demais seres humanos, assim a narrativa da paixão de Cristo,
sobretudo no crucial momento seu, não se refere apenas ao sujeito histórico
qualquer X – Cristo –, mas, por meio
da narração litúrgica de um evento histórico, ergue-se noeticamente em
paradigma, modelo excelente que consubstancia toda a essência humana.
É por causa desta relação e desta absoluta relatividade que quer em Job quer na paixão de Cristo se pode
falar de uma fundamental semelhança entre os protagonistas da história e
aqueles a quem é dirigida. De nada serve tentar encontrar o Job “histórico”,
pois o único Job que existiu é o que existe desde que há humanidade e
confunde-se com a essência actual do próprio ser humano, este sim, aquela sim,
históricos, no sentido de historicamente reais, historicamente realizados, em
cada pessoal indivíduo humano.
O Cristo histórico também não é encontrável para além do acto de fé que
toda a história implica, racionalíssima fé, como demonstra todo o excelente
trabalho de crítica histórica, ansiosa de provar racionalmente a realidade
concreta, mesmo no sentido material do termo, de isso que é narrado, qualquer
seja a sua forma. O Cristo a encontrar é a presença paradigmática – em seu
sentido mais forte, platónico –, real, do modelo em cada ser humano. O modelo é
um paradigma haurido na realidade histórica e o encontro com esse modelo é
também histórico, mas sempre paradigmático. A crucifixão de Cristo (como o
acrisolamento de Job) é, paradigmaticamente, a crucifixão de todo e qualquer
ser humano, possível ou real.
Historicamente o único encontro com o Job literário paradigmático ou com
o Cristo histórico paradigmático, desde o desaparecimento de quem escreveu Job e o desaparecimento (ressurreição,
para os que nela acreditam) de Cristo, é o que se pode dar e se dá quando se dá
com isso que paradigmatizam, eu, tu, ele, todo o ser humano, em seu mesmo acto
histórico, real. É esta a base possível de toda a liturgia possível,
necessariamente não-mágica. O mais é magia.
Quer isto dizer que tudo o que se afirmar acerca do Cristo pregado à cruz
se afirma necessariamente de qualquer ser humano quando pregado em sua cruz; e
é dificilmente pensável, neste nosso mundo, algum ser humano que o não tenha
estado, não esteja ou não venha a possivelmente estar. A cruz é, assim, ainda que só como possibilidade, um transcendental humano. Não perceber
isto é não perceber a própria dimensão de fragilidade, de sofrimento e de
finitude do ser humano.
Como narração que são, os Evangelhos são fundamentalmente uma peça
literária política, pois a acção de Cristo e dos que o acompanham não é, porque
não pode obviamente ser, narrada na primeira pessoa – salvo raras excepções,
nunca atinentes ao próprio Cristo –: é, pois, sempre um qualquer terceiro que
diz o que vê. No entanto, esta dimensão política não é meramente ancilar: a
missão de Cristo é eminentemente política, pois é uma missão que diz respeito
não a si próprio, mas aos outros, outros de quem vai ser instrumento e
instrumento de salvação.
Ora, este movimento é um movimento essencial e substancialmente político,
pois diz respeito à relação entre (pelo menos) duas pessoas.
O movimento de salvação é um
movimento político. E é-o sempre, pois ninguém é suficientemente autónomo
ontologicamente para que se possa salvar a si próprio sem qualquer forma de
auxílio: todo o ser humano, mesmo para poder ser, necessita da relação
política, sendo que, desde a relação biológica de que provém materialmente, ao
processo paidético que o adestra humanamente, ao cuidado de que necessita
quando já perdeu muita da sua autonomia,[17]
há sempre um movimento de ajuda qualquer, pois sempre é auto-insuficiente a sua
mesma capacidade própria.
A vida humana é uma constante lição ontológica acerca dos mesmos limites
– em grandeza ontológica positiva e na sua não-infinitude – reais do ser
humano. A sua realidade é uma realidade finita. A sua condição é a de uma
incontornável necessidade de relação política, o mais vasta e profunda
possível: apenas esta pode superar, em entre-ajuda, as suas mortais limitações.
Esta condição e relação pode ser expandida ao domínio da possibilidade da
relação com o transcendente, assumindo Deus o papel político do grande
auxiliador. A própria incarnação de Cristo ganha um novo sentido propriamente
humano se vista através deste prisma.
Todos os movimentos de auxílio referidos são movimentos políticos. A
dimensão política num percurso de possível salvação ou perdição é-nos
definitivamente dada narrativamente em Job,
em que toda a trama depende de relações políticas, entre Deus e Job, entre Job
e os demais seres humanos, entre Deus e o Satã, etc. O movimento de Cristo até
à cruz e a estadia na cruz até à morte têm uma dimensão política inalienável,
pois são a manifestação, junto do povo, não apenas de uns tantos eleitos, mas
de todo o povo circunstante e passante, da paixão de alguém que, como modelo,
como «basileu» serve de possibilidade de caminho salvífico.
Seguir o exemplo de Cristo não é apenas um puro acto ético de pura
interioridade, mas um acto político, em que o ser humano aderente se empenha
como um todo, mesmo no que diz respeito a tudo o que é relativo à vida na
«polis». Muito pouco do que São Paulo – o ex-Saulo politicamente perseguidor e
inimigo dos cristãos – diz acerca do modo de proceder dos cristãos faz sentido
sem uma leitura política. Mais, Paulo limita-se a seguir a indicação de Jesus
de que a candeia não é para estar onde não se veja, mas onde se veja e ilumine,
vocação política fundamental da religião em sua dimensão eclesial, isto é,
comunitária, de assembleia.
O momento decisivo
Se a cruz institui o, por sua causa, «momento crucial», nem por isso ela
e o seu momento são os decisivos na história da paixão de Cristo. A sua função
é meramente instrumental. É mesmo apenas ancilar. Depende, manifesta, incarna e
operacionaliza um meio pragmático de conseguir um fim, meio que é histórica e
circunstancialmente determinado.[18]
Poderia ter sido de outro modo.[19]
Para escândalo de certa irrazoável crença, teoricamente, poderia mesmo não ter
havido cruz alguma, morte alguma: Cristo poderia ter humanamente vacilado e não
aceite o sacrifício litúrgico-soteriológico que lhe era proposto.
Vista desde hoje, por crentes e não crentes, a hipótese soa a algo que
parece roçar o absurdo. Mas de absurdo nada tem, de um ponto de vista puramente
histórico. Vejamos.
Para o não-crente, o sonhador
que se pensava ser carnal filho de Deus, posto perante a hipótese de ser morto
por causa e em desconto dos pecados da restante humanidade, no limiar do
momento decisivo, podia, perante tão flagrante injustiça, que ele sabia que era
injustiça perfeita, e perante o que, neste caso, não seria Deus-Pai, mas, por
exemplo, essa figura mítica da «voz da consciência»,[20]
decidir desistir de tudo e escapar daquele jardim de provação o mais depressa
possível, passando à clandestinidade, indo, por exemplo, pastorear gado como
fizera, a certa altura, seu infeliz parente João, «o baptista». Tudo lógica e
historicamente possível.
O povo ficaria sem o sempre tão aliciante drama real de um supliciado –
sempre catarticamente útil, diria Aristóteles – e o sonho do estabelecimento da
justiça integral e do amor fraterno sobre a terra sofreria mais um abalo, mas,
mais cedo ou mais tarde, apareceria um outro qualquer Emanuel, que faria mais
ou menos o mesmo. Tudo continuaria paradigmaticamente na mesma, cumprindo o
eterno sonho de tiranos e oligarcas.
Dando razão aos religiosos cínicos da bondade intrínseca da humanidade –
mesmo quando dizem acreditar que foi criada por um Deus bom –, que mais se
poderia esperar de um homem, de um mero ser humano? Do que se necessita em uma
tal decisiva hora é de um Deus, em toda a sua perfeição.
Ora, é aqui que a mesma perfeição divina arruína esta firme fé dos
cínicos: do ponto de vista crente, a
perfeição divina de Cristo inclui a assunção da perfeição humana integral e
esta – é o oxímoro vivo – integra a possibilidade
de ser mau. Para os cultores da salvação comercial do bem trocado no céu pelo
bem feito na terra, não pode haver maior escândalo e, se tivessem a coragem
necessária, diriam o quanto pensam que Deus está errado.
Segundo a própria economia da narrativa da vida de Cristo, a sua
humanidade é tão humana quanto a de qualquer outro ser humano, pelo que pode dizer não ao bem. A grande prova,
sobretudo para a versão crente de Cristo, é que podendo dizer não ao bem nunca o faça.
É retomar o paradigma de Job, agora de forma historicamente real. Cristo
veio fazer o que nenhum Job de literatura poderia ter feito: mostrar que era
possível ser bom, sem mais.
O termo fundamental desta última afirmação é o termo «possível». Uma
breve e talvez pouco informada perspectiva geral sobre a história da humanidade
deixa-nos ficar com a impressão de que a mesma humanidade parece não acreditar
na possibilidade da sua própria bondade. O seu procedimento parece evitar ter
de se confrontar com essa mesma possibilidade e com as exigências que acarreta:
se não for possível ser bom, tanto melhor, pois não se tem de lidar com os
inconvenientes de poder ter que querer
ser bom. Não se trata de um «querer ser bom» no sentido ainda tirânico do
termo, à maneira de um Midas da bondade, que toda quisesse para si por ser para
si, mas da assunção de um sentido de perfeição possível, perfeição impossível
sem um exercício o mais constante, senão mesmo constante sem mais, da bondade,
isto é, de um movimento pessoal no sentido do melhor bem possível[21]
para tudo, universalmente. A mesma enunciação do requisito assusta quanto ao
que implica.
Mas é o que está em causa com o exemplarmente longo momento da vida e
morte de Cristo, na versão crente.
Ora, é precisamente este Cristo da versão crente que pode dizer que não
ao bem maior, precisamente universal e transcendental, do acto litúrgico da sua
dolorosa, sofrida tortura, lenta e saboreada execução e final morte. Repitamos,
para que fique bem claro: Cristo poderia
ter dito que não à sua morte.
Porquê?
Porque era possível.
Porque faz parte da condição própria da ontologia humana poder dizer que
sim ou que não a toda e qualquer possível bifurcação de escolha de realidade
possível futura, a alternativa dual que faz de cada possível realidade sempre uma escolha entre a sua possível
positividade ontológica absoluta e o seu contraditório: no caso, aceitar
morrer ou não aceitar morrer, na plenitude do que tal acto implicava, mesmo a
posterior possível ressurreição. Mas não é a ressurreição com a elipse da morte
que aqui está em causa, mas a ressurreição, ainda que certa, com uma experiência de morte e de sofrimento
(precisamente excruciante) a ela necessariamente associado neste acto litúrgico
proposto.
É a isto que Cristo tem de dar o seu assentimento, é a isto que Cristo
pode, segundo a lógica ontológica própria
do ser humano, dizer que sim ou que não.
Nem sequer é possível a, por tantos, tão almejada indiferença ou apatia
ou ataraxia ou não-agência: não agir, neste momento – e não há outro ou
alternativa possível (a realidade tem destas coisas...) –, significa ser morto,
pelo que ou se aceita e, então, nada mais se faz do que aguardar que a liturgia
prossiga ou não se aceita e há que fugir, para que a liturgia não possa
prosseguir.
Mas, porquê negar-se ao cadinho do sofrimento e da morte, sabendo que se
vai ressuscitar, não sendo pensável, na versão crente, que Cristo não o
soubesse?; assim, não é nem pode ser a bondade do desfecho final que está em
causa; o bom fim está assegurado. Que está, então, em causa?
A mesma humanidade. E não é a
«humanidade de Cristo» que está em causa, como especial humanidade, mas a
humanidade em geral, presente em cada ser humano, sem mais. Todas estas presenças
são semelhantemente reais, em seu acto pessoal. Neste sentido, ninguém é mais
ou menos humano e a humanidade coincide, em cada pessoa, com a substancial
essência paradigmaticamente posta em Cristo. Mas no Cristo que é carne
propriamente humana.
Sabemos, desde Job, aquilo de que a humanidade é capaz. Sabemos que é
capaz do melhor: Job assim o prova, com Deus e mesmo contra Deus, quando este
surge em versão menor. Sabemos, também desde Job, que o ser humano é capaz do
pior: toda a restante humanidade presente nesta obra narrativa é má.
Que humanidade está presente em Cristo? Precisamente a mesma, sem o que a
incarnação seria uma insultuosa anedota. Assim, encontramos presente em Cristo
a humanidade que Job elevou teoricamente ao máximo de bondade possível (acima
só Deus), mas também a humanidade do restante da humanidade, a humanidade da
possibilidade da maldade.[22]
Não é isto blasfemo, segundo a versão crente?
Não, pois esta assunção incarnacional é feita, em Cristo como em qualquer
outro ser humano, plenamente humano – e são todos, se não pensarmos
etnocentricamente... – como uma possibilidade:
a humanidade presente em Cristo é a humanidade de Job e a humanidade dos
restantes elementos que o acompanham, como
possibilidade. Cristo, como ser humano, pode ser tão bom como Job ou tão
mau como a mulher de Job ou os seus falsos amigos.
Isto no plano das possibilidades.
Sem este poder plenamente humano, isto é, plenamente
ambíguo como possibilidade, não teria havido incarnação alguma, Cristo
algum.
A realidade agente de Cristo é de
uma outra substância: não da substância da possibilidade, mas da substância da
realidade incarnada. Segundo esta, a partir de possibilidades reais
semelhantes em tudo às de Job e de seus co-narrados, Cristo fez como Job: foi
sempre bom. Mas podia não ter sido: pensar a determinação – predeterminação –
da agência de Cristo é, isto sim, blasfemo, na versão crente da sua narrativa
própria.[23]
A plena humanidade de Cristo implica que tenha de viver o momento da
decisão na carne, isto é, no espírito incarnado numa matéria, numa matéria cuja
vida espíritual é carne, sendo a carne, assim, o que distingue os vivos dos
mortos – os cadáveres não são carne, são mera matéria inerte, indistinguível,
deste ponto de vista, da demais matéria.
Ora, é precisamente na carne que dor e sofrimento podem habitar e, por
vezes, habitam. E a dor e o sofrimento não são quimeras, antes realidades
incontornáveis. E é perante esta incontornabilidade da possível dor e do
possível sofrimento que Cristo está. À partida, como a qualquer outro ser
humano, tão humanamente humano como ele, nada o impede de decidir contornar tal
possibilidade. Para mais, é pragmaticamente fácil: basta dizer que não.[24]
É este o momento para fazer notar o que é óbvio: esta situação é paradigmática de todo o possível momento de escolha por
parte de qualquer ser humano. Nem sequer se aplica apenas aos momentos mais
dramáticos (se é que esta expressão tem algum significado real), aplica-se a
todos os momentos da vida em que há que decidir; assim, aplica-se a todos os
momentos da vida, em que, em cada um deles, decidimos o que vamos ser e o que
vai ser o restante do ser connosco. Tal é o poder de que estamos investidos,
mesmo que disso não tenhamos inteligência, mesmo que vivamos na ilusão de que
tudo é ilusão e de que nada depende de nós.
Pelo contrário, este acto supremo de Cristo mostra, de uma forma modelar,
que, neste âmbito e desde que há seres humanos, tudo depende, neste âmbito, de
nós. E nada, ninguém faz, por nós, o que a nós compete. É, de facto, o momento
«do cálice» e do que nele está fundamentalmente implicado.
Logicamente, nada impede Cristo
de fraquejar e de fugir à dor e ao sofrimento que se avizinham e que ele sabe
que se avizinham e que serão inevitáveis, dado o sim: não haverá magia que o salve;
Deus não vai permitir que toda a grandeza cosmológica genesíaca seja destruída
por um gesto mágico. O milagre está infuso na realidade própria da humanidade e
é a sua mesma presença no e como o que é: o milagre é haver ser e ser com o e
compossível com o ser humano. Quando muito, o milagre destinar-se-á ao auxílio
especial do ser humano, que dele eventualmente necessita, porque é finito e
imperfeito. Não faz sentido algum que Deus use de milagre para consigo próprio,
no que seria, como se tivesse falhado com Job, a admissão da sua pequenez.
O que se pede a Cristo, neste momento, não é um passe de magia, mas que
aja como o homem que também é, sem o que desmente toda a bondade intrínseca da
mesma humanidade e, com ela, do mesmo Deus que, assim, não houvera sabido
criá-la bem.
O momento do cálice é, então, supremamente decisivo, pois não apenas
define o futuro próximo imediato de Cristo, algo temporal e histórico, isto é,
bastante irrelevante, mas define
também a grandeza ontológica do bem
divino, coisa muito mais séria. No
momento histórico da escolha de Getsemani, é a mesma eternidade que se joga:
se Cristo fugir, é o ser que se auto-destrói, é a vitória do nada. Tal é a
seriedade do que está em causa.
Deus não pode falhar.
Ah, mas – blasfémia, dirão alguns – Deus, aqui, feito carne, pode falhar,
ou não é verdade que se fez carne.
Deus pôs-se na situação de poder falhar e não é admissível, aqui, sim, sem
blasfémia, do ponto de vista crente, pensar o contrário, que seria
imediatamente admitir que Deus tinha combinado as coisas para que parecesse que
escolhia quando não escolhia coisa alguma. Se assim fosse, não haveria Deus
algum e todas as pessoas honestas deveriam ser ateias.
O acerto da escolha de Cristo é o
garante da possibilidade de ser possível haver algo que mereça ser Deus e em
que valha a pena acreditar como tal. Não é esta a prática de um deus ex machina, mas de um Deus que se cumpre logicamente, no
absoluto respeito pelas possibilidades totais de uma criação, que o mesmo sabe
que é boa, mesmo que tais possibilidades incluam a possibilidade do mal. Se o
mal não fosse possível, a realidade do ser seria outra, para nós
irreferenciável, aliás. O que se pede, o que se exige, isso que é novo na
prática de Cristo, é que, da possibilidade de e do mal, que é um absoluto,
ontologicamente vazio para lá desta mesma pura possibilidade, não surja mal
algum. Esta realidade imaculada é a perfeição da carne.
Mas, perguntará o inteligente observador não-crente, que Deus é este que
assim se expõe, sem que não haja disso qualquer necessidade (sublinha-se o
termo «necessidade»)?
A pergunta é, do seu ponto de vista, lógica e pertinente e tem de ser
respondida.
Este é precisamente o Deus do mistério do amor. Mistério do Deus que é
amor. Quer isto dizer que isso a que se
chama Deus é este amor agente. O amor é o que é, absolutamente pondo, em
simples dom, o ser; o termo «Deus» é apenas um nome. Através do nome, não se
chega a perceber minimamente o que isso que Deus é seja. Tem de se procurar
perceber o que seja este amor. A única forma é analógica, através da
experiência que temos daquilo que é o nosso mesmo amor, infinito em
virtualidade, finito em realidade.
Assim, apenas quem ama[25]
pode perceber o que se passa nesta narrativa. O que está em causa, como já
estivera em Job, é a salvação não
apenas do ser humano, mas do desígnio de Deus para a sua criação, mormente para
o seu ápice criatural, o ser humano.[26]
A partir das possibilidades, de todas as possibilidades da criação e do
encaminhamento que tiveram, há que ou deixar a mesma degradar-se a um ponto em
que já nada mais reste do que a solução universal proposta para Sodoma e
Gomorra ou há que procurar salvá-la. A disjunção é exclusiva.
A incarnação e o seu culminar na paixão de Cristo respondem alternativa e
positivamente, como nova possibilidade, à velha limpeza cosmológica proposta
contra aquelas cidades. Cristo é o salvador possível para todas as possíveis
Sodomas e Gomorras, limite simbólico da perversão da cidade dos homens. Cristo
é o portal novo de saída, de passagem, da cidade dos homens para a cidade de
Deus, como Agostinho, pecador, mas grande amante, bem percebeu.[27]
Na base fundacional do «logos» da
Paixão está o desejo e a vontade de salvar, no limite extremo do possível, a
criação, na sua ligação com o ser humano. Claramente, este está a servir de
intolerável elemento poluidor da mesma. De entre as duas únicas possibilidades
de emenda, Deus escolhe a que permite ao ser humano trabalhar no sentido da sua
mesma salvação. O gesto salvífico manifestado através da incarnação e paixão
não é um procedimento mágico, imediato, isto é, sem mediação, não é um
movimento tirânico de forçada salvação, mas um labor litúrgico de amorosa entrega incondicional pela
possibilidade da salvação dos seres humanos.
Possibilidade, porque a salvação – ao contrário do que muitos desejariam
– não é automática, antes fruto de uma laboriosa agência no sentido de um
absoluto de bem, outrora perdido, cujo sentido fora outrora perdido. A Paixão
opera paradigmaticamente neste sentido.
Não se trata de se imitar mecanicamente um sofrimento inimitável, ou
sequer, de ter de sofrer, mas de se dispor e de se pôr em causa como agente de
um caminho que leva ao bem e, assim, à salvação, não apenas a própria, mas,
consigo, de todo o criado. E esta é a única versão verdadeiramente
ecologicamente válida. Esta é a única ecologia possível, pois, enquanto o ser
humano não «salvar» a sua mesma existência, não é possível que se salve a
existência de isso que com ele convive, convivência que é um oxímoro, pois que
significa caminho confuso de morte. Com o ser humano fora do horizonte do
absoluto do bem, toda a sua companhia é uma companhia de morte, não de vida,
nesta condição situada, com ele não se «com-vive», apenas se «com-morre».
A morte com que finaliza a parte mundana da Paixão deve significar a morte de toda a morte provocada pelo
convívio humano, vencida, já no que é a parte transmundana da narração, já não
passional, mas gloriosa, pela ressurreição e manifestação aos seres humanos
capazes de entender o sentido assim manifesto.
É nesta teofania que se dá, pela primeira vez, a primeira verdadeira antropofania, pois é nela que o homem
perfeito vem manifestamente como tal ao mundo. É o segundo momento da criação
do ser humano. O momento da perfeição, em que não há, já, apenas, um Adão, que
quer ser Deus, mas um ser humano que é o mesmo Deus incarnado. A perversão de
poder é impossível, porque desnecessária (recordem-se os passos das tentações
de Cristo pelo demónio).
Para o crente, é o primeiro momento histórico em que tal se dá, pois quer
o velho Adão quer o modelar Job são figuras
transcendentais, sim, mas a-históricas,
logo, meramente transcendentes. Se
teve de haver um qualquer «Adão» histórico, o primeiro ser humano, esse não foi
o narrado no Génesis, em que é apenas
uma figura paradigmática. Job nunca existiu. Cristo é não só o «novo Adão» como
o primeiro ser humano em sua plenitude de bondade possível e real, que Adão
poderia ter sido, mas não foi (independentemente das razões: se fossem outras,
não teria havido redenção?).
Conclusão: vitória da coragem e do
amor
As representações aligeiradas da natureza cruenta do supremo sacrifício
suportado por Cristo, mas também pelos dois outros homens que o acompanham e
por todos os outros, num número incalculável, que sofreram penas deste mesmo
tipo de extrema crueldade, mais não fazem do que desrespeitar o sofrimento de
quem por tal passou, goste-se ou não dessas pessoas, incumprindo o mandamento
do amor universal, se se for cristão, incumprindo o mandamento do bem-comum, se
se for qualquer ser humano, independentemente de quaisquer opções religiosas ou
outras suas substitutas.
O nível de crueldade destes momentos em que seres humanos resolvem
amesquinhar outros seres humanos, qualquer seja o pretexto invocado, não é
negligenciável, pois mostra inequivocamente qual a atitude ética, política, mas
sobretudo ontológica dos que assim procedem.
O uso de uma extrema crueldade, sempre desnecessária quando se trata
precisamente de matar alguém,[28]
qualifica o momento da morte desse alguém como qualifica também quem opera tal
gesto em tal momento. Se bem que nada qualifique ou desqualifique, no que é, em
seu mesmo absoluto, o acto da morte, não é sem importância que a morte daqueles
seres humanos, entre os quais se encontrava esse ser humano especial que, para
os cristãos, é o mesmo Deus feito homem, tenha ocorrido de uma forma mais ou
menos violenta, mais ou menos cruel. A crueldade do processo é fundamental para
que se possa compreender a grandeza do bem e do mal que aqui estão em jogo.
De um ponto de vista fundamentalmente lógico, mas também narrativo-mítico
e também ainda histórico, após a manifestação que constitui o Livro de Job, e tal de um modo que é
independentente da sua consideração como teofania ou não, o que faz desta
manifestação não uma obra historicamente ligada de forma estreita a uma dada
cultura e civilização, mas a toda a humanidade, que se pode ver paradigmatizada
no mesmo Job assim narrado, não pode esse, que vem mostrar concretamente na
carne humana o que a leitura de Job
não transmitiu, deixar de superar o próprio Job. Assim, não pode Cristo passar
por menos do que Job passou, pois, caso contrário, teria sempre havido um
modelo superior de sofrimento ao próprio sofrimento de Cristo, o que
menorizaria irrevogavelmente o papel de paradigma incarnado de Cristo.
Cristo é não apenas um novo Job, o novo Job, mas é o Job definitivo.
Definitivo porque é a superação incarnada do paradigma não incarnado –
meramente teórico no mito que o expõe e na relação com o que manifesta – de
Job. A coincidência histórica da existência desta forma extremamente cruel de
eliminação física dos inimigos da imperial deusa Roma – talvez mais
propriamente do seu bem pouco divino Imperador – serve perfeitamente a
necessidade de existência de uma provação que em nada seja inferior à de Job,
teoricamente insuperável. Apenas quem possa superar uma tal provação pode ser
merecedor daquilo que Job merecedor foi: o eterno reconhecimento de Deus e a
possibilidade do eterno reconhecimento dos seres humanos, esses que, assim, se
revelam como os de «boa-vontade», assim, tão boa quanto a de Deus.
A tarefa é difícil. Sabendo o que o espera, não admira que Cristo tenha,
muito humanamente,[29]
manifestado o seu temor e invocado o Pai, no sentido de saber se poderia ser
poupado a tal provação. Sabemos qual a resposta e qual o resultado.
O amor é isso que quer e institui o melhor bem possível para algo. Em
termos bíblicos, e desde os mais antigos e aurorais momentos da criação, que
Deus manifesta o seu mesmo amor, não como frágil palavra – ao modo das
vagamente pneumáticas afirmações humanas –, mas através da perfeição do gesto
criador e do resultado da mesma criação. Quando Deus diz que isso que contempla
pela primeira vez, após a posição absoluta do novo estado ontológico de
criatura, é bom, manifesta paradigmaticamente o enlevo que o seu amor pôs nisso
que criou: amar e criar são o mesmo e
são-no paradigmaticamente.
Quer isto dizer que todo o gesto de amor cria e que apenas este cria. O
mais é parasita. O que se pediu a Job foi que refizesse em si próprio o gesto
criador de Deus, como mostrador da intrínseca bondade da possibilidade da
criatura humana. O que se pede a Cristo é que o faça realmente. Tudo o mais é fundamentalmente irrelevante.
E é esta a grande crueza – que não se lhe pode chamar «crueldade», pois
que não tem o toque de perversidade humana que a crueldade tem de ter –[30]
presente no drama dos últimos momentos de Cristo: o não poder falhar a provação
que se avizinha, se quiser ser o Deus salvador da criação e do ser humano.
Esta crueza remete para isso que é o absoluto rigor do amor: se a paixão
se manifesta como algo de não apenas sempre caloroso, mas, muitas vezes, também
desordenado, o amor, ainda que vivido no seio de uma qualquer paixão, é sempre
da ordem do lógico. Se o ardor da paixão, mesmo no sentido de sofrimento, pode
permitir um exercício do amor mais expedito, mesmo acelerar o seu movimento
próprio, este, para que o amor possa cumprir-se como realização do bem de algo
ou de alguém, tem de necessariamente ser o mais lógico e rigoroso possível.
Esta relação entre amante e amado não encerra qualquer forma de
anterioridade de um relativamente ao outro. O acto de amor imediatamente liga
ambos os seus pólos, pólos que só são como tais na ligação dada pelo acto de
amor.
Assim, a coragem é a força da paixão posta ao serviço do acto de amor.
Por isso, há que aceitar beber o cálice. Beber o cálice é o acto de amor, em
que a paixão se consubstancia, através da coragem, em amor. Se este amor é o
acto de bem querer infinitamente a tudo, então, é um infinito acto de amor.
É este infinito acto de amor,
que necessita de uma paixão extrema, como se infinita fosse, e de uma coragem
também extrema, como se infinita fosse, que
ganha literalmente corpo no corpo de Cristo. É a afirmação incarnada de que
o ser humano pode amar infinitamente, isto é, pode amar tanto quanto a sua
paixão lhe permitir e, se esta paixão for infinita, pode amar infinitamente.
Diz Fernando Pessoa / Álvaro de campos: «Tenho apertado ao peito
hipotético mais humanidades do que Cristo».[31]
Se este «peito hipotético» deixar de ser hipotético e passar a ser real, as
humanidades que se lhe estreitam passam também a poder ser reais, tão reais
como o real peito. Se Job mostrou a forma unipessoal de o ser humano se poder
salvar, manifestando pedagogicamente uma paideia universal para a salvação,
pedagogia, aliás, falhada, Cristo é modelarmente, esta mesma possibilidade
feita carne, mas não apenas como um acto de si para consigo próprio, mesmo com
Deus como co-agente dialéctico, mas um acto de um para todos.
Se Job se salvou a si próprio, ainda que com Deus, Cristo quer salvar todos. Quer assim o bem de todos. A
sua extrema coragem faz com que não apenas queira, mas realize o acto mediador
que tal proporciona. Deste modo, mesmo sem que tivesse de haver uma
ressurreição, já o amor tinha triunfado.
Para o cristão, a ressurreição é a redobrada vitória do amor, na forma da
possibilidade imorredoira do mesmo amor. A
ressurreição, assim, não é uma recompensa, mas o reinício da possibilidade de
amar com um amor que pode não conhecer fim e que é já o mesmo com que Deus amou
a mesma criação que acabara de criar.
Quando perceberemos nós, por vezes viciados num cobarde tédio de
impotentes, o quão bom é isto que somos, mesmo na mais profunda paixão, mesmo
no mais vil pecado?
Natal de 2011
Américo Pereira
[1]
Contrariamente ao que vulgarmente se pensa, toda a história e toda a
historiografia que não dependa da memória obtida directamente – e mesmo esta
com todas as limitações óbvias – por parte de quem rememora o que foi, é basicamente um evento de fé: que posso
eu, que não assisti quer à morte de Cristo quer à de Alexandre, por exemplo,
fazer senão ou acreditar, tanto quanto é racionalmente possível, nos relatos
que sobre estas mortes me chegaram, ou não acreditar? Mas, tendo em conta o que
ficou dito, epistemologicamente, o que se disser acerca da possível veracidade
do relato respeitante à história de Cristo tem de ser dito acerca da possível
veracidade do relato respeitante à história de Alexandre. É sempre a partir de
um testemunho monumental qualquer que eu posso laborar quando trabalho em
campos em que a memória (ou a monumentalidade) é o único dado existente. Quanto
à vida de Cristo ou de Alexandre, apenas quem com eles conviveu directamente
pode ter relativamente a mim, que com eles não convivi, e relativamente ao que
directamente testemunhou, informação privilegiada: o único e simples privilégio
aqui presente é esse mesmo convívio directo; tudo o mais é acto de fé, mais ou menos racional. Esta evidência é
inegável.
[2]
Usa-se o singular porque «vida e morte» é
uma unidade.
[3]
Quem o prega não o des-prega, quem o mata não o des-mata: é a ressurreição que
anula a eternidade possível da morte. Mas esta eternidade é independente das mãos
do carrasco.
[4]
Nova Bíblia dos Capuchinhos,
Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica, 1998, Mateus, 27, 35-36; foram também
utilizadas as seguintes versões: La Bible
de Jérusalem, Paris, Cerf, 1973 e Novo
Testamento interlinear Grego-Português, São Paulo, Sociedade Bíblica do
Brasil, 2007.
[5]
Se bem que não de outro, como adiante se verá.
[6]
A presença da Mãe e dos amigos, se bem que consoladora, não anula a situação de
absoluta solidão ontológica experimentada: ninguém vai «beber o cálice» por
Cristo – ninguém o bebe por outrem –, nem Deus, o Pai, o pode fazer.
[7]
Grande parte da chamada modernidade explica-se como o movimento de fuga ao
horror e à angústia desta solidão ontológica, numa evasão para uma
exterioridade – que nem sequer é de matriz cartesiana – que procura substituir
politicamente, na superficialidade da maior parte das relações políticas, o
vazio ético produzido pela incapacidade de se abraçar esta solidão ontológica,
partindo dela para a única relação política capaz de a vencer, precisamente o
amor.
[8]
«E o pecado?», pergunta-se: o pecado não faz parte de tal necessária
experiência, é apenas uma sua possibilidade, que pode ser para sempre
inconcretizada. Esta distinção é fundamental e surge já em Adão e Eva, em que
inicialmente o pecado era uma simples possibilidade, necessário como
possibilidade, mas nada mais. O pecado poderia nunca existir; a sua existência
não desmente esta mesma possibilidade. Cristo é, cristamente, esse que cumpriu
a possibilidade da impecabilidade. A negação do pecado não é matéria de
opinião, mas real facto cristão operado por Cristo.
[9]
Estas palavras de Cristo correspondem ao mais duro pronunciamento acerca do que
é a recompensa ontológica pelo que se faz, precisamente como o que se é (não se
entende como Nietzsche não percebeu isto). Estas palavras implicam que há uma
ontologização, uma hipostasiação do que se faz. Assim, o feito, enquanto tal, é
irremível. Hitler será o que fez para sempre. O perdão anula a relação do feito
com o possível de quem fez, mas não
anula ontologicamente o que se fez. Hitler será Hitler por toda a eternidade,
mas sem ilusões, mesmo que perdoado.
[10]
Nova Bíblia dos Capuchinhos,
Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica, 1998, Mateus, 27, 38.
[11]
Este dado é paradigmático e constante; aplica-se ao caso de Cristo, como se
aplica a qualquer caso em que se queira pôr em causa qualquer poder deste tipo.
[12]
O problema que Prometeu suscitou não se refere ao facto de ter querido ajudar o
ser humano, mas a ter furtado aos deuses para dar aos seres humanos algo que
era exclusivo dos deuses, assim provocando uma confusão ontológica que nunca
mais teve remédio possível. É esta mesma confusão que o cristão não deve fazer,
ao dar a César o que é de Deus, por exemplo, quando se rebaixar a adorar César:
este é um homem poderoso, não é Deus ou sequer um Olímpico. Se Cristo veio
trazer o absoluto da distinção, então, é em nome desta distinção absoluta que o
Cristão é suposto viver, sabendo que toda a confusão é maligna, isto é,
menoriza os seres que nela se confundem, aniquilando a possibilidade de máximo
bem próprio para cada um deles.
[13]
Diga-se o que se disser, a história da humanidade não conheceu outro momento de
grandeza humana como o que se conseguiu, dificilmente e com muito sacrifício,
construir a partir do encontro da mensagem de Cristo com a metafísica do bem de
Platão: deste encontro deriva, muito tardiamente, todo o reconhecimento dos
chamados direitos humanos, impossíveis de reconhecer – de facto, nunca o foram
– sem tal encontro e o que significa de reconhecimento da grandeza ontológica
própria quer da humanidade como um todo quer de cada ser humano, cada pessoa. O
seu culminar, perfeitamente laico na sua formulação política, dá-se, na
sequência das terríveis lições da Segunda Grande Guerra Mundial, apoiado nos
legados próximos de homens como Winston Churchill e Franklin Roosevelt, na
«declaração universal dos direitos do homem». Hodiernamente, encaminhamo-nos
para um período em que toda esta grandeza está posta em causa, à medida que
formas antigas de denegação da grandeza ontológica da humanidade universal se
vão tornando hegemónicas, retomando as formas tirânicas e oligárquicas antigas
uma força renovada, o que prenuncia uma nova tenebrização das relações entre os
seres humanos. Não é por mero acaso que toda a metafísica que suporta a
dignificação da pessoa humana está sendo cada vez mais posta em causa: sem este
movimento de denegação, os candidatos a senhores do mundo não podem prevalecer.
Novas cruzes se estão rapidamente a erguer.
[14]
Mais um ponto que Nietzsche não entendeu ou não quis entender, afogado que
estava na perversão cultural e política de uma chamada civilização cristã que
mais não era do que uma moralização própria para justificar certas formas de
ordem político-social. Grande defensor – e bem – da supremacia da dadivosidade,
não percebeu que é esta mesma dadivosidade absoluta que está no cerne da vida
de Cristo, que subsume todas as outras formas, mesmo as dionisíacas,
super-humanas, vitalistas em geral. No entanto, na figura do Kind, parece haver, não uma aproximação
ao cristianismo, o que não interessa, mas uma nova intuição acerca da inocência
dadivosa do que se dá, sem mais. Só que tal dadivosidade implica sempre uma
qualquer forma de crucifixão... Implica interiorizar o que se proclama, implica
procurar o “Deus” a matar no que há que matar em si próprio, implica morrer
para todas as formas de ídolos, não só para as apolíneas.
[15]
Mesmo os milagres não são mágicos, mas servem-se de mediações: a suposta fuga
às chamadas leis da natureza mais não é do que a abertura de uma excepção, de
um privilégio, relativamente ao demais. Mas
um privilégio não deixa de ser um possível, um meio... Não admira que
hodiernamente, perdido o sentido da necessária mediação na nossa existência,
surja uma nova mentalidade magista, que se pode concretamente verificar
abundantemente nos media. Mas também
grande parte dos problemas económicos que se estão vivendo dependem de
governantes com mentalidades magistas, que pensam que se podem alcançar
resultados sem mediações, como, por exemplo, o trabalho.
[16]
A «cidade de Deus» não se opõe verdadeiramente à «cidade dos homens», mas à
«não-cidade-de-Deus». É fundamentalmente isto que Agostinho quer dizer. É a
eliminação de Deus da cidade que faz com que o que resta seja apenas humano
(Xenófanes). O ser humano pode apenas contar com a finitude do sentido de um
ser em que não há um bem infinito em acto, que sirva de paradigma ontológico e
praxiológico. Todavia, nada impede que numa cidade dos homens, que não tenha
evacuado Deus, co-exista uma cidade de Deus: no absoluto de bem que norteia
cada gesto de cada ser humano.
[17]
Neste sentido, é Cristo e não édipo quem resolve definitivamente o enigma da
esfinge. Na cruz, responde-se ao enigma sobre tal ser: «eis o homem».
[18]
Se fosse em 1943 d. C., em Treblinka ou em Auschwitz, por exemplo, poderia ter
sido por gaseamento, fuzilamento, espancamento, etc., mas também por
crucifixão... nada disto verdadeiramente interessa, apenas interessa a morte e
o seu fim. Tudo o mais é simplesmente desumano, como desumana é a paixão de
Cristo sem o seu fim, como desumana é
toda a pragmática ateia de humanidade e pseudo-divindade de toda a acção
exterminadora do nazismo e de todas as formas de fascismo. A morte de Cristo é
a resposta definitiva a todos os fascismos possíveis, e isto de uma forma que
nem sequer tem de ser «religiosa» ou «crente» em algo mais do que a intrínseca
possibilidade de bondade da humanidade. Assim, em seu momento de aceitação da
morte e da liturgia sacrificial desta, Cristo responde ao que não tinha podido
ser respondido em Job.
[19]
Nada obsta a que tivesse sido, por exemplo, decapitado ou mesmo esquartejado,
para já não dizer que a sobrevivência física aos preliminares do «amaciamento»
feito pela guarda pretoriana é fortuita, pois só tal tratamento já era o
bastante para matar alguém menos forte. Também não se pode ver a crucifixão
como um acto de «marketing», porque era o meio que «melhor ficava nas narrações
históricas»... A comum versão de que se trata de sofrer o comum da sorte do
comum dos seres humanos parece ser a mais simples e a mais consentânea com o
ritmo próprio de uma história vivida e não inventada. Mas as pessoas acreditam
sempre e só apenas no que querem, por definição.
[20]
Nas versões ateias, não pode deixar de ser uma forma qualquer de mentalização
da matéria, na forma de um freudiano «super-ego» falante ou de um qualquer
outro «fantasma» psicológico ou social, uma “qualquer coisa”, que ninguém sabe
realmente o que é, mas que é confundida com «o cérebro», funcionando como
entidade hipostática e hetero-falante e mandante, que para si mesmo se
pronuncia hermeneuticamente acerca de certos acontecimentos.
[21]
Mas o que é este melhor bem possível? Este melhor bem possível não é um
qualquer tresloucado e apologético sonho leibniziano, mas isso que, em cada determinável momento, for isso que contempla a maior
positividade ontológica: algo fácil de perceber e que faz da intuição de
Leibniz algo de muito nobre. Segundo o «mythos» da criação genesíaca, o momento
determinado que correspondeu ao maior bem possível realizável em esse mesmo
momento é precisamente o exacto momento (repetição propositada do termo) em que
o criatural mundo saiu das mãos do criador. Por isso, o Criador, que era até
mais inteligente do que Leibniz e seus críticos, disse que tal era bom. Porquê
insistir em não compreender isto? Apenas por causa de uma freudiana escusa de
quem nem sequer quer casar com a mãe, mas não deixa de sempre querer matar o
pai?
[22]
Possibilidade que pode nunca passar a outro nível ontológico (caso de Cristo,
para o crente).
[23]
A necessitação da agência de Cristo corresponderá a uma necessidade de invocar
uma razão transcendente para justificar uma incapacidade de exercício autónomo
daquilo a que o experiente Santo Agostinho chamava o «livre-arbítrio»,
exercício autónomo, sem o qual não há nem pode haver qualquer liberdade.
Determinar Cristo é desculpabilizar antecipadamente todo o acto mau que eu
possa fazer, pois, se até o Deus feito homem era obrigado a agir de uma certa
forma, como não o hei-de ser eu, infelizmente apenas mero homem: se eu fosse
Deus, então... Por detrás de certas teologias que apoucam quer a liberdade de
Deus quer a do ser humano, estão fortíssimas frustrações de seres humanos que
gostariam de ser eles próprios Deus.
[24]
Não tem de cumprir as tarefas de um Gilgamesh, de um Job, de um Ulisses: basta
dizer que não e tudo cai. Não tem que prestar provas para obter o que quiser:
as provas virão depois e de uma forma inexorável.
[25]
Usamos o termo no presente do indicativo, pois trata-se de uma experiência que
corresponde a algo de absoluto, o mesmo acto
de amor, isto é, o querer o bem do outro e laborar nesse mesmo sentido, sem
qualquer outra finalidade que não esse mesmo sentido, numa absoluta gratuidade que constitui o cerne mesmo de todo o motor da
acção que aqui é narrada. Nada da Paixão se pode compreender se não se intuir a
absoluta gratuidade do acto de Cristo. Supor que, neste acto,
paradigmático, ou em qualquer outro acto que paradigmatiza de um outro qualquer
ser humano, possa haver uma qualquer contaminação de um qualquer outro
interesse que não o do sentido do bem do amado, é nada perceber e, em termos
crentes, é simplesmente blasfemo. Para o crente, Cristo não põe preço no bem que faz, dando gratuitamente a comer do
bom pão do seu amor, impondo para sempre a necessidade da gratuidade da refeição do amor: a sempre grátis refeição do amor,
divino ou humano. Se não há gratuidade, não há amor, apenas uma qualquer
agência sans noblesse. Este acto é, em sua mesma essência e
substância, intemporal, coincidindo, para sempre, com o melhor próprio do seu
mesmo autor. Justifica-se, assim, o presente do indicativo, indicador do
sentido de eterno bem presente no acto de amor.
[26]
Para se perceber o que aqui está em causa, tem de se respeitar a essência da
narrativa que aqui se nos apresenta (esta, aliás, como todas as outras). Ora,
nesta narrativa, Deus cria o mundo e nele o ser humano, como seu ápice ontológico. É esta a essência
narrativa do que lá se encontra, não outra coisa qualquer, não o que alguém
gostaria de lá encontrar. Mas, dizem, o homem está longe de ser esse ápice,
precisamente pela sua agência, que nega essa mesma posição apical. O ser humano
é apenas um de entre incontáveis seres, todos tão perfeitos como ele, cada um
em seu lugar próprio de perfeição e um ser humano não é, assim, topologicamente
mais perfeito do que, por exemplo, uma libelinha qualquer no seu «topos» próprio. Não podemos estar mais de
acordo com esta perfeição tópica e esperamos pela concordância da libelinha,
que publicaremos numa próxima versão deste texto. Entretanto, para um Francisco
de Assis, um sentido genuinamente ecológico do universo e da sua relação com o
seu princípio fundador levou a uma visão apuradíssima da perfeição ontológica
de todos os seres, todos irmãos no Criador, todos diferentes como criaturas, todos amáveis em sua perfeição própria,
sem confusão, sem mim a voar delicadamente nos pântanos e as libelinhas a
escrever sobre isso mesmo, isto é, sem confusão onto-topológica.
[27]
O grande mal residente em Sodoma e Gomorra não é o obsceno mal da perversão do
sexo, tanto do agrado de tanta gente, mas o
mal da falta de amor; todos os outros são hetero-remíveis, mas este último
é auto-irremível, pelo que tem de ser remido por algo diferente de si, por algo
tão capaz de bem quanto de mal há nele. A um mal tendencialmente infinito,
apenas um bem infinito pode responder positivamente. É isso que Cristo
representa na narrativa da sua Paixão e é isto que Cristo é para o crente.
[28]
A eficácia do gesto matador não depende, de modo algum, do nível de violência
utilizado: para matar alguém, tecnicamente falando – e com toda a frieza que
tal consideração implica –, basta o emprego de formas de força mínima, que são,
ainda assim, formas de violência máxima, pois a maior violência consiste no
atentado contra o maior bem: a mesma vida humana, em seu absoluto próprio. Ora,
se toda a violência, por definição e porque é sempre um uso excessivo e abusivo
de força, é já demasiada, o seu incremento torna-se absolutamente
injustificável, senão para e por mentes perversas de seres humanos que abdicam
do que de mais propriamente humano há em si em troca do gozo do poder, que
constitui a ilusão “celestial” dos tiranos.
[29]
Repare-se que é precisamente o paradigma da humanidade e da humanidade no seu melhor,
mas como carne, que aqui está em causa: o sofrimento, como a alegria, são os
momentos mais profundos da experiência humana. Nada mais humano, pois, do que
temer o sofrimento. Se se é pessoa humana, teme-se o sofrimento; tanto mais
perfeitamente, quanto mais perfeito se é como humano. Se uma inteligência
humana quase aniquilada não pode permitir grande sofrimento, pois já não há
sequer como sofrer, por falta de substracto de inteligência, uma inteligência
humana em toda a sua perfeição incarnada permite o mais terrível dos
sofrimentos, pois isso que é necessário para que se possa sofrer está presente
em toda a sua plenitude: o sofrimento possível, se realizado, será literalmente
o realmente maior. É perante esta possibilidade de um sofrimento perfeito como
tal que Cristo expressa o seu temor. Quem não compreende tal? Como não amar um
ser humano num tal transe? Encontramos a narrativa desta cena, segundo São
Mateus, em Mt 26 36-46.
[30]
Por exemplo, alguém ser esmagado por uma árvore que cai, numa floresta virgem,
porque há gravidade e vento, é cru, mas não é obviamente cruel.
[31]
Pessoa Fernando, Poesias de Álvaro de
Campos, Lisboa, Ática, 1980, Poema «Tabacaria», pp. 252-259, este verso
encontra-se na p. 254.
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