Pecado original

Pecado original

domingo, 2 de março de 2014

A fé da Igreja

A linguagem da fé e as suas tradições
 O carácter fundador em Génesis 12, 1-9


Contrariamente ao que é vulgar ouvir-se dizer, a fé não é um estado ou uma disposição para acreditar em algo, seja este algo de cariz religioso ou não. A fé pressupõe um caminho, um itinerário, que é necessário percorrer em busca da verdade. Caminho que temos que percorrer ao encontro e na busca permanente Daquele em quem depositamos confiança. É este o processo que nos é apresentado na Escritura, onde o homem bíblico é essencialmente o peregrino em busca desse Alguém que o liberte da sua mesquinha materialidade.
A fé é assim um processo, uma atitude de abertura ao transcendente, que se traduz na entrega e na fidelidade Àquele em quem se confia. Neste processo que é em si mesmo auto construtivo, a confiança gera confiança que por sua vez conduz à entrega, ao dom de si mesmo. Na Sagrada Escritura não encontramos conceitos abstractos para nos falar da fé. Encontramos experiências concretas de pessoas concretas vividas quer individual quer comunitariamente. Tendo por base as Escrituras, encontramos posteriormente outras formulações mais elaboradas, que são fruto de reflexões teológicas que procuram traduzir essa dimensão da fé no pensamento helénico, romano e latino. Estas formulações são normalmente do tipo racional e mais abstrato, como por exemplo todas aquelas que são elaboradas pela patrística nos primeiros séculos da era cristã.
Podemos dizer que Deus é a causa que nos leva a ter fé, ou seja, que nos leva a acreditar que Ele é digno de confiança. Neste itinerário tem lugar central a palavra, pois é esta que é a fonte da confiança depositada:
«E onde podemos nós encontrar outra Palavra que diga mais verdade, mais beleza e mais sabedoria que não seja na Bíblia? Mais que instrumento de comunicação, a Palavra é espaço de encontro em ato de busca da verdade. Todavia, a Bíblia diz-nos que a Palavra não é só expressão da verdade do dizer, mas é-o fundamentalmente enquanto expressão da verdade do ser, da verdade da identidade daquilo que é e como se é. É assim que a Bíblia é essencialmente Palavra, já que o seu dizer se converte em criação e do seu dizer nasce um povo e se identifica também ele mesmo como o povo da Palavra, da Escritura.»[1]

Outro elemento importante nesta caminhada é o contexto social e relacional da Escritura. Neste campo predomina uma linguagem de cariz religioso que se manifesta através dos e nos “oráculos de salvação”. Nestes textos são reafirmadas as promessas de Yahwé em relação ao futuro do seu povo. A sua estrutura é normalmente muito simples e assenta sempre na certeza de que Deus é fiel. Por outro lado, os textos realçam não só a fidelidade de Deus como fundamento do ato de crer mas também da própria ação daquele que acredita. Assim, para o homem bíblico, o seu agir em relação à sua comunidade tem que ser de molde a provar a sua fidelidade. 
Outro tipo de textos que colocam em realce a fidelidade de Deus, são os salmos. Os salmos fazem memória das “gestas e feitos” históricos que Yahwé opera em prol do seu povo, sendo esta fidelidade, geradora da fidelidade dos crentes.
Outra expressão da fé bíblica traduz-se pela aliança pela qual Deus oferece ao seu povo um tempo novo, onde a dimensão comunitária da fé atinge a plenitude. A aliança está sempre associada à palavra (dabar) que compromete. Ao longo da história da salvação a aliança foi sendo renovada, envolvendo quase todos os personagens da história bíblica. Neste itinerário a escritura apresenta vários exemplos e o testemunho de personagens que se tornaram modelos, pelo caminho que fizeram para a descoberta da verdade e adesão a Deus.
É neste contexto que a figura de Abraão se torna paradigmática e fundadora das três grandes religiões monoteístas (a fé num só e único Deus): judaísmo, cristianismo e islão.
Os momentos que marcam este processo de caminhada são 4:
·      O chamamento e resposta que implica rotura;
·      A escuta e obediência (aceitação);
·      A opção que é acolhimento;
·      A intercessão e confiança.
O chamamento que interpela e lança um desafio implica uma resposta, que sendo positiva, implica imediatamente uma rotura: deixa a tua terra, atua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que eu te indicar. Abraão aceita o desafio e põe-se a caminho sem impor condições, rompendo com o mundo politeísta em que habita. Esta adesão representa uma dupla rotura: a rotura com a família e a rotura com o património religioso do seu clã. Abraão é também o modelo de crente onde acontecem dois momentos: A chamada e o envio. É este o modelo do itinerário na afirmação da fé bíblica, que é sempre um caminho, um processo. Acolher este chamamento de Deus implica uma disponibilidade radical, que leva a tudo deixar porque a certeza de Deus se impõe. Por outro lado a fidelidade de Deus, gera no crente uma certeza ainda maior. É este movimento, a que chamamos ato de fé, que se apresenta como um processo, uma caminhada que se inicia no momento do chamamento – a escuta – e tem a sua continuidade da decisão – opção, que nos é apresentado em Gn 12, 1-9, e que podemos designar por paradigma abraâmico.

Portela, 25 de Novembro de 2012
Francisco Vaz




[1] Lourenço, João D., “O que sabe a bíblia sobre a palavra”, Casa Fernando Pessoa, Colóquio: A Bíblia, coisa curiosa, 14 de Abril de 2011


A experiência da fé
na ‘metáfora conjugal’ de Oseias


Oseias iniciou o seu ministério profético no reino do Norte, nos últimos anos de Jeroboão II (meados do séc. VIII). Após a morte do rei em 743 e de um longo período de paz e de progresso, a Samaria entra em profunda convulsão, coincidindo com o período de ascensão do império assírio, que se torna numa ameaça cada vez mais presente ao reino do Norte.
O contexto social e político subjacente à mensagem do profeta Oseias permite-nos compreender a sua mensagem, cujos oráculos têm por temática central precisamente o anúncio do fim do reino do Norte, resultado da infidelidade do povo às tradições da Aliança.
Oseias utiliza a designada “metáfora matrimonial” para tentar simbolizar ou traduzir a relação entre Yahwé e o seu povo. A primeira parte do livro de Oseias fala-nos precisamente do imperativo que recebe de Yahwé para desposar uma prostituta, gerar filhos com ela e dar-lhes determinados nomes. Esses nomes traduzem as relações do povo com Deus e de Deus com o povo. Apesar de muito rico na sua simbologia, o texto não nos dá elementos suficientes para perceber se se trata apenas de simbolismo ou, se pelo contrário, é a realidade que o profeta viveu e da qual se serviu para produzir precisamente a relação do povo com Deus. Ou seja, o profeta servindo-se da sua própria experiência, vê que ela é o reflexo daquela experiência mais ampla em que o povo vive na sua relação com Deus. Estas duas perspetivas, que são, porventura, admitidas em graus diferentes, são facilmente admitidas pelos estudiosos do profeta Oseias.
Neste sentido, a sua mensagem é clara: Yahwé ama o seu povo, apesar da permanente infidelidade deste. Por isso, o grande tema dos seus oráculos tem a ver com o pecado do povo, a idolatria, que ele compara à prostituição, e que se manifesta essencialmente em duas vertentes:
·      a idolatria política;
·      a idolatria religiosa ou cultual.
Estas duas idolatrias como que se interpenetram. A idolatria religiosa tem o seu reflexo no uso das coisas, nas alianças e contatos com os povos estrangeiros. O reino da Samaria caminhava para o fim e por isso o clima de relacionamento com outros povos expõe o país a uma idolatria cultual, que leva o povo a correr atrás dos deuses dos outros povos.
A idolatria política, constituía um verdadeiro atentado aos princípios da aliança, pois era uma ameaça constante à independência da pátria. As tentativas de aliança com o Egipto ou com a Assíria, que podem proporcionar segurança humana, põem em causa a independência do país e preterem a salvação como dom de Deus.
Na profecia de Oseias está presente uma auréola de esperança aberta ao futuro. Esperança na aproximação de Israel a Yahwé, em que uma nova aliança, que substituirá a aliança do monte Sinai, irá restaurar a paz paradisíaca perdida.
Para isso Oseias assenta a sua mensagem profética numa tríade voltada para o coração e aberta ao próximo:
·      Fidelidade (èmet);
·      Bondade (amor, afeto, hesed);
·      Conhecimento de Deus (da´at èlohim).
A fidelidade tem que ver com solidez, consistência e confiança, que permite que uma pessoa acredite noutra, lhe dê crédito. É deste conceito de fidelidade que deriva a nossa palavra “amém”.
            A bondade ou afeto (hesed), tema muito caro a Oseias, designa a disponibilidade humana para se entregar gratuitamente a Deus e aos outros. Podemos dizer que ela designa a entrega do coração a Deus, porque Deus entregou o seu coração àquele que nele confia.
Quanto ao Conhecimento de Deus, existem duas interpretações divergentes. A primeira que tem a ver com um sentido subjetivo ou pietista. A segunda, faz uma equivalência entre conhecimento de Deus e conhecimento dos preceitos da Torah. A intuição profética parece, no entanto, situar-se num horizonte mais vasto. Conhecer Deus pressupõe, para Oseias, uma adequada e correta conduta humana entre semelhantes. Conduta fundada sempre na intimidade com Deus, num contexto de aliança. Para Oseias, quando falta o conhecimento de Deus, falta igualmente o conhecimento do homem.

Portela, 01 de Dezembro de 2012
Francisco Vaz

Consequências da incarnação
histórica dos crentes para a formulação
do conteúdo da fé cristã

A característica fundamental da condição humana é, sem dúvida alguma, a sua historicidade. O ser humano é um ser potencialmente de escolhas infinitas mas sempre limitado a um tempo e um lugar situados no processo histórico.
Mas a fé cristã não pode ser só e apenas uma atitude de acolher e reconhecer a verdade fundamental que nos constitui como humanos. Porque não é da ordem da evidência nem pode ser demonstrada através de um processo científico, tem que corresponder a conteúdos concretos do acreditar. Como tal, a verdade da fé cristã, é também a verdade daquilo que se afirma crer.
Por isso, a linguagem da fé partilha a linguagem da historicidade humana, ou seja, as vicissitudes da história e das circunstâncias das suas formulações. A fé cristã implica um conteúdo. Ao rezarmos o credo dizemos que acreditamos em Deus pai, no Filho, no Espírito, na Igreja. Mas, por outro lado, a fé cristã tem uma dimensão de acto. É uma actividade, um itinerário, um caminho que se faz na procura do Perfeito.
A linguagem da fé́ partilha a historicidade as vicissitudes da história e das circunstâncias da sua formulação.  A história de Israel, que é um dos momentos históricos importantes, bem como depois a história de Jesus, são paradigmas para a formulação da fé cristã.
Nos primeiros séculos do cristianismo foi necessário precisar ainda mais a formulação do conteúdo da fé́, nos seus elementos fundamentais, como correcta interpretação do significado da história de Israel e da história de Jesus.
Foi através dos concílios e dos sínodos, e das reflexões dos padres da Igreja que surgiram as formulações que, juntamente com a Escritura, passaram a constituir marcos paradigmáticas da fé crista. O símbolo dos Apóstolos e o símbolo Niceno-Constantinopolitano, (que recolhe formulações dos Concílios de Niceia e de Constantinopla I e II) são exemplo dessa formulação paradigmática, à qual terá́ que se referir toda a interpretação da verdade da fé́ cristã.
Estas formulações constituem os dogmas, que não são mais do que a afirmação da autoridade da Igreja, ou seja, uma afirmação que é acompanhada da pretensão de ser verdadeira, como nos diz Karl Rahner.
Nas palavras de P. Gisel,  o dogma existe porque existe uma efectividade originária, uma história cheia de diferenças a pensar, articular e arbitrar e uma regulação complexa e de tipo essencialmente institucional.
Assim, são necessárias interpretações que sendo individuais tem que se enquadrar e realizar na e pela comunidade eclesial, num processo que implica a referência ás origens. No processo de interpretação é sempre fundamental  olhar para o passado, sem o qual a identidade presente não é possível.
Apesar das necessárias permutas comunitárias das perspectivas, é necessário um trabalho crítico que mantenha a vigilância para que não haja desvios significativos nesse processo de interpretação. Daqui resulta o papel fundamental do magistério.
É nesta correcta articulação entre a tradição e a actividade crítica em relação aos conteúdos da fé, que é possível encontrar os dinamismos impulsionadores da história para o futuro.

Portela, 26 de Maio de 2013
Francisco Vaz


Que caminhos poderá seguir, na cultura actual,
a reflexão crítica sobre a fé?

Como diz J. B. Metz, o cristão vive dentro da sua situação presente, sempre fiel ao acontecimento e à mensagem que é Jesus Cristo. Diz ainda o nr 58 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes: Múltiplos laços existem entre a mensagem da salvação e a cultura humana. Deus, com efeito, revelando-se ao seu povo até à plena manifestação de Si mesmo no Filho encarnado, falou segundo a cultura própria de cada época.
De facto, a fé é um acto de liberdade que se exerce , não em sentido absoluto, mas sempre dentro de condicionalismos e dinamismos a que chamamos cultura. Por isso esse acto de liberdade é sempre um acto situado culturalmente. A este movimento de relação entre fé e cultura chama-se genericamente inculturação da fé.
Sendo o tema da inculturação um tema complexo parece no entanto legítimo dizer que a cultura não existe sem a presença da fé. Por isso, a inculturação da fé também pode ser considerada evangelização da cultura.
Este processo de inculturação é constituído por dois movimentos aparentemente antagónicos: um de crítica da cultura e o outro de acolhimento da cultura. O primeiro implica um certo grau de ruptura e designa-se por atitude profética. O segundo implica uma relação positiva com os elementos culturais e designa-se por atitude sacerdotal. Estas duas atitudes convivem uma com a outra, sendo necessárias para que exista um equilíbrio entre a inculturação do cristianismo e a cristianização das culturas. No entanto há momentos na história em que se regista uma predominância de uma visão sobre a outra.
Quando predomina a atitude sacerdotal de acolhimento da cultura envolvente, corre-se o risco de conduzir os crentes a falsas identificações entre Reino de Deus e realizações humanas de toda a ordem.
Quando predomina a atitude profética, a Igreja transforma-se numa seita de escolhidos e separados do mundo que pretendem salvar-se no meio de uma humanidade que se afunda.
A cultura contemporânea caracteriza-se pela expansão da chamada cultura global. Este processo, cheio de ambiguidades, é, para o teólogo francês Alain Touraine, um mecanismo de consumo e mediático, que separa a dimensão instrumental da dimensão simbólica, na existência de cada ser humano. Esta separação acontece porque o processo de globalização apenas se orienta para a dimensão instrumental, que leva a um igualitarismo sem precedentes.
A inculturação da fé não se orienta apenas para os elementos que marcam instrumentalmente os sujeitos, mas sobretudo para os seus códigos simbólicos. Ora a globalização ao tentar uniformizar esses códigos, apenas o consegue fazer superficialmente, deixando espaço aberto para uma conflitualidade entre as diversas identidades culturais. Um dos maiores desafios da globalização é, assim, o diálogo entre as várias culturas sem que isso implique a perda da sua identidade e sem que se fechem sobre si mesmas.
Mas, uma outra questão mais que se coloca á fé cristã é o indiferentismo.  A incarnação da fé numa cultura indiferente é praticamente impossível, uma vez que as pessoas já não se interrogam sobre as questões importantes da vida: as questões sobre o sentido. Ao sentirem-se plenamente satisfeitas com a qualidade da sua vida não sentem necessidade de refletir sobre as questões de fundo da existência.
O outro desafio que se coloca é o da afirmação intensa da individualidade. A este opõe-se outro a que Claude Geffré dá o nome de mentalidade plural, e que se traduz numa ideologia do pluralismo, que sob pretexto de  respeitar a autenticidade de cada um, todas as opiniões são válidas e surge a tentação de relativizar toda a norma e toda a hierarquia de valores.
Sendo certo que cada contexto cultural levanta desafios diferentes, de que resultam formas diferentes de inculturação da fé,  o elemento mais importante é a manutenção ou a construção de uma atitude de respeito pela liberdade pessoal e pela sua capacidade de reconhecer  criticamente o sentido. Esta atitude é condição fundamental para uma verdadeira salvação assumindo assim o cristão a missão de se solidarizar com toda a humanidade, em especial com os mais desprezados e esquecidos.


Portela, 26 de Maio de 2013
Francisco Vaz



A concepção da fé cristã:
Do Concílio Vaticano I ao Concílio Vaticano II


Por um lado a fé cristã implica um conteúdo. Ao rezarmos o credo dizemos que acreditamos em Deus pai, no Filho, no Espirito, na Igreja. Mas, por outro lado, a fé cristã tem uma dimensão de acto. É uma actividade, é um itinerário, é um caminho que se faz na procura do Perfeito.
A propósito desta dupla dimensão da fé cristã como conteúdo e como acto, nota-se uma evolução na conceção da fé ao passar do Concilio Vaticano I para o Concilio Vaticano II. De facto, no Concilio Vaticano I, a revelação de Deus é entendida como um conjunto de verdades. Deus manifestava e dava a conhecer um conjunto de verdades, logo, a fé, era o assentimento intelectual a esse conjunto de verdades.
O Concílio Vaticano II entende a revelação de uma forma diferente. Para o Concilio Vaticano II, sem que a revelação deixe de ser um conjunto de verdades, ela é, em primeiro lugar, uma pessoa: Jesus Cristo. Assim, a fé já não pode ser simplesmente um assentimento intelectual a um conjunto de verdades, sendo, antes de mais, um sim de pessoa inteira e de existência inteira à figura de Jesus Cristo, que é a realidade através da qual, Deus se dá a conhecer. Ora neste sim que se dá de pessoa inteira e existência inteira, a Jesus Cristo, está contida a dimensão do acto e a dimensão do conteúdo.
Ao dar um sim e um acto à pessoa de Jesus, estou a dar o sim a tudo o que ele implica, aquilo que ele é, aquilo que ele significa, as suas palavras, os seus actos, todas as suas exigências. É de realçar, no entanto, que fazemos a distinção entre a dimensão do conteúdo e a dimensão do acto na fé, apenas por comodidade didáctica. Na prática a nossa fé é uma realidade una, onde existe uma interpenetração perfeita entre acto e conteúdo. Não se podem separar, estas duas dimensões no nosso coração. A fé como acto e a fé como conteúdo estão intimamente unidas, neste dizer eu creio em Ti, quando estou diante de Jesus, através do qual Deus se me revela.

Portela, 25 de Fevereiro de 2013
Francisco Vaz 



O caminho cristão
à luz da revelação de Deus e a resposta da fé


A fé cristã, tendo por núcleo central o mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo, apresenta uma estrutura dialógica, que assenta em três pilares : a revelação de Deus; a resposta da fé; e caminho cristão, como articulação entre os dois anteriores.
Sendo um acto da iniciativa de Deus, a revelação tem que ser traduzida em linguagem humana, devendo, no entanto, ser compreendida de acordo com a lógica própria de Deus. Não sendo o ser humano a verdadeira medida de Deus, não deve querer julgá-Lo com os seus critérios e as suas expectativas. Por outro lado, as condições concretas do ser humano para poder acolher a revelação também devem ser tidas em consideração, pois é a ele que a revelação divina se dirige. Só há revelação quando assente na natureza e autoconsciência do ser humano.
Nesta estrutura dialógica da fé, perante a revelação de Deus, o ser humano acolhe esta dádiva totalmente gratuita. Então, essa é a resposta da fé. Nesta relação entre revelação e fé não se pode separar o acto da revelação de Deus do acto da fé humana. Esta relação íntima entre revelação divina e fé humana pode ser comparada às duas faces de uma única moeda. Deus manifesta-se e o ser humano responde. Se a revelação de Deus pode ser surpreendente e imprevisível, ferindo muitas vezes a nossa sensibilidade, então, a resposta da fé tem que ser também uma resposta que se adeque a este e caráter surpreendente e excessivo da revelação. Por isso, a fé cristã é uma resposta exigente e excessiva.
A dinâmica da relação entre Deus que se revela e o Homem que acolhe tem que ter consequências para a condução da existência cristã. De acordo com H. U. von Balthasar são três os conceitos para traduzir a atitude do homem perante Deus: resposta, disposição e obediência. É esta a dinâmica fundamental que deve presidir à lógica cristã, por forma a reagir à iniciativa de Deus. Em cada momento, o ser humano deve escutar e acatar a palavra que Deus tomou a iniciativa de pronunciar.

Portela, 25 de Fevereiro de 2013
Francisco Vaz 


Cerimónia de entrega de diplomas do curso
“A fé da Igreja”


Quando o Concílio Vaticano II pôs em marcha a tarefa de expressar com novas luzes e nova linguagem o mistério da Igreja contava com um rico e profundo património teológico recentemente desenvolvido. Com efeito, no final do século XIX surgiram algumas correntes de renovação teológica que foram enformando e oferecendo novas luzes à inteligência da fé durante a primeira metade do século XX. Refiro-me concretamente às perspectivas abertas pelo movimento litúrgico, pela exegese bíblica, pelo regresso aos Padres da Igreja e pela progressiva consciencialização da responsabilidade apostólica dos leigos.
Com efeito, as constituições apostólicas Gaudium et Spes e Lumen Gentium, e refiro-me apenas aos textos de primeira grandeza do Concílio, expressam o mistério da eternidade divina na temporalidade do mundo e da missão dos cristãos na sociedade não só de uma forma esclarecedora, mas também numa perspectiva desconhecida até então. Nunca se tinha convocado um concílio para procurar que a Igreja acertasse o passo com o Mundo. O famoso agiornamento nas palavras do Papa João XXIII.
Atrevo-me por isso a afirmar que o Concílio do século XX foi uma autêntica revolução na história da Igreja. Um agitar de águas que veio dar à Igreja um novo fôlego, uma nova maneira de estar e de dialogar com um Mundo que se transformava a passos largos.
Através da Carta Pastoral Porta da Fé de 11 de Outubro de 2011, o Papa Bento XVI decidiu proclamar um Ano da Fé, que viria a ter início a 11 de Outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e que terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, no próximo dia 24 de Novembro.
Bento XVI justificava assim esta decisão no número 5 da Porta da Fé:
“Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa». Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja.”
É em resposta a este desafio, que a Direcção da Faculdade de Teologia, associando-se a esta celebração, decidiu criar e organizar um Curso sobre a Fé da Igreja,  em regime de e-Learning, facultando assim aos cristãos a possibilidade de aprofundar os conteúdos da sua Fé eclesial e, ao mesmo tempo, habilitar todos aqueles que exercem um serviço pastoral com novos e mais sólidos conteúdos para a transmissão e o testemunho da sua identidade crente.
Referindo-me agora especificamente ao Curso gostaria de partilhar algumas notas muito pessoais segundo três perspectivas: as expectativas, o percurso e o balanço final.
Quanto à primeira devo dizer que a decisão de frequentar o curso se baseou em três factos concretos: em primeiro lugar os objectivos do curso. Eram eles:
  - Apresentar um percurso que ajudasse a compreender de maneira mais profunda os fundamentos da fé cristã;
 - Proporcionar um itinerário de reflexão e estudo sobre temáticas relativas à vivência e profissão de fé; e
 - Contribuir para uma redescoberta da fé como “arte de viver” em Igreja ao serviço do mundo.
O segundo facto: A autoria dos conteúdos era da responsabilidade de um conjunto de docentes cuja competência e excelência é sobejamente conhecida e reconhecida no meio académico.
O terceiro facto: A possibilidade de realizar o curso na modalidade online.  A qualidade a que já nos habituou a Faculdade de Teologia em cursos anteriores realizados nos mesmos moldes, era por si só a garantia de que este curso teria a qualidade dos anteriores. Diria que a fasquia estava colocada bem alto quanto ao desenrolar do curso.
Quanto ao percurso direi o seguinte:
O curso foi organizado em seis módulos, e cada módulo com conteúdos da responsabilidade de um docente. Este módulos decorreram, com um tema e um texto publicado em cada semana, conforme passo a descrever sucintamente:
No módulo um o Doutor José Frazão falou-nos da fé como lugar vital, num tempo de incertezas onde persiste a fractura moderna entre a razão e a fé e onde a qualidade crente do ser humano é de primordial importância.
No módulo dois, da responsabilidade do Prof. Doutor João Lourenço vimos como a linguagem bíblica, os profetas, Cristo como fundamento da fé no Novo Testamento, a fé em Paulo e João são fundamentais para nos ajudarem a entender o itinerário bíblico da fé.
Com o Prof. Doutor Domingos Terra, no módulo três, abordámos a estrutura dialógica da fé cristã,  de como esta deve ser um conhecimento e atitude de vida, experiência de salvação, dom e resposta da liberdade.
No módulo quatro, o Prof. Doutor Borges de Pinho  ajudou-nos a entender a dimensão eclesial da fé: O crente e a fé vivida em Igreja, o cristão e a fé professada pela Igreja e a fé do crente como participação na fé da Igreja.
Com o Prof. Doutor João Duque, no módulo cinco, abordámos a historicidade do caminhar da fé na sua dimensão histórica e da sua verdade e pluralidade de expressões e interpretações.
No sexto e último módulo a Doutora Teresa Messias proporcionou-nos uma visão da fé como experiência existencial e a sua relação com a maturidade humana, com particular relevância para a sua dimensão comunitária e social, e de encontro pessoal e de conversão de vida.
A terceira e última nota vai para um balanço ainda que necessariamente provisório e sucinto. Neste particular irei realçar três aspectos: Os conteúdos, a plataforma e as sessões presenciais.
Primeiramente os conteúdos. Os textos foram de uma grande profundidade sem no entanto apresentarem uma linguagem demasiado elaborada ou demasiado técnica, o que permitiu a sua assimilação e compreensão sem grandes dificuldades. A sua disponibilização periódica e regular durante as 24 semanas que durou o curso, apenas com as interrupções previstas para férias escolares, constituiu uma rotina que se foi instalando. Ler e reler estes textos tornou-se numa quase oração semanal que, completada com os trabalhos pedidos pelos professores permitiu aprofundar os diversos temas tratados.
O segundo está implícito no primeiro, como veículo de suporte. A possibilidade de, utilizando as facilidades proporcionadas pelas modernas tecnologias de informação, as lições estarem sempre ou quase sempre disponíveis em qualquer situação do dia a dia, facilitou a leitura, o estudo e a reflexão.
Por último, as sessões presenciais. A possibilidade de estar cara a cara com os docentes e colegas, nas sessões presenciais em Fátima, foi uma mais valia que deve ser tida em consideração em cursos realizados nestes moldes. Estas sessões revestiram-se de especial interesse não só pela possibilidade de esclarecer dúvidas pessoalmente mas também pelo agradável e são convívio entre os professores e os estudantes que participavam na sessão.
A concluir e numa perspectiva muito pessoal, considero que nas contas do deve e do haver o saldo é francamente positivo. De facto, julgo que  o caminho que percorremos contribuiu de forma significativa para, como era referido nos objectivos do curso, compreender de forma mais profunda os fundamentos da fé, reflectir sobre temáticas relativas à vivência e profissão de fé e redescobrir a fé como "arte de viver" em Igreja ao serviço do mundo.
Por isso, não posso nem quero deixar de exprimir, a todos quantos tornaram possível este itinerário e nele dedicadamente se empenharam, uma palavra de reconhecimento e de gratidão.
Termino com um pequeno episódio relacionado com o Concílio Vaticano II. Conta-nos o Cardeal Roger Etchegaray, então Secretário do Episcopado, que nas vésperas  do Concílio, alguém entrou no gabinete do Papa João XXIII e lhe perguntou o que esperava do Concílio. A sua resposta não poderia ter sido mais esclarecedora. O Papa abriu a janela do gabinete e disse: o que eu espero do Concílio, um pouco de ar puro, um pouco de ar fresco.
O curso A fé da Igreja trouxe-nos precisamente um pouco deste ar puro e fresco, sempre necessário para o amadurecimento e crescimento da fé no Deus em que acreditamos, o Deus de Jesus Cristo.
Obrigado.

15 de Novembro de 2013

Francisco Vaz

O POÇO DE JACOB
Interpretação e comentário à citação que o Papa faz de Jo 4,14 (alusão ao poço de Jacob), no nrº 3 da Carta Apostólica “A Porta da Fé”.

Bento XVI anunciou sua intenção de convocar o Ano da Fé em 16 de Outubro de 2011, na homilia da missa celebrada com os participantes da Congregação Plenária do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização: “Será um momento de graça e de compromisso para uma conversão a Deus cada vez mais completa, para fortalecer a nossa fé nele e para O anunciar com alegria ao homem do nosso tempo” (Texto in www.vatican.va).
No número 3 da Carta Apostólica “A Porta da Fé” que serviu de preparação ao sínodo dos bispos, para reflexão sobre este tema, o Papa refere que “Também o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva” (cf. Jo 4, 14). O texto seguinte pretende refletir, ainda que de forma muito abreviada, sobre esta alusão ao “poço de Jacob”, efectuada pelo Papa Bento XVI.
S. João apresenta-nos textos, que provêm de uma comunidade, que são paradigmas de itinerários de aproximação a Jesus. Sabemos que a tradição samaritana era muito diferente da tradição judaica. As relações entre samaritanos e judeus ficou marcada para sempre pela tomada da Samaria por João Hircano em 128 e a com a consequente destruição do templo de Garizin.
Por outro lado, o enquadramento dos textos bíblicos pressupõem sempre dois pólos: o texto e o leitor. Assim, as estruturas sociais, as tradições e as realidades históricas de cada cultura são fundamentais para uma boa compreensão do texto.
Neste contexto, o poço é o lugar da descoberta teológica, em que Jesus é o “novo poço” de onde se tira a água viva. De acordo com Dt 18,18-19, os samaritanos só esperam um profeta e não um messias. Jesus quis por isso passar pela Samaria, indo ao encontro dos samaritanos, sendo que a samaritana representa o movimento inverso, dos samaritanos a caminho de Jesus, que na interpretação de Agostinho, representa a igreja que vem em busca de Cristo, para ser justificada.
A água viva, é, na tradição bíblica, o símbolo do espírito. Jesus disse a Nicodemos: “tens de renascer pela água”. A água viva corresponde, também em linguagem teológica, ao vinho novo, como no primeiro sinal das Bodas de Caná em Jo 2, 6-9.
No início, a samaritana não sabe quem é Jesus e o que é a água viva. É ao longo do dialogo, que a samaritana percebe que Jesus é o dom pleno, a água viva, que a leva a crescer e a superar as todas suas dúvidas e todas as suas objeções. Ao desafio de Jesus “mas quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede” a mulher responde, “Senhor dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la”. Este texto, é assim, não só um texto teológico, como também, um texto pedagógico, cujo objetivo é fazer uma aproximação à fé. Neste, como em outros textos do 4º Evangelho, há sempre dois momentos ou tempos: O tempo do acreditar no anúncio (Kerigma) e o tempo do testemunho da comunidade. Por outro lado, cada texto contem normalmente três planos distintos: a alusão ao Antigo Testamento (o poço de Jacob), o testemunho de Jesus (a água viva) e o da comunidade que acredita (a samaritana).
Enquanto Palavra definitiva de Deus, Cristo, é o centro referencial para a atualização da Escritura. É Ele que enquanto Palavra de Deus dá sentido e significado a tudo o mais (Hb 1, 1-3). É por isso que a Escritura, e concretamente esta parábola do poço de Jacob, é o paradigma de um itinerário que nos orienta para a descoberta da fé, individual e eclesial, em Cristo, como experiência de vida pessoal e comunitária. A fé não é por isso um estado, mas um processo de caminhada, em que a Escritura, como referencial da vida da Igreja, nos revela o Cristo morto e ressuscitado. 
Num mundo que não pergunta mais sobre a verdade das coisas, mas sim sobre a sua utilidade, Bento XVI, com esta alusão, pretende chamar atenção para a necessidade de atualização da Palavra de Deus inscrita no coração do homem justificado e transformado à imagem de Cristo, como nos diz Paulo em 2 Cor 3, 3.  
Segundo o número 5 da Dei Verbum A Deus que revela é devida a «obediência da fé» (Rom. 16,26; cfr. Rom. 1,5; 2 Cor. 10, 5-6); pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus oferecendo «a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade» e prestando voluntário assentimento à Sua revelação.” A fé cristã, configura-se então, como atitude pessoal e livre, de entrega amorosa e confiante a Deus, a partir da aceitação da Revelação que é transmitida pela Palavra encarnada: Jesus Cristo.
Na teologia de Bento XVI, a fé e a sua correlação à noção de Palavra de Deus, são temas centrais e recorrentes. Ou seja, a confiança pessoal em Deus e aceitação ao que Ele revela através do seu filho Jesus Cristo, são paradigmas marcantes da fé cristã.
Por isso, citando S. João, na Porta Fidei, o Papa compara a Fé ao poço da Samaritana e a uma fonte, de onde brota a água viva que satisfaz a sede de amor (Jo 4,14).

Portela, 24 de Dezembro de 2012

Francisco Vaz

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