Pecado original

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segunda-feira, 3 de março de 2014

Platão


Comentário ao "Livro VII" da Politeia

Este livro faz parte da grande obra de Platão a Politeia, ou Republica. Nesta obra, Platão procura evidenciar aquilo que é o absoluto do ser, ou seja, a pura positividade ontológica, sem a qual seria o nada. É a este absoluto bem de tudo o que é que Platão chama bem-comum, quando aplicado ao ser humano em comunidade. Para Platão o to aghaton não é algo de meramente contemplativo, mas antes algo puramente actual, isso que faz com que não haja o nada. Assim, nesta perspectiva, o papel do ser humano, é perceber o que é o bem e realizá-lo.
Esgotadas que foram as formas de inteligência para explicar estas intuições, Platão utiliza imagens para explicar o cerne daquilo que as coisas são realmente. Para isso, Platão recorre a formas alegóricas: a alegoria do sol e da linha, no “Livro VI” e a alegoria da caverna no “Livro VII”. Neste último, Platão fala da ontologia própria do mundo utilizando um tema que lhe é muito caro: a paideia. Paideia ou educação que leva a uma actualização crescente e progressiva do ser e portanto a uma realização ontológica sempre maior. A paideia que Platão refere diz respeito a uma atitude pedagógica continua no sentido da formação integral do ser humano. Não no sentido vulgar e hodierno, da educação para a cidadania, (que mais não faz do que produzir escravos), pois é contra a escravatura e a tirania que Platão dedica toda a sua existência. O que Platão quer explicitar, através desta alegoria é a duma paideia que procura formar seres humanos com certas virtudes, que lhe permitam não só satisfazer os seus interesses pessoais, mas também os de toda a cidade e permita a realização do bem-comum.
Neste livro, Platão mostra que o verdadeiro filósofo, tendo visto as coisas e o mundo iluminados pelo verdadeiro sol, tendo-se libertado da ilusão e conhecido a realidade tal como ela é, faz da sua sabedoria um elemento de libertação e volta à caverna, trazendo o conhecimento da realidade para os outros homens que ainda se encontram no fundo da caverna. Para Platão o principal papel do filósofo é elucidar, esclarecer o mundo.
Assim, na alegoria da caverna, Platão começa por nos dar a imagem de seres humanos que vivem acorrentados: <<algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente>>. Na caverna, só há escravos, homens acéfalos, sem inteligência verdadeiramente humana. A caverna, no entanto, não é fechada; existe uma abertura rasgada para o exterior, o que remete para uma intuição da não necessidade da tragédia como destino final da espécie humana. Possui uma fogueira permanente, por traz dos prisioneiros da caverna, que permite uma iluminação, ainda que ténue, da caverna. Entre os prisioneiros e a fogueira, existe um caminho ascendente onde homens transportam objectos. Para os prisioneiros, todo o mundo real se resume à caverna. O que eles veem são sombras, sombras essas que para eles são realidade. A única realidade que conhecem. No entanto, esta luz ténue é já uma indicação de que existe, ainda que de forma incipiente, uma paideia, paideia esta sempre inerente ao ser humano. Significa ainda o absoluto da possibilidade do absoluto da inteligência humana.
É a este absoluto de inteligência que se deve o esforço que um dos prisioneiros faz para se libertar dos grilhões e enfrentar um sofrido caminho de ascensão. Esta ascensão, que representa uma mudança do paradigma de inteligência, começa num nível ontológico inferior, progredindo para um nível ontológico superior, onde pode realizar-se, na contemplação da luz do sol. Trata-se aqui da ascensão a um nível mais alto de inteligibilidade e de inteligência e portanto de ontologia. Mas esta subida não é voluntária e isenta de sofrimento, pois num primeiro momento torna o escravo mais conhecedor de sombras num ignorante geral, alienando-o dos outros homens que vivem na caverna. Mas, passado um primeiro momento de deslumbramento com a luz do sol, começa, então, a ver com olhos ontológicos aquilo que as coisas são, no que são. Mais apercebe-se de que o sol não só é a fonte dos raios solares, como também é a causa de tudo o que os prisioneiros viam na caverna. É então que o ex-prisioneiro, agora sábio, percebe que o bem que adquiriu de forma gratuita não deve ser usado de forma egoísta no mundo que agora intelige, mas deve usar para partilhar com os restantes prisioneiros que ainda se encontram na caverna. Compete-lhe então descer à caverna e, sem usar a violência mas, utilizando a persuasão, procurar que os seres humanos ainda presos na caverna percebam a possibilidade de sair da caverna para um mundo de sentido ontológico.
Platão, com esta imagem, mostra-nos que todo o ser humano, simbolizado no prisioneiro da caverna, possui em si um mínimo de possibilidade de se elevar a horizontes ontológicos propriamente humanos, assim queira e seja ajudado. No entanto, esta escolha é sempre pessoal, podendo haver aqueles que preferem auto-excluir-se deste acesso à luz do sol. Para Platão, a dignidade humana funda-se na possibilidade da diferença ontológica própria, que permite a cada ser humano elevar-se espiritualmente, segundo o absoluto do seu acto pessoal próprio, no sentido do maior bem possível.

8 de Janeiro de 2012
Francisco Vaz

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