É mergulhados no som da «Paz» da Missa
de Bach que escrevemos estas breves palavras acerca da paz. Muito se tem
sobre a paz dito e escrito, imensos são os anseios de muitos seres humanos a
ela relativos, sabe-se que a vida em sua potencial positiva plenitude não é
possível, no horizonte infinito por que anseia, sem a paz; estranho é, pois,
que, depois de tanto dito e havendo tão grandes expectativas, a paz continue
sendo – e parece sê-lo cada vez mais –, nas suas diferentes formas, nada mais
do que um vão sonho, existindo apenas em algumas ilhas, isto é, no seio de
alguns seres humanos, mas definitivamente não existindo na e para a humanidade
como um todo.
Ora, como muito bem se pode perceber a partir das profundas reflexões de
pensadores, cujo pensamento por esta mesma razão transcende tempos e culturas e
se torna verdadeiramente universal, que se espraiam desde o autor de um Gilgamesh, a um Sun Tzu, a um Homero, a
um Sófocles, a um Platão, a um Aristóteles, a um Agostinho, a um Leibniz, a um
Kant, a um Ghandi ou a um João Paulo II, para mencionar apenas alguns dos mais
relevantes, não é possível uma vida verdadeiramente humana, para toda a
humanidade e não para apenas alguns privilegiados, sem paz, único garante de
uma tal plenitude universal de vida possível.
Apenas a paz permite a
possibilidade do pleno desenvolvimento de todas as potencialidades de bem
presentes em todo e cada um dos seres humanos. O acto de guerra[2]
impede imediata e irrevogavelmente a possibilidade de o ser humano, qualquer
ser humano e todo o ser humano sobre que se exerça, ser, na plenitude de sua
possibilidade ontológica, o bem, o bem todo que pode ser. Este bem é parte
integrante do património universal de bem possível para toda a humanidade (é o
que Kant percebe, em ambiente de pura racionalidade, quando produz o seu tão
mal compreendido «imperativo categórico», que só funciona quando aplicado a
actos de universal, mas universalmente particularizado, bem possível,
disfuncionando sempre que não está em causa um qualquer bem universal possível
ou possivelmente universalizável).
Quer isto dizer que, quando se atenta, por meio de um acto de guerra,
contra este bem possível, contra esta possibilidade de bem, não se atenta
apenas contra o bem possível de tal pessoa, mas contra o bem possível de toda a
humanidade. Cada acto de guerra implica, pois, a morte ontológica de possibilidade de bem, remetendo para o nada um bem possível e, no caso de o acto de
guerra – caso que é terrivelmente comum – se realizar em sua mesma plenitude,
isto é, aniquilar o seu objecto, é todo um mundo de possibilidade de bem que é
aniquilado antes de se poder exercer.
De nada serve dizer que se pode estar também a aniquilar a possibilidade
de mal ou de muitos males, pois, se bem que tal argumento seja logicamente
impecável, não o é ontologicamente, dado que não há comparação possível – aqui
também logicamente – entre ser e não ser, entre bem e ausência de bem. Um acto
de bem produzido é ontologicamente mais poderoso, apenas porque é, do que infinitos actos de mal, que só podem ser
parasitando actos de bem, sem os quais
não podem em absoluto existir. Assim, o argumento é inválido, pois a sua
universalização implicaria que, feito um primeiro acto de bem, e com ele,
aparecendo a possibilidade do mal (é a também mal compreendida situação do
casal inicial no mito hebraico-cristão da criação do ser humano), eliminado
aquele, para evitar este em absoluto, imediatamente se cairia no nada, de que
não pode haver retorno. Invocar, pois, o acto de guerra como meio de evitar um
qualquer mal sofre de uma suicida necedade teórica imediatamente invalidante;
deste modo, nada mais há a dizer sobre este assunto.
Ora, sendo tão óbvia a necessidade da paz, por que razão é a paz tão
escassa? Voltemos a Bach e à sua «Paz»: o que mais se estranha nesta
notabilíssima peça é haver, como pano de
fundo a um canto de irradiante e belíssima melodia e harmonia – uma
autêntica “harmonia das esferas” cantada por seres humanos, elevando
imediatamente o pensamento para alturas contemplativas, espiritualizando também
imediatamente isso que em nós intui, penetrando esta inteligência e
agudizando-a, fazendo com que literalmente pareça ouvir algo como «a voz de
Deus» – um incessante canto de angústia,
manifesto não apenas nas vozes graves, mas também nas agudas, sobretudo quando
sobem e entram em acorde com as graves, fazendo com que a tal suposta voz de
Deus ou voz dos seres humanos em divina exaltação surja como profundamente dorida e sofrida, como se
a própria «voz de Deus» se manifestasse angustiada.
Há neste trecho da «Missa» de Bach algo de uma intuição acerca do
mistério da finitude da vida na sua relação profunda com o infinito a que
aspira. Mas esta intuição não se resolve em cantos de alegria pura, cristalina,
de um puro cristal sem mácula como o das antigas augustas esferas das estrelas
fixas. Não, esta alegria, este canto – tão alegre que dá vontade de morrer, a
fim de que se possa prolongar sem fim – é
também um canto de dor e sofrimento, como se a pura alegria, melhor, a sua
possibilidade fosse algo de assustador, como se o ser humano finito, desejoso
de infinitude, receasse esta, única fonte possível para a alegria. Não se trata
do terror-pânico perante a possibilidade da aniquilação, que nesta obra não
aparece, nem do terror medroso e cobarde perante a possibilidade de um qualquer
castigo, mas da afirmação mais clara que conhecemos do sentido do absoluto da diferença entre a criatura finita e o criador
infinito.
De pouco interessa uma qualquer classificação de tal escrita musical como
mística, dado que os títulos, em seu curto e insuficiente nominalismo, de pouco
adiantam; interessa, sim, perceber algo de muito mais profundo do que uma
qualquer classificação a posteriori
de experiência, isto é, interessa perceber a própria experiência. E se a
experiência – esta também – é absolutamente pessoal e intransmissível enquanto
tal, este seu relato musical não deixa de provocar intuições a quem o ouve.
Nitidamente, o preço da paz é esta consciência profunda, tão profunda que
é indiscernível do ser do próprio ser humano,[3]
do absoluto de seu próprio ser na relação com a sua mesma fonte. Ora,
estranhamente, esta consciência parece ser dolorosa; de uma alegria
estusiasmada, sim, de um literal entusiasmo, sim: mas este mesmo ter Deus em si
é imediatamente a ciência da total
dependência do que se é da mesma fonte de que se tem o acto. No mesmo acto,
o ser humano atinge a consciência absoluta do seu acto e com ele entra em
absoluta unidade, mas descobre que tudo o
que é nada mais é do que o acto de Deus em si. Ninguém é suficientemente
humilde, de uma humildade ontológica oblativa tão grande que possa não sofrer
com tal descoberta. É esta a marca dolorosa da nossa finitude; é esta a raiz
profunda de toda a nossa dor: não somos
Deus, apenas um ser humano.
Ora, apenas na paz podemos atingir esta consciência. Mas esta consciência
é o acto mais doloroso que o ser humano pode enfrentar. Todos os ensejos de
conversão, parcial conversão, anteriores nada são quando comparados com esta
última e final e irrepetível oportunidade de conversão, com este momento único
e verdadeiramente último do tempo, em que sou convidado a prescindir de mim
para ser, já não eu, mas Deus em mim.
Ora, na minha comum e habitual verdade, eu sou eu, confundo-me com esta
imagem ontológica que de mim tenho, com esta unidade imaginária que vou sendo e
que até tem um nome... O que se me pede é
que prescinda de tudo o que penso que sou e que me transforme em algo que pode
já não ser bem eu. O meu desejo seria continuar a ser o que sou
indefinidamente, num tempo infinito
de contentamento psicológico e de auto-latria da minha ontológica, de ser
humano criado analepticamente à imagem de esta minha imagem. O que me pedem é
que dispa a minha imagem, a minha ilusão de meu poder em mim e sobre mim, e me
divinize em Deus. Mas eu, que sempre quis ser “Deus”, não quero, agora, ser
Deus, quero ser ainda eu. É este eu que
chora e grita é este eu de Bach e de todos nós que se canta em angustiada voz.
Mas é este eu que tem de morrer definitivamente, como um Job, para poder cantar
o tal canto de alegria celestial em que não há já angústia, porque já não há
imagem, ficção de eu.
Ora, a guerra é sempre o acto em
que aquele eu autolátrico se afirma como tirano do outro, matando a sua
possibilidade, retirando desta morte a realmente falsa, mas psicologicamente
verdadeira, satisfação de ser deus como anti-deus. Há uma grande verdade no
maniqueísmo: o seu carácter ontológico depende exactamente desta incapacidade
de o ser humano se tornar verdadeiro Deus, substituindo esta impossível
divindade por aquilo que, em termos do exercício de um poder não criador, lhe
está mais próximo (psicológica, mas também ergonomicamente): a capacidade de
destruição. Esta proximidade não diz respeito à possibilidade de destruir,
incomparável enquanto tal com a possibilidade de criar, mas à possibilidade de
interferência com a ontologia própria das coisas: criar e destruir comparam-se
apenas em ambas terem presa ontológica, situando-se imediatamente no plano
ontológico fundamental.
A angústia perante a morte, a aniquilação e, nos mais inteligentes dos
tiranos, perante a mesma possibilidade de se “perderem” em Deus, em nada
encontra melhor alívio do que na expansão de si mesma através da angústia
provocada pela guerra. A guerra é igualizadora exactamente porque é capaz de
pôr a um mesmo nível, independentemente de quaisquer circunstâncias – que ela
torna triviais e ontologicamente assignificativas – todos os seres humanos:
todos podem morrer, todos sem qualquer excepção. O horror, a dor, o sofrimento
a ninguém poupa. A alegria psicológica da matança, o entusiasmo anti-criador do
massacre são autênticos viáticos para a angústia dos tiranos.
Mas esta, como a de Bach, a do mal como a do bem,[4]
não cessa: há que continuar o massacre, beber o sangue das vítimas, continuando
a ilusão de que cada vítima que mato me acrescenta ser, como se bebesse a sua
vida e esta me preenchesse e calasse a voz da angústia em meu ser. Mas não,
esta voz não se cala e necessito de mais vida e de mais morte, até se consumar
a morte final de toda a vida e eu próprio ter de consumar a minha morte,
exangue que está a vida que parasito. Mas ainda a paz de uma morte por exaustão
da vida me trará consigo a voz da angústia de uma paz incompleta, porque de
ausência.
Acabámos de traçar o retrato alucinado de uma besta humana. Besta que
dorme no seio de cada um de nós, besta que eu sou potencialmente; não só tu,
não sobretudo tu, mas eu; talvez sobretudo eu. Mas esta besta não é uma simples
besta, não é um bicho: os bichos não sofrem de angústia, os bichos não fazem
guerra, os bichos desconhecem a possibilidade da paz. Os bichos não têm um Bach
para discorrer musicalmente acerca da alegria e da angústia, de seu misto, de
seu mútuo preço, da necessidade de sua transcensão para uma outra dimensão em
que já nem paz haja, em que haja apenas acto, apenas ser, apenas contemplação.
Estas questões são questões humanas. A questão da paz é uma questão
puramente humana: só o ser humano conhece a guerra e a paz. A «paz do Senhor»,
«shalom», «salam» é desconhecida dos seres humanos: estes apenas conhecem a paz
dos intervalos da guerra; esta paz é sempre uma angustiada expectativa não por
uma outra forma de paz, mas por uma nova guerra, inevitável, em que a paz se
anula, em que é necessário fazer guerra para reganhar a precária angustiada paz
intervalar.
Perguntamo-nos se não é esta a precisa imagem que temos da paz, que
podemos exclusivamente ter da paz, imagem que não permite esperar paz outra
alguma que não seja a precária paz de entre guerras... O entendimento da paz em
seu sentido absoluto, como plenitude
universal de bem, implicaria uma total ausência de angústia. Mas nenhum ser
humano apenas humano conheceu a paz. Os grandes defensores da paz que
conhecemos são todos profundamente angustiados:[5]
apesar de conhecerem ou de suspeitarem de seu tesouro ou, pelo menos, da sua
possibilidade, não possuem ainda a paz. O caso de Agostinho é paradigmático: a
felicidade só é alcançável (e sem paz não há felicidade) numa “posse” perfeita
de Deus. Como não viver angustiado quem percebeu que o amor universal de todos
por todos (cada acto de bem necessário para tal é, no absoluto bem que é,
encarnação de Deus) seria essa mesma paz, mas percebeu, ao mesmo tempo, que tal
não é de esperar “neste mundo”?
O ser humano é o ser capaz de fazer o bem pelo bem: não tem de fazer o
bem, pode fazê-lo, não está
determinado a produzir isto ou aquilo como todos os outros seres; pode
escolher. Ora, é nesta possibilidade de
escolha entre introduzir o máximo de bem objectivamente possível e não o fazer
que reside a fonte de todo o bem e de todo o mal humanamente referenciáveis.
É aqui, também, que radica a possibilidade da angústia, pois, por absurdo, um
ser humano que não pudesse escolher não teria como ser angustiado.
Deus e a besta não humana não conhecem a humana angústia. Mais do que o
sentido de um “pecado original”, radica aqui o sentido de uma imediata recompensa ontológica por meio do que se age: é aqui
que compreendo, melhor ou pior, que sou
os meus actos.
Esta condição faz com que, à inicial angústia da finitude, se junte a
progressiva angústia da falta de bondade do ser.[6]
Não se trata de um sentido de finitude de uma bondade que não é infinita, sem
mais. Trata-se do sentido de que sou uma bondade finita, mas que, para além
disso, sou uma maldade também finita, mas virtualmente infinita: o meu bem, o
meu ser é também o meu mal, sou também o mal que fiz. Para além do bem com que
nasci e do bem que fiz, sou o mal que fiz. A minha entidade ontológica, passe a
redundância, é também substantivamente negativa, pelo mal que fiz. E esta
substantividade negativa não é paradoxal: se o mal que «foi feito» por mim em
mim não está (quer dizer, os seus efeitos exteriores, poiéticos), o mal que fiz, isto é, o acto de ter feito o mal constitui-me. Entifiquei em mim a
ausência de ser. Pior do que não ser o bem que me falta, sou a presença do acto que causou a ausência de bem. Não será fácil
encontrar melhor definição demoníaca, pessoalíssima.
É este demónio, que me divide inexoravelmente em bem e mal (em mim
ontológicos, presença e ausência de bem, absolutamente), este satã que em mim
me acusa, que se arrisca confundir-se com o que sou. É isto que tenho como
património de vida e tesouro à hora da morte. Não admira, pois, que haja tanto
desejo profundo de aniquilação: com ela, acaba-se a angústia. Mas ser
eternizado com isto, ser eternizado como isto... Mesmo perdoado por Deus, mesmo
“em paz”, na paz de que podemos falar, sou isto.
E vale a pena, em absoluto, ser isto?
Podemos agora perceber melhor o canto da angústia: é o mal que sou que entoa o choro da evidência do que é: será que vou
cantar-me assim eternamente? Se sim, não há distinção possível – nos termos
do mito pedagógico cristão – entre céu, inferno ou purgatório: tudo será sofrimento,
acrescido pela promessa de uma visão tuti-penetrante – sei para a eternidade a besta que sou. Como não ficar angustiado?
Voltando à questão da guerra: se assim é, como não fazer a guerra? Como
não querer destruir tudo? Como acto de consumação do desejo da própria
aniquilação e do desejo de ver tudo aniquilado antes de mim ou comigo (se for
depois, perco a garantia da eficácia da destruição...), a guerra cumpre esta necessidade de exorcismo da ontológica angústia
que me habita. É fá-lo naturalmente: é perfeitamente natural que a guerra
destrua tudo, pois a angústia que me move já desqualificou todo o ser e todo o ser nada vale; para mim, apenas
vale a destruição como forma de anulação da angústia: sou eu que cumpro o
destino de reconduzir o ser que nada vale à sua nula verdade.
A guerra serve, não para afirmar
estados ou roubar bens ao vizinho do lado, etc., mas para reduzir
ontologicamente um ser que se intui como ontologicamente inválido, pois,
segundo esta intuição, nele nada há que tenha valor ontológico, tudo é falso,
tudo deve ser, assim, reconduzido à sua verdade de absoluta mentira.
A guerra é, pois, o desfecho necessário para a intuição de uma
actualidade não boa; na base de todas as guerras está o sentido (negativo) da ausência de sentido do ser: se o ser não é
bom, mais vale eliminá-lo.
É, pois, desde este ponto de vista,
a guerra o acto mais profundamente moral que existe; infelizmente, é-o pela
negativa.
Enquanto houver seres humanos que tenham este tipo de intuição
ontológica, haverá guerra. Mas como este tipo de intuição é estrutural como
possibilidade antropológica, isto é, como a possibilidade de intuir o ser como
mal é a contrapartida necessária para que se possa intuir o ser como bem,
haverá sempre seres humanos com esta possibilidade, pelo que será difícil que
não haja seres humanos com a sua efectivação, a par de seres humanos com a
efectivação de intuição do ser como bom. É nestes últimos que temos de
depositar a nossas infinitas esperanças numa paz, ainda que finita, única que
conhecemos.
O único remédio para o mal patente na «Paz» da «Missa» de Bach é
conhecido, trata-se da «conversão total da alma», de que Platão fala na Politeia (518c), conversão objectivamente indiscernível e
politicamente idissociável do mandamento nº 11 (o «Primeiro») dos cristãos, o
do amor universal, no sentido do bem universal dos seres humanos, de todo e
cada ser humano. Apenas uma humanidade
que inteligisse o bem realmente presente em tudo e agisse segundo essa mesma
intuição poderia encontrar a paz finita merecedora de uma real paz infinita,
esta sem angústia, paz tão estranha que nem Bach conseguiu escrever sobre
ela... Mas a alegria presente nas vozes agudas, mesmo em angustiado acorde,
parece mostrar que, se não a viu, pelo menos entreviu-a.
Ora, há pessoas que, ainda que nem sempre, ainda que apenas fugazmente,
conseguem esta santidade de visão, esta paz finita já em tensão para uma outra,
coincidente com o absoluto do bem que nas coisas percebem, pessoas que não
precisam de certificados de santidade. Fiquemos com as doloridas e angustiadas
palavras de uma mãe que perdeu seu amado filho na guerra do Vietnam, mas que
conseguiu a tal paz não isenta de angústia, mas já iluminada por um absoluto de
bondade que, de facto, sendo deste mundo, já não é só deste mundo:
«Dear Bill, Today is
February 13, 1984. I came to this black wall again to see and touch your name,
and as I do I wonder if anyone ever stops to realize that next to your name, on
this black wall, is your mother’s heart. A heart broken 15 years ago today,
when you lost your life in Vietnam. And as I look at your name, William R.
Stocks, I think of how many, many times I used to wonder how scared and
homesick you must have been in that strange country called Vietnam. And if and
how it might have changed you, for you were the most happy-go-lucky kid in the
world, hardly ever sad or unhappy. And until the day I die, I will see you as
you laughed at me, even when I was very mad at you, and the next thing I knew,
we were laughing together. But on this past New Year’s Day, I had my answer. I
talked by phone to a friend of yours from Michigan, who spent your last
Christmas and the last four months of your life with you. Jim told me how you
died, for he was there and saw the helicopter crash. […] He said how your jobs
were like sitting ducks. They would send you men out to draw the enemy into the
open and then they would send in the big guns and
planes to take over. Meantime, death came to so many of you. He told me how,
after a while over there, instead of a yellow streak, the men got a mean streak
down their backs. Each day the streak got bigger and the men became meaner.
Everyone but you, Bill. He said how you stayed the same
happy-go-lucky guy that you were when you arrived in Vietnam. How your warmth
and friendliness drew the guys to you. […] How when you died it made it so much
harder on them for you were their moral support. And he said how you of all
people should never have been the one to die. Oh, God, how it hurts to write
this. But I must face it and put it to rest. […] They tell me the letters I
write to you and leave here at this memorial are waking others up to the fact
that there is still much pain left, after all these years, from the Vietnam
War. But this I know. I would rather to have had you for 21 years, and all the
pain that goes with losing you, than never to have had you at all. Mom.»[7]
A carta desta Mãe a seu falecido filho é dos documentos mais lúcidos
acerca do bem em causa na guerra. Também o é acerca dos males que a mesma
guerra necessariamente implica. Mas é, sobretudo, uma espantosa lição acerca do sentido do absoluto do bem, sem mais: que
tenhas sido, eis um bem absoluto que nada diminui, que nada mata, nem a morte
nem a dor nem o sofrimento.
É a rara inteligência do sentido do absoluto do ser presente no acto
deste ente amado, tão absoluto quanto o amor que o põe, que põe a ambos, mãe
amante e filho amado. A grande lição fundadora da filosofia e do próprio
espírito: que o ser é.
Ora, é precisamente este sentido do absoluto bem, presente no que é, que
constitui, que pode constituir o único remédio possível para o mal da guerra:
não um sarar de feridas, que nunca saram, mas
a cura do mal da guerra por absoluta ausência desta. Este olhar divino do e
no ser humano sobre a realidade, olhar que ama a realidade e a percebe, então,
verdadeiramente como ser, este olhar divinamente humano sobre os «lírios do
campo», que, contemplado-os, os recria na sua mesma inteligente presença aceite
como tal, sem mais, santamente; este
olhar é o único que pode impedir a guerra. E está ao alcance do ser humano.
O que não está ao alcance do ser humano é a fuga à angústia da perda; e é
nossa condição que, tendo vindo ao ser como entes finitos, quando começamos,
percamos imediatamente todo o infinito que não somos, mas para o podermos
reencontrar, como trabalho nosso, tanto mais rico quantos mais «lírios do
campo» formos capazes de acolher em nosso ser.
As últimas palavras da carta desta Mãe são paradigma ontológico perfeito
da condição de santidade do ser humano: mesmo na dor e no sofrimento, mesmo na
agudíssima luz de um desencanto de todas as ilusões acerca do essencial, ser
capaz de amar, sem outra condição que não a do mesmo amor, por puro amor de
isso que se ama. Nem a ilusão do consolo subsiste, mas permanece o que sou como amor em acto, como desejo
e vontade, tão profundos que comigo se confundem, de bem, de um bem que
transcende vida e morte, espaço e tempo, e amarra dolorosamente o que sou no
absoluto de uma certeza, que já não é psicológica, de que o objecto deste amor reside nesse mesmo infinito para que tende.
Compreendemos, agora, melhor a angústia da «Paz» de Bach: este acto de amor é
já paz, paz a caminho, num caminho ainda de dor e angústia, porque a Paz para
que se encaminha ainda tarda. A um anseio infinito de Paz apenas uma Paz
infinita pode bastar. Mas, quando a Paz sobrevier, que alegria sem angústia
será aquela em que eu também já for «lírios do campo». Sem esta fundamental esperança, só nos resta a guerra. Ora, não
vivemos nós precisamente o tempo de pisar «os lírios do campo»?
Cacém, Natal de 2011
Américo Pereira
[1]
Dedicamos este textinho a todos os que, na guerra, morrem procurando a paz.
[2]
Ver nosso ensaio: «Acto de guerra: essência ética e manifestação política»,
publicado on-line, em www.lusosofia.net.
[3]
E, assim, esta já não é uma peça musical de Bach, mas o próprio Bach posto em
música. Há mais exemplos disto em Bach, em que já não estamos a ouvir algo de
poético produzido por Bach ou mesmo criado por Bach, estamos a ouvir a criação de Bach na forma de música,
quer dizer, estamos a ouvir o próprio trabalho da sua criação em acto nele, o
«som do labor de Deus talhando Bach».
[4]
Por mais paradoxal que pareça, a condição de toda a angústia é precisamente que
haja bem, pois, apenas por comparação com o absoluto deste pode haver uma
qualquer noção de perda absoluta ou de ausência de plenitude, plenitude que só
é possível porque há bem.
[5]
Mesmo o Cristo da Paixão, talvez sobretudo o Cristo da Paixão, encarna uma
angústia de tal modo profunda que como que assimila o acto próprio seu: na
cruz, não há, já, um Cristo angustiado, mas a encarnação da própria angústia,
não a angústia do desespero, mas a angústia da inteligência do absoluto da
finitude do ser humano; a encarnação no finito percebendo, no extremo da vida,
a precisa condição finita da carne, condição inultrapassável, remível, mas
inultrapassável. Ora, a cruz (todas
as multiformes cruzes) é o paradigma do
acto de guerra.
[6]
Há um impressionante poema de Fernando Pessoa, do seu dito heterónimo Álvaro de
Campos, que é esclarecedor relativamente à presença ou ausência desta
fundamental bondade; devido à sua grandeza, não queremos sequer resistir a
transcrevê-lo aqui, na versão editada pela Editora Ática em 1980: «Ali não
havia electricidade./Por isso foi à luz de uma vela mortiça/Que li, inserto na
cama,/O que estava à mão para ler—/A Bíblia, em português (coisa curiosa!),
feita para protestantes/E reli a «Primeira Epístola aos Coríntios»./Em torno de
mim, o sossego excessivo de noite de província/fazia um grande barulho ao
contrário,/Dava-me uma tendência do choro para a desolação./A «Primeira
Epístola aos Coríntios».../Relia-a à luz de uma vela sùbitamente
antiquíssima,/E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim.../Sou
nada.../Sou uma ficção.../Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste
mundo?/«Se eu não tivesse a caridade»./E a soberana luz manda, e do alto dos
séculos,/A grande mensagem com que a alma é livre.../«Se eu não tivesse a
caridade».../Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...».
[7]
Extractos de uma carta depositada pela Mãe de
William R. Stocks, Mrs. Eleanor Wimbish, junto ao Memorial aos Mortos
Americanos da Guerra do Vietnam, incluída na obra Dear America. Letters home from Vietnam, Edição de Bernard Edelman,
New York, Pocket Books, 1985, pp. 328-330: «Querido Bill, Hoje são 13 de
Fevereiro de 1984. Vim de novo a esta parede negra para ver e tocar o teu nome
e, ao fazê-lo, interrogo-me se alguém alguma vez se detém a fim de perceber que
junto a teu nome, sobre esta parede negra, está o coração de tua mãe. Um
coração destroçado faz hoje 15 anos, quando perdeste a tua vida no Vietnam. E,
ao olhar para o teu nome, William R. Stocks, penso em quantas, quantas vezes me
interroguei acerca de como deverias estar assustado e saudoso de casa nesse
estranho país chamado Vietnam. E se e como isso te terá podido mudar, pois tu
eras o miúdo mais feliz e despreocupado do mundo, quase nunca triste ou
infeliz. E, até ao dia em que morrer, ver-te-ei tal como quando te rias para
mim, mesmo quando estava muito zangada contigo, como, quando dava por mim, já
estávamos a rir os dois. Mas neste Dia de Ano Novo tive a minha resposta. Falei
ao telefone com um amigo teu, do Michigan, que passou contigo o teu último
Natal e os últimos quatro meses da tua vida. O Jim disse-me como morreste, pois
estava presente e assistiu à queda do helicóptero. [...] Contou-me como as
vossas missões consistiam em fazer de alvo. Enviavam-vos para atrair o inimigo
a campo aberto e depois mandavam as
armas pesadas e os aviões tomar conta dos acontecimentos. Entretanto, a morte
visitava tantos de vós. Disse-me como, após um tempo lá, em vez de ficarem
cobardes, os homens começavam a ficar maus. Cada dia, essa maldade crescia e os
homens ficavam mais maus. Todos, menos tu,
Bill. Disse-me como tu permaneceste o mesmo rapaz feliz e despreocupado que
eras quando chegaste ao Vietnam. Como o teu calor humano e o teu carácter
amigável atraíam a ti os rapazes. [...] Como, quando tu morreste, as coisas
ficaram muito mais difíceis para eles, pois tu eras o seu apoio moral. E disse
como tu, de entre todos, nunca deverias ter morrido. Oh, Deus, como dói
escrever isto. Mas necessito enfrentá-lo e, depois, dar-lhe descanso. [...]
Dizem-me que as cartas que te escrevo e deixo aqui neste memorial estão a
despertar outros para o facto de ainda haver muita dor, depois de todos estes
anos, por causa da Guerra do Vietnam. Mas isto eu sei. Prefiro ter-te tido por
21 anos, bem como a toda a dor que perder-te acarreta, a nunca te ter tido.
Mamã.».
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