A linguagem da fé e as
suas tradições
O carácter fundador em Génesis 12, 1-9
Contrariamente ao que é vulgar ouvir-se
dizer, a fé não é um estado ou uma disposição para acreditar em algo, seja este
algo de cariz religioso ou não. A fé pressupõe um caminho, um itinerário, que é
necessário percorrer em busca da verdade. Caminho que temos que percorrer ao encontro
e na busca permanente Daquele em quem depositamos confiança. É este o processo
que nos é apresentado na Escritura, onde o homem bíblico é essencialmente o
peregrino em busca desse Alguém que o liberte da sua mesquinha materialidade.
A fé é assim um processo, uma atitude de
abertura ao transcendente, que se traduz na entrega e na fidelidade Àquele em
quem se confia. Neste processo que é em si mesmo auto construtivo, a confiança
gera confiança que por sua vez conduz à entrega, ao dom de si mesmo. Na Sagrada
Escritura não encontramos conceitos abstractos para nos falar da fé.
Encontramos experiências concretas de pessoas concretas vividas quer individual
quer comunitariamente. Tendo por base as Escrituras, encontramos posteriormente
outras formulações mais elaboradas, que são fruto de reflexões teológicas que
procuram traduzir essa dimensão da fé no pensamento helénico, romano e latino.
Estas formulações são normalmente do tipo racional e mais abstrato, como por
exemplo todas aquelas que são elaboradas pela patrística nos primeiros séculos
da era cristã.
Podemos dizer que Deus é a causa que nos leva a ter
fé, ou seja, que nos leva a acreditar que Ele é digno de confiança. Neste itinerário
tem lugar central a palavra, pois é
esta que é a fonte da confiança depositada:
«E onde podemos nós encontrar
outra Palavra que diga mais verdade, mais beleza e mais sabedoria que não seja
na Bíblia? Mais que instrumento de comunicação, a Palavra é espaço de encontro
em ato de busca da verdade. Todavia, a Bíblia diz-nos que a Palavra não é só
expressão da verdade do dizer, mas é-o fundamentalmente enquanto expressão da
verdade do ser, da verdade da identidade daquilo que é e como se é. É assim que
a Bíblia é essencialmente Palavra, já que o seu dizer se converte em criação e
do seu dizer nasce um povo e se identifica também ele mesmo como o povo da
Palavra, da Escritura.»[1]
Outro elemento importante nesta caminhada
é o contexto social e relacional da
Escritura. Neste campo predomina uma linguagem de cariz religioso que se
manifesta através dos e nos “oráculos de salvação”. Nestes textos são
reafirmadas as promessas de Yahwé em relação ao futuro do seu povo. A sua
estrutura é normalmente muito simples e assenta sempre na certeza de que Deus é
fiel. Por outro lado, os textos realçam não só a fidelidade de Deus como
fundamento do ato de crer mas também da própria ação daquele que acredita.
Assim, para o homem bíblico, o seu agir
em relação à sua comunidade tem que ser de molde a provar a sua fidelidade.
Outro tipo de textos que colocam em
realce a fidelidade de Deus, são os salmos.
Os salmos fazem memória das “gestas e
feitos” históricos que Yahwé opera em
prol do seu povo, sendo esta fidelidade, geradora da fidelidade dos
crentes.
Outra expressão da fé bíblica traduz-se
pela aliança pela qual Deus oferece ao seu povo um tempo novo, onde
a dimensão comunitária da fé atinge a plenitude. A aliança está sempre
associada à palavra (dabar) que compromete. Ao longo da história da salvação a aliança foi sendo renovada, envolvendo
quase todos os personagens da história
bíblica. Neste itinerário a escritura apresenta vários exemplos e o
testemunho de personagens que se tornaram modelos, pelo caminho que fizeram
para a descoberta da verdade e adesão a Deus.
É neste contexto que a figura de Abraão se torna paradigmática e
fundadora das três grandes religiões monoteístas (a fé num só e único Deus):
judaísmo, cristianismo e islão.
Os momentos que marcam este processo de
caminhada são 4:
·
O chamamento e
resposta que implica rotura;
·
A escuta e
obediência (aceitação);
·
A opção que é
acolhimento;
·
A intercessão e
confiança.
O chamamento
que interpela e lança um desafio implica uma resposta, que sendo positiva,
implica imediatamente uma rotura: deixa a
tua terra, atua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que eu te
indicar. Abraão aceita o desafio e põe-se a caminho sem impor condições,
rompendo com o mundo politeísta em que habita. Esta adesão representa uma dupla
rotura: a rotura com a família e a rotura com o património religioso do seu
clã. Abraão é também o modelo de crente onde acontecem dois momentos: A chamada e o envio. É este o
modelo do itinerário na afirmação da fé bíblica, que é sempre um caminho, um
processo. Acolher este chamamento de Deus implica uma disponibilidade radical,
que leva a tudo deixar porque a certeza de Deus se impõe. Por outro lado a
fidelidade de Deus, gera no crente uma certeza ainda maior. É este movimento, a
que chamamos ato de fé, que se apresenta como
um processo, uma caminhada que se inicia no momento do chamamento – a escuta – e
tem a sua continuidade da decisão – opção, que nos é apresentado em Gn 12, 1-9, e que podemos designar por paradigma abraâmico.
Portela, 25 de Novembro de 2012
Francisco Vaz
[1] Lourenço, João D., “O que sabe a
bíblia sobre a palavra”, Casa Fernando Pessoa, Colóquio: A Bíblia, coisa
curiosa, 14 de Abril de 2011
A experiência da fé
na ‘metáfora conjugal’ de Oseias
Oseias iniciou o seu ministério profético no reino do
Norte, nos últimos anos de Jeroboão II (meados do séc. VIII). Após a morte do rei em 743 e de um longo período de
paz e de progresso, a Samaria entra em profunda convulsão, coincidindo com
o período de ascensão do império assírio, que se torna numa ameaça cada vez
mais presente ao reino do Norte.
O contexto social e político subjacente à mensagem do
profeta Oseias permite-nos compreender a sua mensagem, cujos oráculos têm por
temática central precisamente o anúncio do fim do reino do Norte, resultado da
infidelidade do povo às tradições da Aliança.
Oseias utiliza a designada “metáfora matrimonial” para tentar
simbolizar ou traduzir a relação entre Yahwé e o seu povo. A primeira parte do
livro de Oseias fala-nos precisamente do imperativo que recebe de Yahwé para
desposar uma prostituta, gerar filhos com ela e dar-lhes determinados nomes.
Esses nomes traduzem as relações do povo com Deus e de Deus com o povo. Apesar
de muito rico na sua simbologia, o texto não nos dá elementos suficientes para
perceber se se trata apenas de simbolismo ou, se pelo contrário, é a realidade
que o profeta viveu e da qual se serviu para produzir precisamente a relação do
povo com Deus. Ou seja, o profeta servindo-se da sua própria experiência, vê
que ela é o reflexo daquela experiência mais ampla em que o povo vive na sua
relação com Deus. Estas duas perspetivas, que são, porventura, admitidas em
graus diferentes, são facilmente admitidas pelos estudiosos do profeta Oseias.
Neste sentido, a sua mensagem é clara: Yahwé ama o seu
povo, apesar da permanente infidelidade deste. Por isso, o grande tema dos seus
oráculos tem a ver com o pecado do povo, a idolatria, que ele compara à
prostituição, e que se manifesta essencialmente em duas vertentes:
·
a idolatria política;
·
a idolatria religiosa ou cultual.
Estas duas idolatrias como que se interpenetram. A
idolatria religiosa tem o seu reflexo no uso das coisas, nas alianças e
contatos com os povos estrangeiros. O reino da Samaria caminhava para o fim e
por isso o clima de relacionamento com outros povos expõe o país a uma
idolatria cultual, que leva o povo a correr atrás dos deuses dos outros povos.
A idolatria política, constituía um verdadeiro atentado
aos princípios da aliança, pois era uma ameaça constante à independência da
pátria. As tentativas de aliança com o Egipto ou com a Assíria, que podem
proporcionar segurança humana, põem em causa a independência do país e preterem
a salvação como dom de Deus.
Na profecia de Oseias está presente uma auréola de
esperança aberta ao futuro. Esperança na aproximação de Israel a Yahwé, em que
uma nova aliança, que substituirá a aliança do monte Sinai, irá restaurar a paz
paradisíaca perdida.
Para isso Oseias assenta a sua mensagem profética numa
tríade voltada para o coração e aberta ao próximo:
·
Fidelidade (èmet);
·
Bondade (amor, afeto, hesed);
·
Conhecimento de Deus (da´at èlohim).
A fidelidade tem que ver com solidez, consistência e confiança,
que permite que uma pessoa acredite noutra, lhe dê crédito. É deste conceito de
fidelidade que deriva a nossa palavra “amém”.
A bondade ou afeto (hesed), tema muito caro a Oseias,
designa a disponibilidade humana para se entregar gratuitamente a Deus e aos
outros. Podemos dizer que ela designa a entrega do coração a Deus, porque Deus
entregou o seu coração àquele que nele confia.
Quanto ao Conhecimento de Deus, existem duas
interpretações divergentes. A primeira que tem a ver com um sentido subjetivo
ou pietista. A segunda, faz uma equivalência entre conhecimento de Deus e conhecimento
dos preceitos da Torah. A intuição profética parece, no entanto, situar-se num
horizonte mais vasto. Conhecer Deus pressupõe, para Oseias, uma adequada e
correta conduta humana entre semelhantes. Conduta fundada sempre na intimidade
com Deus, num contexto de aliança. Para Oseias, quando falta o conhecimento de
Deus, falta igualmente o conhecimento do homem.
Portela,
01 de Dezembro de 2012
Francisco
Vaz
Consequências da incarnação
histórica dos crentes para a
formulação
do conteúdo da fé cristã
A característica
fundamental da condição humana é, sem dúvida alguma, a sua historicidade. O ser
humano é um ser potencialmente de escolhas infinitas mas sempre limitado a um
tempo e um lugar situados no processo histórico.
Mas a fé cristã não pode ser só e apenas uma atitude de
acolher e reconhecer a verdade fundamental que nos constitui como humanos.
Porque não é da ordem da evidência nem pode ser demonstrada através de um
processo científico, tem que corresponder a conteúdos concretos do acreditar.
Como tal, a verdade da fé cristã, é também a verdade daquilo que se afirma
crer.
Por isso, a linguagem da fé partilha a linguagem da
historicidade humana, ou seja, as vicissitudes da história e das circunstâncias
das suas formulações. A fé cristã implica um conteúdo. Ao rezarmos o credo
dizemos que acreditamos em Deus pai, no Filho, no Espírito, na Igreja. Mas, por
outro lado, a fé cristã tem uma dimensão de acto. É uma actividade, um
itinerário, um caminho que se faz na procura do Perfeito.
A linguagem da fé́ partilha a historicidade as vicissitudes
da história e das circunstâncias da sua formulação. A história de Israel, que é um dos momentos históricos
importantes, bem como depois a história de Jesus, são paradigmas para a formulação
da fé cristã.
Nos primeiros séculos do cristianismo foi necessário
precisar ainda mais a formulação do conteúdo da fé́, nos seus elementos
fundamentais, como correcta interpretação do significado da história de Israel
e da história de Jesus.
Foi através dos concílios e dos sínodos, e das reflexões dos
padres da Igreja que surgiram as formulações que, juntamente com a Escritura,
passaram a constituir marcos paradigmáticas da fé crista. O símbolo dos Apóstolos
e o símbolo Niceno-Constantinopolitano, (que recolhe formulações dos Concílios
de Niceia e de Constantinopla I e II) são exemplo dessa formulação paradigmática,
à qual terá́ que se referir toda a interpretação da verdade da fé́ cristã.
Estas formulações constituem os dogmas, que não são mais do
que a afirmação da autoridade da Igreja, ou seja, uma afirmação que é acompanhada da pretensão de ser verdadeira, como
nos diz Karl Rahner.
Nas palavras de P. Gisel, o dogma
existe porque existe uma efectividade originária, uma história cheia de
diferenças a pensar, articular e arbitrar e uma regulação complexa e de tipo
essencialmente institucional.
Assim, são necessárias interpretações que sendo individuais
tem que se enquadrar e realizar na e pela comunidade eclesial, num processo que
implica a referência ás origens. No processo de interpretação é sempre
fundamental olhar para o passado, sem o
qual a identidade presente não é possível.
Apesar das necessárias permutas comunitárias das
perspectivas, é necessário um trabalho crítico que mantenha a vigilância para
que não haja desvios significativos nesse processo de interpretação. Daqui
resulta o papel fundamental do magistério.
É nesta correcta articulação entre a tradição e a actividade
crítica em relação aos conteúdos da fé, que é possível encontrar os dinamismos
impulsionadores da história para o futuro.
Portela, 26 de Maio de 2013
Francisco Vaz
Que
caminhos poderá seguir, na cultura actual,
a reflexão crítica sobre a fé?
Como
diz J. B. Metz, o cristão vive dentro da
sua situação presente, sempre fiel ao acontecimento e à mensagem que é Jesus
Cristo. Diz ainda o nr 58 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes: Múltiplos laços existem entre a mensagem da salvação e a cultura humana.
Deus, com efeito, revelando-se ao seu povo até à plena manifestação de Si mesmo
no Filho encarnado, falou segundo a cultura própria de cada época.
De
facto, a fé é um acto de liberdade que se exerce , não em sentido absoluto, mas
sempre dentro de condicionalismos e dinamismos a que chamamos cultura. Por isso
esse acto de liberdade é sempre um acto situado culturalmente. A este movimento
de relação entre fé e cultura chama-se genericamente inculturação da fé.
Sendo o
tema da inculturação um tema complexo parece no entanto legítimo dizer que a
cultura não existe sem a presença da fé. Por isso, a inculturação da fé também
pode ser considerada evangelização da cultura.
Este
processo de inculturação é constituído por dois movimentos aparentemente
antagónicos: um de crítica da cultura e o outro de acolhimento da cultura. O
primeiro implica um certo grau de ruptura e designa-se por atitude profética. O
segundo implica uma relação positiva com os elementos culturais e designa-se por
atitude sacerdotal. Estas duas atitudes convivem uma com a outra, sendo
necessárias para que exista um equilíbrio entre a inculturação do cristianismo
e a cristianização das culturas. No entanto há momentos na história em que se
regista uma predominância de uma visão sobre a outra.
Quando
predomina a atitude sacerdotal de acolhimento da cultura envolvente, corre-se o
risco de conduzir os crentes a falsas identificações entre Reino de Deus e
realizações humanas de toda a ordem.
Quando
predomina a atitude profética, a Igreja transforma-se numa seita de escolhidos
e separados do mundo que pretendem salvar-se no meio de uma humanidade que se
afunda.
A
cultura contemporânea caracteriza-se pela expansão da chamada cultura global.
Este processo, cheio de ambiguidades, é, para o teólogo francês Alain Touraine,
um mecanismo de consumo e mediático, que separa a dimensão instrumental da
dimensão simbólica, na existência de cada ser humano. Esta separação acontece
porque o processo de globalização apenas se orienta para a dimensão
instrumental, que leva a um igualitarismo sem precedentes.
A
inculturação da fé não se orienta apenas para os elementos que marcam
instrumentalmente os sujeitos, mas sobretudo para os seus códigos simbólicos.
Ora a globalização ao tentar uniformizar esses códigos, apenas o consegue fazer
superficialmente, deixando espaço aberto para uma conflitualidade entre as
diversas identidades culturais. Um dos maiores desafios da globalização é,
assim, o diálogo entre as várias culturas sem que isso implique a perda da sua
identidade e sem que se fechem sobre si mesmas.
Mas,
uma outra questão mais que se coloca á fé cristã é o indiferentismo. A incarnação da fé numa cultura indiferente é
praticamente impossível, uma vez que as pessoas já não se interrogam sobre as
questões importantes da vida: as questões sobre o sentido. Ao sentirem-se
plenamente satisfeitas com a qualidade da sua vida não sentem necessidade de
refletir sobre as questões de fundo da existência.
O outro
desafio que se coloca é o da afirmação
intensa da individualidade. A este opõe-se outro a que Claude Geffré dá o
nome de mentalidade plural, e que se
traduz numa ideologia do pluralismo, que sob
pretexto de respeitar a autenticidade de
cada um, todas as opiniões são válidas e surge a tentação de relativizar toda a
norma e toda a hierarquia de valores.
Sendo
certo que cada contexto cultural levanta desafios diferentes, de que resultam
formas diferentes de inculturação da fé,
o elemento mais importante é a manutenção ou a construção de uma atitude
de respeito pela liberdade pessoal e pela sua capacidade de reconhecer criticamente o sentido. Esta atitude é
condição fundamental para uma verdadeira salvação assumindo assim o cristão a
missão de se solidarizar com toda a humanidade, em especial com os mais
desprezados e esquecidos.
Portela, 26 de Maio de 2013
Francisco Vaz
A concepção da fé cristã:
Do Concílio Vaticano I ao Concílio Vaticano II
Por um lado a fé cristã implica um conteúdo. Ao rezarmos o credo
dizemos que acreditamos em Deus pai, no Filho, no Espirito, na Igreja. Mas,
por outro lado, a fé cristã tem uma dimensão de acto. É uma actividade, é um
itinerário, é um caminho que se faz na procura do Perfeito.
A propósito desta dupla dimensão da fé cristã como conteúdo e como
acto, nota-se uma evolução na conceção da fé ao passar do Concilio Vaticano I
para o Concilio Vaticano II. De facto, no Concilio Vaticano I, a revelação de
Deus é entendida como um conjunto de verdades. Deus manifestava e dava a
conhecer um conjunto de verdades, logo, a fé, era o assentimento intelectual a
esse conjunto de verdades.
O Concílio Vaticano II entende a revelação de uma forma diferente. Para
o Concilio Vaticano II, sem que a revelação deixe de ser um conjunto de
verdades, ela é, em primeiro lugar, uma pessoa: Jesus Cristo. Assim, a fé já
não pode ser simplesmente um assentimento intelectual a um conjunto de
verdades, sendo, antes de mais, um sim de pessoa inteira e de existência
inteira à figura de Jesus Cristo, que é a realidade através da qual, Deus se dá a
conhecer. Ora neste sim que se dá de pessoa inteira e existência inteira, a
Jesus Cristo, está contida a dimensão do acto e a dimensão do conteúdo.
Ao dar um sim e um acto à pessoa de Jesus, estou a dar o sim a tudo o
que ele implica, aquilo que ele é, aquilo que ele significa, as suas palavras, os
seus actos, todas as suas exigências. É de realçar, no entanto, que fazemos a
distinção entre a dimensão do conteúdo e a dimensão do acto na fé, apenas
por comodidade didáctica. Na prática a nossa fé é uma realidade una, onde
existe uma interpenetração perfeita entre acto e conteúdo. Não se podem
separar, estas duas dimensões no nosso coração. A fé como acto e a fé como
conteúdo estão intimamente unidas, neste dizer eu creio em Ti, quando estou
diante de Jesus, através do qual Deus se me revela.
Portela, 25 de Fevereiro de 2013
Francisco Vaz
O caminho cristão
à luz da revelação de Deus e a resposta da fé
A fé cristã, tendo por núcleo central o mistério da paixão, morte e
ressurreição de Cristo, apresenta uma estrutura dialógica, que assenta em
três pilares : a revelação de Deus; a resposta da fé; e caminho cristão, como
articulação entre os dois anteriores.
Sendo um acto da iniciativa de Deus, a revelação tem que ser
traduzida em linguagem humana, devendo, no entanto, ser compreendida de
acordo com a lógica própria de Deus. Não sendo o ser humano a verdadeira
medida de Deus, não deve querer julgá-Lo com os seus critérios e as suas
expectativas. Por outro lado, as condições concretas do ser humano para
poder acolher a revelação também devem ser tidas em consideração, pois é
a ele que a revelação divina se dirige. Só há revelação quando assente na
natureza e autoconsciência do ser humano.
Nesta estrutura dialógica da fé, perante a revelação de Deus, o ser
humano acolhe esta dádiva totalmente gratuita. Então, essa é a resposta da
fé. Nesta relação entre revelação e fé não se pode separar o acto da
revelação de Deus do acto da fé humana. Esta relação íntima entre revelação
divina e fé humana pode ser comparada às duas faces de uma única moeda.
Deus manifesta-se e o ser humano responde. Se a revelação de Deus pode
ser surpreendente e imprevisível, ferindo muitas vezes a nossa sensibilidade,
então, a resposta da fé tem que ser também uma resposta que se adeque a
este e caráter surpreendente e excessivo da revelação. Por isso, a fé cristã é
uma resposta exigente e excessiva.
A dinâmica da relação entre Deus que se revela e o Homem que
acolhe tem que ter consequências para a condução da existência cristã. De
acordo com H. U. von Balthasar são três os conceitos para traduzir a atitude
do homem perante Deus: resposta, disposição e obediência. É esta a
dinâmica fundamental que deve presidir à lógica cristã, por forma a reagir à
iniciativa de Deus. Em cada momento, o ser humano deve escutar e acatar a
palavra que Deus tomou a iniciativa de pronunciar.
Portela, 25 de Fevereiro de 2013
Francisco Vaz
Cerimónia de entrega de
diplomas do curso
“A fé da Igreja”
Quando o Concílio Vaticano
II pôs em marcha a tarefa de expressar com novas luzes e nova linguagem o
mistério da Igreja contava com um rico e profundo património teológico
recentemente desenvolvido. Com efeito, no final do século XIX surgiram algumas
correntes de renovação teológica que foram enformando e oferecendo novas luzes
à inteligência da fé durante a primeira metade do século XX. Refiro-me
concretamente às perspectivas abertas pelo movimento litúrgico, pela exegese
bíblica, pelo regresso aos Padres da Igreja e pela progressiva
consciencialização da responsabilidade apostólica dos leigos.
Com efeito, as
constituições apostólicas Gaudium et Spes
e Lumen Gentium, e refiro-me apenas
aos textos de primeira grandeza do Concílio, expressam o mistério da eternidade
divina na temporalidade do mundo e da missão dos cristãos na sociedade não só
de uma forma esclarecedora, mas também numa perspectiva desconhecida até então.
Nunca se tinha convocado um concílio para procurar que a Igreja acertasse o
passo com o Mundo. O famoso agiornamento
nas palavras do Papa João XXIII.
Atrevo-me por isso a
afirmar que o Concílio do século XX foi uma autêntica revolução na história da
Igreja. Um agitar de águas que veio dar à Igreja um novo fôlego, uma nova
maneira de estar e de dialogar com um Mundo que se transformava a passos
largos.
Através da Carta
Pastoral Porta da Fé de 11 de Outubro de 2011, o Papa Bento XVI decidiu
proclamar um Ano da Fé, que viria a ter início a 11 de Outubro de 2012,
no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e que terminará na
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, no próximo dia 24 de
Novembro.
Bento XVI justificava assim
esta decisão no número 5 da Porta da Fé:
“Pareceu-me que fazer
coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do
Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os
textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato
João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É
necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados
como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da
Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a
grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma
bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa». Quero aqui repetir com veemência as palavras que
disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para
Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa
hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força
para a renovação sempre necessária da Igreja.”
É em resposta a este
desafio, que a Direcção da Faculdade de Teologia, associando-se a esta
celebração, decidiu criar e organizar um Curso sobre a Fé da Igreja, em regime de e-Learning, facultando
assim aos cristãos a possibilidade de aprofundar os conteúdos da sua Fé eclesial
e, ao mesmo tempo, habilitar todos aqueles que exercem um serviço pastoral com
novos e mais sólidos conteúdos para a transmissão e o testemunho da sua
identidade crente.
Referindo-me
agora especificamente ao Curso gostaria de partilhar algumas notas muito
pessoais segundo três perspectivas: as expectativas, o percurso e o balanço
final.
Quanto
à primeira devo dizer que a decisão de frequentar o curso se baseou em três
factos concretos: em primeiro lugar os objectivos do curso. Eram eles:
- Apresentar
um percurso que ajudasse a compreender de maneira mais profunda os fundamentos
da fé cristã;
-
Proporcionar um itinerário de reflexão e estudo sobre temáticas relativas à
vivência e profissão de fé; e
- Contribuir
para uma redescoberta da fé como “arte de viver” em Igreja ao serviço do mundo.
O
segundo facto: A autoria dos conteúdos era da responsabilidade de um conjunto
de docentes cuja competência e excelência é sobejamente conhecida e reconhecida
no meio académico.
O
terceiro facto: A possibilidade de realizar o curso na modalidade online. A qualidade a que já nos habituou a Faculdade
de Teologia em cursos anteriores realizados nos mesmos moldes, era por si só a
garantia de que este curso teria a qualidade dos anteriores. Diria que a
fasquia estava colocada bem alto quanto ao desenrolar do curso.
Quanto
ao percurso direi o seguinte:
O
curso foi organizado em seis módulos, e cada módulo com conteúdos da
responsabilidade de um docente. Este módulos decorreram, com um tema e um texto
publicado em cada semana, conforme passo a descrever sucintamente:
No
módulo um o Doutor José Frazão falou-nos da fé como lugar vital, num tempo de
incertezas onde persiste a fractura moderna entre a razão e a fé e onde a
qualidade crente do ser humano é de primordial importância.
No
módulo dois, da responsabilidade do Prof. Doutor João Lourenço vimos como a
linguagem bíblica, os profetas, Cristo como fundamento da fé no Novo
Testamento, a fé em Paulo e João são fundamentais para nos ajudarem a entender
o itinerário bíblico da fé.
Com
o Prof. Doutor Domingos Terra, no módulo três, abordámos a estrutura dialógica
da fé cristã, de como esta deve ser um conhecimento
e atitude de vida, experiência de salvação, dom e resposta da liberdade.
No
módulo quatro, o Prof. Doutor Borges de Pinho
ajudou-nos a entender a dimensão eclesial da fé: O crente e a fé vivida
em Igreja, o cristão e a fé professada pela Igreja e a fé do crente como
participação na fé da Igreja.
Com
o Prof. Doutor João Duque, no módulo cinco, abordámos a historicidade do
caminhar da fé na sua dimensão histórica e da sua verdade e pluralidade de
expressões e interpretações.
No
sexto e último módulo a Doutora Teresa Messias proporcionou-nos uma visão da fé
como experiência existencial e a sua relação com a maturidade humana, com
particular relevância para a sua dimensão comunitária e social, e de encontro
pessoal e de conversão de vida.
A terceira e última nota
vai para um balanço ainda que necessariamente provisório e sucinto. Neste
particular irei realçar três aspectos: Os conteúdos, a plataforma e as sessões
presenciais.
Primeiramente os conteúdos.
Os textos foram de uma grande profundidade sem no entanto apresentarem uma
linguagem demasiado elaborada ou demasiado técnica, o que permitiu a sua
assimilação e compreensão sem grandes dificuldades. A sua disponibilização
periódica e regular durante as 24 semanas que durou o curso, apenas com as
interrupções previstas para férias escolares, constituiu uma rotina que se foi
instalando. Ler e reler estes textos tornou-se numa quase oração semanal que,
completada com os trabalhos pedidos pelos professores permitiu aprofundar os
diversos temas tratados.
O segundo está implícito no
primeiro, como veículo de suporte. A possibilidade de, utilizando as
facilidades proporcionadas pelas modernas tecnologias de informação, as lições
estarem sempre ou quase sempre disponíveis em qualquer situação do dia a dia,
facilitou a leitura, o estudo e a reflexão.
Por último, as sessões
presenciais. A possibilidade de estar cara a cara com os docentes e colegas,
nas sessões presenciais em Fátima, foi uma mais valia que deve ser tida em
consideração em cursos realizados nestes moldes. Estas sessões revestiram-se de
especial interesse não só pela possibilidade de esclarecer dúvidas pessoalmente
mas também pelo agradável e são convívio entre os professores e os estudantes
que participavam na sessão.
A concluir e numa perspectiva muito pessoal, considero
que nas contas do deve e do haver o saldo é francamente positivo. De facto, julgo
que o caminho que percorremos contribuiu
de forma significativa para, como era referido nos objectivos do curso,
compreender de forma mais profunda os fundamentos da fé, reflectir sobre
temáticas relativas à vivência e profissão de fé e redescobrir a fé como
"arte de viver" em Igreja ao serviço do mundo.
Por isso, não posso nem quero deixar de exprimir, a todos
quantos tornaram possível este itinerário e nele dedicadamente se empenharam, uma
palavra de reconhecimento e de gratidão.
Termino com um pequeno episódio relacionado com o
Concílio Vaticano II. Conta-nos o Cardeal Roger Etchegaray, então Secretário do
Episcopado, que nas vésperas do
Concílio, alguém entrou no gabinete do Papa João XXIII e lhe perguntou o que
esperava do Concílio. A sua resposta não poderia ter sido mais esclarecedora. O
Papa abriu a janela do gabinete e disse: o
que eu espero do Concílio, um pouco de ar puro, um pouco de ar fresco.
O curso A fé da
Igreja trouxe-nos precisamente um pouco deste ar puro e fresco, sempre
necessário para o amadurecimento e crescimento da fé no Deus em que
acreditamos, o Deus de Jesus Cristo.
Obrigado.
15 de Novembro de 2013
Francisco Vaz
O POÇO DE JACOB
Interpretação e comentário à
citação que o Papa faz de Jo 4,14 (alusão ao poço de Jacob), no nrº 3 da Carta
Apostólica “A Porta da Fé”.
Bento
XVI anunciou sua intenção de convocar o Ano da Fé em 16 de Outubro de 2011, na
homilia da missa celebrada com os participantes da Congregação Plenária do
Pontifício Conselho para a Nova Evangelização: “Será um momento de graça e de
compromisso para uma conversão a Deus cada vez mais completa, para fortalecer a
nossa fé nele e para O anunciar com alegria ao homem do nosso tempo” (Texto in www.vatican.va).
No número 3 da Carta Apostólica “A Porta da Fé”
que serviu de preparação ao sínodo dos bispos, para reflexão sobre este tema, o
Papa refere que “Também o homem contemporâneo
pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir
Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva” (cf. Jo
4, 14). O texto seguinte pretende refletir, ainda que de forma muito
abreviada, sobre esta alusão ao “poço de Jacob”, efectuada pelo Papa Bento XVI.
S. João apresenta-nos textos, que provêm de uma
comunidade, que são paradigmas de itinerários de aproximação a Jesus. Sabemos
que a tradição samaritana era muito diferente da tradição judaica. As relações
entre samaritanos e judeus ficou marcada para sempre pela tomada da Samaria por
João Hircano em 128 e a com a consequente destruição do templo de Garizin.
Por outro lado, o enquadramento dos textos
bíblicos pressupõem sempre dois pólos: o texto e o leitor. Assim, as estruturas
sociais, as tradições e as realidades históricas de cada cultura são
fundamentais para uma boa compreensão do texto.
Neste contexto, o poço é o lugar da descoberta
teológica, em que Jesus é o “novo poço” de onde se tira a água viva. De acordo
com Dt 18,18-19, os samaritanos só
esperam um profeta e não um messias. Jesus quis por isso passar pela Samaria,
indo ao encontro dos samaritanos, sendo que a samaritana representa o movimento
inverso, dos samaritanos a caminho de Jesus, que na interpretação de Agostinho,
representa a igreja que vem em busca de Cristo, para ser justificada.
A água viva, é, na tradição bíblica, o símbolo
do espírito. Jesus disse a Nicodemos: “tens de renascer pela água”. A água viva
corresponde, também em linguagem teológica, ao vinho novo, como no primeiro
sinal das Bodas de Caná em Jo 2, 6-9.
No início, a samaritana não sabe quem é Jesus e
o que é a água viva. É ao longo do dialogo, que a samaritana percebe que Jesus
é o dom pleno, a água viva, que a leva a crescer e a superar as todas suas
dúvidas e todas as suas objeções. Ao desafio de Jesus “mas quem beber da água
que Eu lhe der, nunca mais terá sede” a mulher responde, “Senhor dá-me dessa
água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la”. Este texto, é assim, não
só um texto teológico, como também, um texto pedagógico, cujo objetivo é fazer
uma aproximação à fé. Neste, como em outros textos do 4º Evangelho, há sempre
dois momentos ou tempos: O tempo do acreditar no anúncio (Kerigma) e o tempo do
testemunho da comunidade. Por outro lado, cada texto contem normalmente três
planos distintos: a alusão ao Antigo Testamento (o poço de Jacob), o testemunho
de Jesus (a água viva) e o da comunidade que acredita (a samaritana).
Enquanto Palavra definitiva de Deus, Cristo, é
o centro referencial para a atualização da Escritura. É Ele que enquanto
Palavra de Deus dá sentido e significado a tudo o mais (Hb 1, 1-3). É por isso que a Escritura, e concretamente esta parábola
do poço de Jacob, é o paradigma de um itinerário que nos orienta para a
descoberta da fé, individual e eclesial, em Cristo, como experiência de vida
pessoal e comunitária. A fé não é por isso um estado, mas um processo de
caminhada, em que a Escritura, como referencial da vida da Igreja, nos revela o
Cristo morto e ressuscitado.
Num mundo que não pergunta mais sobre a verdade
das coisas, mas sim sobre a sua utilidade, Bento XVI, com esta alusão, pretende
chamar atenção para a necessidade de atualização da Palavra de Deus inscrita no
coração do homem justificado e transformado à imagem de Cristo, como nos diz
Paulo em 2 Cor 3, 3.
Segundo o número 5 da Dei Verbum “A Deus que revela é devida a «obediência da fé» (Rom. 16,26; cfr. Rom. 1,5; 2 Cor. 10, 5-6);
pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus oferecendo «a Deus
revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade» e prestando voluntário
assentimento à Sua revelação.” A fé cristã, configura-se então, como
atitude pessoal e livre, de entrega amorosa e confiante a Deus, a partir da
aceitação da Revelação que é transmitida pela Palavra encarnada: Jesus Cristo.
Na
teologia de Bento XVI, a fé e a sua correlação à noção de Palavra de Deus, são
temas centrais e recorrentes. Ou seja, a confiança pessoal em Deus e aceitação
ao que Ele revela através do seu filho Jesus Cristo, são paradigmas marcantes
da fé cristã.
Por isso, citando S. João, na Porta
Fidei, o
Papa compara a Fé ao poço da Samaritana e a uma fonte, de onde brota a água
viva que satisfaz a sede de amor (Jo 4,14).
Portela,
24 de Dezembro de 2012
Francisco
Vaz
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